Depoimentos de profissionais ligados à Casa D’Italia de Juiz de Fora

Ao longo dos anos, a Casa D’Italia de Juiz de Fora e seu Departamento de Cultura vem construindo uma rede de profissionais integrando diversas frentes da cultura e patrimônio na cidade de Juiz de Fora. Sua relevância para a cidade se reafirma ao passo que esta rede se torna cada vez maior e robusta, se revelando cada dia mais importante historicamente e cada ano mais presente nas atividades culturais da cidade. Seguem abaixo, palavras de alguns dos profissionais desta teia, que vem sendo construída a 80 anos:

Ladislau Brun (Violinista da Casa D’Italia)

A Casa D’ Itália de Juiz de Fora  tem apoiado a cultura e a arte em geral há muitos anos, com exposições artísticas e recebendo várias apresentações de grupos musicais diversos no palco do seu anfiteatro. Há dois anos a Casa D’ Itália abrigou a orquestra Juiz de Fora a qual fui diretor artístico e spalla, nos cedendo espaço para ensaios individuais, concertos e ensaios em grupo para preparações desses espetáculos que foram apresentados em diversas cidades e outros teatros, não somente na Casa D’ Itália.   Surgiu então no ano de 2019 a ideia de oferecermos aulas de instrumentos na Casa, começamos a ofertar aulas de violino, viola e violoncello, no ano de 2020 tivemos o planejamento em ampliar esses instrumentos, pensando em ofertar aulas de canto e violão.  Ainda em 2019 um dos destaques da temporada  foi a apresentação da orquestra Juiz de Fora juntamente ao grupo de danças típicas italianas Tarantolato, no 2° festival de dança “Tarantolato in festa”, comemorando os 19 anos de existência do grupo de dança, cujo foi a junção de duas artes magníficas que são a música típica italiana tocada pela orquestra juntamente com as danças típicas italianas, fortalecendo a importância de se manter essa cultura tão bella, foi um resgate emocionante,  trazendo a Casa e ao público atual toda a vivência da cultura italiana. A Casa D’ Itália ainda me acolheu individualmente como violinista, sendo descendente de italianos por parte de pai e creio que pelo meu bom relacionamento com a casa e amante da cultura italiana me deram o  “título de violinista da Casa D’ Itália de Juiz de Fora” que recebi com imenso carinho e afeto,  me senti valorizado como artista e acolhido durante meu retorno a Juiz de Fora, que se deu há três anos por motivos pessoais e familiares. A Casa D’ Itália de Juiz de Fora  tem uma importância sócio-cultural muito grande em nossa cidade e a perda desse espaço é inestimável para a arte e a cultura em geral e também para  todos nós descendentes de italianos que vivemos na cidade, é um lugar que podemos cultivar e exercer as várias formas de cultivo a cultura italiana  através do resgate as músicas típicas, as danças, o estudo da língua italiana, sendo  menos um lugar que apoia a cultura em nossa cidade, menos uma casa de cultura que nos recebe de braços abertos.


Leandro Dias (Time de Bocha Casa D’Italia JF)

A equipe de bocha da Casa D’Italia Juiz de Fora tem sua importância para a instituição, pelo fato dela ter sido pioneira da bocha na cidade. Foi na Casa D’Italia que começou a ser praticado este esporte nos anos de 1940 pelo imigrantes italianos, e depois passou a ser praticada em outros clubes. Assim, a Casa D’Italia tem uma história com a modalidade na cidade. Resgatamos esta tradição em 2017 quando formamos uma equipe e começamos a disputar competições, algo que a Casa D’Italia não participava há vinte anos. Já colhemos frutos, pois no primeiro ano de retorno, participamos da Taça Brasil de Clubes em Nova Prata, Rio Grande do Sul. No final de 2018, o atleta catarinense Valdecir Garcia conquistou o Balim de Ouro Brasil Individual no estado de São Paulo, representando a Casa D’Italia, mediante parceria com a equipe. Estamos conquistando bons resultados nas competições estaduais nos últimos dois anos. Em fevereiro deste ano, o atleta Everaldo Medeiros participou do GP Brasil de Bocha em Garibaldi, Rio Grande do Sul,  onde esteve os melhores competidores da América do Sul. Em 2018 e 2019, alguns atletas da nossa equipe integraram o time da Liga Mineira de Bocha na Copa São Paulo de Trios.  

Além das competições, estamos alcançando êxito em outras frentes ligadas ao esporte. Em 2019, passamos a integrar o quadro do Conselho Municipal de Desportos de Juiz de Fora, representando nossa modalidade no órgão local e promovemos algumas campanhas sociais em benefício das pessoas em situação de vulnerabilidade social.  

