REVISTA CASA D’ITALIA – Ano 05, nº40, 2025

Ano 05, nº40, 2025 – Edição ‘Nº40’ – ISSN: 2764-0841

Editorial

Chegamos à 40ª edição da Revista Casa D’Italia, a revista Ítalo-mineira de Juiz de Fora, com um conjunto de textos que convida o leitor a percorrer diferentes tempos, lugares e formas de expressão — sempre atentos às camadas de sentido que se revelam quando olhamos com cuidado para o passado e o presente.

Abrimos esta edição com o artigo “Ressignificação da memória e imagens do crescimento em ‘p – pessoa’, de Maria Grazia Calandrone”, de Caroline Barreto e Hellen Karla Almeida, que oferece uma leitura sensível do poema da autora italiana contemporânea, em diálogo com o conceito de experiência de Jorge Larrosa. Trata-se de um mergulho na linguagem poética como espaço de vivência, percepção e transformação.

Na sequência, o texto “O Hino de Juiz de Fora entre leis e como instrumento de aprendizagem”, de Edylane Eiterer, propõe um resgate crítico do hino municipal como ferramenta pedagógica e simbólica. A autora analisa as tentativas legislativas de normatização do seu uso, a ausência de diretrizes claras e a invisibilização do compositor negro responsável por sua melodia, apontando para a importância desses elementos no ensino da História Local e na valorização da Educação Patrimonial.

Ainda neste número, o texto “O feminismo na Itália”, de Mônica Barral, percorre a trajetória do movimento feminista italiano do Renascimento à atualidade, revelando os principais marcos culturais, políticos e sociais que moldaram a participação das mulheres na sociedade, destacando seus paradoxos, rupturas e conquistas ao longo da história.

A edição também nos leva ao Rio de Janeiro dos anos 1920 com “Pintores à vista: Manoel e Haydéa Santiago vão à praia”, de Laíza de Oliveira Rodrigues. A partir de retratos do casal veiculados na imprensa, a autora analisa sua inserção no circuito das belas-artes e nas esferas de sociabilidade urbana da época, tecendo reflexões sobre arte, gênero e visibilidade.

Outros textos complementam e enriquecem esta edição, como  “Museu de Percurso Raphael Arcuri: Arquitetura e memória no centro de Juiz de Fora”, de Letícia Rabello, que destaca o papel da arquitetura na construção da identidade urbana de Juiz de Fora; “Casa d’Italia: passado, presente e futuro”, de Maria Clara Magalhães, que revisita os sentidos históricos e simbólicos desse espaço fundamental na relação entre Brasil e Itália;  a pesquisa feita sobre “O perfil do operariado juiz forano na primeira metade do século XX”, por Andreia Rodrigues, Alessandra Germano e Arlene Costa. 

Convidamos você a explorar cada um desses artigos que, embora distintos em temas e abordagens, compartilham um mesmo espírito investigativo: o desejo de compreender as experiências humanas em sua riqueza, complexidade e beleza entre Brasil e Itália.
A Revista Casa D’Italia é uma realização da Duplo Estúdio de Criação, em parceria com o Departamento de Cultura da Associação Casa D’Italia. Agradecemos a todos os escritores, leitores e nossos apoiadores que tornaram esta 40ª edição da Revista Casa D’Italia possível. Juntos, continuamos a construir uma Revista que inspire o pensamento e as mudanças em nossa sociedade.

Boa leitura!

Ressignificação da memória e imagens do crescimento em “p – pessoa”, de Maria Grazia Calandrone
por Carolina de Oliveira Barreto e Hellen Karla Almeida
O Hino de Juiz de Fora entre leis e como instrumento de aprendizagem
por Edylane Eiterer
Pintores à vista: Manoel e Haydéa Santiago vão à praia
por Laíza de Oliveira Rodrigues
Casa d’Itália: passado, presente e futuro
por Maria Clara Cabral
O feminismo na Itália
por Mônica Vasconcellos Barral Campos
Museu de Percurso Raphael Arcuri: Arquitetura e memória no centro de Juiz de Fora
por Letícia Rabelo dos Santos
O perfil do operariado juiz forano na primeira metade do século XX: uma análise dos registros de empregados da Cia Pantaleone Arcuri
por Andreia de Freitas Rodrigues e Arlene Xavier Santos Costa

Ressignificação da memória e imagens do crescimento em “p – pessoa”, de Maria Grazia Calandrone

Revista Casa D’Italia – Ano 5, n. 40, 2025 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais
Carolina de Oliveira Barreto e Hellen Karla Almeida | Ressignificação da memória e imagens do crescimento em “p – pessoa”, de Maria Grazia Calandrone

Resumo: Este artigo pretende fazer uma breve leitura de “p – pessoa”, poema da autora italiana contemporânea Maria Grazia Calandrone. Nesta leitura também será discutida a relação entre as imagens poéticas construídas pela autora e o conceito de experiência proposto por Jorge Larrosa no primeiro capítulo do livro Tremores: escritos sobre experiência

Palavras-chave:Maria Grazia Calandrone. Experiência. Memória. Ressignificação.

Abstract: This paper intends to do a brief reading of “p – person”, a poem by the contemporary Italian author Maria Grazia Calandrone. In this reading the connection between the poetic images constructed by the poet and the concept of experience proposed by Jorge Larrosa in the first chapter of the book Tremors: writtings about experience will also be discussed.

Key words: Maria Grazia Calandrone. Experience. Memory. Resignification.

Riepilogo:

Parole chiave:

***

Há poucos anos, Maria Grazia Calandrone, autora italiana contemporânea, teve suas primeiras obras traduzidas para a língua portuguesa no Brasil. Em 2022, Brilha como vida, livro em prosa, foi publicado pela Editora Relicário, com tradução de Patricia Peterle e Andrea Santurbano. Nesse mesmo ano, A vida inteira, livro de poemas, foi lançado pela Editora Urutau, com tradução de Patricia Peterle.

Neste artigo, realizaremos uma breve análise do poema “p – pessoa”, presente no segundo livro mencionado anteriormente:

“Uma pessoa é o que resta quando está distante”,           

                                                                         [isso

já escrevi. Eu estou aqui

e te faço falta, porque lembro

só daquilo que faz bem

lembrar: peneirei o ouro

da minha vida, o ouro da areia

da infância, quando minha mãe me levava à praia e 

                                                  [eu olhava por horas

como reluz o mar dos promontórios. Não adianta 

                                                                     [lembrar

quando o amor se transforma em monstro. Não 

                                                       [adianta lembrar

quantas vezes eu já morri

enquanto estava viva. Não adianta lembrar

do abandono. Uma pessoa é aquilo que ela contém

depois de a vida

ter trabalhado a tora da vida

até a medula, até dela fazer um barco levíssimo

que se mantém no mar

sob qualquer céu. Eu me lembro apenas

do reluzir a perder de vista

da minha vida. Se olhar bem,

verá uma coisa viva. Se olhar bem,

verá que agora finalmente estou

só viva.

Roma, 31 de dezembro de 2018 

(Calandrone 2022, 117).

Começaremos nossa leitura pelo título, que se mostra bastante instigante devido à sua composição: a letra “p” é separada da palavra “pessoa” por um travessão, escolha estética que sugere múltiplas possibilidades de interpretação e prepara o leitor para os diversos caminhos que poderão ser percorridos ao longo do poema.

A hipótese que adotamos parte de uma análise da sonoridade do fonema [p] e dos sentidos que ele suscita. Esse fonema é uma consoante oclusiva bilabial desvozeada (Cristófaro, 2003, p. 37), com total restrição à passagem do ar. Isso pode ser comprovado ao tentarmos pronunciar o [p] isoladamente, sem acompanhá-lo de uma vogal: o ar fica preso na boca e o som da consoante não se produz até que seja unido ao de uma vogal, o que, então, permite a passagem do ar e a emissão sonora, como em [pe], no início da palavra “pessoa”.

Em vista disso, associamos essa explosão sonora ao nascimento, compreendido aqui não apenas como início da vida, mas também como espaço de ressignificação da experiência, mediada pela memória no poema em análise. Nele, as palavras “vida” e “viva” se repetem, apontando para sucessivos (re)nascimentos simbólicos que atravessam as experiências vividas pelo eu lírico.

Segundo Jorge Larrosa (2015, p. 18), a “experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece.” Com isso, compreendemos que,

Se a experiência não é o que acontece, mas o que nos acontece, duas pessoas, ainda que enfrentem o mesmo acontecimento, não fazem a mesma experiência. O acontecimento é comum, mas a experiência é para cada qual sua, singular e de alguma maneira impossível de ser repetida. O saber da experiência é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto em quem encarna. (Larrosa 2015, 32).

Considerando esse caráter singular e corpóreo da experiência, propomos que o corpo também se torna uma fonte de significação daquilo que nos acontece, ao mesmo tempo em que é afetado pela própria experiência, reconstruindo sentidos para si e para o que se passa em nós. Contudo, é necessário afirmar que a significação da experiência não é imutável. Por isso, a memória desempenha um papel importante nos processos de ressignificação do vivido, já que, ao tentarmos repetir ou reviver o que um acontecimento despertou em nós, acabamos por modificar seu significado anterior, conforme o saber construído a partir das demais experiências vivenciadas ao longo do tempo.

Desse modo, a relação entre memória e experiência é importante para a continuidade desta análise, já que partimos do pressuposto de que a memória seria uma forma de entrarmos em contato novamente com a experiência vivida, sem ser, de fato, uma repetição do momento em que essa se deu. A memória seria, então, uma forma de relembrar uma dada experiência e de ressignificá-la por meio dos saberes singulares construídos a partir de experiências diferentes daquela que é rememorada.

Essa hipótese se confirma ao analisarmos a criação de duas importantes imagens poéticas presentes nos seguintes versos: “peneirei o ouro/da minha vida” e “a vida/ter trabalhado a tora da vida/até a medula” (Calandrone, 2022, p. 117). “Peneirar o ouro da vida” e “trabalhar a tora da vida” são imagens elaboradas a partir das experiências que remetem ao processo de amadurecimento do eu lírico. Além disso, esses versos apontam para a transformação da compreensão do mundo ao longo da existência humana.

