O Projeto de Extensão Universitária da UFJF junto à Casa D’Itália e seus caminhos para interação com a sociedade pós pandemia

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 8, 2020 – Miriam Carla do Nascimento Dias | O Projeto de Extensão Universitária da UFJF junto à Casa D’Itália e seus caminhos para interação com a sociedade pós pandemia


Primeiramente como arquiteta e urbanista, reconheço na Casa D’Itália, um importante ícone histórico da nossa cidade. Reconheço sua importância enquanto exemplar arquitetônico tombado, de significativa presença por suas linhas retas que atravessaram o tempo no centro da cidade de Juiz de Fora, contando histórias e marcando épocas. O Laboratório de Estudos em Conforto Ambiental e Sustentabilidade (ECOS) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora, desenvolveu o Projeto Aplicação de Instrumentos de Avaliação Pós Ocupação em projetos de edificações tombadas, em parceria com a Casa D’Itália (JF-MG) com a finalidade de, através deste projeto, os alunos graduandos de Arquitetura e Urbanismo poderem exercitar as técnicas aprendidas nas Disciplinas da graduação além de aprimorar seus conhecimentos na aplicação das técnicas de avaliação pós ocupação e no uso dos equipamentos de medição térmica, lumínica e acústica.

Este projeto conta com uma equipe multidisciplinar que atuará no mapeamento de danos, para os devidos cuidados à uma edificação que é tombada pela Prefeitura de Juiz de Fora como Patrimônio Cultural da cidade. A análise completa da edificação dará diretrizes para viabilizar uma futura reforma do espaço tanto no que diz respeito à acessibilidade e conforto térmico, lumínico e acústico, quanto no que diz respeito às instalações complementares como elétricas, hidrossanitárias e de prevenção e combate ao incêndio e ao pânico. Uma parte da equipe está responsável por mapear as necessidades e traçar as diretrizes de restauro, revitalização e retrofit de patrimônio cultural. A proposta inicial deste projeto envolvia todos os usuários do espaço, afim de apresentar para a cidade esse espaço revitalizado, com a proposta de ser melhor utilizado atendendo às mais diversas classes sociais além de se solidificar enquanto espaço de pesquisa.

Através da técnica de avaliação pós ocupação (APO), buscamos mapear os impactos do adensamento urbano em torno da edificação, que podem ser sentidos na redução da insolação e da ventilação e, à partir dessa identificação, buscar quais as estratégias necessárias para amenizar ou solucionar esses problemas. A principal proposta deste projeto de extensão universitária é a adequação do espaço para seu uso mais incisivo como espaço cultural não apenas para a população ítalo-brasileira mas também para ensinar sobre a cultura italiana e o quanto ela foi importante para o desenvolvimento da cidade de Juiz de Fora.

Este projeto está fazendo o mapeamento de danos ocasionados pelo tempo, das condições de acessibilidade e de conforto térmico, acústico e lumínico. Também está sendo avaliada as formas de preservação como patrimônio cultural e histórico e a sua relação paisagística com o entorno. Por fim, considerando o momento de pandemia e as novas formas de interação visando o distanciamento social, este projeto também está propondo um passeio virtual, que possibilite a visitação através da tecnologia digital. Enquanto extensão universitária, esperamos envolver e dar acesso às mais diversas camadas da sociedade,  valorizando e dando visibilidade aos projetos culturais oferecidos pela Casa D’Itália.

O Laboratório ECOS atualmente dispõe de equipamentos variados de medição de conforto e os bolsistas de extensão universitária podem aprimorar os seus conhecimentos no uso destes equipamentos e técnicas aplicadas. O reconhecimento legal do valor histórico-cultural de um imóvel tombado implica em acatar posturas técnicas de preservação que são regidas por documentos internacionais conhecidos por “Cartas Patrimoniais”, cuja finalidade é a de normatizar mundialmente conceitos e critérios de conservação/ restauração de bens culturais. Dessa maneira, os procedimentos e projetos deverão estar fundamentados nesses documentos, a fim de informar os parâmetros que devem ser observados para o desenvolvimento de um projeto de restauração sem degradar ainda mais o material original e sem mascarar a sua história.

