Tá caindo fulô

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 28, 2022 – Giovana Martins Brito | Tá caindo fulô


Este texto visa abordar o Festival de Folclore de Jequitibá, apresentando sua história e os elementos culturais que o compõem. Neste espaço de celebração, o encontro entre as influências culturais indígena, africana e europeia é notadamente manifesto enquanto marcas do processo de formação do Brasil. Desse modo, tais aspectos serão contextualizados à luz das reflexões em torno do Patrimônio Imaterial, da Cultura Popular, do Folclore e do Pensamento Decolonial.

A Constituição Federal de 1988 permitiu a ampliação do entendimento sobre a noção de Patrimônio Cultural ao extrapolar a dimensão dos bens materiais, deslocando o olhar privilegiado que era direcionado às edificações arquitetônicas. Assim, foram reconhecidos os bens de natureza imaterial: as formas de expressão e os modos de criar, fazer e viver. Logo, fica definido o Patrimônio Cultural enquanto elemento portador de referência à identidade, à
ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Tal movimento resultou na publicação do Decreto nº 3.551, de 4 agosto de 2000, o qual institui o instrumento de Registro para os bens imateriais e cria o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial.

Algumas provocações nos ajudam a compreender a atitude muitas vezes contraditória e intencionalmente distanciada em relação à cultura popular. Tem-se ideia generalizada de que a cultura deve ser algo refinado, culto, elegante, com referências à sociedade europeia e/ou às classes dominantes, enquanto o popular é tido como ingênuo, pitoresco, ultrapassado. Esta concepção emerge da dissociação entre “fazer” e “saber”, pois o trabalho intelectual é visto como superior ao manual e, consequentemente, aquilo que é “popular” (do povo) é visto como um “fazer” destituído de “saber”. Mas, na verdade, toda cultura está sempre imbuída de inúmeras significações e valores, pois ela representa as múltiplas formas de linguagens e concepções de mundo (ARANTES, 1981). É a partir dessa dimensão ampla e plural que podemos então compreender a cultura e o folclore:

“Essa diversidade, que se desenvolve em processos históricos múltiplos, é o lugar privilegiado da “cultura” uma vez que, sendo em grande medida arbitrária e convencional, ela constitui os diversos núcleos de identidade dos vários agrupamentos humanos, ao mesmo tempo que os diferencia uns dos outros. Pertencer a um grupo social implica, basicamente, em compartilhar um modo específico de comportar-se em relação aos outros homens e à natureza.” (ARANTES, 1981, p. 26)
“Folclore é o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social. Constituem-se fatores de identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade.” (Carta do Folclore Brasileiro, 1995)

O Festival de Folclore de Jequitibá é inscrito no livro de registro na categoria Celebrações, conforme as orientações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). Tal processo contou com a elaboração de um dossiê de registro pela equipe técnica de consultoria Az Produções, em conjunto com a Prefeitura Municipal. Nesse sentido, os recursos para a realização do Festival são oriundos do Fundo Municipal do Patrimônio Cultural, através das verbas recebidas a partir do Programa do ICMS Patrimônio Cultural. O 32º Festival do Folclore de Jequitibá ocorreu entre os dias 7 a 11 de setembro de 2022, atraindo milhares de pessoas e trazendo grande visibilidade. É por meio da vivência durante esta edição que escrevo este texto, dada a felicidade em participar da sua organização enquanto membro da Az Produções, empresa responsável pela produção do evento sob a coordenação de Valéria Assad.

O surgimento da cidade está ligado às expedições bandeirantes, visto que Jequitibá se localiza às margens do Rio das Velhas. Sendo assim, a região esteve nas rotas de penetração de Fernão Dias e Borba Gato, que tinham como objetivo principal a busca por ouro e pedras preciosas durante o período colonial. Nesse contexto, os grupos bandeirantes que chegavam a este território traziam consigo também indígenas e negros escravizados, constituindo-se este elemento como ponto fundamental para o sincretismo cultural e religioso que iria então se afirmar no local.

Logo, Jequitibá teve sua herança construída a partir destas referências que se expressam culturalmente a partir de diversas manifestações de canto e dança, folias de reis, guardas de congados, artesanato, culinária, crenças e rezas. A partir de 1988, com a movimentação dos representantes dessas manifestações, a cultura popular começou a ser entendida como o aspecto central que caracteriza e dá identidade a esta comunidade. Desse modo, a cidade foi reconhecida como Capital Mineira do Folclore, dada a sua vasta diversidade cultural consolidada através dos intercâmbios entre o sagrado e o profano, assim como da convergência de influências entre o catolicismo e as tradições indígenas e africanas.

