Da Janela Lateral: ensaio sobre a construção imagética da cidade barroca mineira

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Letícia Bedendo | Da Janela Lateral: ensaio sobre a construção imagética da cidade barroca mineira


Quais imagens nossa mente tende a evocar quando somos postos a pensar no que consiste uma paisagem barroca? Em Minas Gerais, as chamadas “cidades históricas”, tais como Ouro Preto, Mariana, São João del-Rei e Congonhas, são popularmente lembradas pela arquitetura típica, composta por suas igrejas monumentais cobertas de ouro, ruas estreitas e casas coloridas. Contudo, para além disso, esses espaços evocam uma atmosfera muito particular, transmitida por meio das histórias, culinária e festividades que circundam o território.

Croqui de Ouro Preto (MG), 2018. Fonte – Acervo pessoal Leticia Bedendo Campanha Pires

A temática da paisagem e a tentativa de definição do conceito perpassa diversas áreas do conhecimento. Para o filósofo Jean-Marc Besse (2014), paisagem é o resultado da obra da mente de diversas gerações, sendo fabricada através dos sentidos e expressa através das múltiplas linguagens que o ser humano cria a fim de se comunicar. Nas palavras do autor: “Fala-se, atualmente, das paisagens sonoras, mas também da paisagem dos sabores, ou até das paisagens tácteis, no âmbito de uma reflexão geral que insiste na dimensão de polissensorialidade própria das experiências paisagísticas” (BESSE, 2014, p. 9). O autor acrescenta ainda que paisagem é a marca que uma sociedade deixa na natureza ao transformá-la em prol da sua necessidade.

No ano de 1992, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) instituiu o conceito de paisagem cultural, estabelecendo a ele três classes: (i) a paisagem concebida pelo homem em razões estáticas, a qual inclui parques e jardins; (ii) a paisagem evolutiva, subdivida entre “relíquias” — as quais compreendem um processo evolutivo que se completou de certa maneira, como, por exemplo, um sítio arqueológico — e “vivas” — que conservam um papel ativo na sociedade atual ligada ao modo de vida tradicional, como os vinhedos europeus; (iii) a paisagem associativa, cuja existência está relacionada a um valor simbólico ligado a fenômenos religiosos, artísticos ou culturais, como, por exemplo, montanhas sagradas. Essa concepção definida pela Unesco, contudo, se tornou, em certa medida, um tanto obsoleta com o desenvolvimento da bibliografia, visto que hoje pode-se compreender paisagem como um fenômeno não tão determinante, e sim mais intangível no que diz respeito à memória individual e coletiva (CARNEIRO; SILVA 2012 in LACERDA; ZANCHETI, 2012).

Perspectiva da Praça de São Pedro no Vaticano. Fonte – curvasearquitetura.wordpress.com

A cidade colonial mineira e sua paisagem têm sido objeto de discussão dos profissionais do patrimônio desde as primeiras décadas do século XX, momento em que se destacava no âmbito das artes uma necessidade de se determinar o que viria a ser a cultura genuína de um país cuja república fora enfim instaurada. Dentro do campo da arquitetura, as primeiras reflexões, segundo Puppi (1998), partiram de uma tendência da valorização da cidade colonial como síntese da cultura arquitetônica brasileira, liderada direta ou indiretamente pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa. Contudo, a valorização da arquitetura colonial, nas reflexões do autor, teria o objetivo maior de enaltecer as soluções técnicas e plásticas do movimento modernista da arquitetura. Desde então, a teoria acerca do tema vem constantemente sendo revisitada e readapta, complementando o entendimento das cidades barrocas luso-brasileiras.

Os estudos incipientes acerca da formação do espaço urbano em território brasileiro defendiam a tese de que a América portuguesa, diferentemente da espanhola, optava por um caráter de desleixo na implantação das cidades em suas colônias (SOARES, 2009). Essa visão surge com Sérgio Buarque de Holanda no ensaio “O semeador e o ladrilhador”, contido no livro “Raízes do Brasil” (HOLANDA, 1936). Ainda que considere o ensaio superado e com uma conotação negativa acerca das cidades portuguesas na América, Damasceno (2011) o defende como uma importante fonte de organização da historiografia brasileira.

De fato, as primeiras pesquisas voltadas para a história do urbanismo no Brasil possibilitaram que novos estudos se aprofundassem na identificação das formas de se organizar o espaço, herdadas direta ou indiretamente de diferentes culturas. Em sua obra “A forma da cidade de origem portuguesa”, Teixeira (2012) identifica que as especificidades da cidade portuguesa, em especial as da porção norte do território do país europeu, têm bastante a ver com as heranças culturais que predominaram no continente.

As cidades medievais dos séculos XII a XIV, por exemplo, com suas muralhas, planos ortogonais e quarteirões retangulares, foram uma ponte entre o urbanismo romano da Antiguidade e a sociedade renascentista. O Renascimento italiano exportava a ideia de cidades racionais como exata expressão de uma sociedade ideal. Ainda segundo Teixeira (2012), foi nesse cenário que se popularizou a figura dos engenheiros militares pela Europa, que, posteriormente, foram levados às colônias portuguesas. Em muitos casos, foram esses profissionais que, além das fortificações, também ficaram encarregados do plano urbano como um todo.

Evolução dos vãos, cheios e vazios, na arquitetura a partir do século 17. Fonte – Revista Vitruvius

Em paralelo, as especificidades desenvolvidas em território português tiveram um papel importante no desenvolvimento de novos conceitos de cidade. Uma das principais características do urbanismo português consistiu nos planos com predisposição para se adaptar às condicionantes ambientais, como também às circunstâncias futuras de adaptação. A herança de organização do espaço renascentista traz uma concepção mais cenográfica do espaço, a valorização do papel da fachada e uniformização das construções, além do reconhecimento de heranças culturais, escolha de localização dos sítios, elementos geradores de traçados e hierarquias. Reconhecer essas características torna-se fundamental, portanto, para se entender o desenvolvimento da urbanização no território mineiro.

A regularidade em nossos traçados urbanos não é geométrica, assim como já defendia Sérgio Buarque de Holanda, mas isso não quer dizer que seja inexistente. Pelo contrário, privilegiamos a repetição de determinadas características e a adaptação aos terrenos. Como exemplo, Nestor Goulart Reis Filho, em suas obras acerca da cidade mineira, traz que a divisão dos lotes privados era realizada pelo arruador, que procurava respeitar a curva de nível do terreno. Em relação às ruas públicas, privilegiava-se uma ordem através da largura uniforme da via e, no caso das ruas retas, cruzamentos em ângulos retos. Com relação às edificações, a lógica da disposição das esquadrias na fachada era minuciosamente pensada para respeitar a paisagem total da região.

Todas essas tendências de organização do espaço, readaptadas no decorrer da história, somam-se à vivência diária da população e às relações sociais desenvolvidas, que em conjunto formam a cultura do território. Carsalade (2007) aponta ainda que, intrínsecas à cultura, estão as noções de história e memória. Apesar de ambas estarem correlacionadas e serem frutos de uma visão parcial da realidade, a primeira se refere mais à interpretação coletiva dos registros e documentos, enquanto a segunda é mais subjetiva e provém dos filtros e vivências pessoais. Desse modo, é possível crer que a paisagem é algo construído no dia a dia, assim como nossa maneira de viver o mundo, seja individual ou coletivamente. Da janela lateral de nosso quarto de dormir, vivenciamos o mundo pelas lentes que desenvolvemos enquanto mensageiros naturais de nossa própria história.  


Referências bibliográficas:

BAETA, Rodrigo. OURO PRETO: cidade barroca. Cadernos PPG-AU/UFBA, v. 1, n. 1, 2002.

BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo: exercícios de paisagem. Rio de Janeiro: EdUERJ, v. 234, 2014.

CARNEIRO, Ana Rita Sá; SILVA, Ana Figueiroa. Caracterização dos atributos dos bens patrimoniais in LACERDA, Norma; ZANCHETI, Sílvio Mendes. Plano de gestão da conservação urbana: conceitos e métodos. Olinda: CECI (2012).

CARSALADE, Flavio de Lemos. Desenho contextual: uma abordagem fenomenológico-existencial ao problema da intervenção e restauro em lugares especiais feitos pelo homem. Tese de Doutorado. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2007.

FONSECA, Cláudia Damasceno. Arraiais e vilas d’el rei: espaço e poder nas Minas setecentistas. Editora Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 2011.

PUPPI, Marcelo. Por uma história não moderna da arquitetura brasileira: questões de historiografia. Pontes, 1998.

REIS FILHO, Nestor Goulart. Notas sobre a evolução dos estudos de história da urbanização e do urbanismo no Brasil. Universidade de São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Preservação, 1999.

TEIXEIRA, Manuel C. A forma da cidade de origem portuguesa / Manuel C. Teixeira. – São Paulo : Editora Unesp: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012.


