O Patrimônio Cultural como Ato Social

Tenho certeza que ao falarmos em Casa D’Itália, grande parte da população que habita ou já habitou Juiz de Fora, nativa ou naturalizada, terá alguma lembrança, algum vínculo com este lugar e com tudo que ele representa. Seja pela sua arquitetura singular, seja pela sua simples presença no percurso cotidiano, pela sua história ou por alguma experiência vivida neste espaço, o fato é que, independentemente do tipo e intensidade de relação, a Casa D’Itália certamente habita a memória da comunidade juiz-forana, e, não à toa, foi um dos primeiros bens reconhecidos como patrimônio cultural em 1984, praticamente contíguo à primeira lei de patrimônio municipal, ato vanguardista para época.

A representatividade da Casa D’Itália para a história de Juiz de Fora e para as famílias italianas, a relevância arquitetônica de sua sede e sua patrimonialização, são aspectos muito bem tratados e acredito que muito bem assimilados. Sem inferir em qualquer juízo de valor, gostaria de aproveitar esta singular oportunidade, para destacar um outro viés deste patrimônio cultural, que me é tão caro, relativo ao seu aspecto intangível, a sua capacidade simbólica, ou seja, àquilo que é relativo às pessoas, aos seus fruidores.

Foto: Acervo Márcio Arcuri

Recorro a um grande pensador e estudioso da área, Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes, que coloca o patrimônio, antes de mais nada, como um fato social, já que uma edificação como a Casa D’Itália só se torna patrimônio devido a todo um sistema de valores e pessoas que a legitimam como tal. E estes valores e significados atribuídos perpassam a materialidade tectônica de sua construção, e, de certo, a transcende – pois falar de um bem cultural, não é falar de significados imanentes ao próprio objeto em si, obedientemente embutidos em sua arquitetura, mas é, antes de tudo, falar de práticas e relações “cujas propriedades, derivadas de sua natureza material, são seletivamente mobilizadas (…) por grupos sociais para socializar, operar e fazer agir suas crenças, afetos, seus significados, expectativas, juízos, critérios, normas… em suma, seus valores”. [1]

Nesse sentido, conseguimos entender o porquê não podemos separar o sujeito do objeto, a dimensão tangível da intangível dos bens patrimonializados. A Casa D’Itália, enquanto uma imagem corporificada – que percorre o tempo e se faz presente – dá o suporte necessário para que as práticas e apropriações possam se realizar, como podemos ver através do grupo de Tarantolato, da prática da Bocha, do curso do idioma italiano, da gastronomia e de tantas outras manifestações culturais que ali ocorrem. São estes laços os responsáveis por criar o que chamamos de sentimento de pertencimento, sendo que cada laço é singular, pois varia de pessoa para pessoa, fazendo com que a Casa D’Itália possua um simbolismo polissêmico, assumindo relevância, não apenas para a comunidade italiana, mas também, para todos aqueles que se permitem envolver por este lugar, pelas pessoas que ali habitam, pelos sentimentos que ali afloram.

Foto: Acervo Grupo de Dança Folclórica Italiana Tarantolato

Falar de Casa D’Itália, então, é falar de patrimônio, sim, mas sobretudo, é falar de gente! É falar de nossa história, de nossa cultura, de nossas origens. É dar o devido mérito à sua representatividade no passado, mas também evidenciar sua capacidade enquanto símbolo, de ressignificar, de assumir novos valores. Por isso, falar de Casa D’Itália é falar do momento presente, do nosso agora. E preservar pode ser (como acredito) trabalhar uma maneira para que, no futuro, não se tenha sacrificado todas as possibilidades semânticas e comunicativas da Casa D’Itália. Afinal, “(…)a cidade que não consegue narrar sua história de forma visível é uma cidade esvaziada de conteúdo, indiferenciada das demais e pobre de vida coletiva.”.[2]

[1] MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. In: SUTTI, Weber (Coord.). I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural: sistema nacional de patrimônio cultural – desafios, estratégias e experiências para uma nova gestão. Brasília, DF: Iphan, p. 32, 2012.

[1] CHRISTO, Maraliz de C. Vieira e SOUZA, Maria Julieta Nunes de. Art Déco e Patrimônio Histórico. Nota prévia de pesuisa. Juiz de Fora: ClioEdel, 1998. p. 23.


Fontes:

CARSALADE, Flávio Lemos. A Ética das Intervenções. IPHAN, Mestrado Profissional do Patrimônio Cultural, 2013. Disponível em: <a href=”http://<http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Mestrado%20Profissional%20do%20Patrim%C3%B4nio%20Cultural%202013%20%20-%20CARSALADE.pdf&gt;. Acesso em: 15/12/2020.

CHRISTO, Maraliz de C. Vieira e SOUZA, Maria Julieta Nunes de. Art Déco e Patrimônio Histórico. Nota prévia de pesuisa. Juiz de Fora: ClioEdel, 1998. 25 p. (História de Juiz de Fora, 1). Disponível em: <a href=”http://<https://www.ufjf.br/clioedel/files/2009/10/COD98002.pdf&gt;. Acesso em: 15/12/2020.

MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. In: SUTTI, Weber (Coord.). I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural: sistema nacional de patrimônio cultural – desafios, estratégias e experiências para uma nova gestão. Brasília, DF: Iphan, p.25-39, 2012.


Ana Carolina Lewer Delage Lemos

Arquiteta urbanista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, pós-graduanda em gestão e conservação do patrimônio cultural pelo IFMG – Campus Ouro Preto, vice-diretora da comissão de patrimônio cultural do IAB – Núcleo JF e vice-presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Juiz de Fora. Atualmente também atua na Divisão de Patrimônio Cultural- Funalfa/PJF.


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