Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 26, 2022 – Gabriela de Souza | A pressão estética sobre as mulheres: da construção social às consequências individuais
A busca pela padronização dos corpos femininos é um fenômeno que pode ser analisado sob diferentes perspectivas. Entende-se que, ainda que esse padrão varie de acordo com o tempo, o espaço ou a cultura em que a mulher está inserida, a ideia de que seus corpos devem possuir uma aparência que atenda a certos critérios permanece inalterada.
O pensamento de que se é possível atingir um “corpo perfeito” é amplamente divulgado e incentivado, fazendo com que as mulheres encontrem defeitos em seus corpos e passem, então, a viver uma relação complexa com a própria imagem, levando, principalmente, à não aceitação de suas características e à busca incessante pela eliminação de traços que são próprios de sua existência.
Apesar de possuir diferentes fontes, a pressão estética que recai sobre as mulheres é, atualmente, alimentada principalmente pelas redes sociais, que, sustentadas pela chamada “indústria da beleza” e pelo próprio capitalismo, tornam esses padrões cada vez mais irreais e, consequentemente, mais custosos — em todos os sentidos — de serem atingidos.
A indústria da beleza e o capitalismo dialogam à medida que, com o objetivo de vender produtos e procedimentos, é divulgado como necessário um cuidado exacerbado com a aparência que, na verdade, tem o objetivo final de lucrar com a insegurança e com o desejo de possuir algo inalcançável que são cultivados dentro das mulheres.
A imagem que se tem das redes sociais, por sua vez, é de um estereótipo completamente fora da realidade natural das pessoas: corpos proporcionais e cuidadosamente desenhados, sem curvas, celulites ou marcas de expressão, torneados e extremamente magros. Sendo essa a imagem vendida, é essa também a imagem comprada pela maioria das mulheres, que passa, então, a desejar se parecer fisicamente com aquilo que vê.
Não é mostrada, no entanto, a realidade por trás desses corpos: cirurgias plásticas extremamente invasivas, restrição alimentar, acompanhamento multidisciplinar com profissionais renomados, disponibilidade financeira e de tempo para arcar com os custos de se manter essa imagem, dentre outros recursos extremamente escassos e pouco atingíveis por mulheres comuns, que trabalham, estudam, cuidam de uma casa ou de familiares e/ou vivem uma rotina ordinária.
As consequências dessa comparação desleal se manifestam de maneiras diferentes para as mulheres: os sentimentos de frustração, incompetência ou incapacidade ao não se chegar, de maneira natural e dentro das possibilidades cotidianas, àquele corpo; os distúrbios alimentares e de imagem; a não-aceitação de suas características; a baixa autoestima. E assim, as mulheres vão ficando doentes, física e mentalmente, por não conseguirem se adequar à imagem idealizada que o padrão de beleza e a pressão estética, juntos, impõem, sem materializar o fato de que, na verdade, aquilo que elas vêm é algo moldado e irreal.
A imagem do corpo padrão e tido como perfeito é uma construção histórica, social e cultural. Desde os primeiros movimentos de socialização, as mulheres são submetidas a imagens que, ainda que de forma “discreta”, reforçam e enaltecem algumas características em detrimento de outras: seja uma personagem de filme que só passou a ser considerada bonita quando emagreceu, ou que só foi notada após realizar um alisamento no cabelo, ou que é deixada de lado por usar óculos; seja pelo ensinamento de que as mulheres devem se depilar, enquanto essa mesma obrigatoriedade não é imposta aos homens; seja pela baixa representatividade de corpos e pessoas diferentes em tudo o que consumimos.
A repetição massiva de uma mesma imagem como sendo a mais bonita ou a ideal faz com que, aos poucos, essa ideia seja efetivamente implantada na cabeça das mulheres e que, com isso, se desenvolva a necessidade de se parecer com aquilo que está sendo visto, o que cria, consequentemente, uma barreira ao entendimento de que, na verdade, os corpos são biológica e esteticamente diferentes.