O verbo peneirar possui, entre seus sentidos, o de selecionar. Ao lermos o poema como um todo, torna-se evidente o trabalho de ressignificação da experiência vivida, no qual o eu lírico interfere ativamente: “lembro/só daquilo que faz bem/lembrar” (Calandrone, 2022, p. 117). No entanto, não há controle absoluto sobre o que nos vem à memória; por isso, o trabalho de peneirar, ou seja, de filtrar as experiências, torna-se necessário — separando a areia do ouro. Vale ressaltar que o ouro é um material extremamente maleável e pode ser transformado em fio. Metaforicamente, podemos compreender que esse fio constitui a matéria da escrita poética, bem como o próprio processo ativo de ressignificação da experiência, como se observa nos versos: “Não adianta lembrar/quando o amor se transforma em monstro. Não adianta lembrar/quantas vezes eu já morri/enquanto estava viva. Não adianta lembrar/do abandono.” (Calandrone, 2022, p. 117).

“Trabalhar a tora da vida” pode ser entendido não apenas como uma metáfora da ressignificação da experiência, mas também como forma de destacar que esse processo resulta das escolhas feitas pelo eu lírico ao longo de sua trajetória. A tora é uma matéria-prima constituída por um tronco de árvore sem copa e sem raízes, ou ainda por um segmento do tronco. Essa matéria pode assumir diversas formas por meio do trabalho humano. Da mesma forma, as experiências humanas, enquanto matéria bruta encarnada, podem ser ressignificadas pela memória, que reelabora o vivido a partir dos saberes adquiridos nas múltiplas experiências ao longo da vida. No poema, a “tora da vida” poderia ser transformada em qualquer objeto, mas a poeta opta por “um barco levíssimo/que se mantém no mar/sob qualquer céu” (Calandrone, 2022, p. 117). Com isso, evidencia-se o desejo do eu lírico de se reinventar, de se reconstruir constantemente, ressignificando suas experiências, inclusive diante da vulnerabilidade.

As imagens analisadas mostram, portanto, que o saber corpóreo da experiência, como propõe Larrosa, é ressignificado no poema por meio da atuação consciente do eu lírico no processo de reconstrução da memória — ainda que tal processo não seja plenamente controlável, dada a complexidade das significações inscritas no corpo pela experiência.

Para concluir, o que se torna evidente em “p – pessoa” é o processo de crescimento e amadurecimento do eu lírico, sugerido nos versos finais: “Se olhar bem,/verá que agora finalmente estou/só viva.” (Calandrone, 2022, p. 117). A poeta parece afirmar que, para se sentir viva, é preciso engajar-se continuamente na transformação de si mesma — ou seja, ser capaz de (re)nascer simbolicamente inúmeras vezes, ressignificando o que é lembrado. Assim, ao tecer poeticamente as narrativas oriundas da ressignificação da experiência vivida, a autora apresenta, em seu texto, aquilo que constitui a vida desse eu lírico enquanto pessoa.


Referências bibliográficas:

Calandrone, Maria Grazia. 2022. A vida inteira. Cotia: Urutau.

Larrosa, Jorge. 2015. Tremores: escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica.

Silva, Thaïs Cristófaro. 2003. Fonética e Fonologia do Português: roteiro de estudos e guia de exercícios. São Paulo: Contexto.


Carolina de Oliveira Barreto

Tem graduação em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, bem como mestrado e doutorado em Estudos Literários por essa mesma instituição. Foi menção honrosa no prêmio Anpoll em 2012 com sua dissertação de mestrado intitulada Narrativas da “frátria imaginada”: Ferréz, Dugueto Shabazz, Sérgio Vaz, Allan da Rosa. Sua tese de doutorado, cujo título é Perifagia – comendo pelas beiradas: entulho, inocência e marmita, foi publicada em 2018 pela editora Bartlebee. Trabalha com oficinas literárias desde 2012 e tem livros de poemas publicados


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O Hino de Juiz de Fora entre leis e como instrumento de aprendizagem

Revista Casa D’Italia – Ano 5, n. 40, 2025 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais
Edylane Eiterer | O Hino de Juiz de Fora entre leis e como instrumento de aprendizagem

Resumo: Na cidade de Juiz de Fora, por diversas vezes, o hino municipal foi alvo de leis que inseriram sua execução nos ambientes escolares, eventos políticos e esportivos, regulamentaram sua forma de canto e até vincularam essas leis ao caráter didático-pedagógico, mas, efetivamente, faltam orientações para esse uso, sem contar que tampouco se evidenciam o fato de sua melodia ser de autoria de um compositor negro. O hino municipal, assim como os demais símbolos municipais podem ser potentes ferramentas para o ensino de História Local e de Educação Patrimonial quando devidamente explorados com os estudantes e, é sobre esta possibilidade que esse se trata esse texto.

Palavras-chave:Hino de Juiz de Fora. Educação Patrimonial. Ensino de História. História local.

Abstract: In the city of Juiz de Fora, on several occasions, the municipal anthem was the target of laws that included its performance in school environments, political and sporting events, regulated its form of singing and even linked these laws to the didactic-pedagogical character, but, effectively , there is a lack of guidelines for this use, not to mention that there is no evidence of the fact that its melody is written by a black composer. The municipal anthem, as well as other municipal symbols, can be powerful tools for teaching Local History and Heritage Education when properly explored with students, and it is this possibility that this text is about.

Key words: Anthem of Juiz de Fora. Heritage Education. History Teaching. Local History.

Adotar o hino da cidade de Juiz de Fora como recurso de investigação e análise da História Local é uma perspectiva mais plural dos saberes locais e da participação mais efetiva dos estudantes como agentes culturais.

Em geral, o hino de uma cidade é um dos vários gêneros textuais líricos que permite um olhar sobre a cidade “como eixo de estudo na história, aproximando os alunos do caráter transdisciplinar desse tema” (Oliveira, 2012, p. 104).

Dentro do tema, passíveis de abordagens de estudos a partir do hino municipal, tem-se: as temporalidades, os espaços, as relações de produção e sociais, além do vocabulário, permitindo que os estudantes percebam as transformações, as continuidades, as rupturas e a relação entre o passado e o presente.

O hino da cidade de Juiz de Fora, ou Marcha à Juiz de Fora, tem como autores Lindolfo Gomes, letrista, e Cincinato Duque Bicalho, compositor da música, e apresenta a cidade com o seu esplendor da época.

Os autores são Lindolfo Gomes, que nasceu em 1875 na cidade de Guaratinguetá, São Paulo, e fez carreira como professor, jornalista, folclorista, poeta e filólogo, e membro fundador da Academia Brasileira de Letras, que faleceu em 1953; e Cincinato Duque Bicalho, que nasceu em Teófilo Otoni, em 1887, e viveu em Juiz de Fora. Homem negro, filho de uma família negra que ascendeu socialmente, em 1906 se formou no antigo Instituto Nacional de Música, atual Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e atuou como maestro, compositor e professor de música.

Duque Bicalho viveu em um “período marcado por uma nova configuração das relações sociais e raciais, identitárias e de poder, (re)desenhada no país depois de séculos nos mundos da escravidão” (Ribeiro, 2019, p. 131), em uma sociedade imersa no racismo e com hierarquias raciais.

Como maestro, professor e músico experiente, Duque dedicou-se ao ensino de música em escolas primárias e na formação de professores e, no ano de 1967, recebeu o título de Personalidade Juiz-forana e, em 1974, recebeu a Comenda Henrique Halfeld, falecendo em 1975.

Conhecer um pouco dos autores permite estabelecer as suas relações, por exemplo, com a Educação do município. O pai de Duque Bicalho, Torquato Bicalho, e sua irmã, Áurea Bicalho, fundaram, em 1905, o Colégio Delfino Bicalho, que funcionou por cerca de cinquenta anos, onde Duque Bicalho e Lindolfo Gomes atuaram como professores, de acordo com o jornal O Pharol, em 14/03/1915.

Os autores pertenciam à elite social e apresentavam uma visão específica de seu grupo, o que pode ser percebido com uma análise da letra.

Em seus versos iniciais, “Viva a princesa de Minas / Viva bela Juiz de Fora”, têm-se exaltadas as suas belezas e um tom de realeza ao atribuir-lhe a alcunha de Princesa de Minas, como a cidade é conhecida até os dias de hoje.

Seus aspectos culturais e econômicos, relacionados ao processo de industrialização, são expressos nos versos seguintes: “Que caminha na vanguarda / Do progresso estrada afora! / Das cidades brasileiras / Sendo a mais industrial, / Na cultura e no trabalho / Não receia outra rival”. Juiz de Fora reconhecidamente vivenciou um processo de industrialização que a colocou em destaque no Estado de Minas Gerais, inclusive dando-lhe o título de Manchester Mineira.

Nos anos finais do século XIX e início do século XX, a cidade era marcada pela presença das indústrias, da energia elétrica e pela implementação de tecnologias em vários setores produtivos.

Outros apelidos podem ser explorados a partir desse pioneirismo industrial, como “Farol de Minas” ou “Farol da América”, em alusão à construção e inauguração da primeira usina hidrelétrica da América do Sul, a Usina Hidrelétrica de Marmelos, em 1889, um empreendimento de Bernardo Mascarenhas para suprir as demandas de sua companhia têxtil, e cujo excedente de eletricidade era destinado à iluminação das vias públicas a partir de autorização da Câmara Municipal.

No âmbito da cultura, a cidade destacou-se com o primeiro teatro de Minas com cinema, o Cine Theatro Central, além do primeiro museu do Estado, o Museu Mariano Procópio.

No trecho “Demos palmas, demos flores / Aos encantos da Princesa! / Ela é rica de primores / Da poesia e da beleza. / É a cidade aclamada, / Do trabalho e da instrução”, novamente destacam-se as qualidades culturais da cidade.

