O “Eremita da Caridade” e seus passos em Juiz de Fora: reminiscências da Capela San Francesco di Paola na Casa d’Italia

Há quase trinta anos se oficializou em Juiz de Fora, mais precisamente nas dependências da Casa d’Italia, a capela San Francesco di Paola. Era o início de uma caminhada, que ainda resiste ao passar dos anos e mantém viva a devoção ao santo eremita Francesco di Paola. Tanto a trajetória do santo, como a da capela, são instigantes, nos remetem a fé e persistência. Esta foi a sensação que tivemos após passar uma manhã conversando com as atuais coordenadoras da capela, Nicolina Riccio Rovisi e Mary Zanelatto. 

Foto: Rafael Moreira

A história começa no ano de 1416, quando o pequeno Francesco nasceu em Paola – na época, o local pertencia à Calábria, reino de Nápoles. A escolha de seu nome foi motivada pela devoção de sua mãe a San Francesco d’Assisi. Com apenas um mês de vida, o bebê desenvolveu uma séria doença em seu olho esquerdo. Para salvá-lo, sua mãe pediu pela intercessão a San Francesco d’Assisi, com a promessa de que se o curasse, o entregaria a um convento franciscano. Assim aconteceu, o menino melhorou, cresceu e logo após sua primeira comunhão, entrou para o convento dos franciscanos de São Marcos Argentano. Desde esta época, já se ouvia falar sobre os milagres proferidos pelo jovem Francesco, que passou a  se dedicar aos mais necessitados e também fundou a Ordem dos Mínimos. 

O modo como agiu em vida, o fez conhecido como o Eremita da Caridade. Viveu até os 91 anos, foi canonizado em 1519 e posteriormente, tornou-se o padroeiro da Calábria. A veneração ao então, San Francesco di Paola, logo cresceu e se espalhou, junto com a sua ordem. Em Juiz de Fora, percebemos que a devoção ao santo esteve ligada aos imigrantes italianos, sobretudo, entre aqueles que possuíam origem na Calábria. Um indício disso foi a criação, no final dos anos de 1980, da Associação Ítalo-brasileira San Francesco di Paola, responsável por manter e cuidar da Casa d’Italia de Juiz de Fora. Nesta época, membros da associação montavam grupos e seguiam até a Igreja São Francisco de Paula, no Rio de Janeiro.   

Foto: Angelo Savastano

Aos poucos, sentiu-se a necessidade de estabelecer uma capela dedicada a San Francesco di Paola na Casa d’Italia. Para poder concretizar este projeto, os sócios organizaram diversos almoços, que chegaram a reunir de 150 a 200 pessoas. Fazia-se lasanhas e doces que eram servidos no salão da Casa d’Italia. O dinheiro arrecadado com os eventos era convertido na compra dos bancos e objetos indispensáveis para a capela. Uma grande aquisição, que orgulha aos que frequentam a capela, é a bela imagem de San Francesco di Paola, que se encontra ao lado do altar principal. Esta imagem saiu de um navio da Itália e aportou no Rio de Janeiro. Quando chegou, lá estavam os sócios da Casa, ansiosos para levá-la até Juiz de Fora.

Diversas famílias de sócios da Casa d’Italia se dedicaram arduamente para concretizar a Capela dedicada a San Francesco di Paula. E após todos os trâmites necessários, aconteceu a inauguração oficial da capela no ano de 1992. Na parte de trás da capela, encontra-se uma placa, onde consta o nome das famílias que estiveram envolvidos nesta empreitada e o nome do Monsenhor Falabella, sacerdote de Juiz de Fora, que atuou de modo significativo para o funcionamento do local.

Durante algum tempo, a capela recebia missas esporádicas, mas nunca deixou de funcionar. Nela, acontecem batizados, casamentos, primeira comunhão, oficina de oração e também é o local de ensaio de grupos de coral ligados à Casa d’Italia. Nos últimos anos, em parceria com a Catedral de Juiz de Fora, passaram a ocorrer missas em toda primeira sexta feira do mês, fato descontinuado por conta da pandemia provocada pelo COVID-19. Algo que não podemos deixar de mencionar sobre a Capela San Francesco di Paola, é sua acessibilidade. Localizada no centro da cidade, a capela conta com apenas um degrau para seu acesso, o que a torna ideal para todos que desejam conhecer.

O trabalho das coordenadoras Nicolina Riccio Rovisi e Mary Zanelatto é exemplar.  Sempre preocupadas com a conservação e a boa utilização do local. Dedicam horas para arrumar e conseguir o necessário para que as celebrações aconteçam. Durante todo o tempo que conversamos, a única queixa apresentada, foi a falta de comprometimento das gerações posteriores às suas. Disseram sobre a importância dos sucessores mostrarem empenho, para manter manter vivo o labor daqueles italianos do passado. Esse compromisso foi ampliado nos últimos anos, mas é preciso ainda mais dedicação, para que a Casa d’Italia possa continuar abrigando a cultura italiana em Juiz de Fora. Para concluir, esperamos que os problemas causados por esta nova doença sejam superados e que a capela volte a funcionar com todo o seu esplendor.


Fontes:

IMBROISE, Concetta Chianello. Vida e milagres de São Francisco de Paola. S/d.ROVISI, Nicolina Riccio; ZANELATTO, Mary. Capela San Francesco di Paola. Rafael Bertante. Juiz de Fora, 2021.


Rafael Bertante

Graduado e mestre em História pela UFJF, com ênfase em sociabilidade e cultura italiana, atou em atividades patrimoniais no Laboratório de Patrimônios Culturais. Pós-graduado em Ciência da Religião. Cursa atualmente doutorado em Ciência da Religião pela UFJF e atua com pesquisa em arquivos.


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