As mulheres e o saber fazer: o bordado nos dias de hoje

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 28, 2022 – Romilda Lorenzo Gomes | As mulheres e o saber fazer: o bordado nos dias de hoje


Num domingo de sol, alguém nota sobre a mesa uma toalha branca bordada e no mesmo instante lembra-se da mãe/tia/avó/madrinha — muito provavelmente treinada desde o final da infância nesta arte do particular —, recebendo serenamente o abraço firme que é o sentir-se pertencente a um lugar; o saber, ao sentir, que se tem uma origem, por singela que ela seja.

Este artigo fala disso: a micropoesia do cotidiano por onde circulam, em silêncio, grandes tesouros escondidos em pequenas coisas aparentemente sem importância e perdidas no tempo; a força que emerge da validação da narrativa feminina nas artes e do reconhecimento da experiência do bordado feito a mão como estratégia de resistência de aspectos vitais intangíveis da nossa identidade. Patrimônio imaterial, o legado do bordado vem movendo as linhas de fronteira entre arte e técnica e segue sendo incomodamente subversivo.

Poderoso instrumento de expressão, a arte tem lugar de destaque na atuação do soft power: potente e atual elemento de afirmação e difusão da identidade de um povo ou nação.

Arte e técnica

Em maio, por ocasião do casamento, a estrela da festa, segundo o relato dos convidados presentes, foi o vestido da noiva: Janja Lula usava uma obra em branco sobre branco, feita a partir do tradicional tema do cancioneiro popular brasileiro “Luar do sertão” e inteiramente bordada pelas mãos das artistas de Timbaúba dos Batistas, localidade do Rio Grande do Norte. Em janeiro do ano anterior, em outra cerimônia, novamente os olhos do mundo se voltaram para um traje completamente branco e bordado, desta vez assinado pela designer uruguaia Gabriela Hearst, que, incluindo vestido e casaco em cashmere bordado em seda, foi usado no evento de posse pela primeira-dama estadunidense Jill Biden, seguindo um padrão floral em que cada flor representou um estado da federação e no qual a flor representante do estado de residência da família foi simbolicamente bordada a altura do coração.

São duas situações públicas recentes de enorme visibilidade, para ficarmos em apenas duas, nas quais vimos emergir o bordado com toda a força de seu caráter simbólico, que segue viva, e cujo estudo lança luz sobre uma parte ainda menos conhecida da longa tradição de lutas da humanidade, ainda em construção: a história das mulheres. Quando olhamos com atenção os casos acima, tomados como exemplo, eles servem para abordarmos o tema do cisma entre a arte e a técnica. No primeiro caso, há um empréstimo de visibilidade celebrando o coletivo de mulheres bordadeiras do Sertão do Seridó, com toda a força que possa representar, embora a autoria do design seja evidentemente também de conhecimento público. No segundo caso, o destaque se deu à autoria do design, celebrando também sua origem humilde, mas deixando menos espaço para a difusão da técnica ou a promoção da identidade das artífices. Os parâmetros criativos abarcam a altíssima qualidade das duas peças e seus mundos distintos.

Como se pode notar nos detalhes das peças da exposição “Haute Bordure”, do Fries Museum
holandes, muito da singularidade na base da alta costura repousa nas mãos experientes e nos
olhos atentos de artífices bordadeiras, sem que sua identidade seja, na maioria dos casos,
conhecida do público em geral.

Expressão e perfeição

Entre as narrativas da arte e da técnica, o bordado ganha destaque: Tem sua origem, provavelmente, a partir da costura, mas, diferentemente de outras expressões têxteis, como a tapeçaria, tem uma função inteiramente estética, e não utilitária. Assim, o bordado, antes de falar do lugar da mulher, tem falado sobretudo do subalterno, aquele sujeito a quem foi negado o locus de expressão, objetivo da arte (em detrimento da perfeição, que, pela repetição, seria o que busca a técnica).

Vide elementos da obra de Bispo do Rosário, um dos grandes nomes da arte contemporânea, os bordados de João Cândido, o almirante negro louvado na obra de Aldir Blanc, e a experiência dos soldados nas enfermarias do pós-Primeira Guerra Mundial.

Origem

Embora não se possa afirmar o quando e o onde de seu surgimento, tão antigo e tão pouco resistente à passagem do tempo, presume-se que a expressão bordado tenha sua origem na França, inicialmente referindo-se à aplicação de um tratamento distintivo nas bordas dos tecidos, de onde, a partir do desenvolvimento nesse ornamento das bordas, teriam surgido as rendas. A palavra, em linhas gerais, tem sido, ao longo dos séculos, usada para designar tanto a prática da aplicação de fios sobre uma base quanto a base em si, geralmente têxtil.

