Espaços culturais e a fruição cultural de nossa sociedade

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 7, 2020 – Fabricio Fernandes | Espaços culturais e a fruição cultural de nossa sociedade


Ao longo dos tempos, vários são os lugares que atendem à classe artística, e contribuem para o desenvolvimento da cultura em Juiz de Fora. Esses lugares recebem oficinas de música, canto, artes visuais, além de diversas manifestações da cultura popular, e para além do espaço físico, também proporcionam valorização e conscientização sobre a cultura, que é um direito de todos nós.

O engajamento das classes artísticas em Juiz de Fora foi responsável pela criação de um importante espaço público da cidade nos anos 1980. O movimento intitulado Mascarenhas meu Amor é um exemplo nítido do papel da sociedade na reivindicação por locais destinados à cultura. O resultado foi a transformação da antiga Fábrica Têxtil Bernardo Mascarenhas, fechada e abandonada, em um centro cultural multiuso que desde 1987 tornou-se referência como espaço destinado às expressões da cultura.

Para além de locais geridos pelo poder público, os artistas de Juiz de Fora sempre contaram com importantes espaços culturais privados, que ao longo dos anos sediaram grandes eventos no município. São centros culturais, cinemas, galerias de arte, com um anseio comum de dar voz ao efervescer da cultura. Esses espaços proporcionam momentos de prazer e, ao mesmo tempo, conscientizam a população de que indiferentemente da classe socioeconômica, a cultura e o lazer é um direito de todos.

Para além do contexto mais recente, no qual grande maioria dos espaços culturais tiveram suas atividades suspensas em razão da pandemia do COVID-19, vários lugares de Juiz de Fora já enfrentaram problemas que prejudicaram sua continuidade. Questões muitas vezes evidenciadas somente quando esses espaços manifestam preocupação em relação a continuidade de suas atividades. É o que vimos com a demolição do Cine Excelsior, com o encerramento das atividades do Cine Palace, além do quase despejo do Museu do Crédito Real, Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora, Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly e Associação Cultural Luso-Brasileira, do prédio do antigo Banco de Crédito Real de Minas Gerais, cujo Estado de Minas na época, solicitou sua desocupação visando utilizar o espaço para alocar secretarias administrativas. Situação que após várias negociações, culminou na permanência das instituições, que continuam no local custeando suas despesas (como sempre ocorreu) e desenvolvendo suas atividades de extrema importância para o município.

Recentemente foi a vez da Casa D’Itália nos despertar as mesmas angústias, quando foi anunciado o leilão do imóvel e consequentemente o fim das atividades culturais no local. Situada em endereço nobre no centro da cidade, além de auxiliar as famílias de imigrantes e representar a agência consular da Itália em Juiz de Fora, a instituição através de sua mantenedora, a Associação Ítalo Brasileira San Francesco Di Paola, abriga diversas atividades culturais, como coral, orquestra de cordas, aulas de música, escola de pizzaiolo, grupo de bordadeiras, atelier de artes, cancha de bocha, aulas de artes marciais e yoga.

O recente contexto desperta preocupação, e situações como essa expõem incertezas, mas também nos desperta a possibilidade de novos diálogos e a busca por soluções, que permitam a continuidade de espaços que contribuem a fruição cultural necessária para nossa sociedade. O cenário demonstra que as políticas públicas de proteção do patrimônio cultural são instrumentos jurídicos de extrema importância, porém, para serem eficazes, devem ser aliados a ações de promoção que incentivem a continuidade de seus trabalhos através de ações de fomento, educação e divulgação.

Para isso, é fundamental perceber que a Casa D’Itália além de um importante espaço de celebração da cultura italiana, oferece uma série de serviços a seus frequentadores, e atende toda a cidade de Juiz de Fora não só pela dinâmica de suas atividades, mas pelo simples fato de existir enquanto lugar, fazendo parte de uma paisagem urbana dotada de diversas expressões arquitetônicas, capaz de fomentar o turismo cultural, motivando o turista a conhecer a cidade e sua história, atraindo visitantes e desenvolvendo economicamente toda a região.

Sabemos que é dever do poder público estimular a continuidade de espaços que contribuem para uma vivência mais prazerosa de nossa cidade. Entretanto, cabe a toda a sociedade refletir até que ponto valorizamos e participamos da vida desses locais, entendendo que sua continuidade deve ser defendida imediatamente por todos nós, entendendo que estes locais guardam nossa memória, e fazem parte de nossas vidas.


Fabricio Fernandes

Especialista em Gestão do Patrimônio Histórico e Cultural, Membro do Conselho Municipal de Cultura e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural.


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