Letícia Bedendo

Arquiteta e Urbanista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (NPGAU-UFMG). Atualmente, trabalha profissionalmente como ilustradora e tem como foco de estudo a formação dos espaços urbanos de Minas Gerais, especialmente da cidade de Diamantina.


Patrimônio Cultural: a virada discursiva

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Ana Carolina Lewer | Patrimônio Cultural: a virada discursiva


Há tempos que venho me debruçando sobre a temática do patrimônio cultural e, como o próprio nome já anuncia, não há patrimônio sem cultura. Entendendo um pouco desse radical, a palavra cultura é derivada do verbo em latim colere, que significa cuidar. Daí temos outras derivações como: agricultura — cuidar da terra — e puericultura — que são os cuidados relativos às crianças. Nesse sentido, minha compreensão de cultura tem como base a visão da filósofa Marilena Chaui, que afirma que a palavra “cultura” deve ser entendida como a capacidade dos seres humanos de se relacionarem com o ausente através de símbolos. Como posto pela autora, os primeiros elementos que formam a cultura são a linguagem, por meio da qual se torna presente o que está ausente, e o trabalho, através do qual se faz surgir no mundo o que antes não existia. O universo da cultura, então, é a capacidade do homem de se relacionar com o tempo, de rememorar o passado, de projetar seu futuro. É a nossa percepção, nossa forma de definir as coisas e de nos colocarmos no mundo. Por isso, há um grande equívoco quando se afere a cultura como a posse de conhecimentos e de saberes, correlacionando com a errônea noção de pessoas cultas e incultas. Isso não é cultura (CHAUI, 2018).

Interlocução da comunidade com a tradição que marcava a virada do ano em Juiz de Fora e com o espaço de forte símbolo para a cidade, o calçadão da rua Halfeld. Autoria: Huberto Nicoline. Fonte: JF anos 80: fotografias, pág. 47.

No entanto, em um primeiro momento, o patrimônio era visto sob um outro viés, a partir de uma concepção advinda da Europa, que trouxe consigo uma ideia baseada na alta valoração da materialidade, sobretudo das obras arquitetônicas, dos monumentos, das obras de arte e afins, representativas apenas das classes dominantes. Nesse entendimento, os valores enfatizados eram o histórico e o artístico, incorporados, inclusive, ao nome do primeiro órgão nacional de preservação, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) e permanecendo até os dias atuais após sua transformação no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O transladar dessa terminologia para uma orientação epistemológica calcada no cultural carrega consigo um deslocamento significativo e valioso acerca dessa percepção eurocêntrica. Passamos a compreender que o patrimônio cultural pode, e deve, refletir todas as manifestações de um povo, sejam elas materiais ou imateriais, e independente de classe social.

Quando se transforma o conceito de patrimônio histórico e artístico em patrimônio cultural, a cultura funciona como um guarda-chuva que abraça uma infinidade de valores para além desses supracitados, representando, especialmente, o valor social. Entretanto, se faz necessário frisar que, embora a cultura tenha esse sentido amplo, temos de levar em consideração que vivemos em uma sociedade dividida em classes e que, sob essa perspectiva, a cultura não possui a mesma forma de se manifestar, o mesmo sentido nem os mesmos instrumentos. Essa diferenciação produz uma segmentação que chamamos de cultura popular e cultura erudita (CHAUI, 2018). Nesse panorama, dentre os importantes acontecimentos que marcaram a década de 1980 no Brasil, temos a introdução do termo “referências culturais”, criado para referendar o reconhecimento de que nossa cultura é plural e que nenhuma deve se sobrepor a outra. Pelo contrário, a introdução da palavra cultura nesse tema visa justamente fortalecer e dar protagonismo a outros modos de saber, de ser e de enxergar o mundo para além do erudito, já tão valorizado.

A noção de referências culturais adotada pela Constituição merece destaque. Ela sugere remissão; designa a realidade em relação à qual se identifica, baliza ou esclarece algo. No caso do processo cultural, referências são as práticas e os objetos por meio dos quais os grupos representam, realimentam e modificam sua identidade e localizam a sua territorialidade. Referências são marcos e os monumentos edificados ou naturais, assim como as artes, os ofícios, as festas e os lugares a que a vida social atribuiu reiteradamente sentido diferenciado e especial: são aqueles considerados os mais belos, os mais lembrados, os mais queridos, os mais executados…” (ARANTES, 2009).

Trago essa reflexão pois é necessário enfatizar que os conceitos possuem uma semântica, trazem significados muito bem definidos. E estes, por sua vez, são forjados em fatos, memórias e, na grande maioria dos casos, em lutas. Por isso, não devemos esvaziar os termos utilizando-os de forma arbitrária e negligente. No caso específico do patrimônio cultural, o atual termo reflete um grande avanço e ampliação de sua abrangência, superando a instância do objeto e da materialidade. Conforme destaca Ulpiano Bezerra de Meneses, ele diz respeito à vida e seus significados são construídos socialmente. Patrimônio é uma questão de cidadania presente na agenda dos direitos culturais. Ele é o vetor e guia-ordenador das comunidades, mobilizado para sustentar crenças, práticas, modos de sentir e viver. Por isso, ele deve estar sempre inserido no cotidiano e sendo constantemente executado e ressignificado (PPGAU UFF, 2021).

Hoje a discussão se baseia a partir da significância e dos valores compartilhados. Preservar, então, não é conservar a matéria. É pensar de forma dialética e não impositiva, buscando promover a inclusão de identidades distintas e de formas distintas de apropriação, bem como e certificando que o patrimônio cultural permaneça no continuum da vida, sendo legitimado pelos seus detentores, afinal “patrimônio [cultural] é antes de tudo, um fato social” (MENEZES, 2012).


Referências bibliográficas:

ARANTES, António Augusto. A salvaguarda do patrimônio imaterial no Brasil. In:

BARRIO, Angel Espina; MOTTA, Antonio; GOMES, Mário Hélio. (Org.). Inovação Cultural, Patrimônio e Educação. Recife: Editora Massangana, Fundação Joaquim Nabuco, 2009, 392 p. Disponível em: https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/3630/1/livro%20congresso%20Recife%20completo.pdf>. Acesso em 29/08/2021.

CHAUI, Marilena. Escritos de Marilena Chaui | O que é cultura?. Youtube, 21 de agosto de 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-YQcFNoiDMw>. Acesso em: 28/08/2021.

PPGAU UFF. Seminário Patrimônio Cultural na Contemporaneidade: Ensino e Prática/ 3º Seminário da Rede PHI Brasi. Painel 01 – Patrimônio e sociedade. Youtube, junho de 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WaFW-mh3iX0>. Acesso em: 29/058/2021.

MENEZES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. In: IPHAN. I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural: Sistema Nacional de Patrimônio Cultural: desafios, estratégias e experiências para uma nova gestão, Ouro Preto/MG, 2009. Brasília: Iphan, 2012.


Ana Carolina Lewer

Arquiteta urbanista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, pós-graduanda em gestão e conservação do patrimônio cultural pelo IFMG – Campus Ouro Preto, vice-diretora da comissão de patrimônio cultural do IAB – Núcleo JF e vice-presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Juiz de Fora. Atualmente também atua na Divisão de Patrimônio Cultural- Funalfa/PJF.


ENTREVISTA: Júlia Fregadolli

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2021 – Departamento de Cultura | ENTREVISTA: Júlia Fregadolli


1 Como artista atuante em JF, como vê a importância das manifestações artísticas nesse momento de pandemia?

Acredito que são tantas as importâncias!! A arte pode ser uma maneira de criar novas relações, novas formas de contato, de compreender melhor o tempo em que vivemos e até de enxergar outro jeito de viver essa realidade pandêmica. Não é sempre fácil, porque ela é feita de gente, pra gente, mas como a vida, as artes são feitas de ciclos e continuam, sempre se renovam. Vida e arte continuam apesar do que é imposto por aí. 


2 Na exposição em exibição na Galeria Online da Casa D’Italia “FRESTA” você usa colagens e fotografias para “re-imaginar, enxergar por outros ângulos, olhar com diferentes olhos.” Como você acredita que pode tocar e sensibilizar as pessoas re-criando olhares e perspectivas?  

A Wislawa Szymborska é uma poeta polonesa que muito me inspira. Ela disse num discurso – ao receber o Prêmio Nobel da Literatura, em 1996 – que as coisas que não sabemos são a fonte da nossa inspiração. E que a expressão “não sei” é composta por duas palavras pequenas, mas voa com grandes asas e expande a vida, porque representa a nossa abertura em relação ao mundo. Em contraponto a esse “não-saber”, Szymborska comenta que algumas pessoas sentem que já sabem de tudo e carregam os saberes como concreto (“concreto” é palavra minha, mas acho que cabe aqui). São pessoas que enxergam o mundo como respondido, um lugar onde não existe espaço para outras vozes ou corpos.