A imprensa era muito ativa, com a inauguração do seu primeiro jornal impresso, O Imparcial, em 1870. O jornal mais ativo do período foi O Pharol, publicado entre 1872 e 1939, sendo uma das principais fontes de pesquisa da História Local. No século XIX, a cidade contou com 55 jornais.

Outra curiosidade é a fundação da Academia Mineira de Letras (AML), em 1909, com a participação de jornalistas, escritores, advogados, professores e poetas, sendo transferida para a capital, Belo Horizonte, em 1915. Já no século XXI, a cidade conta com a Academia Juiz-forana de Letras (AJL) e a Academia Manchester Mineira de Letras (AMML), além de diversas instituições que propagam a cultura no município.

Finalizando o hino, o trecho “É do Cristo abençoada / Sob o sol da religião” faz alusão à forte presença da Igreja Católica na cidade e ao monumento do Cristo, no Morro do Imperador, também presente no brasão municipal, erguido em 1906.

A presença da Igreja Católica se fortaleceu em meados de 1920 com a criação da Diocese de Juiz de Fora, com a organização de diversos movimentos.

Muitos aspectos da formação da cidade e de sua identidade não aparecem no hino, sendo apenas um recurso inicial de estudo da história local, de modo que ampliar o olhar para a bandeira e o brasão municipais torne o trabalho mais completo.

Embora o hino exalte os trabalhadores com os versos: “Os seus filhos operosos / Asseguram-lhe o porvir, / Para vê-la grandiosa / Nunca têm mãos a medir…”, não fica claro se a referência é apenas aos trabalhadores urbanos, uma vez que não há nada que mencione o fato de que a mão de obra de negros escravizados formou as bases dos trabalhadores até o início do século XX.

Aqui, cabe uma reflexão acerca das memórias atreladas aos jogos de poder entre o que deve ser lembrado e o que é apagado, esquecido intencionalmente pelos grupos que dominam os discursos.

O hino abordado nas leis municipais

O hino de Juiz de Fora foi oficializado em 1950, através da lei nº 273/1950, assinada pelo prefeito Dilermando da Costa Cruz Filho, em um texto simples, de cinco artigos, que especificaram o valor pago aos autores como direitos autorais e as medidas que seriam tomadas para divulgação do hino: a impressão em folhetos e sua distribuição para a comemoração do centenário da cidade.

Em 1993, através da lei nº 8284, tornou-se obrigatória a execução do hino nacional brasileiro em todas as escolas da rede municipal em todo primeiro dia útil de cada semana, sendo, em 1997, alterada com a incorporação da execução do hino municipal, além da introdução, no Ensino Fundamental, da implementação de uma aula semanal de ensino de matéria de Interesse Cívico, tendo também a sinalização do ensino dos significados e da importância de todos os símbolos Nacionais.

Lei muito semelhante é a nº 10.192/2002, que dispõe sobre a obrigatoriedade de cantar o Hino Nacional e o Hino Municipal nos Estabelecimentos de Ensino da Rede Municipal, estendendo-se aos “1.º e 2.º graus das escolas municipais de ensino”. O que diferencia as duas leis é que, nesta, há a indicação do hasteamento da Bandeira Nacional e que o momento cívico deve acontecer no início de todas as solenidades e comemorações promovidas pelas escolas.

Em 2005, a lei nº 10921 dispõe sobre a forma na qual o hino deve ser cantado, anexando-se a partitura.

Por fim, a lei nº 15050/2025 dispõe sobre a obrigatoriedade de execução do Hino do Município em eventos esportivos e políticos, devendo-se dar no início das atividades, podendo ser hasteadas as Bandeiras Nacional e Municipal.

São apresentados como objetivos desta lei o conhecimento do hino e a compreensão de seu significado; a sua valorização, da bandeira e dos símbolos do Município e o desenvolvimento do senso de cidadania e patriotismo; além da compreensão da postura adequada no momento de execução de hinos, mas nenhuma forma de se exercer essas questões educativas são previstas nesses eventos, o que dificulta a sua intenção didática.

Observa-se que não houve uma preocupação nessas leis em se discutir ou reconhecer os elementos dos símbolos municipais, de forma a se compreender as bases de suas escolhas, a história da cidade e a reflexão sobre as identidades e as memórias, tornando-se a execução do hino municipal em mera formalidade, sem que haja sua exploração do ponto de vista didático-pedagógico, em potencial que ele pode ser.

Quando se conta com os símbolos municipais, partindo-se do hino municipal como ferramenta de prática do ensino de História Local, pode-se ancorá-lo junto aos Patrimônios Culturais e aos estudos de identidade e memória, o que ganharia suporte junto às escolas e às leis municipais.

No entanto, na cidade de Juiz de Fora, embora haja algumas leis que tratem do hino municipal e de sua execução nas escolas e em eventos políticos e esportivos, não há uma abordagem pedagógica desse instrumento, fazendo com que os momentos de sua execução se tornem esvaziados da possibilidade de construção de saberes e do conhecimento do processo de construção desses símbolos.

A execução do hino municipal ou a reprodução dos símbolos municipais sem um debate, sem uma reflexão, torna-se uma atividade mecânica e sem efeitos para a formação dos estudantes ou dos cidadãos que poderiam ser envolvidos efetivamente e afetivamente com a história da cidade, se houvesse uma formulação de práticas de Educação Patrimonial sendo executada junto aos professores e às escolas municipais da cidade, com o efeito de programas educativos e/ou eventos itinerantes, por exemplo, coordenados pela própria Câmara Municipal, aproximando-se das escolas e da população, efetivando-se suas políticas com a qualidade educacional que os símbolos municipais podem oferecer.


Referências bibliográficas:

Brasil, Ministério da Educação e do Desporto. 1998. Parâmetros curriculares nacionais: história (5ª a 8ª série). Brasília.

Juiz de Fora. Câmara Municipal. Lei 273 de 1950. Disponível em: <http://leismunicipa.is/mrdaf&gt;. Acesso em 16 de janeiro de 2025.

_____. Câmara Municipal. Lei 273 de 1950. Disponível em: <http://leismunicipa.is/mrdaf&gt;. Acesso em 16 de janeiro de 2025.


Edylane Eiterer

É historiadora (UFJF), mestre em Educação (UFF), especialista em Gestão do Patrimônio Cultural, Metodologias do Ensino de História e professora da rede municipal de Juiz de Fora. Pesquisadora e professora de Culturas e Danças Ciganas. Escritora e poeta. edylaneeiterer@yahoo.com.br


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Pintores à vista: Manoel e Haydéa Santiago vão à praia

Revista Casa D’Italia – Ano 5, n. 40, 2025 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais
Laíza de Oliveira Rodrigues | Pintores à vista: Manoel e Haydéa Santiago vão à praia

Resumo: Este texto convida a um apontamento sobre a imagem dos pintores Manoel Santiago e Haydéa Lopes Santiago na sociabilidade carioca dos anos 1920. Amparando nossa análise nos retratos do casal de artistas que circularam na imprensa, em reproduções fotográficas, traçamos paralelos entre a inserção de ambos no circuito das belas-artes e na experiência social no Rio de Janeiro.

Palavras-chave:Manoel Santiago; Haydéa Lopes; Imprensa.

Abstract: This text invites us to reflect on the image of the painters Manoel Santiago and Haydéa Lopes Santiago in the Rio sociability of the 1920s. Supporting our analysis on the portraits of the artist couple that circulated in the press, in photographic reproductions, we draw parallels between the insertion of both in the fine arts circuit and in the social experience in Rio de Janeiro.

Key words: Manoel Santiago; Haydéa Lopes; Press.

Riepilogo: Questo testo ci invita a riflettere sull’immagine dei pittori Manoel Santiago e Haydéa Lopes Santiago nella socievolezza di Rio degli anni ’20, supportando la nostra analisi sui ritratti della coppia di artisti che circolavano lì La stampa, nelle riproduzioni fotografiche, traccia dei parallelismi tra l’inserimento di entrambi nel circuito delle belle arti e nell’esperienza sociale di Rio de Janeiro.

Parole chiave: Manoel Santiago; Haydéa Lopes; Premere.

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Na coluna Trepações da revista Fon! Fon!, em março de 1925, um flagrante: os pintores Haydéa e Manoel Santiago posam nas areias da praia de Icaraí, Niterói. Em trajes de banho, touca e sombrinha japonesa, o casal encara a lente fotográfica, inserindo a paisagem marinha que tanto cativou seus pincéis.

Mais afeitos às tintas e ao cheiro de verniz, entretanto, são nos registros dos salões que os encontramos com maior assiduidade. Ambos são presença confirmada nos vernissages, e nas seções de belas-artes da imprensa aparecem fotografados entre colegas ou na companhia das telas.

Discípulos da Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, o casal surge nas manchetes como promessa entre os jovens artistas. Nome carimbado nos catálogos das Exposições Gerais desde 1921, Haydéa Lopes garantiu à sua assinatura o epíteto de uma sensibilidade moderna. Interessada pela representação de cenas ao ar livre, a pintora foi apreciada como um temperamento dado às sutilezas e à correta captura da cor (Gazeta de Notícias 1925, 9).

Manoel Santiago, por sua vez, abraçou os motivos cariocas desde sua estreia no salão, em 1920. Desfrutando, a princípio, da alcunha de pintor de marinhas (Cremona 1921, 35), foi na diversidade dos gêneros compositivos que o artista manauense mais cativou as atenções da crítica de arte. O pintor foi comumente destacado como uma figura culta, interessada pelo imaginário amazônico e pelos meandros da doutrina teosófica, da qual foi adepto – referências na linguagem visual de sua produção à época.

Em matéria dedicada à visita ao lar do casal, o crítico Adalberto Mattos (1925, 9), após minucioso exame da residência, os denominou como artistas que viveriam para a “realização de seus quadros”. Mais em sintonia com esse perfil, outro retrato apareceu na imprensa em 1925, dessa vez na revista Para Todos.

