Educação Patrimonial em perspectiva: identidade e diversidade cultural

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 28, 2022 – Yngrid da Silva | Educação Patrimonial em perspectiva: identidade e diversidade cultural


A Educação Patrimonial age enquanto um instrumento contínuo de tradução e apropriação do passado a partir do patrimônio histórico e cultural. Com ênfase na preservação das heranças construídas pelos diferentes povos que nos compõem, trabalha-se a partir das experiências no tempo e no espaço, colaborando no compartilhamento de conhecimentos e vivências (CASCO, 2013).

Assim, os sentidos atribuídos aos bens culturais, materiais e imateriais, ao longo da história funcionam como ponto de partida para a confecção coletiva de saberes em uma comunidade. Em todas as suas manifestações, trata-se de um processo contíguo à formação da identidade dos indivíduos em relação aos grupos sociais de seu convívio, ou seja, tem fundamental importância na apropriação dos costumes e dos valores.

Como um campo voltado à reivindicação social do Patrimônio, da Educação Patrimonial emana um potencial pedagógico pertinente à transmissão e formulação de conhecimentos que digam da multiplicidade das sociedades às quais pertencemos. Suas práticas fundamentam-se, portanto, na categorização e intelecção das estruturas socioculturais em contextos determinados, voltando-se a uma espécie de “alfabetização cultural”, de acordo com o Guia Básico da Educação Patrimonial (1999), produzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) (HORTA, 1999).

Contudo, atuar pelo reconhecimento do legado cultural deixado por nossos antepassados – e construído por nós cotidianamente -, exige que nos atentemos às lacunas de não representatividade criadas e recriadas no decorrer de nossa trajetória, a começar pela colonização. A partir da perspectiva dos grupos hegemônicos, no processo de construção de uma memória nacional para o Brasil, elegeram-se tipos ideais de vivências – ocidentalizados, brancos e eurocêntricos – a serem representados histórica e patrimonialmente, relegando, ao menos oficialmente, os povos originários, africanos e seus descendentes ao esquecimento e ao gradativo apagamento de suas origens e epistemologias.

Consoante à dominação política e econômica historicamente impostas a essas gentes, seus horizontes culturais, intelectuais e religiosos foram e vêm sendo continuamente tolhidos por aqueles que ocupam posições de poder.

 Dessa maneira, no escopo da valorização da diversidade social e das expressões regionais da cultura, a Educação Patrimonial tem papel fundamental na transmissão dos diversos modos de vida, símbolos e essências daqueles que nos constituem. Além disso, mesmo imiscuindo-se no cotidiano das relações humanas, de maneira informal, trata-se de um dos campos possíveis para a atuação acadêmica na formulação e reformulação de narrativas histórico-patrimoniais mais inclusivas, voltadas à problematização das anulações históricas e à aplicação de pedagogias múltiplas.

Pode, ainda, configurar-se em uma excelente oportunidade para estabelecer conexões entre o grande público e as pesquisas universitárias, abrindo espaços para a aprendizagem mútua, para a valorização dos saberes populares e para a conscientização geral a respeito da importância de proteger e preservar os bens culturais materiais e imateriais brasileiros.

Patrimônio cultural

O conjunto de bens materiais e imateriais, oficializados ou não, que compõem o Patrimônio Cultural Brasileiro expressa a produção cultural dos diversos povos que participaram e participam da confecção de nossas comunidades.

Em seu aspecto material, diz respeito ao todo patrimonial composto por elementos cujo potencial cultural se encontra em suportes palpáveis, tais quais “(…) as cidades históricas, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; ou móveis, como coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos” (IPHAN, 2014). Mesmo que se incorporem a essa categoria, dos objetos culturais materiais também emanam os sentidos que dizem respeito à forma e à intencionalidade pelas quais foram produzidos, pertencendo também a um universo simbólico e imaterial.

Os patrimônios de natureza imaterial, por sua vez, se referem à multiplicidade das formas de existir, agir e pensar que se fazem presentes em nosso contexto, se manifestando-se através de redes de significado constituídas por inúmeras práticas, saberes, festividades e religiosidades, propagadas genealogicamente, em movimento contínuo de reinvenção e incorporação pelo novo (CABRAL, 2010, p. 5).

Quando oficializados, os bens patrimoniais são reconhecidos nas esferas públicas enquanto referências culturais coletivamente construídas. Com grande importância para a preservação e compreensão da identidade e da memória de um ou mais grupos do país, são colocados sob a tutela da administração federal, estadual e/ou municipal e inseridos nas  narrativas histórico-patrimoniais apresentadas por instituições de memória, como museus, arquivos, bibliotecas e memoriais, por exemplo (HORTA, 1999). Do contrário, se não se encontram entre os patrimônios reconhecidos e catalogados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Brasileiro (IPHAN), atravessam as experiências rotineiras das populações, revelando o dinamismo das relações informais que estabelecemos comunitariamente com nossos patrimônios vivos.

A eleição dos objetos culturais de uma sociedade é pensada a partir dos aspectos considerados relevantes à representação. Da forma como foi historicamente construída no Brasil, essa seleção incorporou-se ativamente a um processo de valorização das experiências de um grupo em detrimento de outros (LIMA, 2011). Constituem-se, então, modelos de cultura cujas histórias merecem atenção e desconsidera-se a diversidade de sujeitos em atuação na feitura do país (SOUZA, 2011).