Eu caminho com as palavras da Wislawa, com essa vontade de abertura, de disponibilidade e tento traduzir em arte. Acho que abrir espaço para o que não sabemos é, também, repensar o que já sabemos, transformar nossa percepção do entorno, do cotidiano. Não tenho grandes pretensões, mas fico feliz quando penso que meu trabalho pode ser uma faísca, uma ponte para esse outro olhar que enxerga a poesia na vida diária, mesmo naquilo que parece mais banal.


3 Há 6 anos a Casa D’Italia de Juiz de Fora e seu Departamento de Cultura, vem desenvolvendo iniciativas em prol da cultura e suas manifestações artísticas, buscando a valorização dos artistas da cidade e região. Como se deu esta conexão entre você, sua arte e a instituição?

Eu já conhecia a Casa, mas esse contato com o Departamento de Cultura aconteceu mediado pelo Rafael Moreira, um querido e grande apoiador da arte, da cultura e do meu trabalho. Me sinto muito grata e honrada por poder fortalecer essa conexão.


4 Qual sua memória mais remota com a Casa D’Italia de Juiz de Fora? Qual a importância do prédio e suas associações para a cidade de Juiz de Fora na sua opinião?  

Tenho uma memória antiga, de quando me mudei para Juiz de Fora (em 2006). Eu me lembro de ficar encantada com a arquitetura do prédio e com a localização dele, tão no centro do movimento da cidade. Venho de uma cidade menor e tudo aqui me parecia muito grande e diferente. Também tenho outra, de alguns anos mais tarde, da época em que fazia aulas de italiano na companhia do Lucas, um amigo muito querido. Não é a memória mais remota, mas me trouxe outra conexão com a Casa, um laço de afeto.

E eu sempre bato na tecla de que cultura é a resposta para muita coisa, por isso a Casa D’Italia e tantos outros monumentos arquitetônicos e instituições têm essa importância de preservar, relembrar o que passou e abrir espaço para o que vem, o que vai se construir. É um diálogo constante entre memória, presente e porvir. 


5 Você acredita que a Casa D’Italia de Juiz de Fora e os artistas da cidade podem ajudar as pessoas neste momento difícil de pandemia com suas produções? De que maneira?

Penso que sim, mas sem pretensões (não sei se essa é a melhor palavra, mas espero que me entendam). Instituições que apoiam o movimento cultural e artistas locais são sempre necessárias, especialmente num momento em que arte e cultura estão tão ameaçadas. E a arte tem sim um papel de cura, de cuidado e de possibilitar outros olhares, mas sinto que às vezes colocamos um peso maior do que ela é capaz de carregar. Para que ela seja ferramenta de mudança, é preciso que exista troca, uma relação de diálogo entre artes e pessoas.


6 Um dos objetivos da Galeria Online é incentivar as pessoas a acreditarem e investirem na arte e nos artistas juiz-foranos, principalmente o público jovem. Você poderia deixar algum recado para esses jovens e para todos os leitores da Revista Casa D’Italia?

Acho que gostaria de dizer (para mim e para quem lê) que é preciso continuar acreditando na nossa arte, na cultura e na gente, no povo. Não é fácil num momento como esse, porque o contexto e as notícias desanimam. A vida perde o rumo, parece à deriva, mas eu acredito. Sigo acreditando e a vida também segue. É como nos versos do poeta amazonense Thiago de Mello: “Faz escuro mas eu canto / porque a manhã vai chegar”.


Júlia Lacerda Fregadolli

Sou formada na Licenciatura em Artes Visuais pela UFJF, atuo como professora e sigo tentando descobrir meus próprios passos entre a arte e a educação. Me considero meio artista, meio educadora e meio o que há por vir. Gosto de pensar nesse porvir, porque muito da minha poética passa por ele. Os caminhos, suas possibilidades, os laços que se criam e a maneira como tudo isso nos atravessa. Acho que meu trabalho é uma tentativa de traduzir o que não sei como falar, por isso palavras e imagens caminham quase sempre juntas nas minhas colagens ou fotografias.


Os filhos dos filhos dos seus filhos, e os tataranetos deles

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2021 – Vinicius Tobias | Os filhos dos filhos dos seus filhos, e os tataranetos deles


Os filhos dos filhos dos teus filhos
terão tataranetos
e, eles, na angústia e desfragmentação
de seus tempos
recorrerão a uma memória ausente
de seus ancestrais
buscando força, entusiasmo e consciência
das pessoas cuja história os geraram
e que em tempos remotos
tinham a dignidade de,
— mesmo frente à tanta falta —
de conhecimento, de recursos, de tecnologia,
nem pensar em esmorecer
e construir, através de palavras e cerimônias
um lugar seguro e certo e justo onde se viver
desta forma tu serás exaltado
sem que eles saibam ao certo o que aconteceu

Olhe ao redor
é assim que se portam os ancestrais dignos
perdidos na névoa do inevitável esquecimento
num mundo coeso e consciente
quando recorridos
a trazer, a partir de leves sensações
a sabedoria milenar aos rituais

O que resta em nós daqueles que nos geraram? 

Os avós dos meus avós maternos vieram da Itália de navio, não sei muito mais do que isso, não consigo imaginar muito. Quando tentei, imaginei a vida como nós a levamos sendo imaginada por nossas linhagens no futuro — como somos heroicos quando nossos descendentes nos imaginam! Mas o conselho que se dá, “olhe ao redor, vós sois os antepassados de alguém”, também poderia ser dito a eles, a qualquer um. A vida por trás da névoa.

O que fica é a lembrança construída. Uma coisa que ficou na gente foi o capeletti no Natal. Minha bisavó, que eu não conheci, fazia. E nós aprendemos — com a geração anterior que aprendeu com ela — e ainda fazemos. Apenas no Natal, dá muito trabalho. Fazemos em casa a massa, o recheio, tudo. E esnobamos os de supermercado. Há também a coisa do recheio, só um recheio existe: queijo, gema de ovo, noz moscada e pimenta do reino. O resto é trapaça, invencionice!

Quando minha mãe foi à Itália, conhecer o lugar de onde seus bisavós vieram, esperava encontrar o “verdadeiro Capeletti Italiano”. Quanto a isso, ficou decepcionada. O “verdadeiro” só surgia depois de horas de trabalho, por nossas mãos. Não há prazer do “verdadeiro” capeletti sem a dor nas costas de ter passado o dia os dobrando. E o capeletti lá era insossinho comparado às outras massas.

Só isso? Lembranças imaginadas e capeletti?

Sim, só isso. Entretanto, passar os dias dobrando para depois colher os frutos do trabalho com dor nas costas é exatamente o que fiz desde os meus 19 anos com a publicação artesanal de poesia em fanzines, que são livretos fotocopiados, vendidos a preço de banana na rua. O prazer da comunhão depois do trabalho manual…

É claro que o que sempre me animou foi o “do it yourself” (faça você mesmo) punk. Uma prática anarquista adquirida pela fricção de meus desejos e o presente tecnológico, aquilo que me cerca. Mas acredito que algo tem que vibrar entre os tendões, os ossos e a carne para nossas tendências serem encenadas (reencenadas?).

Entretanto, não pude deixar de polinizar minha imaginação quando, em São João del Rei, assisti à peça do Teatro da Pedra (à época ManiCômicos) chamada Borgobandoballo. Baseada em fatos, a peça contava a história de um grupo anarquista expulso da Itália, formando uma colônia em São João del Rei. Será que tinha algum antepassado meu entre eles, algum anarquista perdido pela Pedra Negra, mais ao sul, de onde meus avós saíram?

Certeza absoluta e intransferível que sim! — na falta de documentação, não há porque segurar a imaginação.

Agora, se a Itália “verdadeira” de onde viemos só pode brotar das nossas mãos no capeletti, o distrito de Pedra Negra em que meus antepassados se instalaram está submerso por uma represa de usina hidrelétrica.

Nenhuma topografia do passado, nesse passado que, não obstante, somos: para os tataranetos dos filhos dos nossos filhos. Nós, que somos tão numerosos primos!


Vinicius Tobias

É de Ijaci/MG, e é poeta, contista e editor de fanzines. Entre os anos de 2009 e 2019 publicou e distribuiu de mão em mão seus seis fascículos da série Intervenção Humana, quando estreou e se formou enquanto escritor. Também se entende como um haicaisista, tendo imersão na prática do haicai, gênero poético japonês de três versos e ênfase na experiência com a natureza, onde ele assina os poemas com o nome Mugido. É membro-fundador do grupo Larvas, onde atua desde 2010 com recitais, saraus, performances, publicações, editorações, exposições e produção de eventos. É mestre e doutorando em Ciência da Religião pela UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora, lá estuda a relação entre poesia, música e religiosidade. Autor de “A estrada e o moirão” (Editora Capim-Limão) e “Velas para o Oriente (Caravana, grupo editorial), ambos no fim de seu processo editorial e que estarão sendo divulgados no segundo semestre deste ano. Pode-se acompanhar o autor nas redes pelo seu perfil no instagram @viniciustobiasmugido e pelo blog larvaspoesia.blogspot.com


Como surgiu a ideia do filme “O monstro do Rio Paraibuna”

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2021 – Leonardo Amorim | Como surgiu a ideia do filme “O monstro do Rio Paraibuna”


A ideia do filme “O monstro do Rio Paraibuna” ocorreu em debates cineclubistas com Felipe Fontenelle e Atrum Regina, no Cineclube Movimento do IAD e no Cineclube Monstro, no Espaço Excalibur.