Em uma fotografia encontrada nas tiragens do mês de agosto, ambos dividem um silencioso canto de ateliê, bem longe da atmosfera solar e do charme litorâneo. Cercada por quadros e incensada pelo cheiro das tintas, reconhecemos a pintora Haydéa, que vigilante, observa o marido. Em primeiro plano na imagem e centralizado, Manoel simula o trato com as tintas sobre a paleta, preparando-se diante do quadro Uma Sesta Tropical (1925)[1], já emoldurado.

Nessa espécie de recolhimento meditativo, ambos se fortalecem como união simbólica e inteiramente dedicada à experiência artística (Rodrigues 2022, 583). Contudo, é decerto curioso o contraste que distância esse circunspecto casal daquela simpática dupla que nos encara da praia, de costas para o mar. Apontando para uma sensibilidade comum, é possível que as reproduções estampadas na revista Fon! Fon! e Para Todos se aproximem.

Inseridos da paisagem litorânea que, segundo esclarece Rosane Feijão (2014, 244), se firmou no imaginário como parte da vida urbana no entorno carioca, Manoel e Haydéa Santiago se filiavam à “vida social e cultural da cidade” que tanto atraiu os olhares da imprensa. Nas palavras da autora (2014, 239), as praias do Rio de Janeiro foram tema frequente na revista Para Todos.  As cenas capturadas revelam o interesse flagrante pela “paisagem humana”, onde o público poderia encontrar, inclusive, celebridades do mundo cinematográfico (Feijão 2014, 239; 241).

Consolidada a tendência, é também na Para Todos que essas figuras aparecem posando em cenários mais reservados, em frames das estreias no cinema, ou mesmo ao lado de personagens do teatro e da elite à época.

Capturados, por sua vez, na intimidade de seu ateliê, e compartilhando da dramaticidade verificada nesses álbuns, o casal Santiago aparece como um vulto a ser admirado. Afinal, do mesmo modo que o retrato sublinha “o agenciamento da imprensa […] no mecanismo de validação artística” (Rodrigues 2021, 253), o flagrante dos pintores banhistas os entrelaça à experiência social carioca.

Os nomes de Manoel e Haydéa Santiago podem ser encontrados, igualmente, ao folhearmos as páginas das revistas à época, onde aparecem como parte do júri em concursos de carnaval à beira da praia (O Paiz 1927, 8) ou como associados ao Clube de Regatas Icaraí (Correio da Manhã 1922, 6). Distinguido, portanto, nos espaços de convivência social, o perfil atlético dos artistas nos permite traçar novos paralelos entre o universo das belas-artes e a lógica da modernidade compartilhada à época.

Lembrados entre as crônicas da bem-humorada seção Trepações, na Fon! Fon!, ambos são apresentados em sintonia com os “novos modos de estar”, na cidade litorânea. Nas palavras de Rosane Feijão (2014, 247), aquele “estilo muito particular de metrópole” foi marcado pela “capacidade de conciliar trabalho e diversão, política e cultura, capital e balneário”.

[1] Manoel Santiago, Uma Sesta Tropical, 1925. Óleo sobre tela, 153 x 103 cm. Coleção Privada.


Referências bibliográficas:

23 de agosto de 1925, “A Exposição Geral de Bellas Artes, Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, ano L, n. 199, p. 9.

Cremona, Ercole. 29 de outubro de 1921, “Bellas-Artes”. O Malho, Rio de Janeiro, ano XX, n. 998, p. 35.

18 de julho de 1925, “Doris Kenyon e Ronald Colman numa scena do film “Uma Ladrão no Paraiso” (A Thief in Paradise)”, Para Todos, Rio de Janeiro, ano VII, n. 344, p. 34-35.

Mattos, Adalberto, agosto de 1925, “Um lar de artistas”. Revista Illustração Brasileira, Rio de Janeiro, ano VI, n. 60, p. 9 e 10.

13 fev. 1927, “No Reinado de MoMo”. O Paiz, Rio de Janeiro, ano XLIII, n. 15456, p. 8.

15 de agosto de 1925, “Um casal de artistas”, Para Todos, Rio de Janeiro, ano VII, n. 348, p. 26.

Feijão, Rosane. 2014. As praias cariocas no início do século XX: sociabilidade e espetáculos do corpo. Escritos (Fundação Casa de Rui Barbosa), v. 7, p. 229-247. 

28 março de 1925, “Trepações: Praia de Icarahy”. Fon! Fon!, Rio de Janeiro, ano XIX, n. 13, p. 40.

Rodrigues, Laíza de Oliveira. 2021. Um jogo de olhares: sesta tropical no atelier de Haydéa Lopes e Manoel Santiago. Campinas: Encontro de História da Arte, SP, n. 15, p. 581-594.

Rodrigues, Laíza de Oliveira. 2023. Uma Sesta Tropical, de Manoel Santiago: um “quadro curioso” no meio artístico carioca dos anos 1920. Dissertação de Mestrado, Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora.

29 de outubro de 1922, “Rowing”, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, ano XXII, n. 8638, p. 6.


Laíza de Oliveira Rodrigues

Doutoranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora, na área História da Arte, Patrimônio, Cultura e Sociabilidades. A autora é Mestra pelo Programa de Pós-graduação em História da mesma universidade, com financiamento FAPEMIG. Tem interesse na área de História, com destaque para a pesquisa no campo da História da Arte e da Cultura, Historiografia e Crítica de Arte Brasileira na Primeira República, bem como da História das Exposições.


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Casa d’Itália: passado, presente e futuro

Revista Casa D’Italia – Ano 5, n. 40, 2025 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais
Maria Clara Cabral | Casa d’Itália: passado, presente e futuro

Resumo: O texto aborda a construção da Casa d’Itália, mostrando sua importância para a época. Além disso, é ressaltado como o Decreto-Lei n.º 36/2025 altera o recebimento da nacionalidade pelos descentes de italianos. Ao fim, é apresentado como a Casa d’Itália poderia representar no futuro, tanto para italianos quanto para não italianos.

Palavras-chave: Casa d’Itália. Nacionalidade. Descendentes. Decreto-Lei. 

Abstract: The text addresses the construction of the Casa d’Itália, showing its importance at the time. In addition, it highlights how Decree-Law N.º 36/2025  change the process of obtaining nationality by descendants of Italians. Finally, it presents how the Casa d’Itália could represent a future for both Italians and non-Italians.

Key words: Casa d’Itália. Nationality. Descendants. Decree-Law.

Riepilogo: Il testo tratta della costruzione della Casa d’Italia, mostrando la sua importanza per l’epoca. Inoltre, viene sottolineato come il Decreto-Legge n.º 36/2025 modifica il modo in cui i discendenti degli italiani ottengono la cittadinanza. Infine, viene presentato come la Casa d’Italia potrebbe rappresentare in futuro un punto di riferimento sia per gli italiani che per i non italiani.

Parole chiave: Casa d’Itália. Cittadinanza. Discendenti. Decreto-Legge.

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Quem passa na Avenida Barão do Rio Branco, no Centro de Juiz de Fora, já percebeu que no número 2585 há um prédio histórico, com um termo diferente na entrada: “DOMVS ITALICA”. É a Casa D’Itália, inaugurada em 1939 para ajudar e unir a comunidade italiana da cidade.

Foram os próprios italianos que compraram o terreno e com o auxílio da Companhia Construtora Pantaleone Arcuri ergueram o prédio. Na época, vigorava o fascismo na Itália e o governo de Mussolini ajudou na construção da Casa com parte do projeto.

Naquele período, muitos imigrantes que estavam fugindo da guerra e das suas consequências, encontraram em Juiz de Fora, um refúgio. Mas ser imigrante não é fácil, é preciso lidar com as diferenças linguísticas, de cultura, de clima, entre outros.

A Casa d’Itália era um local de vivência ítalo-brasileira, onde os italianos e seus descendentes podiam reviver suas culturas, trocar suas experiências e manter viva suas tradições mesmo a mais de nove mil quilômetros de distância de seu país natal.

Apesar da Casa ter sido construída pelos imigrantes, no papel ela pertence ao Estado Italiano, que atualmente não auxilia financeiramente o espaço e em 2020, começou-se uma iniciativa de leilão da Casa por parte da Itália.

Em 30 de setembro de 2020, o Consulado da Itália de Belo Horizonte divulgou o leilão da Casa, que aconteceria em menos de três meses. Entretanto, com uma mobilização de descendentes de italianos, de historiadores e de outras pessoas que sabem da importância do local, foi criado um abaixo-assinado com mais de oito mil assinaturas destinado ao Ministério das Relações Exteriores da Itália.

O movimento resultou em uma suspensão do leilão no dia 13 de outubro de 2020. Em comemoração da decisão, o então senador italiano e subsecretário de Relações Internacionais da República Italiana, Ricardo Merlo, publicou, na época, em sua conta na rede social X (ex-Twitter) a celebração da suspensão, informando que o espaço deveria permanecer para a comunidade italiana no Brasil.

Ainda há a questão de quem é dono da Casa, se passará para a Associação Casa d’Itália, o estado brasileiro, a cidade de Juiz de Fora ou se continuará sendo da Itália. O espaço ainda é um local de reencontro da ítalo-mineiridade, pois há, o oferecimento do idioma italiano, o Grupo de Dança Folclórica Italiana Tarantolato e a Capela de San Francesco di Paola.

Além disso, há no prédio um auditório que permite a realização de eventos, festas e atividades que possam promover a cultura italiana em Juiz de Fora.

Decreto-Lei n.º 36/2025

Até março de 2025, se uma pessoa conseguisse provar que é descendente de um italiano, entrava com o pedido de reconhecimento de cidadania e era concedida a cidadania italiana.   

Em alguns casos, não havia mais nenhuma cultura italiana na família sendo passada de geração em geração, mas havia o interesse de ter acesso ao passaporte italiano, já que com ele não é preciso de visto de entrada para diversos países, um número maior comparado com o passaporte brasileiro.

