Exposição CANÇÃO DA AMÉRICA: DIÁLOGOS ENTRE MINAS E AMÉRICA LATINA

As obras selecionadas para a exposição são ilustrações digitais que fazem parte de uma coletânea de sensações que são despertadas quando penso em Minas Gerais enquanto parte integrante da cultura latino-americana. Os personagens, as cores, a musicalidade e a história de Minas encantam o imaginário, fazendo com que a vontade de homenagear as belezas, mas também de refletir as contradições, seja combustível de inspiração artística. Espero que as obras tragam aos visitantes da exposição sensações de afeto, familiaridade e, ao mesmo tempo, uma inquietação necessária para querer movimentar o mundo. 


1. Canção da América
Esta obra introduz a exposição, seu tema e as principais inspirações que circundam o estilo de representação. Enquanto latino-americana e embalada pelas canções dos clubes das esquinas e vielas de Minas Gerais, a arte tem, por objetivo, localizar o público mineiro no mundo através da cartografia e da subversão Norte-Sul global.

“Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou” Canção da América – Fernando Brant / Milton Nascimento

2. Mares e Morros
Os famosos mares de morros mineiros e suas formas dialogam, nesta obra, com as cores das montanhas coloridas peruanas. O objetivo da obra é abolir as fronteiras de ambos os países e nos aproximar enquanto latino-americanos através da natureza, que se funde em formas e tonalidades por todo o território.

3. Carinho
A ilustração pretende homenagear, através da representação de um abraço, a nossa casa enquanto lugar de aconchego e acolhimento. Além disso, a escolha dos detalhes que compõem a ilustração tem a intenção de incluir, de forma subjetiva e apropriável por parte de cada pessoa, os elementos naturais, sensoriais e materiais que compõem um lar.

“A paz na terra amor
O sal na terra
A paz na terra amor
O sal da” O Sal da Terra – Beto Guedes

4. Mucuri(pe)
Colocar em diálogo as peculiaridades de diferentes regiões brasileiras é um processo que abre horizontes e forma laços antes não percebidos. Assim, a obra, por parte do título, pretende unir as regiões mineira e cearense, como também homenagear o saber fazer, que consiste no processo artesanal de transformação da natureza em cultura.

“Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo ‘inda era flor” Mucuripe – Fagner

5. Bejinho sem Vergonha
O Beijinho, ou Maria sem Vergonha, é um tipo de vegetação facilmente encontrado pelas ruas das cidades mineiras. Sua flor, de diversas cores e tonalidades, alegra espontaneamente o dia-a-dia de quem transita e compõe o ecossistema da fauna e flora local. Deste modo, a obra busca homenagear a espécie por meio das tradicionais ilustrações botânicas.

6. Cuíca
As crenças e manifestações culturais afro-brasileiras são as protagonistas desta obra. A escolha das cores e dos personagens visa representar o dinamismo presente nas relações diárias e na musicalidade popular, em especial no caso do samba. Além disso, a disposição dos elementos e o título têm como inspiração o famoso quadro Guernica, de Pablo Picasso. O objetivo é representar a resistência da cultura popular brasileira às formas de repressão impostas historicamente pelo Estado.

“Samba,
Agoniza mas não morre,
Alguém sempre te socorre,
Antes do suspiro derradeiro.” Agoniza mas não Morre – Nelson Sargento

7. É de Manhã
O canarinho é um pássaro parte integrante da nossa fauna e também da memória afetiva, pois, junto com a luz do sol, pousa nos quintais mineiros pela manhã. Nesse sentido, a obra busca ilustrar as relações interpessoais e o que as une diariamente.

“É de manhã
Vou ver minha amada
É de manhã
Flor da madrugada
É de manhã
Vou ver minha flor” É de Manhã – Caetano Veloso

8. Decoro
A arquitetura religiosa mineira e suas características acompanham a história do território. Desde o barroco de Antônio Francisco Lisboa, passando pela arquitetura modernista de Oscar Niemeyer, até chegar nos dias atuais, a religiosidade tem um papel importante na vida de grande parcela da população. O termo decoro por muito tempo foi usado no sentido de adequar a arquitetura às necessidades gerais das Minas, e isso inclui certamente suas tradicionais festividades.

9. As Namoradeiras
As namoradeiras são bonecas de gesso ou madeira tradicionais das janelas das casas mineiras. Contudo, a representação objetificada da mulher, principalmente negra, na decoração foi comum por muito tempo, tendo a necessidade de ser problematizada nos dias atuais. A ilustração tem por objetivo, portanto, evocar a memória afetiva de muitos e ao mesmo tempo lançar um olhar contemporâneo e plural da força feminina brasileira e latino-americana.

10. Cotidiano
A culinária mineira do dia-a-dia é bastante lembrada em todo o Brasil por sua fartura e qualidade. A obra busca fazer uma homenagem ao ato de preparar e comer em Minas Gerais, certamente um dos grandes cartões-postais da região.

11. Um Gosto de Sol
Esta obra é a releitura das tradicionais pinturas intituladas “natureza-morta”, gênero que tem por objetivo representar coisas ou seres inanimados. Ela finaliza a exposição com um típico e convidativo café da tarde mineiro, tão presente nas mesas e na vida de diferentes gerações.

“Alguém que vi de passagem
Numa cidade estrangeira
Lembrou os sonhos que eu tinha
E esqueci sobre a mesa
Como uma pêra se esquece
Dormindo numa fruteira.” Um Gosto de Sol – Milton Nascimento / Ronaldo Bastos

(É expressamente proibida a reprodução parcial ou integral de qualquer uma das imagens) 


Letícia Bedendo

Arquiteta e Urbanista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (NPGAU-UFMG). Atualmente, trabalha profissionalmente como ilustradora e tem como foco de estudo a formação dos espaços urbanos de Minas Gerais, especialmente da cidade de Diamantina.

Confira o trabalho da artista através do Instagram: https://www.instagram.com/leticiabedendo/

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