“Uma segunda casa”: breves apontamentos sobre a importância cultural e social da Casa d’Itália de Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 1, n. 5, 2020 – Marcos Olender | “Uma segunda casa”: breves apontamentos sobre a importância cultural e social da Casa d’Itália de Juiz de Fora


Vivemos em uma época estranha, onde a vida social encontra-se drasticamente reduzida, quase inexistente, devido a ameaça da pandemia. Época que esperamos possa passar logo para retomarmos de forma rotineira as nossas atividades. E quando nós que habitamos na cidade de Juiz de Fora pensamos nas atividades culturais, não podemos deixar de pensar na Casa d’Itália. Quem passa pela Avenida Rio Branco em Juiz de Fora, não deixa de notar aquela edificação imponente, de dois pavimentos e com uma fachada composta por acentuadas linhas horizontais e verticais e que ostenta em sua parte superior a expressão Domus Itálica. Mas se tiver a oportunidade e a curiosidade de entrar pela sua porta principal (isso, é claro, em tempos não pandêmicos) não deixaria de notar a constante presença de pessoas em seu interior, observando as exposições no seu hall de entrada e no seu corredor principal, ou assistindo seus espetáculos no palco do seu salão-auditório, ou aprendendo italiano, ou arte, ou cultura, ou história, na salas de aula ou mesmo na sua cozinha (onde acontece, por exemplo, o curso de pizzaiolo).

A história da Casa d’Itália de Juiz de Fora se inicia com o projeto do, então, governo fascista de Benito Mussolini mas, felizmente, não se restringe a ele. Esse processo de sedução do governo de Mussolini para com os imigrantes italianos, os “italianos no exterior”, se inicia ainda nos primeiros anos da década de 1920 e utiliza-se de instrumentos oriundos do próprio meio publicitário. Somava-se a essa campanha, no caso brasileiro, a simpatia pelo fascismo de uma parte da elite política e econômica liderada por Getúlio Vargas. Dentro das próprias comunidades de imigrantes, os fascistas procuravam a adesão de membros admirados por sua ascensão econômica e social, como no caso, em Juiz de Fora, do empresário da construção civil Pantaleone Arcuri, responsável pela própria construção da Casa d’Itália, e que teve como autor do projeto o seu filho primogênito Raphael, projeto esse feito seguindo o padrão estético que representava o citado regime, o “estilo littorio” popularizado na Itália pelas obras do arquiteto Marcelo Piacentini.

Como afirmei em meu livro, a instalação da Casa d’Itália em Juiz de Fora não era uma iniciativa isolada, “fazia parte de um movimento internacional implantado na segunda metade dos anos trinta, a partir de” (Olender, 2011, 270), como informa Angelo Trento (1989, 333):

[…] diretrizes provenientes de Roma […] e destinadas a criar as “Casas da Itália, que constituíam para os Fasci “a projeção externa mais eficaz num clima de lisa oficialidade”. Para compreender melhor seu funcionamento, será oportuno tomar o exemplo da que melhor funcionou no Brasil, a “Casa degli Italiani”, do Rio, cuja construção, iniciada em 1934, foi concluída em 1936. Ela reunia consulado, escolas, Fascio, Dopolavoro, “Club Palestra Itália”, “Società Canottieri”, “Dante Alighieri”, “Beneficenza Italiana”, tipografia do L”Italiano e uma capela.[1]


Como no exemplo carioca, a Casa d’Itália juiz-forana abrigava desde a sua fundação, várias instituições e associações ligadas à comunidade de imigrantes italianos da cidade e da região, como a Sociedade Umberto I e a sua escola, além da Opera Nazionale Dopolavoro (OND), instituição criada pelo governo italiano e “que tinha o objetivo de organizar as atividades recreativas e culturais dos trabalhadores, e tinha um papel fundamental na socialização das classes populares” (Ferenzini, 2008, 156). Além delas, funcionavam no prédio, a Sociedade Beneficente Dante Alighieri; a filial local do Fascio; o vice-consulado; além de estruturas e equipamentos de cultura e lazer, como biblioteca, bar, sala de jogos, de ginástica e um grande salão com palco onde se realizavam bailes, peças de teatro e exibição de filmes. Sobre o cotidiano da edificação no período narra o Sr. Dante Zanzoni:

Era uma segunda casa. Você trabalhava de dia e a noite ia para lá. Isso era infalível, toda a noite, inclusive aos domingos que havia uma sessão cinematográfica. Enquanto enrolava o filme, etc., tinha sessão de canto. /…/ Isto era uma coisa gostosa, mas que foi assim, de uma forma muito drástica, em 42 quando o Brasil rompeu relações com a Itália por causa da Guerra, fecharam a Casa d’Itália – acabou. E com esta fechada para nós, para filhos de italianos, descendentes de italianos, 17 anos houve esse hiato que foi uma coisa tremenda. Não houve mais aquele congraçamento, não havia como se reunir (Apud Passaglia, 1985, 83)

Por dezessete anos a edificação foi ocupada pelo Círculo Militar. Quando retornou à comunidade dos imigrantes e seus descendentes, a realidade política e social já era outra, mas a atmosfera de congraçamento, embora apresentando sinais e significados diversos, se reinstalou no lugar. Como conta o sr. Adelino Ferretti