É importante, ainda, o olhar interseccional sobre essa temática: a forma como a pressão estética atinge mulheres negras, por exemplo, é diferente da maneira como impacta mulheres brancas. O padrão visto como “ideal” na sociedade ocidental é um padrão com traços europeus, que envolve o nariz fino, a pele branca, o cabelo liso. Esses são traços que não são típicos do povo preto — e nem dos seus descendentes, que compõem a miscigenação presente em boa parte do país —, o que faz com que, consequentemente, as mulheres negras se enxerguem e, por vezes, sejam vistas como menos bonitas, fato que escancara, ainda, o racismo intrínseco à pressão estética.
Algo semelhante acontece com as mulheres gordas, que constantemente têm sua imagem associada a doenças ou ao desleixo e, assim, são imersas em um pensamento que considera seus corpos como inferiores ou menos capazes. Isso faz com que elas sejam consideradas também como menos bonitas, destacando, agora, a gordofobia existente no conceito de “belo” utilizado cotidianamente.
Mais do que conhecer o que é a pressão estética e entender como ela se manifesta no cotidiano das mais diferentes mulheres, é importante analisar como podemos lutar contra mais essa forma de opressão de nossos corpos, evitando que nossa existência sucumba em prol de um padrão de beleza que sequer deveria existir.
Sendo assim, é parte do empoderamento das mulheres — e, consequentemente, função do feminismo — a promoção da autoaceitação e do entendimento de que cada mulher é particular, sendo que nossa pluralidade não pode ser resumida a um padrão único e externo. É necessário, ainda, o entendimento de que as imagens das redes sociais são milimetricamente construídas e, portanto, não têm pretensão de serem fiéis à realidade. Pessoas comuns possuem corpos e belezas comuns e, portanto, é incabível supor que esses corpos sejam todos iguais ou atinjam determinadas expectativas.
A luta pelo direito de existir da forma como somos também é uma luta feminista.
Referências bibliográficas:
DA CAPA de revista às telas de celular: de que forma as mídias sociais impactam a relação das mulheres com a sua aparência? PUCRS, Porto Alegre, 29 set. 2021. Disponível em: https://www.pucrs.br/blog/pressao-estetica-redes-sociais/#:~:text=A%20press%C3%A3o%20est%C3%A9tica%20afeta%20mulheres,dif%C3%ADcil%20ver%20pessoas%20sem%20filtros. Acesso em: 23 mar 2022.
FRANCISCA, Elânia. Gordofobia e pressão estética na infância: há impactos na autoestima?. UOL, [online], 23 jul. 2021. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/colunas/elania-francisca/2021/07/23/gordofobia-e-pressao-estetica-na-infancia-quais-os-impactos-na-autoestima.htm. Acesso em: 25 mar 2022.
ROCHA, A.; SANTOS, M.; MAUX, S. Indústria da beleza como vetor da pressão estética: A influência das novas mídias na imposição de padrões. In: Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, XXI, 2019, São Luís. Anais. São Luís: Intercom, 2019. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nordeste2019/resumos/R67-0910-1.pdf. Acesso em: 01 abr 2022.MELO, L.; SANTOS, N. Padrões de beleza impostos às mulheres. Revista Científica Eletrônica de Ciências Aplicadas da FAIT, [online], n. 1, p. 1-7, maio 2020. Disponível em: http://www.fait.revista.inf.br/imagens_arquivos/arquivos_destaque/KpDnYgJm2BARYNc_2020-7-23-20-34-39.pdf. Acesso em 10 abr 2022.

Gabriela de Souza
Tem 23 anos, é formada em Administração pela UFJF e acredita fielmente no poder da gestão enquanto elemento transformador da sociedade. Hoje, atua como militante feminista no Coletivo Maria Maria, é suplente no Conselho Municipal da Juventude de Juiz de Fora e participa do movimento estudantil e da juventude através da KizombaJF.