Maternidade plural, novos arranjos e suas diversidades

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 26, 2022 – Deborah Lisboa e Anna Flora Coimbra | Maternidade plural, novos arranjos e suas diversidades


Quem aí se lembra de Cássia Eller?

Cantora e intérprete memorável, mas que para além do legado musical que nos deixou, abriu espaço também para o debate e para a aceitação do novo formato de família brasileira.

Para quem não se lembra, a cantora se relacionava afetivamente com Maria Eugênia, que a acompanhou na construção desafiadora da maternidade. Após a morte de Cássia, seu pai lutou pela guarda do neto Francisco.

Maria Eugênia recebeu, na época, apoio da classe artística e de muitas pessoas heterossexuais, pois se viu ameaçada de perder a possibilidade de lutar pela guarda de seu enteado, que, naquela altura, já estava com 9 anos.

Usamos a palavra enteado, mas sabemos que, na época, mal se falava em mães lésbicas ou bissexuais, que dirá em madrastas que maternam…

A dupla maternidade é uma realidade possível atualmente dentro do cenário jurídico, e de grande importância, pois assegura direitos e deveres de uma relação que comprovadamente já existem, como laços de afeto e cuidado.

A maternidade já não deve ser mais atrelada apenas à gestação, bem como a família não é só composta pelas figuras do pai, mãe e filhos. A diversidade das famílias é uma realidade e, dentro de tantas outras formas, podemos citar o exemplo da dupla maternidade, composta por  uma mãe bissexual e uma madrasta lésbica, que compartilham o ato de maternar. Nossa existência convida muitas pessoas a reverem seus conceitos e preconceitos.

Convidamos vocês, leitoras e leitores, a pensarem mais sobre o que é a maternidade! Acreditamos que muitos de vocês pensaram primeiramente na gestação ou algo relacionado à gravidez, e o problema é justamente este: fomos criados e criadas para entender que apenas isto é maternidade.

No dicionário, o primeiro significado de Mãe é:

Substantivo feminino. Aquela que gerou, deu à luz e criou um ou mais filhos. De 

Maternal é: próprio natural de uma mãe.

Filho: pessoa que descende, que se origina de determinada família, grupo social etc.; descendente.

Na nossa compreensão, maternar é o ato de uma mulher cuidar, criar, educar uma filha ou um filho.

Exemplo disso é no contexto da adoção, quando as pessoas teimam, por desconhecimento ou não, em se referir a essa criança como “filho adotivo”, quando, na verdade, não deveria haver distinção, a partir do momento que aquela criança foi adotada, a mesma deveria ser reconhecida como filho ou filha, apenas.

Num casal de mulheres que decidem ter filhos via gestação, a mãe que não gestou, não deveria se sentir, ou ser vista pela sociedade, como menos mãe, e ou menos validada que a outra que pariu. 

Quando falamos que o machismo é estrutural, precisamos ficar atentos a todos os espaços e contextos sociais. Sabemos de muitas famílias como a nossa, que passaram por situações bastante constrangedoras ao preencher um simples formulário escolar, quando, na ficha de inscrição da criança, só há espaço para nome de pai e mãe, como responsáveis. Não podemos esquecer também que existem contextos sociais bastante cruéis; para se ter uma ideia, nos anos de 2020 e 2021 cerca de 320 mil crianças foram registradas sem o nome do genitor.

Voltando para a nossa realidade, gostaríamos de dividir a alegria e o privilégio de estarmos vivenciando algo que deveria ser o comum em todos os espaços sociais. Ao matricularmos nossa criança na escola, tivemos voz, desde o formulário referindo-se aos responsáveis, até a escuta para compreensão da realidade da nossa família. Isso tudo faz sim, muita diferença, quando pensamos em todo um sistema já estruturado que nos legitima. Quando somos visíveis, nós de fato existimos!

Sabemos bem que nem tudo são flores, precisamos entender que é incomodando o sistema que o sistema irá mudar. Essa luta é de todas e todos, independente de sermos lésbicas, bissexuais, mães ou madrastas, pelos direitos de nossas famílias existirem.

A maternidade deve ser assunto de todas as pessoas. Então, se nos espaços em que você circula não há lugar para legitimar nossas famílias nada heteronormativas, você precisa se somar a essa voz e questionar esses mesmos espaços para ficarem atentos às novas realidades. É fundamental estar atenta a falas e atitudes que excluam a maternidade real, as mulheres, as lésbicas e bissexuais. Que a nossa sororidade não seja seletiva.


Deborah Lisboa e Anna Flora Coimbra