Mulheres que viajam solo

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 9, 2021 – Imo Experiência Turística – Paola Frizero e Karine Verdugo | Mulheres que viajam solo


O turismo se tornou uma das principais atividades que proporcionam canais de intercâmbio entre povos de diferentes culturas, estimulando o desenvolvimento de novas identidades e interesses, além de contribuir para o surgimento de novas relações, com o outro e consigo mesmo, assim como de novas demandas sociais, políticas, econômicas, culturais, ambientais etc. Na pós-modernidade, as necessidades e expectativas dos viajantes tornam-se cada vez mais diversas, complexas e dinâmicas, surgindo o desejo pela vivência da experiência em seu íntimo, trazendo assim o ser humano ao lugar de aprendiz, de receptor, estando aberto a absorver a cultura local, diferentemente do que chamamos de turismo de massa, onde o viajante se coloca no lugar de espectador e observador da superfície, sem se adentrar à cultura local. Este último teve seu grande fortalecimento a partir dos anos de 1990 no Brasil, quando as classes sociais mais altas tinham o acesso aos roteiros internacionais, enquanto as mais baixas praticavam o turismo nacional. Nos anos 2000, nota-se um aumento do número de pessoas viajando e tendo acesso a roteiros internacionais, por consequência da ascensão das classes sociais, que obtiveram um grande aumento em seu poder aquisitivo, principalmente com as facilidades de pagamento, que antes não existiam para o setor de turismo.

Dessa maneira, após o “boom” do turismo de massa com foco nas viagens coletivas e o surgimento e fortalecimento de grandes operadoras, inclusive brasileiras, focadas nesse nicho, observa-se um movimento paralelo e contrário a essa prática. É o fortalecimento das viagens independentes, nas quais os viajantes procuram a liberdade em seus roteiros, respeitando seus próprios horários, vontades e buscando lugares pouco visitados. Com esse movimento, suprindo a necessidade de liberdade e independência, nota-se o surgimento das agências de viagem on-line, ou seja, o próprio viajante escolhe, do conforto do seu lar, os serviços de hospedagem, transporte etc.

A partir do crescimento do turismo independente, nascem novas perspectivas para essa prática. Se antes ela acontecia como uma prática de consumo, exclusivamente econômica, agora já se entende o turismo como uma prática social que, como toda ação de coletividade e de intercâmbio cultural, traz consigo outras questões, como as de reconexão com a natureza (em viagens de ecoturismo), reencontro com suas raízes (como o turismo de retorno), práticas terapêuticas e de autoconhecimento e, para além de todas as segmentações possíveis, a quebra de paradigmas, como a prática das viagens solo crescente entre o público feminino.

Mesmo após diferentes movimentos feministas que surgiram após o final da década de 1960, no ponto central das discussões de gênero ainda está o fato de que a mulher continua sendo reprimida na sociedade pós-moderna, regida por sistemas patriarcais e estereotipados. De acordo com especialistas da área, as relações de gênero estão explícitas na maneira como homens e mulheres constroem suas experiências turísticas. As mulheres que viajam sozinhas descrevem suas jornadas como um processo de identidade, como uma forma de se colocar e se entender no mundo. Além disso, as escolhas dos serviços contratados também acontecem de maneira diferente, em que as mulheres tendem a se preocupar mais com o local de hospedagem, onde ir, onde comer etc. Isso justifica a importância de compreender de que forma o “ser mulher” no século XXI pode afetar as escolhas e preferências individuais na prática turística e, com isso, contribuir para a desconstrução de estereótipos e fortalecimento da igualdade de gênero.

A última década veio fortalecer ainda mais as viagens solo de mulheres, que, segundo o Ministério do Turismo em dados de 2020, são hoje aproximadamente 18%, enquanto que os homens que escolhem a modalidade solo estão em cerca de 11%. Porém, em escala mundial, esse índice ainda está muito baixo. Uma pesquisa realizada pela British Airways, a “(Don’t) Come Fly With Me”, mostrou que, no mundo todo, 50% das mulheres estão optando por viajar sem acompanhante.

Devido a esse aumento de mulheres que viajam sozinhas e à procura por uma estrutura segura, surgem agências de viagem, blogs e sites especializados no assunto, além de pesquisas governamentais e acadêmicas refletindo o fenômeno, as estatísticas e as diretrizes do processo de crescimento da prática. Com isso, os países e cidades voltam olhares cada vez mais atenciosos para a segurança da mulher. É o caso da Itália e de países vizinhos da Europa, por exemplo, que, por muitas vezes, aparecem em listas mundiais de países mais seguros para viajantes solo, devido à infraestrutura turística extremamente desenvolvida, à malha ferroviária e à estrutura de transporte no geral muito fortalecidas, especialmente nas capitais e principais cidades, e à preocupação cada vez maior com a segurança. Países que se preocupam cada vez mais com a infraestrutura no geral, além de ações que fortaleçam a igualdade de gênero, corroboram para que tenhamos sempre um aumento na lista de países seguros para mulheres que viajam sozinhas.


Fontes:

Ministério do Turismo https://www.gov.br/turismo/pt-br

Revista Turismo e Desenvolvimento – Universidade de Aveiro


Imo Experiência Turística
Paola Frizero e Karine Verdugo

Criada por duas mulheres, turismólogas, a Imo Experiência Turística é uma empresa com foco em roteiros personalizados desde 2020. Valorizamos a experiência de nossos clientes, por isso, fazemos de tudo para que o seu momento de viagem seja inesquecível.


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