Mas, tudo mudou com a publicação do Decreto-Lei n.º36/2025 no dia 28 de março de 2025. O documento aponta que a partir dessa data a nacionalidade italiana só é concedida a filhos e netos de pessoas nascidas na Itália.

O Decreto trouxe uma insegurança para a comunidade de descendentes italianos, principalmente na América do Sul, que não sabem se terão ou não o direito ao reconhecimento da cidadania

A decisão do governo conservador se deu por conta do aumento da concessão da nacionalidade e os problemas que a Europa enfrenta pela imigração descontrolada.

A definição pela geração que pode ter direito à cidadania é por quererem que a pessoa italiana tenha acesso à cultura do local, suas histórias e que não seja apenas uma comercialização de passaportes.

Após a publicação do Decreto-Lei, comunidades de ítalo-descendentes, associações e organizações manifestaram seu descontentamento com a decisão, que impacta no direito de pertencimento a um país, lembrando que seus antepassados saíram de seu país natal por falta de trabalho, comida, energia, que são direitos básicos de qualquer cidadão.

O Decreto aprovado em maio pelo governo italiano prejudica material e imaterialmente a comunidade de ítalo-descendentes na América Latina, como a de Minas Gerais, que possui, segundo a Assembleia Legislativa de Minas Gerais, mais de dois milhões de ítalo-mineiros.

Claro que ter uma nacionalidade é pertencer a um local, independente se foi onde nasceu. Uma pessoa dizer que é italiano ou que é brasileiro, é dizer que pertence àquele local.

Quando o governo publica o Decreto é com o objetivo justamente de conceder a cidadania apenas às pessoas que possuem uma ligação atual com o país. Seria então, um dever para os ítalo-descendentes procurarem saber mais sobre a história da Itália, seus costumes e cultura, que não é apenas comer massa e beber vinho, seus problemas e seus avanços?

Outro aspecto seria conhecer o idioma, por exemplo, pois a principal forma de aprender e transmitir uma cultura de um país é através da sua linguagem, com suas particularidades e desafios.

O que o governo italiano pretende com a decisão é que os novos descendentes realmente habitem a Itália, sem necessariamente morarem no país. Entretanto, essa é uma visão romântica e de um governo ultraconservador, pois simultaneamente ao publicar o Decreto, a Itália chama pessoas para morarem no país.

Ao dizer que a onda de procura de nacionalidade é por conta da comercialização do passaporte e a possibilidade da migração para a Itália o governo é contraditório, pois algumas cidades italianas, como Penne e Prática estão anunciando vendas de casas no valor de um euro.

O objeto dessa venda é que pessoas comprem as casas, reformem e morem nesses locais, evitando assim que as cidades se transformem em cidades-fantasma.

Com o anúncio da venda, tanto italianos quanto pessoas de outros países podem comprar e se mudar para a região.

Já que a preocupação do governo é com a falta de ligação com a Itália, não seria melhor que os ítalo-descendentes conseguissem adquirir esses imóveis? No mínimo, eles possuem uma ligação comprovada de sangue com o país.

Ítalo-descendência e a Casa d’Itália

Se uma inquietação do governo italiano é a falta de ligação com o país, seria apropriado que se aproveitasse de locais físicos, como a Casa d’Itália de Juiz de Fora, para incentivar a promoção da cultura italiana.

Se um local como a Casa d’Itália, que fica em uma cidade e em um estado que receberam uma grande leva de italianos, recebesse um incentivo material e financeiro do governo italiano poderia promover, além do que já faz, e difundir ainda mais a cultura e história italianas.

Além dos projetos que existem, como o Grupo de Dança Folclórica Italiana Tarantolato, as aulas de italiano, a publicação da Revista Casa d’Itália, a festa Italiana de Juiz de Fora e o evento Luzes de Natal Casa d’Itália, ajudam a promover o espaço físico que existe na cidade, para principalmente os ítalo-descendentes, mas também para pessoas interessadas na cultura italiana.

A Casa d’Itália é e precisa continuar sendo um local que proporcione a divulgação, manutenção e a perpetuação do patrimônio cultural da Itália.

O espaço precisa proporcionar – mais do que já faz – um maior vínculo social entre os ítalos-descendentes, que carregam consigo bagagens emocionais, familiares e subjetivas que não são encontradas em arquivos físicos.

E é em espaços como a Casa d’Itália que as pessoas podem trocar essas bagagens, conhecer mais sobre outras famílias, outras culturas, já que há a diversidade de regiões e consequentemente de cultura dentro da Itália.

O local no presente e no futuro deve proporcionar uma conexão com a história do país que os familiares emigraram, para que assim, possam valorizar toda a herança italiana que deixaram e relacionarem ela com a brasileira.

Isso é importante pois muitos desconhecem que possuem uma herança cultural italiana e que sua família originou do outro lado do Atlântico.

A Casa d’Itália, então, se torna um local ideal para combater um “analfabetismo de herança”, ou seja, pessoas que sabem que são ítalo-descendentes, mas que não se preocupam em conhecer mais sobre a história da família, porque emigraram, como foi a chegada na nova moradia.

A Casa com todas as suas atividades pode auxiliar o combate a esse analfabetismo, permitindo assim a valorização da identidade dos descendentes dos imigrantes que chegaram em busca de um novo lar.

Nesse sentido, a Casa não se torna apenas um prédio histórico, mas um prédio vivo, que conta histórias que carrega desde sua fundação, mostrando e educando sobre a Itália tanto para seus descendentes quanto para não descendentes.

Mas para isso acontecer e se ampliar é preciso investimento no espaço, investimento de dinheiro e de tempo do governo italiano, para que assim, quando um ítalo-descendente solicitar sua cidadania ele já tenha um conhecimento do local a que estará/está pertencendo.

Além deles, os interessados na Itália, também terão um local de encontro, de trocas e de conhecimento. Sendo italiano ou não, toda a cidade ganha um espaço como a Casa d’Itália movimentada, com eventos, reuniões, cursos, danças, mas principalmente com pessoas habitando o local.


Maria Clara Cabral

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Tem foco de pesquisa em temas como memória, nostalgia e história.


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O feminismo na Itália

Revista Casa D’Italia – Ano 5, n. 40, 2025 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais
Mônica Vasconcellos Barral Campos | O feminismo na Itália

Resumo: Este ensaio examina a evolução do movimento feminista na Itália, explorando suas características distintivas e paradoxais ao longo da história. O objetivo central é traçar a trajetória do feminismo italiano do Renascimento até a atualidade, destacando as influências culturais, políticas e sociais que impactaram a participação das mulheres na sociedade. O estudo inclui uma análise histórica, examinando eventos-chave e marcos legislativos que influenciaram os direitos femininos na Itália.

Palavras-chave: Feminismo Italiano. Equidade de Gênero. História dos Direitos das Mulheres. Paradoxos Culturais e Políticos.

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A Itália emerge como um cenário paradoxal no contexto do movimento feminista, caracterizado pela coexistência da forte influência da Igreja Católica e pela promulgação do direito ao aborto em 1978 (JOHNSON, 2011).

Trata-se de uma cultura permeada pelo machismo, na qual as mulheres são responsáveis por 70% das atividades domésticas e de cuidado, apesar de a palavra final ser, muitas vezes, das matriarcas. É um país em que apenas 31% dos postos no Parlamento são preenchidos por mulheres, mas que elegeu a ultradireitista Giorgia Meloni como primeira-ministra em 2022 (MARQUES, 2024).

As primeiras deliberações acerca dos direitos das mulheres surgiram durante o Renascimento, no final do século XIII. Nesse período, a Itália experimentou uma revolução cultural marcada pelo advento das universidades e pelo desenvolvimento artístico e literário (ROSS, 2009).

Apesar de serem excluídas das instituições universitárias, muitas mulheres da elite recebiam educação formal em seus lares. Contudo, esse processo não tinha como objetivo proporcionar emancipação intelectual, mas sim qualificá-las para desempenhar papéis tradicionais de dama e esposa na sociedade (PERRY et al., 2012).

Considera-se que, somente no século XIX, o movimento feminista ganhou impulso na Itália e na Europa como um todo. A Lei Casati, de 1859, estabeleceu a formação de professoras para atuar na educação básica, conferindo às mulheres a significativa responsabilidade de moldar academicamente novas gerações (DE FORT, 1979).

Durante o Risorgimento, movimento que conduziu à unificação da Itália no século XIX, mulheres — incluindo a brasileira Anita Garibaldi — desempenharam papéis cruciais e são recordadas como figuras históricas relevantes (“Nascimento de Anita Garibaldi”, 2022).

Em 1876, as mulheres conquistaram o acesso às universidades e, em 1911, ocorreu o primeiro congresso feminista no país, organizado pelo grupo Per la Donna (MAFFEO, 2019).

O envolvimento feminino na Primeira Guerra Mundial foi notável, especialmente na região alpina entre a Itália e a Áustria. Ressalta-se a atuação das portatrici, mulheres de 16 a 60 anos que arriscaram suas vidas escalando montanhas perigosas para fornecer armas e suprimentos aos soldados no front italiano (CHIARA, 2009).

O advento do fascismo representou um golpe significativo para o feminismo italiano após a ascensão de Benito Mussolini, em 1922, reduzindo, em grande parte, o papel da mulher à maternidade e ao cuidado da família (MALAGRECA, 2006).

Apenas após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, os direitos femininos voltaram a ser debatidos no país, quando as mulheres conquistaram o direito de voto em todas as eleições, locais e nacionais (SEMÍRAMIS; VIANNA; HORIZONTE, 2017).

Em 1972, um coletivo feminista internacional foi estabelecido na Itália por Selma James, Brigitte Galtier, Mariarosa Dalla Costa e Silvia Federici, com o propósito de fomentar discussões políticas e ações relacionadas à problemática do trabalho doméstico (COSTA, 2002).

Dessa iniciativa originou-se a Campanha Internacional por Salários para o Trabalho Doméstico, um movimento social feminista global, também fundado em 1972, em Pádua, na Itália. Essa campanha foi concebida com o intuito de ampliar a consciência acerca do papel fundamental desempenhado pelas atividades domésticas e pelo cuidado infantil na estrutura do trabalho industrial (TORTORICI, 2013).

