Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 27, 2022 – Uma casa toda nossa | Por uma literatura feita por mulheres
Olá, leitoras e leitores!
Nós somos um coletivo de mulheres escritoras chamado Uma casa toda nossa. Um coletivo que abre as portas para mulheres que escrevem e acolhe as palavras de mulheres que vêm nos visitar. Espalhamos essas palavras no mundo por meio de um trabalho em grupo, colaborativo, independente e livre para fazer escolhas, do jeito que der na nossa telha.
Tudo começou em 2018, quando formamos um grupo na internet para conversar sobre a arte das palavras, especialmente sobre a escrita feita por mulheres, e nos fortalecermos como escritoras. Também fazia parte da nossa missão nos encorajarmos a sair da nossa casa, do nosso espaço privado da escrita, e ocupar o espaço público da literatura.
A participação das mulheres na produção literária está crescendo, mas elas ainda podem estar mais presentes como autoras, editoras e personagens de livros. Nós queremos ocupar mais as prateleiras das livrarias, os festivais e as listas de premiação da literatura. Nós queremos ser lidas com mais afinco, tendo a oportunidade de mostrar, através das nossas palavras, que as histórias escritas por nós e sobre nós dizem respeito a todas, todos e todes. E nós queremos que mais mulheres tirem seus textos da gaveta, da pasta amarela.
Por isso, nossa missão é também elaborar, através de nosso perfil no instagram (@casa.toda.nossa), ações para promover a escrita, divulgar mulheres escritoras em toda a sua diversidade e estimular a leitura dos textos literários escritos por elas e transformados em livros por elas. Embora existam iniciativas inspiradoras como a do Projeto Leia Mulheres¹, por exemplo, que aos poucos estão despertando o interesse e a consciência de que é importante e gratificante ler nossos livros, ler mulheres, a verdade é que nós precisamos continuar lutando para que o universo literário seja mais acolhedor e diverso, como é a nossa casa-coletivo, e assim conquistar ainda mais vocês, leitores e leitoras. Só para termos uma ideia, vale relembrar a pesquisa A Personagem do Romance Brasileiro Contemporâneo², feita pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (coordenado pela professora Regina Dalcastagnè). De acordo com essa pesquisa, mais de 70% da produção literária publicada no nosso país foi escrita por homens brancos, nascidos em grandes cidades, especialmente no eixo Rio-São Paulo, de classe média e que, por sua vez, criaram personagens com esse mesmo perfil.
Esse estudo foi feito com base em romances publicados por três editoras brasileiras (Record, Companhia das Letras e Rocco), em períodos específicos: de 1965 a 1979, de 1990 a 2004 e de 2005 a 2014. Além de outros dados muito importantes, ele mostra como a questão da representatividade da mulher na literatura, escrevendo ou atuando como personagem, ainda é deficiente. E isso se agrava quando levamos em conta também as dimensões de raça e classe.
Ainda em 2018, nosso grupo virtual resolveu criar um livro de contos. Nós podíamos contar qualquer história, desde que a protagonista fosse uma mulher e fugisse dos estereótipos já tão batidos e que não cabem mais em nossos corpos. Foi assim que nasceu o nosso primeiro livro, Uma casa toda nossa, lançado pela editora Multifoco. Foi um livro todinho feito por nós, de maneira voluntária e conjunta, do recorte temático até a concepção da capa. Cada uma de nós ficou com uma missão específica, mas todas sempre envolvidas na feitura como um todo.
O título do nosso livro faz uma homenagem a um ensaio da Virginia Woolf, chamado “Um teto todo seu”³. Nesse ensaio, Virginia fala sobre os desafios, de diversas ordens, que as mulheres um dia tiveram (e de certa forma ainda temos) de enfrentar para conseguir escrever e participar do meio literário em uma sociedade patriarcal. Ela fala também que uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu para poder escrever livremente.
Em busca desse ideal nós construímos, tijolo por tijolo e palavra por palavra, o nosso primeiro livro de contos. Porém, essa experiência foi tão empolgante que nossa casa virou um lar, um espaço literário para receber a visita constante de outras mulheres e suas palavras. Nós viramos o coletivo Uma casa toda nossa. E ele é formado pela Bel de Assis, Carolina Machado, Karol Sueto Moreira, Samara Hartt e Isabela Emília, as moradoras fixas da casa, que fazem todo o trabalho de organização, leitura crítica e revisão dos contos, planejam projetos e produzem conteúdos para a internet.
Com esse trabalho das moradoras fixas e a colaboração das autoras visitantes Vivian C. Mansano, Dinéia Santos, Ane Molina e Rafaela Oliveira, nós produzimos e lançamos, em janeiro deste ano de 2022, o segundo livro de contos, o Cada canto um conto, publicado pela Quintal Edições, uma editora que, como ela mesma diz, “acredita na escrita das mulheres” e incluiu um espaço florido, arborizado, aberto e livre em nossa casa. Nesse novo projeto, além de continuarmos com a proposta de criar protagonistas mulheres livres de estereótipos, cada autora teve como desafio, estipulado pelo coletivo, escrever sobre uma vivência singular e caseira experienciada por essas protagonistas, cada uma em um cômodo específico de uma casa, materializando o nosso lar coletivo – um lar de mulheres múltiplas, diversas, cheias de vida e histórias para contar – através de narrativas.
Agora nós não paramos mais: já estamos fazendo puxadinhos, ampliando a nossa casa para oferecer, além da produção de um volume bienal do nosso livro de contos, cursos, oficinas, conteúdos, leituras conjuntas e outros produtos e serviços que envolvem a literatura, a leitura e o processo editorial. Nosso terceiro livro já está em fase de planejamento, sendo que a seleção para abrigar sete novas escritoras nessa nova empreitada e no nosso lar está com inscrições abertas até dia 28 de fevereiro.
Essa casa de mulheres escritoras, que é toda nossa, é um espaço para o diálogo e troca de experiências. Sabemos que não nascemos prontas e estamos constantemente aprendendo umas com as outras e nos transformando. Aqui nós não cancelamos ninguém, mas nos ajudamos a sermos as mulheres que queremos ser.
Nós acreditamos que o trabalho conjunto nos dá energia e coragem para escrever, publicar e fazer parte do universo literário. Ele também nos oferece a oportunidade de vivenciar a potência criativa de um coletivo e de gerar vínculos com outras mulheres escritoras.
Aqui nós dizemos o que queremos e escrevemos o que sentimos.
Podem entrar, fiquem à vontade.
Abraços,
Uma casa toda nossa.
Referências bibliográficas:
Clube de leitura que funciona em várias cidades do Brasil e que propõe ler livros de autoras mulheres.
Dalcastagnè, R. (2011). A personagem do romance brasileiro contemporâneo:: 1990-2004. Estudos De Literatura Brasileira Contemporânea, (26), 13–71. Recuperado de https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/9077
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Trad. Vera Ribeiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.

Uma casa toda nossa
O coletivo Uma casa toda nossa é um coletivo de mulheres que escrevem e que vem desde 2018 acolhendo as palavras de escritoras em sua casa.