Inspirados em filmes clássicos de monstros da Universal Pictures, como The Creature of Black Lagoon (1954), Frankenstein (1931) e Drácula (1931); na filmografia trash do Petter Baiestorf; e até em jogos eletrônicos como a série Resident Evil, optei por produzir um trabalho prático com roteiro que pudesse criar um monstro com características juiz-foranas.

“O monstro do Rio Paraibuna” tem como personagem principal o professor Francisco Guimarães, especializado em biologia aquática. O arco dramático de Guimarães se relaciona com a presente desvalorização aos professores no Brasil, o que contribui para a precarização do ensino em todo o país.

Presenciei em escolas públicas, tanto municipais quanto estaduais, uma situação extremamente preocupante de profissionais desmotivados, prédios em ruínas e merenda insatisfatória. O personagem Guimarães é um depoimento de como anda a vida desse professor esgotado física e emocionalmente, que luta por sua sobrevivência em um mundo cada vez mais violento e desolador.

Eu já havia participado de outras obras audiovisuais, desde curta-metragens a documentários e videoclipes, mas esta considero ser a primeira concepção que levei tão a sério devido ao grau de envolvimento. Esse foi, portanto, um processo de longo prazo em que pude colocar em prática as experiências adquiridas nos exercícios que envolviam produções cinematográficas anteriores e os conhecimentos teóricos oriundos da sala de aula.

Escolhi produzir um roteiro de ficção científica com traços fortes de horror que permitisse questionar problemas ambientais como a poluição da água e a disposição de lixo em locais inadequados, bem como a desvalorização da educação.

A partir de então, criei com Felipe Fontenelle um argumento em que Guimarães, o personagem principal, foi caracterizado como um professor que se dedicava a estudar estranhos fenômenos envolvendo capivaras em um rio e que experimentava o negacionismo das pessoas em sua pesquisa.

No gênero horror, quase sempre uma testemunha se torna consciente da existência do monstro, da ameaça que ele constitui, da proximidade da catástrofe, e se esforça para comunicar a população sobre o perigo. Somente quando o monstro aparece publicamente é que a coletividade acredita na existência do monstro e as pessoas tentam se defender como podem. Guimarães é um estudioso que busca por provas para confirmar suas teses científicas durante a trama.

Ao redor de Juiz de Fora, podemos notar uma sensível quebra da organização biológica, com o agravante de que as águas domésticas estão infectadas por germes patogênicos. Guiado pelo senso ecológico, a ficção científica em “O monstro do Rio Paraibuna” desenvolve uma dramaturgia de monstro pertinente ao contexto de desastre ambiental que projeta o zoomorfismo da capivara a partir de alterações físicas especulativamente provocadas pela poluição.

Aprendi com a decupagem clássica algumas etapas convencionadas do texto cinematográfico em estrutura linear, como o storyline, o argumento, o tratamento, o roteiro literário e o roteiro técnico. A construção de um bom argumento era fundamental para aquele projeto dramático que demandava o paradigma dos três atos.

O ato I é o início como apresentação, o ato II é o meio como confrontação e o ato III é o fim como resolução. Os personagens são fundamentais nessa estrutura e movem a narrativa através de suas necessidades, conflitos, contextos, pontos de vista, atitudes, personalidades, comportamentos, revelações, identificações e ações. Próximo ao final de cada um dos atos há um ponto de virada, conhecido também como plot point, que normalmente são responsáveis pelo sucesso do roteiro.

A construção da narrativa em roteiro audiovisual constitui várias etapas da pré-produção à pós-produção. Uma série de terminologias de roteiro é utilizada buscando evitar confusões no meio profissional. O protagonista geralmente sofre uma transformação, modificando-se ao longo do enredo.

No argumento de “O monstro do Rio Paraibuna”, a estrutura se orienta pelos três atos de Field, pois o primeiro ato apresenta a história de Guimarães, o professor biólogo que, na busca para que sua mensagem seja ouvida, conhece Bruno, um pescador vítima do monstro capivara.

O professor confronta o monstro no mesmo local em que Bruno foi atacado e escapa por um triz, correndo a esmo pela mata. Ao mesmo tempo, a repórter Beatriz Lobo descobre a verdade por trás do desastre das capivaras e começa sua jornada à procura de Guimarães.

O professor se esconde em uma casa e descobre que seus moradores foram mortos. No segundo ato, Guimarães procura refúgio ou meios de se comunicar na casa onde é atacado por uma horda de monstros. Ele tenta buscar ajuda da polícia, que ignora seu alarme.

Em um momento de distração dos policiais, Guimarães liberta Bruno, que tinha sido preso como “louco”, e rouba algumas armas da delegacia. Logo após, chega Beatriz à delegacia procurando o paradeiro de Guimarães. Ela recebe uma pista de que eles estão a caminho da usina. A cidade é atacada por capivaras mutantes enquanto Bruno e Guimarães chegam à usina para fechar o registro de bentonita. No caminho, eles conversam sobre suas vidas e ficam mais íntimos, até serem interrompidos por uma horda de monstros capivara.

No terceiro ato, enquanto os verdadeiros responsáveis pelo desastre ambiental planejam sua fuga, Beatriz encontra Guimarães na usina e Bruno se sacrifica para salvar os dois. Com a ajuda de Beatriz, Guimarães fecha o registro e conseguem uma solução para o problema. Guimarães, Bruno e Beatriz são considerados heróis por restaurar o equilíbrio, mas as consequências do desastre permanecem, deixando o final semiaberto.


Leonardo Amorim

Possui graduação em Cinema e Audiovisual, graduação em Artes e Design pela Universidade Federal de Juiz de Fora e intercâmbio internacional em Covilhã na Licenciatura de Cinema pela Universidade da Beira Interior-Portugal, com bolsa da PII-GRAD, onde desenvolveu pesquisa sobre teorias e prática cinematográficas utilizando a plataforma Moodle. Foi produtor de mídias audiovisuais no departamento de marketing para a Escola de Aviação Civil ACJF no período de 2019-2021. Realizou TCC para a UFJF sobre produção audiovisual (orientado por Sérgio José Puccini Soares) e produziu para o ACJF as gravações e edições de mídias audiovisuais para um curso teórico à distância de piloto de avião.


O Brasil foi à guerra e a “cobra fumou”

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2021 – Aline Locastre | O Brasil foi à guerra e a “cobra fumou”


Muitos são os temas que atraem os ingressantes nos cursos de História pelo país. Alguns chegam ansiosos por aprender sobre Egito Antigo, História Medieval, ditaduras no Brasil, ou sobre guerras. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é um desses temas de interesse dos amantes da História, sejam eles historiadores — profissão recentemente regulamentada no Brasil — ou  jornalistas, memorialistas, militares. Games, filmes, livros ficcionais, biografias, autobiografias, diários de guerra, armas, museus ou brinquedos, ajudam a despertar a curiosidade sobre o conflito. Esse material ou as leituras que se fazem sobre as múltiplas fontes históricas que temos (a Segunda Guerra Mundial foi amplamente documentada) tem estimulado muitas narrativas. A luta da Força Expedicionária Brasileira (FEB) fomentou algumas delas.

A FEB foi criada em agosto de 1943 e foi comandada pelo General João Baptista Mascarenhas de Moraes. Foi incorporada ao V Exército Americano e combateu no front italiano, tendo uma atuação decisiva na tomada de posições como Monte Castelo e Montese. No brasão do uniforme dos combatentes brasileiros, chamados de “pracinhas”, foi estampada uma cobra fumando em resposta àqueles que diziam ser mais fácil uma “cobra fumar do que o Brasil ir à guerra”. Segundo o historiador Antonio Pedro Tota, em “O imperialismo sedutor”, a primeira cobra fumando com duas armas em mãos e um cachinho na boca havia sido criada por Walt Disney. O símbolo da FEB, assim, foi uma releitura dessa gravura.

Do primeiro escalão de brasileiros e brasileiras que desembarcaram em Nápoles em julho de 1944, e dos outros que vieram nos meses seguintes, muitos foram compostos por civis recrutados apressadamente, com pouco preparo para o combate e completamente alheios ao que lhes esperava em solo europeu. Foram diversos os relatos sobre as experiências tidas na Itália. Algumas dessas narrativas de guerra exibem uma postura cética e crítica sobre a forma pela qual os brasileiros foram encaminhados à luta, sobre sua condução e sobre o processo de volta e retomada das atividades civis por parte da maioria dos expedicionários. Elas diferem, significativamente, da maioria dos relatos e memórias publicados no país desde o fim da Segunda Guerra Mundial, caracterizados por tons triunfais e laudatórios à FEB e, particularmente, ao Exército.

