O grupo Tarantolato e seu processo de registro como Patrimônio Cultural Imaterial de Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 7, 2021 – Talita Gomes da Silva | O grupo Tarantolato e seu processo de registro como Patrimônio Cultural Imaterial de Juiz de Fora


O Tarantolato é um grupo juizforano que tem como objetivo resgatar danças folclóricas dos primeiros imigrantes italianos de Minas Gerais. Assim, possuem uma importante missão de difusão das tradições italianas não apenas entre as comunidades de seus descendentes, mas também entre diversas outras coletividades não relacionadas à Itália.

O grupo foi fundado no dia 31 de maio de 2000, no aniversário de 150 anos de Juiz de Fora. Nessa ocasião, a Prefeitura promoveu um desfile comemorativo na Avenida Barão do Rio Branco, destacando os principais povos e etnias que ajudaram a construir nossa cidade. Assim, os alunos, professores e frequentadores da Cultura Italiana1 foram convidados a participar desse cortejo, compondo a ala dos imigrantes italianos.

Além de várias pessoas que desfilaram como imigrantes italianos com seus próprios figurinos, a Cultura Italiana pediu à FUNALFA2 trinta trajes típicos de Danças Folclóricas Italianas para compor o desfile, fato que foi considerado um sucesso e um marco na história dos frequentadores da Casa d’ Itália. A repercussão desse cortejo foi tamanha, que surgiram diversos convites para que os dançarinos se apresentasse em outros locais.

Foto: Acervo Tarantolato

A receptividade do público com a coletividade em questão, estimulou-os a formarem o grupo de Danças Folclóricas Italianas Tarantolato, organizado por Mariza Fernandes Pinto Gomes3, professora de idioma italiano na Casa d’ Itália e descendente de imigrantes italianos.

O Tarantolato promove, desde então, um importante resgate das danças folclóricas italianas, que no momento de fundação do grupo, se encontravam perdidas entre a comunidade de descendentes itálo-brasileiros de Juiz de Fora. Desde sua fundação, há cerca de 20 anos, os membros do grupo têm-se empenhado em manter sempre viva a cultura italiana, num cenário onde Brasil e Itália se unem através das danças folclóricas, que buscam representar as diversas regiões da Itália, tais como a Valsa, Mazurca, Salterello, entre outras, com especial destaque para a Tarantella que deu origem ao nome do grupo.

Esta dança teve suas origens no sul da Itália e possui uma grande relevância, pois acabou tornando-se ícone nacional, sendo reconhecida como uma imagem da cultura italiana no mundo inteiro. Especula-se que a Tarantella tenha seu surgimento no século XV e é uma dança folclórica típica dançada em casamentos e eventos sociais, com diferentes versões conforme a localidade. O nome “Tarantella” é em homenagem a cidade de Taranto, na Itália, onde é creditado a origem da dança. Engraçado saber que o nome da aranha tarântula vem da mesma cidade que nomeia a coreografia. O nome da dança é baseada em uma antiga crença popular que dizia que quando alguém fosse mordido pela aranha tarântula, a única cura possível seria dançar para o veneno sair do sistema sanguíneo. Por esta razão, muitos consideram a Tarantella uma dança medicinal. E nesse sentido destacamos que um dos símbolos do Tarantolato é o estandarte, composto pela metade da bandeira italiana na parte
superior, metade da bandeira brasileira na parte inferior, e uma aranha tarântula ao meio.

O grupo é composto por pares de dançarinos (uma mulher e um homem), que em geral giram em torno de 5 a 10 pares, número que varia conforme o período e disponibilidade dos integrantes. Possuem uma média de 25 apresentações por ano, e contam com mais de 500 apresentações ao longo da história do grupo. Muitas vezes também o Tarantolato convida quem está assistindo a participar da dança, ensinando-os os passos mais simples, o que promove grande interação entre os dançarinos e seus espectadores. Além de apresentações em grandes eventos públicos, o Tarantolato também fez e faz apresentações em escolas, associações, clubes, aniversários, festa de famílias, casamentos, todas elas de importância fundamental para o grupo.

Foto: Victor Fernandes

O Tarantolato é uma associação sem fins lucrativos onde os integrantes não possuem despesas para participar dos ensaios ou para adquirirem os trajes típicos. O grupo se mantém através de doações privadas, principalmente, que muitas vezes advivem dos convites que recebem para fazer apresentações. Mas o Tarantolato já recebeu financiamento público municipal, sendo contemplados três vezes pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura. Nessa ocasião, o grupo optou por aplicar esses recursos na contratação de coreógrafos com o intuito de ampliar seu repertório de danças e ainda investiu em cursos para aprimorar o conhecimento dos integrantes do grupo em cultura italiana. É atualmente o único grupo no seu gênero representando a Itália em Minas Gerais e se apresenta em todo o Brasil, e ainda possuem o sonho de se apresentar na Itália.

Por toda a importância ímpar do grupo Tarantolato no resgate da cultura italiana no município de Juiz de Fora e região, e ainda considerando o peso dessa etnia na formação do munícipio (uma vez que os imigrantes italianos foram grandes atores de nossa história desde meados do século XIX) é que foi apresentado à Prefeitura de Juiz de Fora um dossiê4 que pede o Registro desse grupo de dança como Bem Imaterial da Cidade. Esse Registro permite o reconhecimento da relevância cultural do grupo e de seu trabalho, e ainda assegura que o mesmo possa vir a ter mais amparo municipal para continuar suas atividades5.

Termino por fim, evidenciando que em um país construído por muitas mãos, a cultura torna-se um bem imaterial de valor inestimável, trazendo consigo a grande responsabilidade de proteção desse patrimônio. Assim, faz-se fundamental identificar e valorizar as formas de expressão populares, e nesse âmbito, as danças folclóricas podem ser entendidas como fruto da dinâmica social e permitem, por meio de suas muitas expressividades, a transmissão de valores por gerações.

[1] Instituição de Ensino de Língua Italiana que se localiza na Casa d’ Itália.
[2] Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage.
[3] Mariza foi então nomeada diretora do Tarantolato e está no cargo até os dias atuais.
[4] Dossiê De Registro Municipal Do Grupo De Dança Tarantolato: Um Resgate A Cultura Folclórica Dos Imigrantes Italianos De Juiz De Fora. Autoria de Andreia Mara Fernandes, Una Fortunato Oliveira, Talita Gomes da Silva e Thaís Aparecida Eugênio, elaborado inicialmente em 2017 e reformulado em 2020, quando foi protocolado na PJF
[5] O pedido de Registro do Tarantolato como Bem Imaterial Cultural de Juiz de Fora foi solicitado a PJF que abriu um processo para que os órgãos responsáveis avaliem o mesmo e abram votação decidindo contra ou a favor esse registro. Por esse motivo, é importante que toda a comunidade de Juiz de Fora se mobilize e reivindique o reconhecimento do Tarantolado, assegurando que o resgate cultural promovido pelo grupo seja mantido


Referências Bibliográficas:

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Talita Gomes da Silva

Turismóloga, Especialista em Planejamento e Gestão de Eventos, atualmente cursando
História na UFJF.


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