Palco Italiano: uma inovação cênica e acústica para o espaço performático.

Por volta do século XV, emergia na Itália uma corrente intelectual que seria conhecida anos mais tarde como renascimento cultural. É neste cenário que o pensamento em torno da arquitetura dedicada ao projeto de salas de espetáculos passava por uma grande transformação. A crescente noção de perspectiva impunha sobre o espaço performático a necessidade de se trabalhar a encenação e a ópera sobre um pano de fundo cada vez mais realista. Ao longo do ano de 1630, se inaugurava, em Veneza, o primeiro teatro público de ópera, um dos primeiros exemplares a conter um elemento arquitetônico que seria amplamente profundido em todo o ocidente dos anos seguintes até os dias atuais: o “palco italiano.” O palco italiano é sem dúvida a mais comum e mais utilizada estrutura de proscênio nos dias atuais, dada sua funcionalidade e praticidade na obtenção de efeitos enriquecedores à cenografia do espetáculo.

Diferentemente dos palcos de arena, por exemplo, o palco italiano era um espaço retangular, delimitado por três paredes fechadas (duas laterais e uma de fundos) e uma parede vazada que se abria ao público através de uma arcada denominada boca de cena. Esse tipo de palco dava, pela primeira vez, uma ampla percepção de profundidade cênica à plateia. Mais do que isso, o palco italiano permitia que os espectadores assistissem a performance de frente, homogeneizando todos os ângulos de visão. A própria forma da sala delimitava o ponto focal do espectador.

Com o transcorrer do tempo, inúmeros mecanismos foram sendo adicionados à infraestrutura interna do palco permitindo uma crescente mobilidade dos cenários e maior versatilidade das apresentações. O palco italiano era constituído de uma boca de cena arredondada, na qual luzes eram escondidas do público por meio de anteparos. Uma cortina de veludo adornava a boca de cena e permitia a troca de cenários e disposições musicais a partir de um mecanismo de trilhos e argolas suspensas responsáveis por sua abertura e fechamento. O palco passou a contar com uma caixa cênica dotada de espaços que comunicavam o palco com os bastidores (coxias), urdimentos que abrigavam toda maquinaria responsável pela criação de efeitos especiais (no segundo plano vertical do palco) e o porão.

A caixa cênica surgia como um importante mecanismo de condicionamento acústico em conjunto com a geometria da sala. Assim como acontece no anfiteatro da Casa D’Itália, em Juiz de fora, palcos italianos eram dispostos dentro de uma sala retangular, também denominada “shoebox”, uma espacialidade capaz de proporcionar muitas reflexões sonoras laterais e um aumento gradual da propagação das frentes de onda em suave decaimento. Uma sala como esta tem a tendência por reforçar o som dos instrumentos musicais, sobretudo os instrumentos de corda, sendo ideal à performance musical sem amplificação. Poderíamos citar três teatros italianos, exemplares primeiros da adoção desta estruturação de palco que permaneceram intactos até os dias atuais: Teatro Olímpico de Vicenza, projetado pelo arquiteto Andrea Palladio, em 1581; o Teatro de Abbioneta, projetado por Scamozzi, em 1590 e o Teatro Farnese, projetado por Aleotti, em 1618.

Perspectiva atual do anfiteatro da Casa D’Itália e fotografia de sua histórica apropriação performática.

Fonte: Acervo pessoal e acervo fotográfica da Casa D’Itália.

A popularização da ópera e do teatro falado durante os séculos XVII e XVIII fez com que apenas em Veneza houvesse aproximadamente 14 casas de espetáculos em funcionamento regular. O palco italiano se tornou rapidamente o modelo absoluto em todos os países da Europa. Lully, diretor de ópera de Luis XIV, promoveu por toda a França um crescente processo de italianização da arquitetura teatral. O palco italiano era responsável por um grande efeito de arrebatamento na plateia, seus recursos de iluminação e acústica a absorvia facilmente. Diante do espetáculo a plateia chegava a perder a consciência de que eram apenas espectadores, ilusões cênicas e cenográficas tornavam a performance algo ainda mais mágico.

Fontes:

ZILIO, D. T. A Evolução da Caixa Cênica: transformações sociais e tecnológicas no desenvolvimento da dramaturgia e da arquitetura teatral. Pós, São Paulo, v. 17, n. 27, p. 154 – 173, 2010.

LIMA, E. F. W. Arquitetura Teatral no Século XVII: o processo de italianização do modela francês dos jeux de paume. A cenografia do período e as transformações da arquitetura. O Percevejo, v. 4, n. 1, p. 1 – 18, 2012.

RODRIGUES, C. C. Teatro da Vertigem e a Cenografia do Campo Expandido. Disponível em: <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.092/174> Acessado em: 16 de agosto de 2020.


Rodrigo Spinelli

Arquiteto e urbanista, graduado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFJF. Atuante nas áreas de acústica arquitetônica e patrimônio. Pesquisador em paisagem sonora histórica, integra o grupo de pesquisa em Paisagem sonora do Grupo de estudos em Edificações Sustentáveis (GEES) do Laboratório ECOS. Pianista, tem o cravo como instrumento complementar. É membro do núcleo de estudos interdisciplinares em musicologia e performance historicamente informada (NEIM-PHI).


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