Desse modo, por muito tempo lidos e compreendidos como testemunhos inquestionáveis sobre a atuação brasileira na Itália, relatos gloriosos escritos por seus comandantes não são os únicos documentos à disposição para pesquisa. Muitas das memórias escritas por pracinhas foram publicadas décadas após o conflito e possibilitam aos pesquisadores e interessados no tema contato com depoimentos dessas experiências de combate e resistência, muito próximas às incongruências enfrentadas no front de guerra. As publicações de Leonércio Soares, “Verdades e vergonhas da Força Expedicionária Brasileira”, de 1984, e Massaki Udihara, “Um médico brasileiro no front”, de 2004, por exemplo, são leituras recomendadas para quem deseja conhecer esse tipo de escrita que narra as memórias de ex-combatentes nas regiões italianas arrasadas pela guerra.

Além das memórias de guerra, temos diversos documentos sobre a participação brasileira no front italiano. Como toda fonte histórica, esse material requer criticidade no trato com seu conteúdo e olhar atento à sua produção. De todo modo, problematizados devidamente, nos permitem interessantes viagens por vestígios desse passado. Salientamos um desses vestígios: uma revista estadunidense chamada “Em Guarda”. Entre os anos de 1942 a 1945, este mensário veiculou em suas páginas armamentos modernos, líderes militares e atualizações sobre a ofensiva nas frentes de batalha, entre elas, na Itália. Impressa em Nova York pelo Office of the Coordinator of the Inter America Affairs (OCIAA), foi distribuída na América Latina em três línguas: espanhol, francês e português. Chegou a uma tiragem próxima a 660 mil exemplares, só no ano de 1943.

Com capas coloridas e muitas fotografias, a “Em Guarda”, em seus últimos dois anos de edição, trouxe várias reportagens sobre a FEB e sobre a libertação da Itália pelos Aliados em 1945. Criada dentro do programa de Boa Vizinhança, ela foi um dos materiais distribuídos e que estiveram voltados ao estreitamento das relações entre Estados Unidos e América Latina. Com vistas a acabar com as hostilidades existentes, decorrentes da política intervencionista dos Estados Unidos na região caribenha, essa diplomacia cultural visou, além da busca por mercados, cooptar aliados, promover um maior conhecimento sobre as Américas e afastar o nazifascismo do continente.

Para os interessados no tema e que buscam se aventurar nessas narrativas sobre a Segunda Guerra Mundial, compartilhamos duas imagens tiradas desse periódico: a primeira mostra soldados ingleses entregando farinha de trigo a moradores da cidade de Palazzola, na Sicília (s/d). O fotógrafo (não consta autoria da imagem) foca na expressão de alegria da população, que se amontoa sobre os Aliados para pegar o alimento. Aliás, esse fato é muito enfatizado nas reportagens que acompanham as imagens: a fome nessas cidades recém-libertas.

A última fotografia, e que encerrará este breve artigo, mostra meninos italianos saudando um destacamento das tropas brasileiras em um de seus bem sucedidos avanços sob a Itália. Os correspondentes do OCIAA, Alan Fischer e Frank Norrall, que acompanharam a FEB em suas operações, descreveram o sucesso da campanha e a destreza dos combatentes brasileiros. Embora seja uma descrição voltada a mostrar uma FEB bem treinada e integrada aos objetivos de combate do V Exército, comparada às memórias de alguns desses mesmos combatentes, percebemos as contradições e exageros presentes na narrativa. De qualquer maneira, a Força Expedicionária Brasileira, desmobilizada antes mesmo de retornar ao Brasil, teve um peso crucial nos rumos políticos de seu tempo. Nossos pracinhas são heróis e suas memórias relatam seus desejos por lucidez em cenários permeados pela brutalidade injustificada.  


Referências bibliográficas:

FERRAZ, Francisco Cesar. Os Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

MAXIMIANO, César Campiani. Barbudos, sujos e fatigados: soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Grua, 2010.

OLIVEIRA, Dennison de. Os Soldados Alemães de Vargas. Curitiba: Juruá Editora, 2008.

TOTA, Antonio Pedro. O Imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na Segunda Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


Aline Locastre

Professora Adjunta do curso de História da UEMS. Possui graduação e mestrado em História pela UEL e Doutorado em História pela UFPR. Concentra suas pesquisas sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, propaganda política, mídias e opinião pública no século XX. É autora do livro “Seduções Impressas: a veiculação do paradigma estadunidense no Brasil em tempos de Segunda Guerra Mundial”.


Casu Marzu: E aí, vai encarar?

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2021 – Ana Carolina Moreira | Casu Marzu: E aí, vai encarar?


Aposto que vocês nunca ouviram falar de um queijo proveniente de larvas vivas. É isso mesmo! Seu nome é Casu Marzu, que significa “queijo podre”, um queijo produzido na região da Sardenha, na Itália, onde popularmente o chamam de Casu Gumpagadu, “queijo de verme”, e Casu Becciu, “queijo velho”. Sua fabricação pode ser proveniente do leite de cabra ou bovino, mas o diferencial desse produto está na sua maturação, que tem a atuação de larvas de moscas.

O clima quente tem grande importância na sua produção, pois o aumento da temperatura favorece o aparecimento de moscas do queijo. Na Itália, o ciclo de vida das moscas se inicia no final de maio, com a primavera italiana e tem seu fim no outono, em outubro. Esses insetos se aproveitam da presença de estufamento precoce e das rachaduras na crosta do queijo para depositarem seus ovos. Existem relatos de que seu sabor é inigualável. É um queijo diferente que vai além da fermentação, chegando a um processo de quase decomposição.

Pode ser encontrado nas mais diversas formas em cidadezinhas interioranas na Sardenha. Cada região tem suas características peculiares, alguns mais adocicados, florais ou muito salgados, com sabor forte, picante, podendo agradar o paladar de várias pessoas. A presença das larvas causa nojo à primeira olhada, mas elas são fundamentais para dar a esse tipo de queijo o sabor e a consistência macia pela ação mecânica e enzimática. Essa textura cremosa também traz outros nomes pelos quais ele é chamado, como Muuidu Hasu “queijo de pasta mole”, e Casu Modde, “queijo mole”.

Vocês devem estar se perguntando: mas esse queijo é seguro para o consumo? Ele tem sido consumido nessa região da Itália há séculos, porém, para a saúde pública e  a segurança dos alimentos da União Europeia, o Casu Marzu é considerado um transmissor de doenças. Diante disso, suas fabricações para venda foram proibidas e, por isso, hoje há poucas pessoas que sabem como fazer o produto, existindo apenas a produção para consumo próprio ou em atrações como casamentos e outras ocasiões especiais, servindo de acompanhamento para o vinho tinto, tornando a festa ainda mais completa.

Os produtores locais afirmam que a larva não continua a viver dentro de quem consome o queijo. Desse modo, existe um grande interesse para que seja declarado um alimento tradicional da União Europeia, a fim de que possa ser fabricado e comercializado sem problemas. Há boatos de que há venda ilegal — talvez vocês possam encontrar e, quem sabe, experimentar essa iguaria. Segundo a cultura da Sardenha, os queijos são perfeitos com fatias de melão e torradas com azeite. E aí, vai encarar?


Referências bibliográficas:

CLICKPB. Casu Marzu: o queijo mais perigoso do mundo é italiano, da região da Sardenha. 2020. Milk Point. Disponível em: https://www.milkpoint.com.br/noticias-e-mercado/giro-noticias/casu-marzu-o-queijo-mais-perigoso-do-mundo-e-italiano-da-regiao-da-sardenha-221395/. Acesso em: 02 jun. 2021.

HYPENESS. Curiosidades: prepare o estômago, pois esse tipo raro de queijo é infestado por larvas vivas. 2019. Milk Point. Disponível em: https://www.milkpoint.com.br/noticias-e-mercado/giro-noticias/curiosidades-credo-que-delicia-este-tipo-raro-de-queijo-e-infestado-por-larvas-vivas-212074/. Acesso em: 02 jun. 2021.

CASTRO, Mariana Tôrres de. Casu Marzu, um queijo nada seguro. 2019. Food Safety Brazil. Disponível em: https://foodsafetybrazil.org/casu-marzu-um-queijo-nada-seguro/. Acesso em: 02 jun. 2021.

MENESES, U. T. B. de. A História, cativa da memória? Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/70497. Acesso em: 21 Junho de 2021.

NAVARRO, Virginia. Por que ensinar arquitetura para as crianças? Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/895416/por-que-ensinar-arquitetura-para-as-criancas. Acesso em: 25 Junho de 2021.