Assim, esperamos seguir com nosso planejamento esportivo e valorizar a cultura italiana por meio da nossa atividade esportiva. Queremos aproveitar a boa localização da nossa sede para atrair mais adeptos da modalidade e realizar atividades do esporte para públicos de diversas instituições locais. Nossa atividade esportiva é além de tudo uma contribuição para a diversificação da cultura italiana em nosso município.


Thaiana Fernandes (Departamento de Cultura)

O Departamento de Cultura existe desde o ano de 2015 e é composto por profissionais que unem a vontade de levar um trabalho sério à comunidade, ao amor e respeito à cultura e preservação da memória dos que compõem a nossa sociedade. Somos responsáveis pela organização e divulgação de todos os eventos que acontecem na Casa D’Italia. Desde 2015 firmamos parcerias com a finalidade de agregar e somar forças com entidades, pessoas e empresas da cidade. 

Em 2015, quando todos os membros do Departamento de Cultura ainda faziam parte do Grupo Tarantolato, foi realizado no salão nobre o evento em comemoração aos 15 anos do Grupo. Nesta ocasião vários grupos folclóricos da cidade foram convidados para comemorar e abrilhantar a noite. Logo após, surgiu a oportunidade de criar uma equipe responsável pela parte cultural da instituição. Neste momento, já começamos a organizar a 1a Noite Italiana, evento este que receberia um grupo de pizzaiolos da Verace Pizza Napolitana, vindo diretamente de Nápoles com a finalidade de certificar a escola de pizza que funcionaria nas dependências da Casa D’Italia. A partir daí ficaríamos responsáveis não só pela organização e secretaria de eventos e cursos, mas pela divulgação de tudo que aconteceria na instituição, desde criação da sua identidade visual e dos eventos organizados, até a divulgação virtual e física dos mesmos. Durante todos esses anos estivemos sempre muito abertos para receber pessoas e entidades, e apoiá-las em seus projetos e através da Casa D’Italia ajudar da forma que podíamos ajudar.  Com o principal objetivo de organizar eventos acessíveis à todos, sempre oferecemos a oportunidade de compartilhar cultura a toda comunidade juizforana com o mínimo de custo possível.

Durante esse tempo, nossa maior dificuldade foi com a verba necessária para realizar cada projeto, pois cada evento deveria se pagar, já que os gastos da associação são altos e voltados para a manutenção do prédio. A dificuldade de conseguir apoio e patrocínio para a realização dos eventos foi grande, entretanto, sempre corremos muito atrás para tirar todos os projetos do papel tornando tudo possível.

No ano de 2020, com o surgimento da pandemia do COVID-19 vencemos o desafio de continuar levando cultura à população neste momento dificil. Através das redes sociais, criamos conteúdos sobre cultura, arte e informações atuais. Além disso, repaginamos nosso site e através dele foi criada a Revista Casa D’Italia que contando com nossos pesquisadores parceiros abordamos diversos assuntos do interesse de todos.

Esperamos continuar podendo desenvolver nosso trabalho na Casa d’Italia, que é e sempre foi referência da imigracao e memória italiana na cidade de Juiz de Fora.


Nicolina (Capela de San Francesco di Paola)

Vejo com a maior importância a preservação da Casa D’Italia porque além da capela ter sido fundada pelo italianos e ítalo-brasileiros em 1994, desde 1988 que nós batalhamos pela capela.

Essa capela, o espaço foi nos dado pela Casa D’Italia, mas tudo que há dentro da capela foi conseguido através de almoços, festas e doações. Nós temos dentro da nossa capela tudo que é necessário para um capela comum. Nossa capela é abençoada, nós temos uma imagem de São Francisco de Paula que veio diretamente da Itália. Nós temos muitas coisas raras, coisas que nos foram dadas por italianos e que vieram da Itália. […]

A Capela já foi utilizada para muitas celebrações, por exemplo, casamentos, bodas de ouro, batizados, primeira comunhão… Quer dizer, nossa capela está vinculada à Catedral de Juiz de Fora. Nós somos assistidos pelos padres da Catedral de Juiz de Fora, mas ela é muito importante pra nós porque ela atender a população idosa, visto o fácil acesso à nossa capela. Ela é muito frequentada principalmente pelo idosos.

Estamos rezando para que o mais rápido possível possamos voltar com nossas missas e celebrações.

Muito obrigado pelo interesse sobre a nossa capela e nosso trabalho que é a realizado com muito cuidado, muito carinho e muito amor.


