Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 28, 2022 – Mariana Cunha de Faria | Angu como tradição saberes e fazeres
Angu… ah o angu, comida que agrada ao paladar de quase todas as pessoas de diversas classes sociais e de qualquer idade. Hoje em dia pode ser encontrado em diversos restaurantes e casas brasileiras. Dependendo do estado em que for consumido, seus acompanhamentos podem mudar, mas a suculência sempre é de dar água na boca.
O angu é uma comida com sabor de infância, da casa da avó, com couve rasgada e frango caipira, comida “típica” da antiga arte de cozinhar no fogão à lenha que aconchega a família ao redor. Uma delícia gastronômica que exala afetividade, mas, nem sempre teve conotação aconchegante, já que, para os nossos ancestrais, também poderia ser entendida como modo de resistência e preservação da vida. Apesar de ser uma comida camaleoa, que pode ser servida com ou sem tempero e vir acompanhada de diversos alimentos, já foi a principal e talvez a única refeição de muitas pessoas.
Origens do angu de ontem e hoje
O termo angu é derivado da palavra ÁGUM, que vem do idioma FON, de origem africana, usado para se referir a uma papa feita de inhame. Com a expansão portuguesa, o milho foi introduzido na costa africana, tornando-se a matéria – prima para o angu. Já no Brasil, a palavra angu era utilizada para se referir às papas feitas com farinha de mandioca, feijão e milho, tendo o prato recebido influência de portugueses e italianos. Em terras brasileiras, a papa, que antes era conhecida como comida de pessoas escravizadas, passou a ter diversas versões feitas com farinhas de milho ou de mandioca, ganhando espaço na mesa dos brasileiros.
O angu, bem como outros alimentos de origem africana que antes eram sinônimo de pobreza, sendo então atrelados à miséria que o período da escravidão perpetuou para grande parte da população, tanto da zona rural quanto das camadas sociais mais pobres nas regiões urbanas, foram incorporados ao dia a dia e também influenciaram a alimentação da população brasileira por meio das trocas entre saberes e fazeres tradicionais no meio gastronômico, desde as cozinhas mais simples aos restaurantes sofisticados.
Tipos de angu
No Brasil, o angu é uma comida que recebeu algumas adaptações que resultaram em dois tipos: o mineiro e o modo baiano. No modo de fazer angu mineiro não há adição de sal, a consistência é mais firme, sendo servido com os típicos acompanhamentos da gastronomia mineira como a couve, carnes cozidas bovina ou suína ou até mesmo frango com quiabo.
O angu de consistência molinha, quase um ponto acima do mingau, servido com miúdos de porco, é conhecido como angu à baiana. Como é um alimento plural, também conta com uma versão do sul, que se assemelha à polenta italiana, lembrando que, por mais que os dois alimentos sejam deliciosos, têm particularidades que os diferenciam culturalmente e em seu modo de fazer, embora sejam visualmente parecidos. Portanto, polenta é polenta e angu é angu.
Por ser um alimento mais barato e que sacia a fome, já teve versões doce e frita. Anteriormente, no período colonial, o termo angu era usado para indicar as papas feitas com a farinha de milho, que continuam a receber o mesmo nome hoje em dia; já a papa feita de feijão passou a ser conhecida como tutu e a papa feita com a farinha de mandioca ganhou o nome de pirão. Esses alimentos ganharam os mais diversos modos de acompanhamento e de acompanhar outros alimentos, sempre gostosos e carregados de memórias familiares e também de histórias.
Conclusão
O angu é um alimento que passou por vários momentos da história, que saiu de símbolo da miséria para símbolo de comida boa, um alimento intercontinental, pois sofreu influências europeias, chegou ao Brasil e continuou na cultura alimentar, conquistando um lugar especial no cardápio da população brasileira. Também se mostra como forma de resistência de um povo que sofreu e ainda sofre com apagamentos de suas raízes culturais, pois antes de chegar a ser uma comida com gosto de infância foi também a comida com gosto de sofrimento e saudade da terra natal, deixou de ser símbolo de pobreza para ser símbolo de resistência.
Referências bibliográficas:
CARVALHO, Maria Augusta. Comeres de África Falados em Português. Lisboa: Casa das Letras, 2013.
DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica do Brasil. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1980.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Ed. Centauro, 2004.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagens pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Trad. Clado Ribeiro de Lessa. São Paulo: Biblioteca Pedagógica Brasileira, 1938.
<https://rehagro.com.br/blog/origem-do-milho-no-brasil/> Acesso em: 12 de set. 2022

Mariana Cunha de Faria
Mestranda no programa de Pós graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora. Membro do LAPA (Laboratório de Patrimônios Culturais) da Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalha no Centro de Conservação da Memória da Universidade Federal de Juiz de Fora (CECOM-UFJF).