Casa D’Italia de Juiz de Fora: 36 anos de legitimidade do tombamento como patrimônio da cidade

Dia 06 de Junho de 1984, cidadãos juizforanos, Italianos e descendentes enviam sua primeira carta oficial ao prefeitura de Juiz de Fora, naquela altura, Sr. Tarcísio Delgado, dando início ao pedido de abertura do processo de tombamento da Casa D’Italia de Juiz de Fora. “CONSIDERANDO a importância que tem a colônia italiana da formação histórica de nossa cidade consubstanciada na cultura e trabalho de sua gente cujo símbolo concreto é a Casa D’Italia; 1

Mas, para entendermos um pouco do entrelaçar desta história, precisamos voltar mais no tempo. Tudo começou quando, em 1933, Pantaleone Arcuri e Antônio Passarella, dois italianos imigrantes, residentes na cidade, se juntam com o objetivo de comprar um terreno para construir o tão sonhado espaço onde se sentiriam novamente em casa, a sua Casa D’Italia. O Governo Italiano, representado pelo seu agente Consular da época, entra no processo de compra em termos apenas de representação, ou seja, como forma de endossar o processo de compra. Anos depois, em 1936, a Casa D’Italia começa a ser construída, tendo sido assim possível principalmente através da contribuição de mais de 140 famílias que doaram inclusive bens, como alianças por exemplo, para somar ao valor total.

“Neste sentido, a Casa D’Italia pode ser considerada como o projeto mais complexo de um edifício que foi concebido como um centro de vivência ítalo-brasileira, unindo a função educacional presente pelo ensino da língua, da música, da pintura das operetas, integrando todas as atividades num quadro de lazer cultural, cabendo ao edifício abrigar essas múltiplas funções” 2 .

No ano de 1942, quando o Brasil consolida o acordo com os Estados Unidos, o presidente Getúlio Vargas declarou, em janeiro daquele ano, oficialmente o rompimento das relações brasileiras com os membros do chamado Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Todos os imóveis pertencentes a estes países foram tomados pelo governo e a Casa D’italia, como estava em nome do governo italiano, não seria diferente, acabou virando por anos círculo militar, tendo até mesmo seu letreiro da fachada retirado, o famoso DOMUS ITALICA.

“Era uma segunda casa. Você trabalhava de dia e a noite ia pra lá. Isso era infalível, toda a noite, inclusive aos domingos que havia uma sessão cinematográfica. Enquanto enrolava o filme, etc., tinha sessão de canto. (…) isso era uma coisa gostosa, mas que foi assim, de uma forma muito drástica, em 42 quando o Brasil rompeu relações com a Itália por causa da Guerra, fecharam a Casa D’Italia – acabou. E com esta fechada para nós, para filhos de italianos, descendentes de italianos, 7 anos houve esse hiato que foi uma coisa tremenda. Não houve mais aquele congraçamento, não houve mais como se reunir” 3 .

Em 8 de outubro de 1949, é assinado um acordo ítalo-brasileiro que prevê a restituição ao Governo Italiano de bens pertencentes ao mesmo e requisitados durante a 2ª Guerra Mundial. De acordo com esta lei, somente os governos estrangeiros podem possuir imóveis no território brasileiro, e não outras entidades, ou seja, apenas para fins de embaixadas e consulados, o que não era o caso da Casa D’Italia de Juiz de Fora. Como bem lembramos, no momento da compra do imóvel, colocou-se no nome do governo italiano para fins de preservação, para que não fosse vendido pelas entidades gestoras ou algo desta espécie. Mas, é neste momento que se inicia a primeira onda do processo de intenção de venda deste patrimônio.