Quando ela (a Casa d’Itália) foi devolvida pelo Governo brasileiro, aconteceu uma coisa muito interessante – os italianos que tomavam conta da Casa d’Itália depois de 55 não eram os italianos que tomavam conta antes de 55. Por que? Porque os que tomavam conta da Casa d’Itália eram adeptos de Mussolini, eram adeptos do fascismo, e, os outros, eram contra o fascismo; e foi justamente entregue aos italianos anti-fascistas que não frequentavam a Casa d’Itália (Apud Passaglia, 1985, 83-84)

Entre as diversas atividades que retornaram a Casa, se destacou, entre 65 a 73, o Teatro da Casa d’Italia, que passou a ser denominado de Teatro de Comédia Independente, como lembra o ator, diretor e dramaturgo italiano Natale Chianello, que se radicou na cidade e assumiu o nome de Natálio Luz:

Este teatro foi criado por nós, porque a Casa d’Itália tem, eu diria, o mais, o mais adequado palco de comédia da cidade […] houve uma época em que o teatro durou na Casa d’Itália. É um espaço maravilhoso ali; ali foram montadas peças dos mais variados valores de gama artística. […] Então houve, houve um tempo, eu repito, que a Casa d’Itália foi o centro polarizador das atividades artísticas e culturais de Juiz de Fora (Apud Passaglia, 1985, p. 82).

 Os relatos das confraternizações, dos encontros, do cotidiano vivido dentro das paredes da edificação se multiplicam se nos detivermos a escutar o que dizem os descendentes dos imigrantes italianos, como o Sr. Tisio Arcuri e as suas lembranças das macarronadas, dos cantores da colônia, e dos “italianos com grande vocação para falarem muito” empreendendo os “muitos festejos” (Apud Passaglia, 1985, p. 84) que se realizaram ali.

Mas não só italianos e seus descendentes propiciaram e produziram a vida cultural e social do lugar. Natálio Luz, por exemplo, afirma a importância do teatro da Casa, por exemplo, para o inicio das atividades de “um dos melhores diretores do teatro local” (Apud Passaglia, 1985, p. 81) José Luiz Ribeiro e do seu hoje famoso Grupo Divulgação, em seu palco.

Essa vocação da Casa d’Itália para abrigar e incentivar as atividades culturais e sociais nunca deixou de existir, mesmo que com menos intensidade em alguns momentos. E teve um grande e fundamental reforço com a implementação do Departamento de Cultura, em 2015, retomando algumas atividades tradicionais no espaço, como os espetáculos e os jantares em seu privilegiado salão e auditório; reforçando a oferta de cursos e oficinas e estimulando e produzindo as exposições e outros eventos não só para a comunidade de descendentes dos imigrantes italianos mas, também, o que é potencial nos espaços culturais, irradiando a sua atratividade para outros segmentos da sociedade juiz-forana.

A preservação do patrimônio constituído pela Casa d’Itália passa, portanto, pela manutenção dessa vida cultural abrigada em seu interior. É essa vida que a identifica, que a singulariza, e da qual suas fachadas e seus interiores se tornam, cada vez mais, como seus representantes. Olhar para essas fachadas e espaços é associá-los, imediatamente, a todas essas atividades que povoam e que, efetivamente, constituem as suas memórias e o seu cotidiano. Não existe a edificação sem essas atividades que a fazem se mover e realizar a sua peculiar atmosfera, que se sobressai no cenário urbano da nossa cidade.

[1] TRENTO, Ângelo. Op. cit., p. 333.


Referências Bibliográficas:

FERENZINI, Valéria Leão. “Os italianos e a Casa d’Itália de Juiz de Fora”. Locus: revista de história, Juiz de Fora, v. 14, n. 2, p. 149-159, 2008.

OLENDER, Marcos. “ ‘Pedra miliar da nossa arte e da nossa estirpe’: a Casa d’Itália de Juiz de Fora. Locus: revista de história, Juiz de Fora, v. 14, n. 2, p. 161-185, 2008.

OLENDER, Marcos. Ornamento, ponto e nó: da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Raphael Arcuri. Juiz de Fora: Editora UFJF / FUNALFA, 2011.

PASSAGLIA, Luiz Alberto do Prado. Processo  de  Tombamento  da  Casa  d’  Itália (Processo no. 6372/84).  Arquivo  da  Divisão  de  Comunicação  da Secretaria Municipal da prefeitura de Juiz de Fora. Fundo IPPLAN (Instituto de Pesquisa e Planejamento), 31/05/1985.

TRENTO, Ângelo. Do Outro Lado do Atlântico: Um século de imigração italiana no Brasil. São Paulo: Nobel, 1989.

Marcos Olender

Arquiteto, urbanista e historiador. Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela UFRJ. Mestre em História Social pela UFRJ e Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela UFBA. Professor do Departamento de História e da Pós-graduação em História da UFJF, Diretor do CECOM- UFJF, Diretor de Projetos do ICOMOS-Brasil, líder do Grupo de Pesquisa e extensão Laboratório de Patrimônios Culturais (LAPA) – UFJF.


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