Diante disso, o Festival representa um momento de encontro e celebração das múltiplas manifestações folclóricas que compõem a região, contribuindo não só para a valorização desse patrimônio imaterial como também impulsionando sua transmissão entre gerações. O evento aconteceu pela primeira vez a partir da iniciativa de Geraldo de Jonas, Nelson Jacó e José de Ernestina, que reuniram alguns amigos e grupos folclóricos em casa. No ano seguinte, este encontro aconteceu na praça central da cidade, de modo que, já em 1988, a festividade passou a contar com apoio do poder público e a convidar grupos de diferentes localidades. São diversas as manifestações folclóricas que hoje acontecem no Festival, dentre as quais podemos citar: candombe; congados; folias de reis; encomendação das almas; dança do tear; fim de capina; boi da manta; lavadeiras; cantadeiras; cantigas e danças de roda.

O Congado em Jequitibá tem suas origens na região da Lagoa da Trindade, na comunidade quilombola de Dr. Campolina, onde se situa o Congado Nossa Senhora do Rosário, também conhecido como Congo dos Bianos. Esta Guarda tem como rainha Dona Dorva, com a força inesquecível de seu canto, benção e sorriso. Assim, vale lembrar que os ritmos interpretados nas músicas e danças dos congados são oriundos dos movimentos realizados repetidamente pelos escravizados durante a exploração de seu trabalho nas plantações. Por outro lado, a Folia de Reis tem suas raízes no cristianismo, pois se baseia na peregrinação dos três reis magos no dia do nascimento do menino Jesus. Desse modo, os grupos adotam vestimentas e máscaras coloridas, e são também acompanhados de seus instrumentos musicais para, então, sair em desfile pelas ruas da cidade. No Festival de Folclore todos estes grupos folclóricos se concentram no domingo de manhã na Igreja de Nossa Senhora do Rosário para fazer suas saudações e depois saem em cortejo em direção à área de eventos do Festival.

Outro elemento significativo da cultura desta região do Rio das Velhas é o Boi da Manta, também conhecido em outras regiões como boi-bumbá (norte) ou bumba-meu-boi (nordeste). A lenda conta que uma mulher grávida estava com desejo de comer língua-de-boi, e seu marido ao buscar satisfazer seu pedido acabou por levar à morte o boi mais importante
de um grande fazendeiro. Com isso, a movimentação para ressuscitar o boi teve que reunir três personagens que representam as influências de formação do Brasil: padre (catolicismo); benzedeiras (tradição africana); criança pura de coração ou pajé (tradição indígena). Esta história é contada de diferentes formas no Festival principalmente por meio dos folcloristas Eliezer Teixeira e Paulinho do Boi (responsável pelo grupo Quintal Boi da Manta e Carroça Teatral).

O Festival é pensado de modo articulado e integrado, levando em consideração o respeito à ancestralidade, assim como a afirmação dos sentidos de identificação e pertencimento. Nesse contexto, são realizadas várias ações de educação patrimonial como forma de assegurar a transmissão dessa cultura entre gerações. Em sua mais recente edição, o Festival recebeu cerca de 600 crianças da rede municipal que foram envolvidas por um circuito de atividades com: contação de histórias; visitas guiadas; jogo da memória e elaboração de desenhos com a temática do patrimônio. Ainda, outro grupo de crianças da rede estadual participou de uma oficina de tambor durante quatro dias com Maurício Tizumba, e pôde, então, se apresentar juntamente com o artista em seu show no Festival. Além do batuque, a viola também teve sua representatividade evidenciada com a performance de Chico Lobo e Orquestra Mineira de Viola Caipira.

O artesanato foi contemplado por meio da feira onde se podiam comprar diversos produtos e de oficinas oferecidas ao público geral para elaboração de oratórios e estandartes. Desse modo, é preciso dizer que a cidade conta com uma pulsante comunidade de artesãos que demonstrou todo seu talento ao elaborar parte da decoração do Festival. Também, a comida foi destacada por meio de oficinas de gastronomia, que ensinaram a preparar cansanção e feijão tropeiro, e da promoção do festival de culinária típica, a fim de ressaltar os pratos característicos da região. Em suma, pode-se perceber que a festividade gera um grande envolvimento da população, que participa de forma muito ativa em todos os momentos. Sendo assim, o protagonismo dos grupos folclóricos é elemento – chave para a realização e preservação do evento, pois são estes os verdadeiros detentores do Festival.