No ano de 1975, houve uma reforma no âmbito do direito de família na Itália, visando à eliminação do adultério como delito e à equiparação entre casais masculinos e femininos no contexto matrimonial. A Lei nº 151, de 1975, instituiu, de forma específica, a igualdade de gênero no matrimônio, suprimindo a prerrogativa legal de domínio por parte do esposo (SANTIAGO, 2018).

Em 1976, por meio da Sentenza n. 12.857/1976, a Suprema Corte da Itália determinou que o ato de um cônjuge que constrange o outro à conjunção carnal, mediante violência ou ameaças, constitui o delito de violência carnal, equivalente ao crime de estupro (MARANO, 2011).

Dentre as realizações significativas do movimento feminista na Itália, ainda na década de 1970, destacam-se a promulgação de legislação referente ao divórcio (Lei nº 898/1970) (MALATESTA, 2023) e a Lei nº 194/1978, que normatiza o procedimento do aborto (TERRA; FONTANIELLO, 2021).

Nos anos seguintes, o movimento feminista passou a se destacar nos estudos acadêmicos, com o objetivo de promover um pensamento crítico sobre os direitos das mulheres para as gerações futuras (NAVA, 2021).

A pandemia de COVID-19, com o confinamento forçado, exacerbou os casos de violência doméstica. Dados do Istat — o IBGE italiano — revelaram um aumento nos casos, evidenciando a necessidade contínua de esforços para alcançar a equidade de gênero (ROSSITTO, 2020).

Atualmente, o feminismo italiano concentra-se na busca pela igualdade de gênero no ambiente de trabalho, abordando também questões como a dupla jornada das mulheres e os estigmas culturais relacionados ao casamento e à maternidade (NAVA, 2021).

Considera-se que a trajetória do movimento feminista é uma jornada que transcende fronteiras geográficas e culturais. Tanto na Itália quanto no Brasil, a luta das mulheres por seus direitos tem sido contínua, marcada por avanços significativos e desafios persistentes. Apesar dos progressos conquistados, ainda há muito a ser feito para assegurar que todas as mulheres possam viver livres de discriminação e violência.


Referências Bibliográficas:

Chiara, Marzocchi. 2009. Le portatrici carniche. Noidonne. Itália. https://www.noidonne.org/articoli/le-portatrici-carniche-02784.php

Ross, Sarah Gwyneth. 2009. The Birth of Feminism: Woman As Intellect in Renaissance Italy and England. Harvard University Press. 

Malagreca, Miguel. 2006.  Lottiamo Ancora 1: Reviewing One Hundred and Fifty Years of Italian Feminism. Journal of International Women’s Studies: Vol. 7: Iss. 4, Article 5. https://vc.bridgew.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1462&context=jiws

Perry, Marvin, Myrna Chase, James Jacob, Margaret Jacob, and Theodore H. Von Laue. 2012. Western Civilization: Ideas, Politics, and Society. Google Books. Cengage Learning. https://books.google.com.br/books/about/Western_Civilization_Ideas_Politics_and.html?id=MbsJzgEACAAJ&redir_esc=y.

Johnson, Madelaine. 2011.  Where did all the feminism go? Women Make News.  Italy.https://web.archive.org/web/20110820131333/http://womenmakenews.com/content/story/italy-where-did-all-feminism-go 

Perry Marvin. 1996. Western Civilization. Ideas Politics & Society. 5th ed. Boston MA: Houghton Mifflin.

Nascimento de Anita Garibaldi.” 2022. FFLCH. August 30, 2022. https://www.fflch.usp.br/36903

Maffeo, Stefania.2019. La storia dell’associazionismo femminile italiano. Storiain.net.http://win.storiain.net/arret/num145/artic2.asp

Marques, Gina. 2024. Linha Direta – Itália Tem Greve Geral No Dia Internacional Das Mulheres Para Reivindicar Direitos E Criticar Política de Meloni. RFI. RFI. March 8, 2024. https://www.rfi.fr/br/podcasts/linha-direta/20240308-it%C3%A1lia-tem-greve-geral-no-dia-internacional-das-mulheres-para-reivindicar-direitos-e-criticar-pol%C3%ADtica-de-meloni.

Semíramis, Cynthia, Machado Vianna, and Belo Horizonte. 2017. Universidade Federal de Minas Gerais a Reforma Sufragista: Marco Inicial Da Igualdade de Direitos Entre Mulheres E Homens No Brasil.https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/BUOS-ASUHQL/1/semiramis_final_com_anexos.pdf.

Santiago, Flávio. 2018. A Função Educativa Das Famílias No Contexto Italiano Contemporâneo. Cadernos de Pesquisa 48 (170): 1218–22. https://publicacoes.fcc.org.br/cp/article/view/5642/pdf.

Nava, Paola. 2021. Nascita E Caratteristiche Del Femminismo Storico in Italia – L’eredità Del Movimento Delle Donne Alle Nuove Generazioni. Cle.ens-Lyon.fr.https://cle.ens-lyon.fr/italien/civilisation/xxe-xxie/le-mouvement-des-femmes/nascita-e-caratteristiche-del-femminismo-storico-in-italia-l-eredita-del-movimento-delle-donne-alle-nuove-generazioni#:~:text=IL%20FEMMINISMO%20STORICO%20(o%20SECONDO%20FEMMINISMO).

Rossitto, Simona. 2020. Eures: Stabile Il Numero Dei Femminicidi Nel 2020, Effetto Lockdown Sulle Vittime Conviventi (+10,2%). Il Sole 24 ORE. November 25, 2020.https://www.ilsole24ore.com/art/eures-stabile-numero-femminicidi-2020-effetto-lockdown-vittime-conviventi-102percento-ADJAxL4.

De fort, Ester. 1979. Storia della Scuola Elementare in Italia, vol. I, Dall’Unità all’età Giolittiana, Milano: Feltrinelli. 

Costa, Dalla Mariarosa. 2002. La Porta Dell’Orto E Del Giardino. Itália. http://www.generation-Online.org. https://www.generation-online.org/p/fpdallacosta.htm.

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Marano, Gaia. 2016. Sesso, Matrimonio E Legge. Woman’s Journal.https://web.archive.org/web/20160108112543/https://womanjournal.wordpress.com/2011/12/08/sesso-matrimonio-e-legge/.

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Mônica Vasconcellos Barral Campos

Doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Administração, pós-graduada em Métodos Estatísticos Computacionais e Finanças, e graduada em Administração pela Universidade Federal de Juiz De Fora.


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Museu de Percurso Raphael Arcuri: Arquitetura e memória no centro de Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia – Ano 5, n. 40, 2025 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais
Letícia Rabelo dos Santos | Museu de Percurso Raphael Arcuri: Arquitetura e memória no centro de Juiz de Fora

Resumo: O Museu de Percurso Raphael Arcuri propõe uma nova forma de vivenciar o patrimônio cultural, transformando a cidade de Juiz de Fora em espaço expositivo. Por meio da arquitetura de Raphael Arcuri, o percurso promove a valorização da memória urbana e da identidade local utilizando da inteligência artificial para fortalece a conexão entre cidade, história e comunidade.

Palavras-chave: Patrimônio Cultural. Arquitetura. Memoria Urbana.

Abstract: The Raphael Arcuri Walking Museum proposes a new way of experiencing cultural heritage, transforming the city of Juiz de Fora into an open-air exhibition space. Through the architecture of Raphael Arcuri, the route promotes the appreciation of urban memory and local identity, using artificial intelligence to strengthen the connection between the city, its history, and the community.

Key words: Cultural Heritage. Architecture. Urban Memory.

Riepilogo: Il Museo di Percorso Raphael Arcuri propone un nuovo modo di vivere il patrimonio culturale, trasformando la città di Juiz de Fora in uno spazio espositivo a cielo aperto. Attraverso l’architettura di Raphael Arcuri, il percorso promuove la valorizzazione della memoria urbana e dell’identità locale, utilizzando l’intelligenza artificiale per rafforzare il legame tra la città, la sua storia e la comunità.

Parole chiave: Patrimonio culturale. Architettura. Memoria urbana.

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Introdução:

Caminhar pela região central de Juiz de Fora é percorrer a memória construída em alvenaria e ferro com ornamentos que perpassam por gerações. Entre ruas, edifícios e fachadas que, muitas vezes, passam despercebidos no ritmo apressado do cotidiano, estão gravadas as marcas da nossa história nas obras de Raphael Arcuri. Suas edificações contam enredos de transformação e progresso – é nesse contexto que o Museu de Percurso Raphael Arcuri emerge como uma proposta que transcende os muros dos museus tradicionais, convertendo a própria cidade em espaço expositivo, onde cada edificação se torna um documento vivo da memória coletiva.

Raphael Arcuri e sua arquitetura:

Raphael Arcuri foi um arquiteto ítalo-brasileiro que atuou na cidade de Juiz de Fora entre o final do século XIX e o início do século XX. Nascido em 1891, na comuna de Sant’Agata di Esaro, na Itália, emigrou ainda na infância para o Brasil, acompanhado de sua mãe, Christina Spinelli Arcuri, com o objetivo de reencontrar seu pai, Pantaleone Arcuri, que havia prosperado economicamente a partir da expansão de sua indústria, a Companhia Pantaleone Arcuri – Construtora e fábrica de insumos para construção civil (Olender, 2011, p.139)

Durante a juventude, Raphael foi enviado a Nápoles, onde realizou sua formação em arquitetura e retornou a Juiz de Fora em um período marcado pelo crescimento econômico e pela intensificação do processo de expansão urbana (Olender, 2011, p.139). É justamente nesse cenário que sua atuação se insere, contribuindo de forma expressiva para a consolidação da paisagem urbana em formação. A produção arquitetônica de Arcuri desempenhou um papel fundamental na construção da identidade visual da cidade, criando, na época, uma nova estética urbana que, atualmente, se consolidou na memória coletiva como representação dos principais símbolos visuais de Juiz de Fora como a Casa D’Itália, Cine-Theatro Central, Paço Municipal etc. 

