Impressões de memória e dos livros: por que e como ainda ler a Divina Comédia?

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 15, 2021 – Daniel Giotti | Impressões de memória e dos livros: por que e como ainda ler a Divina Comédia?


Aprendi, durante o ensino médio, que a ideia de amor platônico teria sua melhor forma delineada na relação de Dante Alighieri com sua Beatriz, transportada para o “eu lírico” do poeta em A Divina Comédia que relega à provável Beatrice Portinari, já falecida quando escreveu a obra, a função de o conduzir em sua viagem pelo Paraíso.

Caindo no clichê de que a arte imita a vida e como, durante toda sua existência, relata-se que Dante nunca conseguiu de fato se unir à Beatriz, coube a ele colocá-la no Paraíso, em substituição a Virgílio, seu guia no Inferno e no Purgatório, que, por não ser cristão, não poderia ter a graça que coube à musa do escritor florentino nesse mundo sagrado da geografia cristã.

Tempos depois, sobretudo a partir de René Guénon, um “intelectual esotérico” francês, fui compreender que uma leitura possível sobre Beatriz é a de associá-la à Sabedoria, o que não desborda dos que nela veem a representação da fé e, em Virgílio, a da razão.

René está entre os autores extremistas sobre as influências de Dante, como afirma Umberto Eco, pois parte de leituras fantasiosas e sem apuro metodológico, mas tomo essa leitura como plausível e compatível com o ideário do medievo.

Aprendi, na mesma época de escola, que algo da unificação da Itália se deve a Dante, pois, embora quando escreveu a obra, nos trezentos, aquele amontoado de cidades-Estados estivesse longe de ser sequer arremedo de nação, foi ele o pai da língua italiana, tão popular que foi o êxito que conquistou com sua A Divina Comédia, vertida no dialeto toscano, florentino mais especificamente.

Tempos depois descobri que Dante foi banido de Florença, tendo escrito Il convívio, De Monarchia e Divina Commedia no exílio. Somente em 2008 seu banimento foi revogado.

Aprendi, ao longo do tempo, que a concepção comum de que os herdeiros da sociedade judaico-cristã temos de inferno não advém da Bíblia, mas do imaginário criado sobre o “Livro dos Livros”, incrementado indubitavelmente pelas descrições dos nove círculos do inferno de Dante, que, verdade seja dita, consolidou impressões gregas e romanas sobre o tema, que pululavam na Idade Média.

São imagens dantescas que povoam a mente, na associação mais comum ao Inferno, e Dante bem poderia ser o roteirista do desenho Caverna do dragão, do jogo eletrônico God of war e do clipe da música Rattle that lock, de David Gilmour.

Não se deve esquecer de que a figura do Diabo em A Divina Comédia é de um ser monstruoso, com três cabeças, cada qual mastigando alguns tipos de pecadores, estando preso a sua terra, o Inferno, e não vagando livre em meio à humanidade.

Difere-se, assim, de como o vê considerável parcela do senso comum que ainda acredita no “coisa ruim”, no “belzebu”, no “sete peles”, ora erigido a uma figura humana feiosa, verossímil com a do anjo-caído das Escrituras, ora exposto como um sedutor inveterado que vai ludibriando suas presas como nos filmes Encontro marcado e O advogado do diabo.

Não há só labaredas também no inferno de Dante, como se vê no canto XXXIII, quando se chega a um local tão frio, a Ptolomeia, no terceiro giro do nono círculo, em que até as lágrimas viram gelo. 

Creio que sejam algumas dessas informações sobre Dante Alighieri e A Divina Comédia que você, leitora ou leitor, compartilha comigo, não tendo se lançado à difícil tarefa de ler essa obra em sua inteireza.

Nestes tempos em que 140 ou 280 caracteres parecem muito ante à imperiosidade de um vídeo em Tik-tok, quem vai ter paciência de ler um longo poema épico de centenas e centenas de páginas?

Se a ocasião dos 700 anos de sua morte não der aquele gás necessário para ler a obra toda, com tantas alegorias e referências em camadas sobrepostas de conhecimento, proponho-lhe ler A divina comédia pela leitura de outro autor.

Refiro-me a Jorge Luis Borges, que no preâmbulo de seu Nove Ensaios Dantescos, livro fruto de uma série de palestras por ele proferidas, indica que em A Divina Comédia não há palavra injustificada, traço da escrita compartilhado pelo escritor argentino, um exímio artesão na construção de imagens em verso e prosa.

Na verdade, para aqueles que não podem ler A Divina Comédia no original, cabe-nos confiar em Borges, pois como se diz em bom italiano: “traduttore, tradittore”.

Também diz Borges, em seu preâmbulo, que uma leitura possível para A Divina Comédia é que ela retrata o estágio de vício do homem pelo Inferno, depois a passagem do vício à virtude, chamada de Purgatório, e uma ideal condição de homens perfeitos, o que se teria no Paraíso. Tudo isso está em conformidade com as ideias desenvolvidas pelo filho de Dante acerca das metáforas e alegorias da narrativa.

Em “O nobre castelo do Canto Quarto”, Borges explica, na linha de ser A Divina Comédia, entre muitas coisas, o sonho de Dante, que chega à selva escura onde encontrará Virgílio com a alma ofuscada, pois essa seria a metáfora do sonho.

Nos ensaios “O falso problema de Ugolino” e “A última viagem de Ulisses”, Borges desnuda a face teológica de Dante, que, em um paradoxo insolúvel, compreende e não perdoa quem vê algum mal como inevitável. Como fica o livre arbítrio?

Ora, se em cada círculo do Inferno há um tipo de pecador, no fundo Dante afirma o livre arbítrio humano, sendo justo premiar o bem e punir o mal, colocando exemplarmente cada vício em uma escala mais reprovável.

