Uma discussão prévia sobre o patrimônio arqueológico em Chiador-MG

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 28, 2022 – Marcos Dimas Lemos | Uma discussão prévia sobre o patrimônio arqueológico em Chiador-MG


Chiador contém belos atrativos naturais típicos das cidades do interior de Minas, assim como elementos antrópicos únicos ligados diretamente à história do Brasil. A prática do turismo vem crescendo gradativamente no município, pois esse setor vem sendo explorado no território chiadorense e está sendo visto como novo e futuro fator econômico de interesse, especialmente após o ano de 2017, quando foi criada, por meio da Lei 902 de 18 de abril do mesmo ano, a Secretaria Municipal de Turismo de Chiador.

Destacarei aqui dois peculiares e exclusivos patrimônios presentes no município. O primeiro é o sítio arqueológico Toca do Índio, um dos poucos sítios arqueológicos que contêm pinturas rupestres na Zona da Mata mineira. Tal patrimônio já está cadastrado no IPHAN, no banco de dados do Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos desde 1997. Ele se encontra em um local de propriedade particular e de difícil acesso, e ainda não é explorado como atrativo turístico, pois precisa de uma proposta de conservação para a não degradação do mesmo, proposta essa feita em minha pesquisa.

O segundo patrimônio em destaque são as ruínas da estação ferroviária. A construção em ruínas foi tombada em 2003 pela esfera municipal, sendo este um elemento histórico presente no município, inaugurado em 27 de junho de 1879, ainda no antigo povoado de Santo Antônio dos Crioulos. Inaugurada pelo Imperador D. Pedro II e sua comitiva, é a primeira estação ferroviária em solo mineiro, construída com recursos do império brasileiro em parceria com companhias inglesas. Hoje, tal patrimônio encontra-se em ruínas e aguarda a revitalização, já determinada pelo Ministério Público. Os recursos para a restauração do monumento estão assegurados por Furnas Centrais Elétricas S.A., conforme publicação de 26
de outubro de 2012, quando o MPMG ajuizou ação em Mar de Espanha, na mesma região, contra a estatal Furnas Centrais Elétricas S.A., para que a empresa restaurasse tal patrimônio,
como compensação pela construção de hidrelétrica.

História do município

Situado no extremo Sul da Zona da Mata mineira, o território atual do município de Chiador pertencia, no passado, histórica e administrativamente, à cidade de Mar de Espanha. Através da Lei provincial nº 2.085, de 24 de dezembro de 1874, foi elevado à categoria de distrito da cidade mineira com a denominação de Santo Antônio do Chiador. Já no ano de 1953, o distrito foi elevado à categoria de município, desmembrando-se de Mar de Espanha e carregando, como herança, o distrito de Penha Longa e a estação de Santa Fé (VANNI, 2001).
É relevante destacar que, apesar da emancipação ocorrida em 1953, Chiador continua vinculado a Mar de Espanha como município integrante da sua comarca.

O município de Chiador está localizado na Bacia Hidrográfica do rio Paraíba do Sul e possui extensão territorial de 252,852 km². Em 1953, quando emancipado, contava com mais de 5 mil habitantes (VANNI, 2001). Segundo o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade no ano de 2010 possuía 2.785 habitantes, com a densidade demográfica de 11,01 hab./km²; já para o ano de 2021 a população estimada é de 2.657 pessoas, ou seja, a tendência do município é de se esvaziar ainda mais a cada ano. A título de curiosidade, a origem do nome da cidade remonta a um chiado que se escutava da antiga estação ferroviária, produzido por uma cachoeira do rio Paraíba do Sul que fica a cerca de 500 metros da estação. Além do rio Paraíba, a cidade também é banhada por um rio não muito conhecido pelos munícipes, cujo nome é rio do Macuco.

Chiador faz divisa com três municípios da Zona da Mata mineira, sendo eles: Além Paraíba, Mar de Espanha e Santana do Deserto, e também faz divisa com três municípios do Estado do Rio de Janeiro, sendo eles: Comendador Levy Gasparian, Três Rios e Sapucaia. Segundo o IBGE (2022), o município está inserido na mesorregião da Zona da Mata e na microrregião de Juiz de Fora, e apesar da sua privilegiada situação geográfica, a cidade de Chiador não tem recebido do governo de Minas a atenção necessária para o seu desenvolvimento, pois a mesma é dependente da cidade fluminense de Três Rios em distintos aspectos. Como visto nos quantitativos populacionais supracitados, a cidade vem sofrendo um acelerado esvaziamento demográfico. Atualmente a maioria dos munícipes trabalham no município de Três Rios, podendo este ser um fator relevante para tal esvaziamento demográfico.