Ana Carolina Moreira

Técnica em Leite e derivados pela instituição IF Sudeste. Graduada em Nutrição pela instituição Unipac. Especialista em Gestão da Segurança de Alimentos pela instituição Senac. Especialista em Engenharia de Alimentos pela instituição Unyleya. Atualmente mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Leite e Derivados da instituição UFJF.


Arquitetura, educação patrimonial para crianças e a ideia de um Manual lúdico para exploração de edifícios históricos: a Casa D’Italia

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2021 – Thais Filgueiras | Arquitetura, educação patrimonial para crianças e a ideia de um Manual Lúdico para Exploração de Edifícios Históricos: A Casa D’Italia


“A Arquitetura existe para permitir outras coisas, e fica enriquecida por uma ligação íntima com essas coisas.”

PAUL GOLDBERG 

As construções têm a importante função de abrigo necessário para nossa sobrevivência, porém a importância da arquitetura ultrapassa essa esfera prática. A arquitetura nos envolve e está presente em nosso cotidiano, exercendo efeitos sobre nossas vidas individuais e coletivas. As edificações e a forma como configuram o espaço urbano com o qual se relacionam e ao qual transformam representam ideais sociais comunitários, as culturas que as constituem e também suas afirmações políticas, refletindo quem somos e o que queremos construir como sociedade (GOLDBERGER, 2011). O papel do ambiente construído está profundamente entrelaçado à criação de um senso de lugar e de nossas memórias, afetando diretamente nossa qualidade de vida individual e social e dotando-a de significados. Por isso, o ensino de arquitetura e urbanismo não deve de maneira alguma permanecer restrito às salas de aulas universitárias, sob pena do comprometimento da capacidade de construção de nossas identidades e das relações de pertencimento que devem ser experienciadas para que possamos perceber nossas realidades e afirmá-las ou transformá-las, na busca por um futuro melhor para todos. 

Com a maioria da população brasileira vivendo em cidades e com uma realidade sócio-econômica que demonstra desigualdades abissais, é necessário que as pessoas sejam capazes de desenvolver um pensamento crítico acerca desse ambiente construído. Ao conhecer a lógica construtiva e seu patrimônio, serão capazes de participar de forma ativa e responsável dos muitos debates que surgem na dinâmica da vida nas cidades. O período da infância é quando o impulso construtor está em seu auge e parece ser o momento mais adequado para que sejam introduzidos assuntos relativos ao meio no qual passamos grande parte de nossa vida social e particular.

A educação em arquitetura para o público infantil, dentro do currículo de ensino nacional, já foi abordada em muitos países europeus com êxito. No Brasil, as iniciativas ainda são incipientes, mas já podemos identificar algumas obras pioneiras que apontam para esse caminho, como a Série Casacadabra, produzida pela Editora Pistache, que traz, em seus dois volumes já lançados, informações e atividades lúdicas para que os pequenos possam fazer uma “leitura” das cidades através de seus elementos e vivenciá-la como local de encontro, aprendizado e construção de memórias. Acredita-se que esse processo participativo, de interação dinâmica com o ambiente construído, incutido desde a infância, seja capaz de proporcionar uma melhor percepção e maior riqueza nas formas de interação com o espaço urbano e seus edifícios, criando pessoas capazes de perceber de forma mais sensível a cidade e seus códigos, conscientes de que fazem parte da criação desse espaço físico e social e precisam participar de forma ativa na sua concepção e preservação.

A construção de uma identidade pessoal e social fomentada desde os primeiros anos de vida, pautada no respeito e na valorização da diversidade de indivíduos e grupos em relação a suas pertenças e opções, busca auxiliar a compreensão do conceito de evolução social através da contribuição de formas arquitetônicas e espacialidades urbanas, além de trazer à luz a ideia de que a salvaguarda do patrimônio deve ser inerente a todos nós, através da participação ativa na vida cívica. Ao valorizar projetos de educação patrimonial, estaremos estimulando educadores a trabalhar de forma prática e lúdica tais conceitos, possibilitando que o conhecimento seja disseminado de maneira divertida através de jogos e descobertas, estimulando desde a infância o apreço pela identificação e pela experimentação de elementos espaciais, arquitetônicos e decorativos, ensinando a enxergar a cidade e as edificações de maneira mais crítica e perspicaz.

O patrimônio cultural

A ideia do que pode ser considerado patrimônio cultural se mostra muitas vezes contraditória em virtude das diferentes escolas de pensamento que estão presentes na sua construção como conceito. No entanto, é indispensável para que possamos apreciar qual é seu papel na constituição de uma sociedade mais desenvolvida, pautada pela qualidade de vida de todos. Como acredita o professor António Lamas, da Universidade de Lisboa, “Só se pode proteger e valorizar o que se conhece e reconhece ter importância”.

O patrimônio cultural é um bem da comunidade e para a comunidade, uma herança que devemos reconhecer e da qual devemos participar para que seja possível conceber nosso futuro de maneira ativa. O acervo cultural de uma comunidade pode ser classificado em diversas categorias que perpassam os bens materiais e bens imateriais, entendendo que nossas vidas são feitas de memórias e simbologias. No presente caso, nos interessa a ênfase no conceito de patrimônio material, para que possamos reconhecer a importância que uma edificação construída pode agregar ao representar fisicamente valores e significados da vida de uma comunidade. Os bens construídos que possuem um valor representativo que extrapola a construção em si, de maneira isolada ou conjunta, são aqui denominados “Patrimônios Construídos” e podem constituir parte da história de uma região, país ou mesmo mundial. Essa classificação permite que a história e nossa cultura sejam preservadas. 

Bens que recebem essa classificação contam com instrumentos legais próprios de proteção, sendo o tombamento uma das possíveis ações utilizadas para que possam ser preservados, impedindo que venham a ser demolidos, destruídos ou mutilados. Através desse instrumento, ao qual está subordinado o Edifício da Casa D’Itália, os proprietários passam a compartilhar com o órgão público a gestão sobre seu imóvel. Preservar o local e sua memória é uma forma de reapropriar nossa cidade como espaço político e social, local onde podemos exercer nossa cidadania e resgatar nossos sonhos e vivências coletivas. Muitas vezes nossas memórias encontram-se guardadas nas paredes e formas de um edifício construído, constituindo assim um vínculo entre o subjetivo e o objetivo que as atividades de educação patrimonial esperam despertar.

Educação patrimonial na infância e a Casa D’Itália

A proposição de um processo educativo que tem como objetivo a vivência e a experimentação relativas a alguma forma de patrimônio cultural, buscando seu reconhecimento, valorização e preservação, pode ser considerada como forma de educação patrimonial.

Ao se pensar em um projeto de educação patrimonial, em primeiro lugar precisamos conhecer a realidade sociocultural do grupo para o qual esse projeto será direcionado, a fim de torná-lo significativo e capaz de despertar o processo de conhecimento, apropriação e valorização da herança cultural, através do contato direto com esse patrimônio e as experimentações possíveis. Assim, é importante que o local a ser explorado seja próximo da comunidade e suficientemente específico para permitir atividades interessantes e atrativas que se relacionem de maneira direta com o objeto de estudo.

Através da utilização desse importante instrumento, busca-se “alfabetizar” o indivíduo para que ele possa de fato ler e apreender sua cultura, de forma a compreender seu contexto em termos históricos, culturais e sociais e estar habilitado a interagir de modo que possa realizar as transformações necessárias para uma melhor convivência entre os indivíduos e seu meio-ambiente.

O processo de apropriação e (re)elaboração de conteúdos culturais se inicia no período da infância. Possibilitar a crianças vivências e diálogos com a cidade, através de atividades que abrangem a ludicidade necessária para despertar interesse e curiosidade pelo meio que habitam, pode contribuir de maneira positiva nesse processo de construção do conhecimento, ampliando relações de afeto, cuidado e responsabilidade, terminando assim por gerar o sentimento de pertencimento necessário para que se tornem, no futuro, engajados na construção desses ambientes.

Juiz de Fora conta com um rico acervo arquitetônico, com muitos edifícios de caráter histórico que devem ser reconhecidos e ressignificados por nossa população atual. Ao propor o trabalho de exploração lúdica de edifícios da cidade, sugerimos como primeiro modelo o Edifício da Casa D’Itália, pela facilidade de acesso, visto que está localizado na área central; por sua arquitetura histórica e representativa para a cidade, perpassando por momentos históricos importantes desde sua inauguração em 1939; e, principalmente, por sua forte ligação com questões educacionais e de instrução, visto que, em sua concepção, o edifício foi construído para abrigar, entre outras funções, um centro de instrução, biblioteca e escola. Além disso, é importante notar que ainda hoje a edificação representa a força de uma cultura e busca promover o estreitamento de laços com a comunidade local, contribuindo de forma bastante ativa para o fortalecimento do cenário cultural, instrutivo e educacional de nossa cidade, através de ações implementadas pelo atuante Departamento de Cultura implementado em 2015.