É justamente essa arquitetura emblemática e carregada de simbolismo, distinta das demais produzidas no mesmo período, que se consolidou como o principal referencial visual da cidade de Juiz de Fora. Até hoje, essas edificações permanecem como marcos na paisagem urbana e na memória afetiva coletiva, desempenhando um papel fundamental na forma como nós reconhecemos enquanto juiz-foranos e construímos nossa própria identidade cultural.

Museu de Percurso Raphael Arcuri

Quando pensamos em museus geralmente os associamos a espaços fechados com exposições de objetos. Esse modelo tradicional é caracterizado por uma relação verticalizada entre o museu e seu público, centrando-se no acúmulo, na preservação e na exposição de objetos (Bottallo, 1995, p. 283). Em contraposição a esse modelo, surge, a partir da segunda metade do século XX, a proposta da Nova Museologia – e Museologia Social -, que ressignifica o papel do museu na sociedade contemporânea. Assim, o foco deixa de ser o objeto e passa a ser a comunidade e suas memórias. A Nova Museologia defende um museu participativo, onde os sujeitos são protagonistas na construção e gestão da memória coletiva (Chagas, 2006, p. 65). 

Para isso, torna-se fundamental repensar a concepção de espaço museológico, criando modalidades que atendam às demandas sociais e culturais dos contextos em que esses museus estão inseridos. Exemplos dessa transformação são os museus virtuais, que utilizam a internet como ferramenta de democratização, permitindo o acesso ao acervo museológico de qualquer lugar do mundo.

Dentro dessa lógica, surge também o conceito de Museu de Percurso, uma proposta diferente dos museus convencionais, que utiliza o espaço ao ar livre – no nosso caso, espaço urbano – como museu, guiando o público por um trajeto com pontos de interesse histórico, cultural ou arquitetônico. Em vez de reunir acervos em um prédio, ele apresenta as informações diretamente nos locais visitados, promovendo a valorização da memória e da identidade local.

O Museu de Percurso Raphael Arcuri se insere como uma proposta alinhada aos princípios da Nova Museologia. Ele não está restrito a um edifício, mas se espalha pela cidade de Juiz de Fora, onde as edificações projetadas por Arcuri tornam-se os elementos centrais de uma narrativa viva e participativa. Dessa forma, Museu de Percurso se configura como um agente ativo no processo de mediação entre a cidade, seus habitantes e sua história (Chagas, 2006, p. 65).

O Museu de Percurso Raphael Arcuri é composto por 14 edificações selecionadas a partir de critérios específicos de delimitação: (i) as edificações devem estar localizadas no município de Juiz de Fora – MG; (ii) devem estar inseridas no recorte central da cidade, que se baseia na delimitação oficial do Centro Histórico, estabelecida pela Prefeitura Municipal; (iii) dentro desse perímetro, foram consideradas apenas as edificações cuja autoria é comprovadamente atribuída ao arquiteto Raphael Arcuri.

Integram o percurso os seguintes edifícios: Paço Municipal, Edifício Cimapi, Galeria Pio X, Cine-Theatro Central, Palacete Pinho, Companhia Dias Cardoso, Hotel Príncipe, Associação Comercial, Companhia Pantaleone Arcuri, Vila Iracema, Palacete dos Fellet, Residência Raphael Arcuri, Castelinho dos Bracher e Casa D’Italia.

As edificações foram construídas entre as décadas de 1910 e 1930, período que corresponde à principal atuação profissional de Raphael Arcuri em Juiz de Fora. Os estilos arquitetônicos predominantes dos projetos do arquiteto, no conjunto, são o Art Déco, o Art Nouveau e o Ecletismo. Especificamente o Art Déco e o Art Nouveau refletem a influência de sua vivência no exterior e são incorporados em um momento de expansão urbana da cidade, no qual havia a necessidade de construir uma nova paisagem. Por fim, grande parte dessas edificações possui proteção legal por meio de tombamentos em diferentes instâncias, dado seu valor histórico, cultural e simbólico para a memória urbana de Juiz de Fora.

O percurso foi estruturado considerando a topografia da região e a distribuição espacial dos edifícios, porém, o projeto foi concebido para ser livre e autônomo, permitindo que cada visitante construa sua própria experiência. Para isso, foram desenvolvidas duas ferramentas fundamentais: (i) Mapa físico, que reúnem informações sobre as edificações, localizações, breve histórico, e dados complementares, além de informações sobre o próprio Raphael Arcuri e sobre o Museu de Percurso; (ii) Inteligência Artificial (IA), capaz de realizar o reconhecimento das edificações por meio de imagens. Ao fotografar as fachadas e fazer upload dessas imagens na ferramenta, a IA reconhece a edificação e fornece informações detalhadas sobre a obra, sua história, características arquitetônicas, curiosidades, datas de construção, estilo arquitetônico etc. É possível também interagir com a IA fazendo mais perguntas sobre os pontos do percurso.

Tecnologia e patrimônio cultural 

A tecnologia tornou-se uma aliada fundamental no desenvolvimento do Museu de Percurso Raphael Arcuri. Isso porque grande parte das edificações que compõem o percurso não permite visitação interna, seja por serem imóveis de propriedade privada, de uso comercial. Nesse cenário, criar contexto histórico e narrativo para essas edificações a partir da experiência externa — focada nas fachadas — apresentava-se como um dos principais desafios do projeto.

Embora a proposta priorize justamente a valorização das fachadas e da leitura da cidade através do espaço urbano, ainda havia uma lacuna: como conectar a história de cada edificação ao percurso e ao visitante de forma dinâmica e acessível? Foi dessa necessidade que surgiu a ideia de desenvolver uma solução tecnológica capaz de mediar essa relação, criando um ambiente interativo e autônomo.

A resposta a essa demanda foi a criação de uma Inteligência Artificial (IA), desenvolvida a partir de uma extensão customizada do ChatGPT, treinada especificamente para reconhecer as edificações que compõem o Museu de Percurso. Essa IA foi alimentada por um conjunto robusto de dados, incluindo documentos históricos, plantas arquitetônicas, fotografias de época, registros técnicos, inventários de tombamento, artigos acadêmicos e textos de memorial descritivo. A partir desse treinamento, tornou-se capaz de identificar as edificações a partir de imagens e fornecer informações detalhadas sobre sua história, autoria, características arquitetônicas e relevância para o contexto urbano.

Conclusão

Há na paisagem de Juiz de Fora algo que não se explica apenas pela razão, um elo invisível entre a cidade e quem a habita. O Museu de Percurso Raphael Arcuri nasce desse vínculo, do desejo de transformar o simples ato de caminhar em um encontro com aquilo que sustenta nossa memória, nossa identidade e nossa própria noção de pertencimento. O museu se espalha pelo chão que pisamos, pelas fachadas que cruzamos distraídos, pelos detalhes que o olhar apressado tantas vezes ignora. E é justamente por meio desse olhar que resgata, que reconhece e que se permite encantar, que a cidade se revela. A tecnologia, longe de substituir o afeto, torna-se ponte. Uma ferramenta que não congela o passado, mas o reconecta ao presente — dando voz às pedras, às linhas, aos silêncios de cada edifício. Mais do que guardar história, o percurso nos oferece a chance rara de nos reconhecer dentro dela.


Referências bibliográficas:

Bottallo, Marilúcia. 1995. Os museus tradicionais na sociedade contemporânea: uma revisão. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo 5: 283–287.

Chagas, Mário. 2003. Memória e poder: dois movimentos. Cadernos de Sociomuseologia, no. 19: 43–77.

Olender, Marcos. 2011. Ornamento, ponto e nó. Juiz de Fora: Editora UFJF p.139.


Letícia Rabelo dos Santos

Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela UniAcademia, pós-graduada em Gestão e Conservação de Patrimônio Cultural pela PUC-MG e mestranda em Ambiente Construído pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Desenvolve pesquisas na área de patrimônio cultural, linguagem arquitetônica e inteligência artificial aplicada à arquitetura.


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O perfil do operariado juiz forano na primeira metade do século XX: uma análise dos registros de empregados da Cia Pantaleone Arcuri

Revista Casa D’Italia – Ano 5, n. 40, 2025 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais
por Andreia de Freitas Rodrigues, Arlene Xavier Santos Costa e Alessandra de Carvalho Germano | O perfil do operariado juiz forano na primeira metade do século XX: uma análise dos registros de empregados da Cia Pantaleone Arcuri

Resumo: Este artigo analisa o perfil dos operários italianos em Juiz de Fora com base em um recorte específico: as fichas funcionais da Companhia Industrial e Construtora Pantaleoni Arcuri, na primeira metade do século XX.

Palavras-chaves: Operários italianos. Cia Pantaleone Arcuri. Imigração.

Abstract: This article analyzes the profile of Italian workers in Juiz de Fora based on a specific sample: the employee records of the Industrial and Construction Company Pantaleoni Arcuri, in the first half of the 20th century.

Key words: Italian workers. Pantaleone Arcuri Company. Immigration.

Riepilogo: Questo articolo analizza il profilo dei lavoratori italiani a Juiz de Fora basandosi su un campione specifico: i registri dei dipendenti dell’Impresa Industriale e di Costruzioni Pantaleoni Arcuri, nella prima metà del XX secolo.

Parole chiave: lavoratori italiani; Azienda Pantaleoni Arcuri; immigrazione.


O Arquivo Central da UFJF (AC/UFJF) custodia parte da documentação da Companhia Industrial e Construtora Pantaleone Arcuri em dois fundos distintos. O primeiro, recebido entre 1995-1996, é formado por álbuns, livros-caixa, certificados, diplomas, recortes de jornais, plantas de construções etc. Em data recente o AC/UFJF recebeu um segundo acervo da Companhia com uma documentação predominantemente administrativa, contábil e de pessoal. Este fundo se encontra em processamento técnico. E desde o contato inicial, alguns aspectos chamaram atenção para as possibilidades de pesquisas.