O patrimônio cultural é campo de disputas e também de afirmação de direitos, de modo que suas transformações conceituais e práticas são capazes de impulsionar uma virada decolonial. Romper com uma leitura unívoca do Brasil e lutar pela preservação da memória de grupos marginalizados têm se tornado um dos eixos principais de atuação das instituições
de patrimônio. Sob esse aspecto, o IEPHA declarou 2022 como o ano das Afromineiridades, a fim de incentivar ações para a valorização da cultura afro-brasileira. Logo, o patrimônio é uma importante ferramenta para a redução da intolerância religiosa, do racismo e do preconceito. Dito isso, a consolidação de políticas públicas de salvaguarda do patrimônio de grupos indígenas e de matriz africana é fundamental para o reconhecimento da herança desses povos enquanto formadores da nação brasileira. Portanto, este é um movimento que requer diálogo, resistência e a descolonização de pensamentos e estruturas de poder.

Encerro aqui este texto em homenagem e agradecimento a todos aqueles que fazem parte deste lindo Festival de Folclore de Jequitibá, esta celebração abençoada por flores de fraternidade, vida, esperança e amor. Assim, despeço-me à escrita na forma como me ensinaram ao cantar:

Eu não vou mais estar aqui
Mais nunca vou me esquecer
O calor que recebi
Dou de volta pra você

Tá caindo fulô, ê, tá caindo fulô
Tá caindo fulô, ê, tá caindo fulô
Lá do céu cá na terra, ê tá caindo fulô

Vou me embora, vou me embora
Deixo aqui meu coração
Vou saindo em plena aurora
Deixando fulô no chão

Tá caindo fulô, ê, tá caindo fulô
Tá caindo fulô, ê, tá caindo fulô
Lá do céu cá na terra, ê tá caindo fulô


Referências bibliográficas:

ARANTES, Antônio Augusto. O que é cultura popular. São Paulo, Brasiliense, 1981. 83 p. (Primeiros passos, n. 36)

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. Artigos 215 e 216. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/uploads/legislacao/constituicao_federal_art_216.pdf&gt;

Canção “Tá caindo fulô”. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/casa-de-farinha/209497/&gt;

CHUVA, Márcia. Patrimônio Cultural em perspectiva decolonial: historiando concepções e práticas. In: Alice Duarte (ed.), Seminários DEP/FLUP, v.1. 2020. Porto: Universidade do Porto, Faculdade de Letras/DCTP, p. 16-35.

CONGRESSO BRASILEIRO DE FOLCLORE, 8., 1995, Salvador. Anais… Salvador: UNESCO: Comissão Nacional do Folclore, 1999. p. 197-204.
Recomendação da UNESCO sobre Salvaguarda do Folclore, por ocasião da 25ª Reunião da Conferência Geral da UNESCO, realizada em Paris em 1989 e publicada no Boletim nº 13 da Comissão Nacional de Folclore, jan./abr. 1993. *A Carta do Folclore Brasileiro foi aprovada no I Congresso Brasileiro do Folclore, realizado no Rio de Janeiro, de 1951. Sua releitura em 1995 foi orientada pela Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular, de 1989, da Unesco.

Decreto nº 3.551, de 4 agosto de 2000. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/uploads/legislacao/Decreto_n_3.551_de_04_de_agosto_de_2000.pdf&gt;

Mídias sociais Festival de Folclore de Jequitibá. Disponível em: <https://www.instagram.com/folclorejequitiba/><https://www.youtube.com/c/AZPRODUCAOFOLCLOREJEQUITIBA/videos>Programa Afromineiridades. Disponível em: <http://www.iepha.mg.gov.br/index.php/9-noticias/691-afromineiridades-programa-de- valorizacao-da-cultura-afro-em-minas-gerais> e <http://www.iepha.mg.gov.br/index.php/noticias-menu/663-afromineiridades-patrimonio-cultural&gt;

Programa ICMS Patrimônio Cultural. Disponível em: <http://www.iepha.mg.gov.br/index.php/programas-e-acoes/icms-patrimonio-cultural&gt;


Giovana Martins Brito

Mestranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Historiadora, com Habilitação em Patrimônio Histórico pela mesma Universidade. Participou do Grupo de Educação Tutorial (GET) do curso de Turismo entre 2017 e 2018. No ano seguinte, atuou no na organização do acervo documental do Arquivo Central da UFJF. Depois, de 2019 até 2022 foi monitora da disciplina de Patrimônio Histórico oferecida pelo Departamento de História da UFJF. Recentemente, começou a desenvolver um projeto de Educação Patrimonial através do PIBIART/UFJF. Atualmente é membro do Grupo de Pesquisa Patrimônio e Relações Internacionais (CNPq) e, também, do Laboratório de Patrimônios Culturais (LAPA). Além disso, trabalha na AZ Produções, empresa especializada  em consultoria do ICMS Patrimônio Cultural, produção de eventos e gestão cultural.