Mariza Fernandes (Curso Cultura Italiana)

A Cultura Italiana unindo sempre tradição, comprometimento, seriedade, confiabilidade e modernidade no ensino da língua e cultura italianas, atua há 51 anos na Casa d’Italia de Juiz de Fora e  a responsabilidade de representar este nome de tanta importância, tanto para os descendentes de italianos  quanto para toda a população de Juiz de Fora e região, é muito grande. Não atingiríamos nossos objetivos se não tivéssemos  nossa sede nessa Casa que sempre foi nossa identidade e nosso lar.

Nesses 51 anos, desde os nossos primeiros passos, nós da Cultura Italiana, encontramos carinho, aconchego e incentivo da Casa d’Italia para desempenharmos nosso papel com liberdade e muito orgulho de pertencer a essa família.

E não são poucas as atividades quer exercemos, além de fazermos o melhor que sabemos fazer que é transmitir a língua o conhecimento e os hábitos italianos a todos aqueles que amam esse “belpaese”.

Podemos começar citando a tradição de nossas formaturas no salão nobre ao final de cada semestre. As recepções retratam a importância que o curso tem para o aluno que recebe orgulhosamente o seu diploma; as viagens à Italia realizadas em grupos de alunos e amigos, sempre acompanhadas pela  professora, encantam e deixam saudades e lembranças que o tempo jamais apagará; o Grupo Tarantolato, por exemplo,  é “filho” da Cultura Italiana, nasceu pela motivação de se criar mais uma atividade ligada à Italia,  que pudesse ser oferecida a toda a comunidade de Juiz de fora, e nada mais italiano que a dança folclórica, carregada de alegria e vivacidade características  dos italianos; até mesmo nos momentos  mais simples e cotidianos como o nosso cafezinho com bolo ou biscoito feito carinhosamente pela secretária todos os dias, acompanhado sempre de histórias, risos e trocas de conhecimentos entre alunos e professores entre uma aula e outra, até mesmo esse cafezinho  nos  faz falta nesses dias em que somos obrigados a ficar em casa.

E não é preciso fazer muito esforço para entender a relação de amizade, amor e gratidão que a Cultura Italiana tem com a Casa d’Italia, mas é tão grande que com palavras não pode ser explicada.

Em 2012 a Cultura Italiana foi homenageada recebendo a Comenda Henrique Halfeld, a principal honraria  da cidade, concedida a pessoas e instituições de atuação destacada para a projeção e valorização de Juiz de Fora, e esse prêmio  não foi somente nosso, com certeza a Casa d’Italia contribuiu para que o nosso trabalho fosse apreciado e valorizado.

E é por tudo isso que a nossa Casa d’Italia tem que continuar contando a nossa história. Ninguém tem o direito de tirar de uma cidade inteira esse espaço que representa, não somente a memória de todos aqueles que construíram e passaram por aqui, mas também de quem continua construindo e escrevendo a história dos italianos  fora da Itália nos dias de hoje. #eulutopelacasaditalia. (Mariza, Vera e Edinha).


Lucínia Scanapieco (Grupo Tarantolato)

Casa D’Italia de Juiz de Fora faz parte da minha trajetória de vida bem antes do Tarantolato.

Nos idos de 1968/1970, frequentei as aulas na Associação Cultural Ítalo Brasileira, para aprender o idioma que sempre me encantou: o italiano.  Ali, nas salas de aula, na época, com as carteiras e demais móveis da época de sua fundação, travei conhecimento com o idioma e a história da Bella Italia através das aulas com as professoras Deusiana Lavoisier Rocha e Wally Maestrini e a Cultura tinha como diretora a Sra. Iris Maestrini e como presidente o Sr. Ivan Cavallieri. 

Durante o período em que lá estudei, aconteceram algumas edições do Festival de Música Popular Italiana, que elegia os melhores intérpretes do cancioneiro italiano e, no ano de 1969, me candidatei a participar e, junto com meu primo Antonio Emanoel Scanapieco, conquistamos o segundo lugar da mostra.

