Mulheres que fazem ciência: A cientista italiana Rita Levi-Montalcini (1909-2012)

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 9, 2021 – Ingrid Nunes Derossi | Mulheres que fazem ciência: A cientista italiana Rita Levi-Montalcini (1909-2012)


Vou começar com um teste rápido: pense na palavra CIENTISTA. O que veio à mente? Posso dizer que consigo ler seus pensamentos e o que pensou foi em algum cientista famoso, Einstein, por exemplo, com seus cabelos brancos e a língua de fora. Ou um homem de idade, de branco, fazendo algo que explode, acertei?

Não se trata de telepatia, mas sim de senso comum. A imagem de um cientista homem, branco, de cabelos desgrenhados, solitário e de meia idade, é muito comum na nossa sociedade devido à ausência de divulgação da atuação de mulheres na ciência. Se eu lhe pedir para citar uma mulher cientista, talvez você pense em nomes divulgados atualmente pela mídia, como Natalia Pasternak, Joana D’Arc Félix, Margareth Dalcomo, entre outras que receberam destaque por terem sido laureadas com o prêmio Nobel, como Marie Curie, Emmanuelle Charpentier, Jennifer Doudna…

Quando falamos de prêmio Nobel, podemos observar como o reconhecimento do trabalho das cientistas mulheres vem crescendo. Desde seu início, em 1901, foram 603 prêmios e, desses, apenas 57 mulheres foram contempladas dentro de uma das seis categorias existentes (física, química, literatura, paz, medicina e ciências econômicas). Só nos últimos 19 anos, no entanto, foram 28 mulheres. Esse aumento no número de ganhadoras pode ser justificado através de alguns fatores, como a maior participação das mulheres, incentivos financeiros às novas cientistas, atividades do movimento feminista e, claro, maior divulgação sobre mulheres de relevância.

Uma das categorias do prêmio que mais premiou mulheres foi a de medicina. E uma das ganhadoras foi a neurocientista italiana Rita Levi-Montalcini, que recebeu o prêmio em 1986 pela descoberta de como as células nervosas do nosso corpo se multiplicam.

Fonte: MLA style: Rita Levi-Montalcini – Facts. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2021. Sun. 28 Feb 2021.

Rita nasceu em uma família judia em Turim, na Itália, em uma época conturbada politicamente no país e em um período em que uma mulher não era incentivada a ir para uma universidade, mas sim a ser a melhor esposa possível. Insatisfeita com a imposição sobre o seu futuro e sem interesse em arrumar um casamento, Rita buscava uma alternativa para sua vida quando foi motivada a estudar medicina ao perder uma querida governanta.

Aos 20 anos ela foi para a escola de medicina, sendo uma das duas estudantes em um grupo de aproximadamente 300 alunos. Pelo seu bom desempenho acadêmico nos primeiros anos de formação, foi convidada para trabalhar no laboratório de Giuseppe Levi (1872-1965), cuja especialidade de pesquisa era a maneira como as células crescem no sistema nervoso. Na época em que Rita começou a trabalhar com ele, estavam analisando os padrões de crescimento celular no sistema nervoso de camundongos, e ele considerou importante comparar as células do sistema nervoso entre muitos camundongos diferentes, para ver quanta variação no padrão havia entre um indivíduo e outro (Hitchcock, 2005).

Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, Rita Levi-Montalcini foi forçada a deixar os estudos no laboratório universitário e, por conta própria, continuou os estudos celulares, utilizando ovos de galinha, o que poderia fazer em seu próprio quarto. Por um tempo, ansiosa para fazer algo que valesse a pena, praticou medicina clandestinamente, já que os judeus estavam proibidos de exercer suas profissões. No entanto, ela visitou outros judeus escondidos, os idosos ou doentes que precisavam de atenção médica.

Em 1946, foi convidada a trabalhar na Washington University, em St. Louis, nos Estados Unidos, onde permaneceu por 30 anos. Seus estudos nessa instituição resultaram na sistematização de uma proteína que desempenha papel fundamental no crescimento dos neurônios. A consequência foi o Prêmio Nobel em medicina de 1986, em parceria com Stanley Cohen, antes de finalmente retornar à Itália, onde morou, em Roma, até sua morte (Minella, 2017).

Referências:

https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/1986/levi-montalcini/facts/ Acesso em: 03 de março de 2021

HITCHCOCK, Susan Tyler. Rita Levi-Montalcini – Nobel Prize Winner (Women in Medicine), Chelsea House Publishers, 2005. Acesso em: 03 de março de 2021.

MINELLA, Luzinete Simões. No trono da Ciência I: mulheres no Nobel da Fisiologia ou Medicina (1947-1988). Cadernos de Pesquisa, v. 47, n. 163, p. 70-93, 2017. Acesso em:05 de março de 2021.


Ingrid Nunes Derossi

Graduada em Licenciatura em Química pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2010), mestre em Educação Química – História da Ciência e Ensino (2013) e doutora em Educação Química – História da Ciência e Ensino (2018), com período sanduíche na Universidade de Giessen, na Alemanha em 2015-2016 como bolsista CAPES pelo PDSE. É professora do curso de Licenciatura em Química na Universidade Federal do Triângulo Mineiro no Campus Universitário de Iturama e Coordenadora de Ensino da instituição. Tem experiência na área de Ensino de Química, na área de História da Ciência e Ensino e mulheres na Ciência.


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