Quando pensamos em restaurar o conforto térmico nessa edificação, buscamos fazer uso dos estudos da geometria solar, do fluxo dos ventos e dos dados climáticos da região. Precisamos, para isso, usar como estratégias a adequação da arquitetura e seus elementos de acordo com os estudos aplicados e o estabelecimento do posicionamento dos ambientes, elementos de fachadas, e matérias que permitem a troca gasosa e térmica dos ambientes. Entendemos que empregar diretrizes de conforto térmico pode contribuir muito para a saúde dos usuários do espaço e a salubridade dos ambientes. Sob a ótica da saúde, um ambiente termicamente confortável previne doenças respiratórias, dermatológicas e cognitivas. Através dos recursos arquitetônicos utilizados para a termorregulação do ambiente pode-se obter uma maior qualidade do ar e temperaturas que evitam a proliferação de fungos. É de extrema importância pensarmos nos impactos da saúde pública quando tratamos de espaços públicos e de eventos como é o caso de um Centro Cultural. Vários estudos comprovam a importância de um ambiente termicamente confortável para o desempenho cognitivo, contribuindo para a aprendizagem em ambientes escolares e produção em ambientes profissionais.

Este projeto visa também a adequação acústica da edificação, que possui um belíssimo auditório, que foi palco de grandes apresentações musicais e cênicas e que precisa de ajustes para ser utilizado com todo o seu potencial. Longe de ser um privilégio de poucos, a arquitetura acústica é um requisito tanto em projetos residenciais quanto corporativos ou comerciais. Nas moradas, o moderno modo de vida das pessoas exige uma relação pacífica entre som e ambiente. Afinal, o cinema entrou em casa, a área gourmet reúne cada vez mais um número de familiares e amigos, e as paredes precisam conter a reverberação sonora, poupando perturbações à vizinhança. Este projeto acústico é estudado possíveis variações do layout de acordo com o uso, avaliando as qualidades e fraquezas do espaço em relação à acústica. Além disso, são analisados individualmente os sistemas construtivos: pisos, paredes internas e externas, hidrossanitário e o desempenho acústico dos demais ambientes de uso coletivo como o saguão de exposição e a área externa.

Apesar da pandemia por COVID-19 ter imposto o isolamento social, trazendo uma série de consequências para o setor de ensino e pesquisa, esta experiência permaneceu promovendo, para todos os estudantes envolvidos, uma importante oportunidade de aplicação prática dos conhecimentos básicos adquiridos em sala de aula, nas diversas áreas de conhecimento envolvidas para busca de soluções de utilização e visitação da Casa D’Itália enquanto espaço cultural aberto ao público. A atuação do projeto extensionista representou um aporte fundamental para a busca de novos parceiros que possibilitariam alcançar esse objetivo. Através da pesquisa, chegou-se à Google Cultural Institute, que tem por objetivo tornar acessível o patrimônio cultural, digitalizando-o e transformando em um passeio virtual.

Entende-se que o compartilhamento com a sociedade deste acervo de forma virtual neste momento de pandemia, representa uma das maneiras mais eficientes de se atingir o público esperado e muito mais além, reabilitar o valor histórico deste patrimônio para toda a sociedade. No caso da Casa D’Itália, já se criará um olhar diferenciado de planejamento das intervenções em edificações tombadas, uma vez que a pesquisa e os projetos de reconfiguração funcional da edificação permanecem sendo feitos, ainda que à distância. O interesse social – com atenção ao patrimônio cultural da cidade – é alvo especial deste projeto, buscando soluções que sejam simples, eficazes e facilmente replicáveis.


Fontes:

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ASTRO, Jorge; LACERDA, Leonardo; PENNA, Ana Cláudia. Avaliação Pós-Ocupação – APO: saúde nas edificações da FIOCRUZ. Rio de Janeiro. FIOCRUZ, 2004, 116p.

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FERNANDES, J. C. (2002) O ruído ambiental: Seus efeitos e seu controle. Faculdade de Engenharia Mecânica da UNESP. Campus de Bauru, São Paulo.

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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (1987) Níveis de ruído para conforto acústico: NBR 10152. Rio de Janeiro.


Miriam Carla do Nascimento Dias

Arquiteta e Urbanista, pós graduada em Comunicação Empresarial e em Arquitetura de Interiores, Mestra em Ambiente Construído pela UFJF. Atua como pesquisadora no Laboratório de Estudos em Conforto Ambiental e Sustentabilidade da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFJF.


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