Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 27, 2021 – Diogo Tomaz | A Retirada de Dunquerque: o audiovisual a serviço do Ensino de História
Uma aula bem planejada é uma obra de arte. E quando essa aula dá certo e traz os resultados esperados, ali na frente, diante daqueles rostos “empolgados”, você não tem um professor ou professora, você tem a materialização de um artista de fazer inveja em Leonardo da Vinci, Tarsila do Amaral, Freddie Mercury… É possível que na aula seguinte você saia de sala sentindo-se um nada, que tudo tenha dado errado, normal, esse é o grande desafio da vida docente. Como diz Leandro Karnal, “uma aula mal dada pode não destruir vidas como um erro médico ou uma ponte mal construída por um engenheiro, no entanto, é bem possível que esses erros tenham como resultado aulas ruins”.
Preparar uma aula criativa não é fácil, dá muito trabalho. Não é algo que se faça do dia para a noite durante todo o período letivo. Na grande maioria das vezes a famosa aula “cuspe e giz” cumpre bem o seu papel.
Mas é preciso aproveitar as oportunidades que aparecem. No ensino de História, são vários os momentos em que podemos perceber o brilho nos olhos dos jovens. Alguns assuntos chamam mais atenção do que outros e, muitas vezes, eles já trazem um conhecimento adquirido em séries, filmes, livros, sobre determinado conteúdo. É aqui que precisamos aproveitar a chance. Quer ver um exemplo? Guerras. Quando se fala da Primeira (1914-1918) e, principalmente da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o foco da maioria é certo. Talvez não seja 100%, mas, garanto que será maior do que aquela aula sobre Glasnost e Perestroika.
Que tal preparar uma aula diferente, com dois filmes e uma música, sobre um acontecimento de grande relevância durante a Segunda Guerra Mundial?
Em 2017 foi lançado o filme Dunkirk, do aclamado diretor Christopher Nolan. O filme, com um orçamento de 100 milhões de dólares, trouxe às telas a Batalha de Dunquerque quando, em maio de 1940, soldados e civis britânicos tentavam com todas as forças evacuar tropas inglesas, belgas e francesas da praia que dá nome à batalha. Quando tudo parecia perdido, Hitler se mostrou um péssimo estrategista militar. Ordenou que suas divisões blindadas freassem o avanço contra as forças aliadas que se encontravam de costas para o Canal da Mancha; parecia que o ditador tinha medo dos terrenos pantanosos de Dunquerque e também temia um contra-ataque francês. Aproveitando-se disso é posta em prática a Operação Dínamo, quando embarcações de todos os tipos – navios mercantes, contratorpedeiros, lanchas, iates, barcos pesqueiros e até veleiros – foram utilizadas para resgatar os mais de 300 mil soldados aliados. Segundo o primeiro ministro britânico Winston Churchill, “foi o milagre de Dunquerque”.
Falando de Churchill, que tal vermos Dunquerque de um outro ponto de vista? Em O Destino de uma Nação, filme de 2018 do diretor Joe Wright, vemos Churchill (interpretado de forma magistral por Gary Oldman) assumindo o cargo de primeiro-ministro, o que foi determinante para os rumos que a Segunda Guerra Mundial tomaria. Quase ao mesmo tempo, o recém-nomeado primeiro-ministro se vê encurralado por Dunquerque; é possível sentir a tensão em contagem regressiva até o resultado final da Operação Dínamo. O diretor soube utilizar personagens e fatos reais para provocar, incomodar e construir uma ponte que culmina com o filme do Nolan, de 2017.