Por se tratar de um interessante exemplar arquitetônico no estilo Littorio, de características imponentes, erguido em composição bastante simétrica e geométrica, por vezes se assemelhando ao estilo Art Déco na marcação de linhas retas verticais e horizontais, permite que sejam trabalhadas as geometrias e escalas de maneira simples e apreensível para crianças. A observação de elementos construtivos — como as proporções de vão de aberturas de janelas, as alturas de pé-direito e suas relações com um maior ou menor conforto térmico do edifício, a identificação de símbolos culturais nos elementos decorativos, a associação dos materiais utilizados e a tecnologia em desenvolvimento no momento de sua edificação — traz mais uma dimensão ao aprendizado, ligada à sua condição histórica. Por fim, as novas apropriações de uso do local, ajustadas à realidade atual, diferentes do momento de sua concepção, que se deu durante um período de ascensão do regime fascista no exterior, tornam-no um objeto que representa de maneira simultânea períodos de dor, mas também momentos de virtude e força de uma comunidade em sua luta. Sua significação, ainda que em certos momentos controversa em termos de memória, encontra-se constantemente repensada e redefinida, aplicando-se assim o que Meneses (1992) expõe como conceito de memória mutável, ou seja, como algo a ser elaborado no presente para responder a demandas da sociedade atual, e não apenas um acúmulo de informações que toma lugar no passado e permanece imutável.

Contribuindo para gerar reflexões sobre os caminhos de nossa sociedade, a promoção de atividades de educação patrimonial relacionadas à arquitetura e ao urbanismo pode ser vista como um modo de se criar instrumento capaz de proporcionar a diminuição da grande lacuna existente entre a sociedade e os debates sobre o urbano e o reconhecimento sobre o que é, ou pode ser, o espaço da cidade. Ao começarmos pelas crianças, podemos imaginar que a semente plantada no início da formação do indivíduo como ser social possa gerar olhares mais críticos e apurados para essa construção. 


Referências bibliográficas:

ENCINAS, Javier. Formación en Arquitectura desde la educación reglada: algunas líneas para el debate. Disponível em: https://arquitecturayeducacion.wordpress.com/2016/01/13/formacion-en-arquitectura-educacion-reglada/. Acesso em 22 junho de 2021.

GOLDBERGERGER, Paul. A relevância da arquitetura. (tradução Roberto Grey). São Paulo: BEI Comunicação, 2011.

GRUNBERG,  Evelina. Manual de Atividades Práticas de Educação Patrimonial. Brasília, DF:  IPHAN, 2007.

MENESES, U. T. B. de. A História, cativa da memória? Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/70497. Acesso em: 21 Junho de 2021.

NAVARRO, Virginia. Por que ensinar arquitetura para as crianças? Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/895416/por-que-ensinar-arquitetura-para-as-criancas. Acesso em: 25 Junho de 2021.


Thais Filgueiras

Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora e Especialização em Gestão Cultural. Atualmente é arquiteta sócia e coordenadora no Escritório Falabella Arquitetura. Possui interesse nas relações entre arquitetura, cultura e sociedade.


As contribuições da Escola Italiana para os estudos morfológicos urbanos

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2021 – Karla Rodrigues Cavallari | As contribuições da Escola Italiana para os estudos morfológicos urbanos


O ato de investigação da forma nas cidades italianas tornou-se uma atividade decisiva desde o final da Segunda Guerra, quando a arquitetura estava sofrendo um grande impacto histórico, principalmente sobre os edifícios e monumentos destruídos pelos bombardeios ou os que sofriam modificações grotescas devido à retomada da civilidade urbana. As metodologias e ferramentas assumem um papel primordial no projeto arquitetônico, algumas com mais ênfase nos edifícios e outras buscando na forma urbana um campo de experiências no desejo de trazer a questão urbana de volta ao domínio da arquitetura: fazer a ponte entre a arquitetura e o urbanismo como disciplinas[1].

Saverio Muratori (1910-1973) foi um dos grandes nomes da metodologia, no âmbito da Università di Architettura di Venezia (IUAV). Arquiteto histórico e docente na universidade durante os anos de 1950 e 1955, conduziu uma pesquisa em aberto contraste com a cultura contemporânea, denunciando erros e equívocos nos vários setores, resultado de sua inquietação como profissional e docente. Seu método de ensino, pode-se dizer, transcendia os limites técnicos e científicos, porque tinha como objetivo atingir valores morais e sociais ainda não alcançados por seus colegas e menos ainda difundidos no campo acadêmico. De acordo com Muratori, ao longo da primeira metade do século XX, o planejamento urbano e a teoria de desenho urbano foram deixando de ser instrumentos culturais enraizados na história. Através de inspeções realizadas durante os diversos anos de docência, juntamente com os alunos, pode-se dizer ter construído um critério que deu às pesquisas uma certa coerência percebida em seu livro, “Studi per una operante storia urbana di Venezia”, que se constitui de uma análise que individua os diferentes tecidos em nível de “Parocchia” e suas respectivas características morfológicas de tecido, tipo e organismo. Ao mesmo tempo que lecionava, participou de concursos arquitetônicos e realizou importantes projetos em Roma, como o edifício do Partido Democrata Cristão e a incompleta igreja do quartiere Tuscolano; em Bolonha, com o edifício de escritórios da Ente Nazionale di Previdenza ed Assicurazione Sociale; e em Pisa, com a Igreja de S. Giovanni al Gatano, sempre preocupando-se em explorar técnicas modernas e soluções complexas com respeito às preexistências ambientais. Foram também temas de seus projetos o planejamento urbano na composição de praças italianas e complexos de edifícios habitacionais, envolvendo-se profundamente nos planos de habitação do Instituto Nazionale delle Assicurazioni (INA), lançados em 1948 e implementados em todas as grandes cidades italianas.

Em 1954, Muratori iniciou seu trabalho na Faculdade de Arquitetura de Roma, com a disciplina de Composição Arquitetônica. Tendo como base os estudos já realizados em Veneza, tinha como objetivo a renovação do ensino na Università di Roma em uma construção coletiva da descrição e estudos dos diferentes tecidos na capital italiana. Os temas propostos tinham em vista a compreensão dos diferentes valores inerentes às diferentes fases de formação urbana, incluindo as influências e as implicações dos novos projetos sobre os edifícios existentes, quer no centro histórico das cidades, onde o tecido é compacto, quer nos subúrbios, onde os territórios eram suscetíveis de acomodar um vasto leque de soluções. Desses trabalhos e de um esforço coletivo formado por uma equipe que incluía Bollati e Marinucci, Muratori publicou o notável atlas “Studi per una operante storia urbana di Roma”, concluído em 1963.

Em seu percurso profissional, de ensino e de pesquisa, diversos estudantes tornaram-se assistentes, amigos e disseminadores de seus trabalhos, como Paolo Maretto, Guido Marinucci, Paolo Vaccaro, Giancarlo Cataldi e outros.

Gianfranco Caniggia (1933-1987), um grande estudioso dos estudos de Muratori, continuou os ensinamentos e publicações, com uma leitura que pode ser chamada de leitura processo serial, que toma como elementos de análise as etapas de construção e modificação do solo urbano. Gianfranco Cannigia foi arquiteto e docente do curso de “Composizione Architettonica” na “Facoltà di Architettura di Firenze” e publicou obras essenciais ao entendimento das ideias de seu mestre. A série de livros intitulados como “Lettura dell’edilizia di base”, “Lettura della tipologia specialistica”, “Il Progetto nella edilizia di base” e “Il Progetto nella edilizia specialistica” procura simplificar seu sistema teórico, sublinhando os aspectos operativos de modo mais direto.

A leitura em modo escalonar pode-se dizer a base e a essência da Escola de Morfologia Urbana Italiana, convencionada em quatro escalas, sendo elas a escala arquitetônica, a edilícia, a urbana e a territorial, consideradas como inseparáveis e dependentes entre si quando se trata da investigação tipológica. A análise, quando feita não compreendendo todas as escalas, pode se dizer equivocada no que se refere aos parâmetros italianos, uma vez que cada elemento é considerado como essencial no entendimento dos processos de construção e transformação do território. 

[1] MENGHINI, 2002, pg.7


Karla Rodrigues Cavallari

Possui Mestrado em Pianificazione e Politiche per la Città, Territorio e l’ambiente pela Università IUAV di Venezia (2020) e graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2018), com graduação sanduíche na Facoltà di Architettura na Università Sapienza di Roma (2015/2016). Colabora com o Studio ETB com sede em Treviso/IT e Sevilha/ES no âmbito da pesquisa na temática da Morfologia Urbana, com o architetto Alessandro Tessari. É atualmente urbanista na Secretaria de Planejamento Urbano de Juiz de Fora. 


