Exposição AS MULHERES DE FLORENÇA E SUAS BICICLETAS

CARTA ÀS MULHERES DE BICICLETA, EM FLORENÇA

A velocidade com que estas mulheres de bicicleta, em Florença, deixam seus rastros faz com que elas pareçam deusas aladas!

Estou posicionado em uma esquina da Via de’ Tornabuoni, e já faz alguns dias que retorno a este mesmo ponto. Uma taça de vinho me aquece, e com minha câmera tomo o impulso de retratá-las.

Qual será o destino dessa mulher que olha para o horizonte com nitidez, usando seus óculos de armações grossas, e uma sacola de papel amarrada à bicicleta? E o sentimento desta outra, que sob a chuva fina, atravessa a rua pedalando de vestido e sapatos que se encaixariam tão bem à cena de um filme de Fellini. Penso alto, me imaginando dentro de um set de filmagem. É em Florença que me emociono e sinto um profundo pertencimento.

Escolhi Toscana para ser meu lugar na Itália. Me tornei cidadão daqui e sei que isso tem fundamento no papel da Florença para a história da arte de todo o mundo. Aqui, me acolho e me abrigo na verdadeira fonte de revolução da cultura e das artes plásticas. Pesquiso o passado sentado numa arquitetura renascentista, apesar do meu objetivo ser conseguir me ater aos fragmentos do presente.

Toda vez que venho à Itália, tiro algum tempo para estar em Florença. Meus pensamentos se diluem no ruído e no movimento da cidade. Foi assim que me dei conta de que as mulheres de Firenze são como a Deusa Νίκη, a deusa da vitória. Com independência e liberdade, numa travessia leve, deslizam com agilidade e suavidade um asfalto que brilha e reflete os vidros de uma rua enfileirada de vitrines de grifes italianas. Quase não há tempo para a pausa. Parece um desfile a céu aberto, mas são mulheres comuns, em suas bicicletas, vivendo suas rotinas.

Permaneço observando a garoa que cai lentamente e vai umedecendo as lajotas retangulares. É dessa chuva que vem o acento para a luz e o contraste das fotografias em preto e branco. “Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta / Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter”, parece, agora, que estou em um poema de Alberto Caeiro! Tem beleza no que vejo. Me concentro em buscar a maneira como Fellini registraria aquelas cenas.

Sou o fotógrafo perante as coisas que simplesmente existem, e tenho a obsessão em não deixar que elas passem e se dissolvam em minha memória. Volto à Florença e revejo meus amigos da toscana. A Itália e a fotografia são sobre isso, amor. Minhas fissuras, em duplo sentido, são o momento em que a partir de um rompimento, me pego apaixonado por um novo ponto de partida.

Fotografar as mulheres e suas bicicletas foi o início de um desafio que fiz para mim. É assim que me motivo e me ponho em pleno movimento, pulsando até ultrapassar os limites da razão. As vezes perco a lucidez no processo, me sinto cego de vontade em perseguir a trajetória que me propus! Não há como parar. E, por meio da arte, persisto este olhar que capta com velocidade as cenas reais.

Por:  Fernando Priamo e Carime Elmor


(É expressamente proibida a reprodução parcial ou integral de qualquer uma das imagens) 


Fernando Priamo

Ítalo-brasileiro, nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, cursou fotografia em São Paulo, especializando-se em fotografias de moda e fine art. Em 1999 inicia sua trajetória no fotojornalismo, sendo convidado para compor a equipe do Jornal Tribuna de Minas, onde em 2016 se torna editor de Fotografia. Prestou serviços para diversas agências de publicidade, empresas das mais diversas áreas, além de prestar serviços como freelancer para vários jornais e revistas do país.

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