Os dois filmes são excelentes ferramentas para se trabalhar a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, em turmas de 3º ano do Ensino Médio. São dois lados de uma mesma história, a visão dos soldados britânicos – que aguardam ansiosamente as tomadas de decisões vindas da Inglaterra – prestes a serem atacados pelas forças alemãs, e a visão política, a corrida contra o relógio, as decisões lentas que prendem nossa atenção e nos fazem roer as unhas. Aqui também podemos criar um paralelo muito bacana para se discutir em sala. Durante muito tempo, a pesquisa em História deu destaque para os “grandes” personagens. Historiadores afirmam que essa história vista de cima para baixo, e os grandes eventos, ocultavam personagens que também possuíam um papel de destaque. Aos poucos, essa forma de produzir pesquisa histórica vem dando espaço – graças à Escola dos Annales – à micro-história; agora há a preocupação e interesse em analisar fatos históricos dando importância também aos agentes tidos até então como secundários ou “menos importantes”.
Visto isso, um outro recurso didático que proponho para ser utilizado juntamente com os dois filmes, gerando uma reflexão e um debate sobre o assunto, é a canção Darkest Hour da banda britânica Iron Maiden, lançada no último álbum, “Senjutsu”, em 2021. A música foi inspirada nos acontecimentos de Dunquerque, inclusive inicia e termina com o som de ondas quebrando em uma praia, o que cria uma atmosfera que se encaixa perfeitamente com O Destino de uma Nação e Dunkirk.
Nós enterramos nossos filhos
Nós demos as costas e fugimos
Eles não envelhecerão
Os gloriosos mortos
Mas nós voltamos
Porque um homem disse
Que agora nas praias
O sangue vermelho escorre
Eu os encarei
Fui o único
Eu permaneci sozinho
E avisei que este dia chegaria
Mas eles estavam errados
Satisfazendo a todos
E esta não será a última vez
Que nós todos ficaremos sozinhos
Eu vejo o Sol se afastar
Enquanto eu abraço a noite
E minha melancolia aproveita o dia
Por seis longos anos você foi impedido de passar
Havia bárbaros nos portões
Nós iremos superar isso
Aqui estou eu
Em uma serenata de glória
Nu diante do trono dos reis
Você semeou o vento
E agora você colheu tempestade
Antes do amanhecer, a hora mais sombria
A hora mais sombria
Para resplandecer em glória como um Sol morrendo
Um último gigante em chamas
Diz para Júpiter seguir em frente
Transforma as relhas de arado em espadas
Despertem, filhos de Albion
Defendam esta terra sagrada
Aqui estou eu
Em uma serenata de glória
Nu diante do trono dos reis
Você semeou o vento
E agora você colheu tempestade
Antes do amanhecer, a hora mais sombria
Sobre a canção, o compositor e vocalista Bruce Dickinson, em recente entrevista, disse que ela mostra a liderança de Churchill. “Mesmo que as probabilidades estivessem contra nós, nós, como nação, vamos resistir. Metade de seu gabinete e governo teriam ficado do lado dos nazistas e feito um acordo. Mas ele inspirou a nação a fazer a coisa certa”. Ainda segundo o vocalista, “a música é marcada por sons de praia em ambas as extremidades. A praia no início é Dunquerque, onde basicamente fugimos e a praia no final é o Dia D. E ambas as praias estavam encharcadas de sangue por diferentes razões”.
Ao final das aulas, podemos perceber que o uso dos filmes e da canção como ferramentas de auxílio ao processo do ensino de História são extremamente uteis para a construção de um ambiente de socialização e aprendizado. Fica a dica!
Referências bibliográficas:
FREIRE, Madalena. 6.ed. Educador: educa a dor . Rio de Janeiro / São Paulo: Paz e Terra, 2017.
WEINBERG, Gerhard. A Segunda Guerra Mundial: uma história essencial. – 1ª ed. – Lisboa : Presença, 2019.

Diogo Tomaz
Possuo Licenciatura (2014) e Mestrado (2017) em HISTÓRIA pela Universidade Federal de Juiz de Fora; onde também adquiri a experiência como Paleógrafo. Leciono desde 2014 e, em minhas aulas, gosto de utilizar ferramentas que possibilitem a construção do conhecimento histórico de forma mais leve e descontraída, como músicas, games, séries, filmes, HQ’s…