Parece importante lembrar que, no tempo de Henrique VIII, um homem vestia sua riqueza, sendo tal regalia privilégio exclusivo da nobreza e do clero, tornando a produção das peças um processo altamente valorizado. A partir do século XVIII, deu-se um momento da maior importância na história recente e cujos danos e efeitos se fazem sentir até hoje, que foi o cisma entre a arte e a técnica provocado pela revolução industrial. Em outras palavras, a separação entre a elaboração e a reprodução das obras de arte, independentemente da perda da qualidade de vida das pessoas e da qualidade das peças em si mesmas, em função da velocidade e do lucro. Diante disso foi que se levantaram a prática e o pensamento do polímata William Morris e do historiador e crítico de arte John Ruskin, no Movimento Arts & Crafts, revolucionário sob vários aspectos, já que a oposição generalizada à igualdade das mulheres era um tema que unia liberais e conservadores na Grã Bretanha do XIX, segundo a pesquisadora Filipa Vicente. O pensamento de que é possível transformar as coisas, do qual o Movimento pode ser considerado um produto, ficou bordado na obra e na história de May Morris, e é preciso conhecê-lo. Um gesto que se ergueu diante dos resultados nefastos do cisma no cotidiano dos indivíduos sob diversos aspectos: humanos, sociais e econômicos, pela artista e, antes dela, por seu pai. Sua produção alcançou os mais altos níveis de excelência, opus anglicanum. E, tendo aprendido a técnica da aplicação dos fios com sua mãe e a composição das peças com seu pai, reunindo ela mesma as duas qualidades, foi um gigante com um pé em cada mundo, tendo deixado um rico legado, pois viajou palestrando e se reunindo com coletivos de mulheres, inclusive nos Estados Unidos, onde o movimento ganhou força por seu caráter progressista.

Embora a produção de May Morris tenha alcançado certo reconhecimento, se encontra ainda em curso o reconhecimento do bordado como arte que foi relegada à condição de técnica por suas associações ao feminino, diferentemente do status da arquitetura, da escultura e da pintura. Como lembrou a artista Luiza Romão, na literatura grega clássica, sozinha Penélope desfiando desafiava a multidão, os corvos e o filho, mas os deuses aplaudiam Ulisses.

Entre tantas Penélopes, uma estrela se destaca por seu legado tão atual, tão vital e adiante do seu tempo em May Morris. E, apesar das fragilidades da aproximação entre a arte e a técnica, cada vez mais a trajetória de artistas vem ganhando destaque, com obras nas quais os bordados falam por si. Nomes dignos de qualquer galeria de arte pelo mundo podem ser conhecidos cada vez mais na internet, como Michelle Kingdom, Dindga McCannon, Clara Nogueira, Anuradha Bhaumik (hooplaback.girl), Karen Dolorez, para ficarmos em alguns nomes.

Na aparente singeleza de um tecido de algodão, se detém muitas vezes o tempo de alguém, seu mais valioso bem, narrativas da vida interior traduzidas em senso de harmonia e habilidade.

Para o patrimônio vivo é vital a experiência e o convívio, pois sem esses elementos não acontece a transmissão. Em seu artigo para uma revista da Unesco “Não há nada de novo, mas tudo mudou” o pedagogo Antonio Nóvoa nos lembra que é preciso considerar o sentir na aprendizagem, sob o risco da perda de qualquer sentido diante da ênfase na tecnologia em detrimento da vivência e do fazer comuns próprios da experiência cotidiana.


Para saber mais:

Para saber mais:

https://www.telegraph.co.uk/art/artists/may-morris-unsung-heroine-arts-crafts-movemenhttps://artebrasileiros.com.br/art/fama-takes-art-brut-to-itu/t/

https://www.friesmuseum.nl/en/see-and-do/exhibitions/haute-bordure

https://followthecolours.com.br/art-attack/bordados-michelle-kingdom/

https://www.jornaldaslajes.com.br/integra/bordados-feitos-por-lider-da-revolta-da-chibata-na-34-bienal-de-sao-paulo/3413

Embroidery as Rehabilitation After WWI – Inspirations Studios

https://artebrasileiros.com.br/art/fama-takes-art-brut-to-itu/


Romilda Lorenzo Gomes

Mestranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora e pesquisadora integrante dos Grupos de Pesquisa Patrimônio e Relações Internacionais e Laboratório de Patrimônios Culturais, no ICH – Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora.