A contribuição italiana para as vanguardas européias em Juiz de Fora: um olhar para o acervo do poeta Murilo Mendes

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 1, n. 6, 2020 – Frederico Lopes de Oliveira | A contribuição italiana para as vanguardas européias em Juiz de Fora: um olhar para o acervo do poeta Murilo Mendes


Em 13 de maio de 1901, nascia em Juiz de Fora Murilo Mendes. O poeta, que encontrou expressão na potência da modernidade, desenvolveu ferramentas necessárias ao ofício com as palavras e se tornou uma grande referência literária. Apesar de sua rica biografia nos apresentar detalhes sobre diversos aspectos históricos relacionados à sua produção, como a passagem do cometa de Halley em 1910 e a apresentação do bailarino Nijinsky no Teatro Municipal do Rio de Janeiro no ano de 1971, neste texto, vamos nos falar sobre o acervo de artes plásticas reunido pelo poeta ao longo de sua vida, pontuando a importante presença de artistas italianos.

Foto: Araujo Neto – Arquivo: Murilo Mendes – Fundação Casa de Rui Barbosa Rio de Janeiro

No ano de 1952, Murilo Mendes realizou sua primeira viagem para a Europa, onde estabeleceu uma interessante rede de sociabilidade. Os laços de amizade criados com artistas e intelectuais, como André Breton, René Char, Camus e Magritte, apresentaram ao poeta a efervescência cultural da Europa modernista. Nesse contexto, Murilo Mendes criou um acervo de artes visuais que apresenta uma coletânea de artistas diversificada e com obras elaboradas em diversas técnicas, como pintura a óleo, colegas, gravuras, aquarelas e esculturas. Tal coleção, se mostra intimamente ligada às afinidades afetivas de Mendes e sua esposa, Maria da Saudade, e demonstra, de certa forma, os vínculos sociais de sua vida intelectual.

Dentro da diversificada coleção, chama a atenção a categórica presença de artistas italianos de relevante importância para as vanguardas européias, tais como: Gastone Biggi, Alberto Magnelli, Giuseppe Capogrossi, Gino Severini, Piero Dorazio, Antonio Calderara, Carla Accardi, Ario Marianni, Achille Perilli, Marcolino Gandini, Aldo Caló, Michelangelo Conte, Carlo Bataglia, Cósimo Carlucci, Mario Padovan, entre outros. Assim, com a vinda do acervo para o Brasil, em 1994, Juiz de Fora recebeu uma valiosa amostra da contribuição italiana para as vanguardas europeias através da coleção de Murilo Mendes, cuja pesquisa e investigação ficou sob a tutela do Antigo Centro de Estudos Murilo Mendes, hoje Museu de Arte Murilo Mendes.

Magneli

A presença de um acervo tão relevante na cidade indica um potencial de investigação e desenvolvimento do conhecimento da arte através de movimentações em torno das obras, como exposições de arte, textos críticos e artigos. Além disso, o repertório imagético presente na coleção, serve de subsídio para a criação artística, na qual cada trabalho se apresenta como uma oportunidade de oferecer referências estéticas que alimentam a inquietação de artistas, escritores e trabalhadores da cultura locais.

Portanto, muito além de sua produção literária, o legado do poeta perturba uma ordem artística seduzida pelas noções pré-modernas na cidade de Juiz de Fora e contribui para a pavimentação de novos olhares sobre os processos de criação. Essa percepção é amplificada na medida em que compreendemos que o acervo empresta como referência o contributo estético italiano do entre-guerras para o cotidiano artístico juiz-forano, fornecendo elementos para a pesquisa e investigação de novas experimentações artísticas. À luz da contemporaneidade, as temáticas e representações que orbitam as obras dos artistas italianos presentes na coleção, servem de alerta para um projeto de modernidade inacabado, cujos desdobramentos implicam no estudo e no lançamento de novas perspectivas sobre a experiência da arte.


Fontes:

STANGOS, Nikos. Conceitos da Arte Moderna.

AMOROSO, Maria Betânia. Murilo Mendes e a Crítica Italiana.

GUIMARÃES, Júlio Castañon. Murilo Mendes acervo de poeta.

Museu de Arte Murilo Mendes https://www.museudeartemurilomendes.com.br/r/poeta/


Frederico Lopes de Oliveira

Artista e educador, graduado em artes pela Universidade Federal de Juiz de Fora, especialista em gestão cultural pela FAGOC. Possui treinamento profissional em conservação e restauro de papel pelo LACOR/MAMM-UFJF. Atuou no setor de curadoria e expografia do Museu de Arte Murilo Mendes de 2013 a 2017. Integrou a equipe de implementação do Memorial da República Presidente Itamar Franco, onde trabalha na curadoria e na coordenação da divisão de educação. É fundador da Instituição Cultural Bodoque Artes e ofícios (2012), da Revista Trama (2019) e do Museu de Artes e ofícios Bodoque (2020). Acredita na Arte e na Cultura como ferramentas fundamentais ara transformação do olhar e criação de novas possibilidades de se exercer a vida.


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