O patrimônio cultural diz, então, do percurso histórico de politização pelo qual as representações identitárias passam, por meio da disputa e do convívio entre diferentes símbolos e sociabilidades. Enquanto herança cultural, se concretiza, propaga e enriquece de geração em geração, transformando-se em uma fonte rica de informações a respeito daqueles a quem pertence. Assim, analisar os bens patrimonializados de uma comunidade, além de contribuir para sua preservação e para a transmissão dos conhecimentos a eles associados, é uma maneira de conhecer melhor o passado e as especificidades de uma comunidade (POULOT, 2009). A partir da busca pelos sentidos historicamente confeccionados em torno dos patrimônios, materializados em objetos advindos do passado ou reproduzidos na forma de costumes, saberes, festividades e religiosidades, podemos alcançar algum grau de inteligibilidade a respeito das redes de significado pelas quais se traduzem as culturas de outras sociedades, em épocas anteriores (CHOAY, 2014, p. 22-25).

Educação patrimonial como ferramenta didática

Tratando-se de um campo do Patrimônio Cultural voltado à valorização da cultura brasileira, em toda a sua diversidade, a Educação Patrimonial é uma importante ferramenta pedagógica para auxiliar na compreensão dos processos de apropriação dos bens culturais. A partir de um trabalho de memória, cujas premissas se orientam pelas formas de representação do passado, atua-se em prol da construção, reconstrução e apreensão dos sentidos criados pelos diferentes grupos sociais ao longo do tempo, por meio de suas respectivas epistemologias.

A tarefa de educar para o reconhecimento, a incorporação e a fruição dos patrimônios culturais no âmbito das vivências coletivas e individuais é, portanto, um exercício de análise das identidades que compõem uma comunidade. Atravessada pelas dinâmicas da memória e da ancestralidade que guiam a nossa relação com as experiências humanas pretéritas, responde, ainda, à multiplicidade das formas de transmissão dos saberes.

As leituras construídas em torno da memória não aludem apenas ao que se foi. A maneira pela qual nos conectamos às lembranças e às heranças deixadas por nossos antepassados faz parte dos processos de integração do indivíduo ao corpo social ao qual pertence. No âmago da produção de cultura, encontra-se a diversidade das naturezas, dos sujeitos e dos povos que a criam, repensam e desconstroem no cotidiano. Por isso, os educadores que se preocupam em pensar as relações sociais a partir do patrimônio devem trabalhar o dinamismo inerente à cultura em sala de aula, denotando sua fluidez e sua historicidade.

Ensinar sobre a relação entre as comunidades e seus bens culturais é falar sobre os caminhos pelos quais chegamos ao arranjo sociocultural contemporâneo. Isto é, a Educação Patrimonial, enquanto um recurso didático, preocupa-se em formar alunos capazes de reconhecer-se nos seus patrimônios e de compreender a cultura como um fruto de processos históricos, assumindo a pluralidade étnica, social, intelectual e religiosa como princípio.

Dessa forma, a valorização das origens e da ancestralidade vincula-se à apropriação dessa multiplicidade de passados e de meios de transmissão dos legados culturais pelos estudantes. Reproduzidas pelo patrimônio cultural material e imaterial, as disputas narrativas entre essas perspectivas faz parte da composição das identidades brasileiras.


Referências bibliográficas:

CABRAL, Clara Maria Ferreira Bertrand. Património cultural imaterial: proposta de uma metodologia de inventariação. 2010. Tese de Doutorado. Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

CASCO, Ana Carmen Amorim. Sociedade e educação patrimonial. Revista eletrônica do Iphan, Rio de Janeiro, v.2, n.1, p. 15-25, 2013.

CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Lisboa: Edições 70, p. 22-25, 2014.

HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; GRUNBERG, Evelina; MONTEIRO, Adriane Queiroz. Guia básico de educação patrimonial. Brasília: Iphan, 1999.

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Patrimônio Cultural, IPHAN, Brasília (DF), 2014. Disponível em: < http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/218&gt;. Acesso em 14 de setembro de 2022.

LIMA, Tânia. Cultura material: a dimensão concreta das relações sociais. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 6, p. 19-20, 2011.

SOUZA, Edson Vander de. Identidade e patrimônio cultural: algumas considerações. Revista Eletrônica da Faculdade Metodista Granbery, v. 11, p. 1, 2011.

POULOT, Dominique. Uma história do patrimônio no Ocidente, séculos XVIII-XXI: do documento aos valores. Estação Liberdade, p. 12 -31, 2009.


Yngrid da Silva

Professora de história formada pela UFJF Ex-docente voluntária do curso popular PreparaEnem UFSJ; Docente voluntária no Instituto Amargen (ONG); Membro do Museu de Arqueologia e Etnologia Americana da Universidade Federal de Juiz de Fora; pós-graduanda em Educação Especial; cursando Pedagogia (Anhembi Morumbi); Ex-estagiária do Colégio Apogeu Cidade Alta; Ex-Monitora da rede de ensino Apogeu; Auxiliar de Coordenação no Colégio Apogeu Cidade Alta.