A importância de preservação do patrimônio arqueológico

As paisagens são portadoras de uma intensa historicidade, porque são dinâmicas e mudam constantemente, conforme os sistemas socioeconômicos e biofísicos em suas distintas escalas espaciais. Sua acepção é abordada por múltiplas disciplinas, obtendo diversas definições, destacando-as como uma estrutura espacial resultante da interação entre os processos naturais e antrópicos. E é nesse contexto que estão inseridos os patrimônios arqueológicos e a relevância de sua preservação.

Assim como os estudos aplicados aos geossistemas, a Arqueologia da Paisagem tem sido uma das abordagens mais debatidas no campo de interface entre a Geografia e a Arqueologia, pois ela dispõe não apenas das análises dos artefatos arqueológicos localizados nos sítios, mas também analisa o contexto da paisagem no qual os sítios estão inseridos, utilizando geoindicadores arqueológicos que são capazes de fornecer inúmeras informações e hipóteses de evidências de ocupações e horizontes culturais pretéritos.

A importância da preservação do patrimônio arqueológico é respaldada por distintas leis no território brasileiro, mas elas por si só não preservam esses patrimônios, salientando, assim, a importância da comunidade na conservação desses elementos presentes na paisagem, usando como base os exemplos supracitados nesse texto. Para alcançar os objetivos propostos pela pesquisa que vem sendo desenvolvida por mim no município em questão, estão sendo feitos levantamentos bibliográficos de cunho teóricos, metodológicos, além de trabalho de campo apresentando a relevância de tal patrimônio, objetivando uma proposta de conservação do mesmo.

Com o passar dos anos, caso nada seja feito, o Sítio Arqueológico Toca do Índio será apenas uma lembrança para aqueles que tiveram o prazer de conhecê-lo, ou o que ficarão serão os relatos e as poucas lembranças fotográficas do mesmo. Sua importância é relevante simplesmente pelo fato de ser um sítio arqueológico com pinturas rupestres é notório que temos muitos registros de outros sítios na região da Zona da Mata Mineira, mas contendo pinturas rupestres são raros, destacando, assim, a importância da preservação do patrimônio
arqueológico em apreço.

Como aponta Corrêa (2011), o potencial turístico de um local está associado às distintas paisagens, assim como os símbolos históricos contidos na mesma, sendo os exemplos aqui expostos, assim como os demais presentes no território estudado, importantes patrimônios capazes de proporcionar afinidades interdisciplinares entre o Turismo, Geografia, História e a Arqueologia.

Este trabalho apresenta a importância do patrimônio arqueológico e, sem a pretensão de esgotar o assunto, porém com a preocupação e o objetivo de conservação desse relevante patrimônio arqueológico por meio das abordagens do geossistema e da Arqueologia da Paisagem, também pretende contribuir para futuras pesquisas dentro das temáticas abarcadas no mesmo.


Referências bibliográficas:

CORRÊA, Roberto Lobato. A paisagem e as imagens. Espaço e Cultura, Rio de Janeiro, v. 1, n. 29, p.7-21, 2011.

IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/. Acesso em 10 setembro de 2022.

IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Disponível em: http://www.portal.iphan.gov.br. Acesso em 10 setembro de 2022.

VANNI, Julio Cezar. Sertões do Rio Cágado. Origem de povoados, vilas e cidades que integram a bacia hidrográfica do Rio Cágado – MG. Niterói – RJ: Editora Comunità, 2001.


Marcos Dimas Lemos

Mestrando em Geografia – PPGEO/UFJF. Possui graduação em Informática pela Unicarioca, Licenciado em Geografia pela UERJ, especialização (Pós-graduação) em: MBA em Gestão de Negócios; Educação Ambiental e Sustentabilidade; Metodologia de Ensino de História e Geografia; Geografia Regional Brasileira; Gestão Educacional com Habilidade em Supervisão e Orientação. Fotógrafo, professor de cursinhos preparatórios para o ENEM, PISM, Pré-vestibular e ENCCEJA. Foi servidor público contratado para o cargo de Assistente Educacional na Prefeitura de Três Rios – RJ, professor na Prefeitura de Chiador – MG e Tutor Presencial nos cursos de Licenciatura em Geografia e Licenciatura em Pedagogia UERJ/CEDERJ – Polo Três Rios/RJ. Colaborador vinculado ao Museu de Arqueologia e Etnologia Americana (MAEA-UFJF) e Membro do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Chiador (COMPACHI).