A presença do conde de Cavour em Minas Gerais

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2021 – Rafael de Souza Bertante | A presença do conde de Cavour em Minas Gerais


Na edição número 2 da Revista Casa D’Italia, falamos sobre a chegada dos imigrantes italianos até Juiz de Fora. Após a permanência na cidade, aos poucos, essas pessoas foram se estabelecendo, firmando lastros e criando oportunidades de trabalho. Apesar da nova realidade, os imigrantes não abandonaram a terra natal por completo. Suas lembranças e costumes eram constantemente rememorados no núcleo familiar, assim como nas associações de caráter étnico. Sim, nas cidades onde havia um contingente significativo de imigrantes italianos, era comum ver associações italianas, que praticavam a ajuda mútua e conservavam os hábitos e as memórias da Itália. Neste texto, vamos falar destes meios, dando destaque para um grupo específico, a Unione Italiana Benso di Cavour, que, além de sua singularidade em Minas Gerais, exaltava o nome de um dos principais personagens da unificação italiana.

O Brasil testemunhou, a partir das últimas décadas do século XIX, a presença de um número significativo de imigrantes italianos. Muitos deles deixaram o país de origem devido à escassez de emprego, as transformações causadas pela recém-unificação e pela esperança de prosperar em novos horizontes. O primeiro momento após o desembarque não foi fácil. Essas pessoas precisavam se adaptar a outro idioma, clima e tradição. Além disso, precisavam se preocupar em conseguir um emprego ou mesmo em arrecadar meios de iniciar um negócio.

Apesar das adversidades, nota-se que, por diversas vezes, o contexto de transformação vivido por esses italianos foi sendo superado através da construção de formas de sociabilidade, muitas vezes traduzidas na criação de associações. Ressaltamos que a formação de associações não era uma prática exclusiva dos italianos, mas, sem sombra de dúvidas, as deles se destacaram, nem que seja pela quantidade existente nas cidades. Para se ter uma ideia, das 16 associações com caráter étnico em Juiz de Fora, registradas entre 1876 e 1920, dez eram de procedência italiana (VISCARDI, 1995).

E quais eram as finalidades dessas associações? Normalmente, as formações desses grupos proporcionavam um espaço para a prática da filantropia, da ajuda mútua, de esportes, do ensino da língua italiana, compartilhamentos de saberes, entre outros. Algo em comum entre elas era a preocupação em preservar a memória e manter viva a cultura italiana. O associativismo entre essas pessoas criava, ainda, redes de sociabilidade tanto internamente, quanto com a própria população local (TRENTO, 1989).

Junto a esse mosaico de associações, podemos mencionar a Maçonaria. Organizada, segundo os preceitos modernos, em 1717, na Grande Loja de Londres, na Inglaterra, a Maçonaria logo se difundiu pela Europa e pelo restante do mundo. Na Península Itálica, encontramos relatos sobre a presença maçônica ainda no século XVIII. Devido à edificação de ambientes secretos, os maçons encontravam, no interior de suas lojas, um local propício para a discussão e aprendizado de novas ideias, além, é claro, de prezar pela fraternidade entre si.

Avançando para o século XIX, com a expansão do movimento migratório dos italianos, notamos a formação de novas lojas maçônicas de caráter étnico, sobretudo nos locais com maior contingente de imigrantes italianos, onde era possível ver lojas que apenas permitiam a participação de obreiros italianos. No Brasil, houve registros de casos assim em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Minas Gerais, que também se encontrava entre os estados que receberam um número significativo de imigrantes italianos, chegou a sediar um grupo desses, mais precisamente na cidade de Juiz de Fora, no princípio do século XX. A loja, cujo nome escolhido foi Unione Italiana Benso di Cavour, era, até pelo menos meados da década de 1920, a única com tais características no estado (TRENTO, 1989).

Essa loja, a Unione Italiana Benso di Cavour, foi fundada oficialmente no dia 15 de julho de 1902, momento em que tantos outros grupos étnicos eram fundados na cidade, porém com a singularidade de reunir, em um mesmo espaço, apenas maçons italianos. A concepção da loja se deu a partir de 22 homens, antes maçons pertencentes às lojas “Fidelidade Mineira” e “Caridade e Firmeza”, as duas mais antigas da cidade.

Logo nos chamou a atenção a presença do nome do conde Camillo Benso di Cavour em uma instituição maçônica na cidade de Juiz de Fora. Primeiramente, porque a utilização do nome desse personagem da Unificação Italiana não parece ter sido muito recorrente no Brasil. Por aqui, observamos com maior recorrência o nome de Giuseppe Garibaldi, outro personagem importante na Unificação Italiana, que inclusive passou pela Região Sul do país. Depois, observa-se que as lojas, recorrentemente, utilizavam nomes de maçons como patronos. E o conde de Cavour, apesar da especulação, não deixou registros concretos de ter pertencido à Maçonaria. Dessa forma, nos cabe analisar quem foi Camillo Benso di Cavour?

Camillo Benso foi um grande financista, industrial e político. Era o segundo filho do marquês Michele Benso e de Adèle de Sellon. Em sua juventude, foi oficial do exército, mas logo abandonou a carreira em busca de novos planos. Viajou pela Europa durante quatro anos, teve a oportunidade de estudar na Grã-Bretanha, na França e na Suíça. Retornou ao Piemonte-Sardenha no ano de 1830, quando se ocupou de conhecer a área da agricultura e da difusão de escolas. A partir de 1850, chegou a ocupar cargos públicos como o de ministro da Agricultura, do Comércio e da Marinha.

Desempenhou um importante papel no processo de unificação da Itália, movimento conhecido como Il Risorgimento. Seu projeto tinha como meta a unificação do país sob a liderança monárquica da família Savoia. Para colocá-lo em prática, Cavour administrou suas novas e antigas forças políticas. Soube lidar com cuidado para separar a unidade nacional e a influência popular. Sua habilidade diplomática foi distinta nesse processo. Ele conseguiu manter o consentimento das potências europeias e a fidelidade de Garibaldi, que ajudou a proclamação do Reino da Itália no dia 17 de março de 1861. Naquele momento, Camillo se tornou o primeiro-ministro da Itália. Nesse episódio, a nação italiana se estabeleceu, de modo oficial, com a capital em Florença e Vitor Emanuel II como rei. Mas o processo se concretizou por completo em 1870, quando os italianos conseguiram tomar os Estados Papais, tornando, assim, Roma a capital da Itália.

Com esse resumo biográfico, podemos perceber que Camillo Benso desempenhou um papel importante na história da Itália. Em Juiz de Fora, no momento da virada do século XIX para o XX, seu nome foi citado inúmeras vezes no jornal local O Pharol. Provavelmente a pedido dos imigrantes, o conde era enaltecido pelos seus feitos, pelo seu poder de articulação e pela concretização da unificação. Logo, seria possível que a população juiz-forana, que viu a fundação da Unione Italiana Benso di Cavour, reconhecesse a homenagem feita a esse conde.

Contudo, o tempo passou e seu nome foi caindo no esquecimento. Já por volta de 1920, quando a imigração italiana diminuiu consideravelmente seu fluxo para a cidade, não se lia mais sobre Camillo nos jornais. Em 1925, a loja maçônica acabou abandonando a obrigatoriedade da composição por italianos. Então, descendentes de italianos e pessoas de outras nacionalidades passaram a integrar a loja, que se faz de pé até os dias de hoje.

Assim, conhecendo a trajetória do conde de Cavour na Itália e lendo sobre suas representações, podemos compreender melhor o motivo da escolha do seu nome para a loja maçônica. Certamente, era distinto ter como patrono uma figura que ajudou a concretizar a Unificação Italiana. Desse modo, a loja Unione Italiana Benso di Cavour se distinguiu das demais associações italianas da época devido a seu caráter exclusivo de maçons italianos e pelo nome que carregava em seu título. 


Referências bibliográficas:

BERTANTE, Rafael de Souza. Um olhar sobre a sociabilidade italiana em Juiz de Fora: italianos maçons e a “Unione Italiana Benso di Cavour”. Dissertação (Mestrado em História). UFJF, Juiz de Fora, 2017.

______. Lavoratori italiani e sua chegada em Juiz de Fora. In: Revista Casa d’Italia, N.02, Juiz de Fora, 2020.

SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. Organização, Preceito e Elementos da Cultura Maçônica: Fundamentos para a introdução aos estudos da Maçonaria. In: SILVA, Michel (Org.). Maçonaria no Brasil: História, política e sociabilidade. Jundiaí: Paco Editorial, 2015, p.38.

TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil. São Paulo: Nobel, 1989.

VISCARDI, Cláudia M. R. Mutualismo e Filantropia. In: Revista Lócus, Juiz de Fora, v. 1, n. 1, 1995, 108-100.


Rafael de Souza Bertante

Graduado e mestre em História pela UFJF, com ênfase em sociabilidade e cultura italiana, atou em atividades patrimoniais no Laboratório de Patrimônios Culturais. Pós-graduado em Ciência da Religião. Cursa atualmente doutorado em Ciência da Religião pela UFJF e atua com pesquisa em arquivos.