Anos depois, é notícias nos jornais do ano de 1984: “Casa D’Italia, a luta pela preservação desencadeia um movimento da comunidade, artistas e intelectuais.” (TRIBUNA DE MINAS, 1984). Naquela época, a justificativa para a intenção de venda afirma que, Segundo o ministério das Relações Exteriores, “há bastante tempo o prédio não desenvolve atividades culturais ou recreativas.” Segundo a carta enviada à prefeitura de Juiz de Fora naquele ano pelo governo italiano, “o projeto de vender a Casa D’Italia não é inspirado por uma escassa consideração para a colônia italiana da cidade, cujos méritos são conhecidos, mas não poderia deixar de levar em conta as exigências de outras sedes” (TRIBUNA DE MINAS, 1984) e ainda segundo a carta, acreditava-se que não havia na época, representação da coletividade italiana que justificava o tamanho do prédio.

É então neste momento que surge um importante e histórico movimento chamado de Comitê Pró-Renascimento da Casa D’Italia – RINASCERE. Composto por italianos (muitos deles haviam chegado na segunda onda de imigração, nas décadas de 1940/50) e descendentes destes e dos italianos mais velhos, que fizeram parte da criação da Casa D’Italia, este movimento nasce de um sentimento de pertencimento e uma ânsia de preservar suas origens. Os anos haviam se passado, mas incrivelmente a Casa D’Italia ainda simbolizava o seio de sua pátria e não era possível deixar que este símbolo fosse simplesmente vendido. Foi assim, com muitos esforços reunidos, após um longo processo, que finalmente o edifício foi tombado como patrimônio da cidade de Juiz de Fora. A partir dali a Casa D’Italia passou a ser do juizforano. Ela que faz parte da essência da cultura da cidade, que está no centro da principal avenida, que nasceu por um regime fascista e totalitário, em 1984, passa a oficialmente fazer parte da lista dos lugares mais importantes da cidade, sendo um dos primeiros dez imóveis tombados do município.

“Não cabe neste parecer, por limitações de quem o faz, tecer considerações à respeito das relações complexas estabelecidas entre nacionalidade, cultura e imigração, muito menos entre o humanismo da cultura italiana com o momento histórico, político e ideológico do regime fascista, mas, no entanto, podemos ver como a Casa D’Italia poderá possibilitar, dentro do amplo trabalho de identificação, documentação e preservação da memória italiana em nosso território, elemento de referência concreto – o edifício – que testemunha uma etapa das mais delicadas das relações entre dois países. Mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, quando o imóvel passou para a tutela do governo brasileiro, ali se instalou o círculo militar que, no entanto, não deixou o edifício de desempenhar a essência da função que o mesmo fora destinado – um centro de convivência” 4 .

Hoje, na marca dos seus 80 anos, ela sobrevive, como símbolo da resistência cultural, com a mesma função de sua fundação, não sendo um ano sequer distanciada de seu objetivo, o de proporcionar educação e cultura. Ela que cada vez mais faz por e pelo povo de Juiz de Fora. Ela que passou por Guerra, ditadura, inúmeros presidentes, agente consulares e cônsules. Ela que respira cultura e pulsa resiliência. Suas raízes italianas, a cada ano que passa, são mais fortes em solo juizforano, pois em suas paredes está escrita a história do seu povo, a luta dos seus filhos ítalo-brasileiros, a história de Juiz de Fora e assim continuará sendo.


1 Processo de tombamento da Casa D’Italia de Juiz de Fora, pg 04.
2 Processo de tombamento da Casa D’Italia de Juiz de Fora,, pg 89.
3 Depoimento de Dante Zanzoni registrado no processo de tombamento da Casa D’Italia de Juiz de Fora, pg 83.
4 Processo de tombamento da Casa D’Italia de Juiz de Fora, pg. 82.


Paola Frizero

Formada em Turismo pela UFJF, com ênfase em patrimônio cultural e bacharela em Ciências Humanas. Pós-graduada em Gestão Cultural, obtive experiências profissionais principalmente em educação patrimonial e hoje, além de atuar também no TRADE turístico, sou mestranda na Universidade de Évora – Portugal, em Turismo e Desenvolvimento de Destinos e Produtos.


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