A partir de 2009, passei a integrar a diretoria do Grupo de Dança Folclórica Italiana Tarantolato como primeira secretária, tendo minha filha Luciana como segunda secretária, além de dançarina do grupo e hoje, estou como Diretora Cultural.  A partir de então, a Casa D’Italia volta a fazer parte da minha rotina através dos ensaios, reuniões e preparativos para as nossas muitas apresentações por esse Brasil afora, e, ao caminhar pela nossa Casa, sinto as vibrações e relembro momentos ao mesmo tempo em que construo novas memórias. Ao pensar em perder nosso ponto de referência física e afetiva, sinto uma profunda tristeza.  Imaginar o Tarantolato sem o seu “cantinho” especial, sem o salão ao som de nossas músicas de coreografia, sem o aconchego que sentimos sempre que ali nos reunimos, é inconcebível. Está machucando muito esta situação, pois esperávamos ser apoiados e incentivados por promovermos a divulgação da cultura italiana através de suas alegres danças e, ao contrário, estamos sendo ameaçados de despejo, de perder a NOSSA CASA, de termos que abandonar o nosso reduto de trabalho, enfim, de perdermos o nosso bem por conta de uma deliberação do Consulado Italiano em Belo Horizonte e que até o momento, apesar de todo o apoio que estamos recebendo por parte de pessoas que valorizaram a nossa Casa e o que nela é abrigado, não recebemos nenhuma outra notícia. O leilão continua anunciado pelo Consulado, e a incerteza paira no ar.  Continuamos nossa luta pelo direito de continuidade da Casa D’Italia, pela salvaguarda de suas histórias, de seu acervo, e de continuar a existir neste imóvel construído pelas mãos de bravos imigrantes italianos para servir de lar afetivo àqueles de deixaram sua terra natal para trás, em busca de novas oportunidades.  São muitas histórias e estórias guardadas como vibrações nas suas paredes, além de todo um patrimônio arquitetônico, cultural, histórico e de valor imenso para nós, descendentes dos valorosos oriundi e para a população de Juiz de Fora, em um modo geral.

Ficarei repetitiva se continuar este depoimento, pois a única coisa que quero dizer e continuarei a dizer é:

 NÃO VEEMENTE AO LEILÃO DA CASA D’ITALIA.  ELA É NOSSO BEM MAIOR E NÃO ABRIREMOS MÃO DA NOSSA HISTÓRIA.

Tarantolato aguarda e acredita que continuará a ter a CASA D’ITALIA como seu lar e continuará comprometido a divulgar com alma, alegria e paixão a dança folclórica da nossa BELLA ITALIA!

Fabricio Fernandes (DIPPAC)

Minha trajetória profissional tem muita sintonia com a história dos bens tombados de Juiz de Fora, me motivando sempre múltiplos olhares: como alguém que trabalha no setor de Patrimônio Cultural do Município há nove anos, pensar imóveis que são protegidos por décadas, como a Casa D’Itália, não deixa dúvidas sobre como o município reconhece seu valor e sua função social na vida dos cidadãos de nossa cidade. Enquanto membro do Conselho Municipal de Cultura, entendo que nosso patrimônio cultural tem um poder imenso de sediar cada vez mais as diversas expressões artísticas do município, e a Casa D’Itália cumpre historicamente esse papel, mostrando que a preservação não se constrói apenas por leis de proteção, mas também pelas relações de afeto de seus usuários. Não menos importante, falo também como membro do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, que tem o dever de construir políticas e contribuir no debate sobre a preservação de nossa história. A tarefa pode não ser fácil, mas é rica em orgulho, pois são legados como os da Casa D’Itália, que por tanto tempo vem contribuindo para o bem estar sociedade juizforana através da cultura, que tornam o trabalho com o patrimônio cultural regado de afetos.


Miriam Dias (Projeto de extensão – UFJF)

 Primeiramente como arquiteta e urbanista, reconheço na Casa D’Itália, um importante ícone histórico da nossa cidade. Através da avaliação pós ocupação (APO) estamos mapeando os impactos do adensamento urbano em torno da edificação, como redução da insolação e da ventilação, e quais as estratégias necessárias para amenizar os problemas. A principal proposta deste projeto de extensão universitária é a valorização do patrimônio cultural através da proposta de adequação do espaço para seu uso como espaço cultural não apenas para a população ítalo-brasileira mas também para ensinar sobre a cultura italiana e o quanto ela foi importante para o desenvolvimento da cidade de Juiz de Fora. Este projeto está fazendo o mapeamento de danos ocasionados pelo tempo, das condições de acessibilidade e de conforto térmico, acústico e lumínico. Também está sendo avaliada as formas de preservação como patrimônio cultural e histórico e a sua relação paisagística com o entorno. Por fim, considerando o momento de pandemia e as novas formas de interação visando o distanciamento social, este projeto também está propondo um passeio virtual, que possibilite a visitação através da tecnologia digital. Enquanto extensão universitária, esperamos envolver e dar acesso às mais diversas camadas da sociedade nos projetos culturais oferecidos pela Casa D’Itália.


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