No contexto do período da imigração italiana no Brasil, Juiz de Fora vivenciou o nascimento e décadas de crescimento de uma empresa fundada por imigrantes italianos que foi pioneira na América Latina em alguns de seus empreendimentos. Pantaleone Arcuri (1867-1958) e Pedro Timpone, fundaram, em 1895, uma loja de materiais de construção que foi posteriormente também construtora.

Ainda que um cidadão de Juiz de Fora e região desconheça a existência passada da Cia Pantaleone Arcuri, certamente conhece as construções que até os dias atuais delineiam o perfil de construção predial no centro da cidade, inclusive, com imóveis reconhecidos como patrimônio histórico. São exemplos o Parque Halfeld, o Colégio Granbery, a Casa d’ Itália, o Cine Theatro Central (Juiz de Fora) e o Sport Clube de Juiz de Fora. 

Como mencionamos anteriormente, o AC/UFJF recebeu, no ano de 2020, a documentação da Companhia Pantaleone Arcuri que estava sob a guarda do Centro de Conservação da Memória da UFJF (CECOM). Composta por documentos administrativos, fichas de funcionários, livros de movimentação e lançamentos mensais, entre outras tipologias. 

A primeira etapa de processamento técnico foi de diagnóstico para verificação das condições de preservação e acesso e identificação das tipologias documentais. A lógica de arranjo documental de boa parte da documentação era a de escritório, refletindo a ordem natural de acumulação no âmbito dos trabalhos na Companhia. Os tipos documentais estavam dispostos de modo entrelaçados de acordo com os acontecimentos cotidianos da empresa. Isso representa um desafio arquivístico para fins de arranjo e descrição, etapas nas quais se fazem necessária a separação por tipologias documentais. Proceder essa separação sem perder o enfoque do perfil de uma empresa do ramo da construção civil foi um dos objetivos da equipe. Porque ao mesmo tempo que seria importante a seleção documental, igualmente relevante seria manter a memória dos empreendimentos da Pantaleone Arcuri. 

A importância da atividade de identificação de tipologia documental na perspectiva da teoria de Rodrigues (2008. p. 200) é formar base com vistas à aplicação de metodologias de avaliação, classificação e descrição. Em linhas gerais, “O documento de arquivo considerado em seu conjunto é o tipo documental, objeto da Tipologia Documental, identificado a partir das relações que apresenta com o contexto orgânico-funcional.” (Rodrigues, Viana, 2023 p 113).

Os documentos de Recursos Humanos apresentaram uma estabilidade de tipologias que daria segurança para uma atuação mais rápida e efetiva em termos de tratamento arquivístico. Com tipologias documentais relacionadas tais como: acidentes de trabalho; rescisões de contratos; adiantamentos; atestados; recibos de pagamentos, entre outros, nos chamou a atenção duas séries delimitadas: Fichas e Pastas de funcionários. Estas passaram por catalogação e formação de um Banco de Dados, dentro do qual é possível identificar os seguintes pontos: nome, nacionalidade, data de nascimento, data de admissão e data de demissão e um campo para observações, como acidentes de trabalho, se houver. No universo de 2995 fichas e 1396 pastas de funcionários foi possível identificar alguns aspectos, a saber: organização sindical e previdenciária dos trabalhadores da Construção Civil na primeira metade do século XIX; o perfil de vagas de empregos temporários no setor; o alto índice de acidentes de trabalho.

A presença de pessoas de origem italiana foi majoritária, por óbvio, na alta administração da companhia, conforme se pode analisar nas atas de reuniões de sócios. No entanto, nos interessa verificar neste recorte aqui delimitado: registros de trabalhadores de nacionalidade italiana no emprego de mão de obra da Pantaleone. Para este artigo, selecionamos 22 fichas funcionais de trabalhadores de nacionalidade italiana em alusão às comemorações dos 150 anos da imigração de italianos no país. As datas de admissão compreendem os anos entre 1937 e 1959.

A média de idade dos trabalhadores imigrantes de nossa amostragem é mais alta que o perfil da maioria dos trabalhadores contratados na Companhia na época. Mestre ladrilheiro, ilustrador, carpinteiro, pintor, pedreiro são algumas das colocações profissionais ocupadas por esses imigrantes na Pantaleone. Uma explicação possível seria a busca da empresa em associações de apoio e espaços de socialização para imigrantes por pessoas de nacionalidade italiana e que tinham alguma profissão específica, conforme pontua o historiador Rafael Bertante em entrevista no ano de 2017: “O Pantaleone Arcuri buscava dentro das associações outros italianos, que trabalhavam com a construção civil ou setores relacionados, promovendo uma união com objetivo de obter um trabalho de maior qualidade”. (UFJF Notícias, 2017).

No âmbito do tratamento técnico, na perspectiva da Conservação, as fichas funcionais apresentam desafios específicos, relacionados à variedade de elementos encontrados. São papéis de diferentes gramaturas, cores e tipos, fotografias, dimensões fora dos padrões, tintas, adesivos e material metálico. Toda essa heterogeneidade de materiais reage de formas distintas a fatores ambientais, impactando na preservação desses documentos ao longo dos anos, causando danos variados ao suporte.

De modo geral, as fichas estão em estado de conservação razoável, apresentando sujidades, dobras e vincos, dobras e danos nas bordas (‘orelhas’), oxidação nas áreas em contato com material metálico como grampos e clipes. Do nosso ponto de vista, um fator a ser analisado com mais atenção são as fotografias. Praticamente todas as fichas contêm uma fotografia 3×4 em preto e branco (P&B). Da forma como as fichas foram confeccionadas e arquivadas, alguns danos encontrados interferem diretamente na integridade das imagens. Algumas apresentam rasgos e falhas, arranhões, esmaecimento da imagem, manchas causadas pela oxidação.

Outra questão observada é o acondicionamento das fichas após o tratamento de conservação. Como apresentam dimensões variadas, entre o tamanho 13,5 x 21,5cm ao tamanho ofício (21,59 cm x 35,56 cm).

Além do tratamento arquivístico, nosso plano de trabalho para a preservação das fichas envolve o tratamento de conservação: limpeza mecânica, retirada de objetos metálicos, fixação das fotografias com adesivo adequado, estabilização de rasgos, retirada de dobras; digitalização das fichas seguindo o procedimento já adotado pelo AC/UFJF; acondicionamento das fichas em pastas de papel alcalino, com proteção das fotos em papel manteiga e usando gaveteiros para guarda das pastas.

A formação do proletariado local é um valioso campo para pesquisas. Como objeto deste artigo, destacamos a atuação de imigrantes italianos na empresa Cia Pantaleone Arcuri. Olhando o recorte das fichas de funcionários foi possível estabelecer um paralelo com o quadro geral da imigração na cidade de Juiz de Fora, entretanto o registro dos italianos se torna passível de investigação para pesquisas mais aprofundadas, uma vez que podem fornecer elementos que levem a compreender a permanência desses italianos na localidade.


Referências bibliográficas:

“Pesquisa analisa imigração italiana em Juiz de Fora” 15/03/2017. Disponível em: https://www2.ufjf.br/noticias/2017/03/15/pesquisa-analisa-imigracao-italiana-em-juiz-de-fora/ Acesso em 02/06/2025.

 “Apresentação – Fundo Pantaleone Arcuri” 07/08/2021. Disponível em: https://www2.ufjf.br/arquivocentral/2021/08/07/apresentacao-fundo-pantaleone-arcuri/ Acesso em 02/06/2025.

OLIVEIRA, Mario Mendonça de. A documentação como ferramenta de preservação da memória. Brasília/DF: IPHAN / Programa Monumenta, 2008. (Cadernos Técnicos; 7).

RODRIGUES,  Ana  Célia. VIANA, Cláudio Muniz. Documento de arquitetura: Gênese e tratamento na perspectiva da tipologia documental. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, Extra 1. 2023. p 107-138. Disponível em: https://impactum-journals.uc.pt/boletimauc/article/view/12364/9199 Acesso em: 06/06/2025.


Andreia de Freita Rodrigues

É historiadora (UFJF), especialista em Patrimônio Cultural e Metodologia do Ensino de História, mestre em Educação com ênfase em Políticas Públicas para o Patrimônio Cultural, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora e atua na área de Consultoria em Pesquisa Histórica e de Educação Patrimonial, além de ser professora da rede municipal de ensino de Juiz de Fora e pesquisadora e professora de Culturas e Danças Ciganas.  edylaneeiterer@yahoo.com.br

Arlene Xavier Santos Costa

Mestre em Politicas públicas da Educação Superior/UFPB (2020). Graduada em Arquivologia/UEPB (2010). Licenciado em História/UFPB (2008). Arquivista na UFJF, lotada no Arquivo Permanente. Atuante na área de patrimônio e preservação de bens documentais. Faz parte do Laboratório de pesquisa em História e Arquivologia (LaphArq).


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Autores:
Carolina Barreto
Edylane Eiterer
Laíza de Oliveira Rodrigues
Maria Clara Magalhães
Mônica Vsconcello Barral Campos
Letícia Rabelo dos Santos
Arlene Xavier Santos Costa
Andreia de Freita Rodrigues
Alessandra Germano
Hellen Karla Almeida

Arte da capa:
Jean Michel

Revisora:
Paola Frizero

Projeto Gráfico:
Rafael Moreira Teixeira

Coordenação Geral:
Rafael Moreira Teixeira

Edição:
Paola Maria Frizero Schaeffer

Site:
Thaiana Fernandes Pinto Gomes

Mídias sociais:
Rafael Moreira Teixeira

Diagramação:
Thaiana Fernandes Pinto Gomes

Captação e edição de áudio e vídeo:
Vinícius Sartini da Silva

Realização:
Duplo Estúdio de Criação
Departamento de Cultura da Associação Casa de Itália

Periodicidade:
Mensal

ISSN: 2764-0841