Finalmente, Dante coloca como o maior dos pecados a traição. Traidores de parentes, do Estado e dos benfeitores merecem o pior na geografia espaço-axiológica do Inferno.

Os versos que se passam no Purgatório e no Paraíso são menos interessantes, mas Borges enfatiza o poder das metáforas de Dante no ensaio “Purgatório I, 13”. Já no ensaio “O Simurg e Águia” coloca na boca desta a inquietante questão de que não é injusto Deus punir por falta de fé pagãos que nasceram às margens do Indo e nunca ouviram falar de Deus, porque há, sim, alguns pagãos virtuosos.

Não cito todos os ensaios. “O último sorriso de Beatriz” não pode ser esquecido, porém. Nele se ressalta que a beleza de Beatriz vai aumentando à medida que ela e Dante visitam o Paraíso, referindo-se Borges à interpretação de que talvez A Divina Comédia nada mais seja que um pretexto para o autor criar um reino para sua dama.

A mulher inalcançável de repente some, e Dante mal tem forças para perguntar onde ela está, divisando-a a seguir no alto quando vê seu último sorriso.

Borges diz que Dante se aproxima de nós, pois nada de singular há em um infeliz imaginar a felicidade, o que fazemos todo dia.

Beatriz parece nunca ter sido alcançada por Dante e, na derradeira parte de sua obra, é como se o autor se apercebesse de que, terminado o poema, na crua realidade, Beatrice Portinari está morta.

Num último intertexto, impossível não se recordar que Dante se entrega às falsas felicidades, hoje tão mais disponíveis com drogas, remédios, redes sociais. Neste terreno do amor, esteve longe da beatitude, a felicidade na verdade, de que falavam Santo Agostinho e Spinoza.

Somos todos infelizes em alguma medida e, lendo André Comte-Sponville, autor de “A felicidade desesperadamente”, ao qual a escrita deste ensaio me levou, sabemos que a sabedoria aponta para o máximo de felicidade no máximo de lucidez. Aprendemos isso com Adivina comédia?

Amigos um dia brincaram que o melhor destino de um clássico é não mais ser lido. Creio que isso se deva a suas ideias principais serem tão difundidas que todos delas têm noção.

Ainda mais um clássico de 700 anos, em versos. Assim é com A Divina Comédia, que não deixa de ser, como Borges liricamente sentenciou, uma obra infinita, fruto de muitas leituras anteriores que influenciaram o florentino e que ainda floresce nas leituras mais que dela faremos por séculos e mais séculos.

Longa vida, A divina comédia!


Daniel Giotti    

É juiz-forano apaixonado, escritor, autor de versos e crônicas que estão nos livros “Inverso Direito” e “1981 Ficou marcado na história”. Também é jurista e professor de Direito com vários artigos e livros publicados na área. Escreveu, ainda, recentemente com Cleber Antunes o livro “Caridade e Firmeza: origem, rito e história”


ENTREVISTA: Fernando Priamo

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Departamento de Cultura | ENTREVISTA: Fernando Priamo


1 Como artista atuante em JF, como vê a importância das manifestações artísticas nesse momento de pandemia?

Como artista atuante eu vejo a importância pelo seguinte: eu acho que todo artista tem por obrigação fazer com que sua arte leve felicidade para as pessoas, eu acho que nesse momento de pandemia todos nós artistas poderíamos ter esse compromisso com a nossa cidade de levar a essas pessoas um pouquinho de da nossa arte para que essas pessoas consigam também passar por esse momento difícil com um pouco mais de leveza e a leveza somente a arte traz para a gente. As nossas manifestações artísticas são muito importantes, elas marcam o tempo e o espaço mas também marcam a vida das pessoas de uma forma positiva. Elas levam a leveza para as pessoas e se você olhar, por exemplo, a minha exposição… a minha exposição é para que as pessoas se transportem desse mundo pesado de pandemia para um mundo imaginário da arte, no meu caso a fotografia, para que aquela fotografia leve para ela um pouco mais de leveza nem que seja por alguns minutos, mas ela vai se sentir acolhida, transformada, feliz, com bem-estar. Acho que a importância de nós artistas em juiz de fora deveria ser levar essa leveza de alguma forma para aqueles que estão a nossa volta. A gente , as vezes, nós artistas, tiramos tudo o que podemos de juiz de fora mas não damos nada para juiz de fora. A gente recolhe tudo que a cidade tem e nunca dá nada em troca. Eu acho que esse é um momento oportuno para que todos os artistas repensem qual é sua participação na sociedade, o que sua arte representa na sociedade, o que você está disposto a doar para a sociedade da sua arte. Acho que isso é muito importante nesse momento.


2 Na exposição em exibição na Galeria Online da Casa D’Italia “AS MULHERES DE FLORENÇA E SUAS BICICLETAS” você expõe, através do seu olhar, o encanto e as belezas das mulheres que transitam pela cidade de Florença e seu cotidiano.  Como você acredita que pode tocar e sensibilizar as pessoas através de seus registros? 

 A minha segunda exposição, que são As Mulheres de Florença e Suas Bicicletas, representa o respeito que eu tenho pelas mulheres. Esse momento que a gente vive atualmente, o empoderamento das mulheres, a independência delas e o respeito…eu acho que a minha exposição leva e sensibiliza a todos os leitores, a todas as pessoas que a visitam. É uma reflexão da importância da mulher na sociedade e do respeito que temos que ter pelas mulheres. Eu sempre gosto de homenagear as mulheres nas minhas obras porque elas são fortes, independentes e nos ensinam muito. Então nós precisamos ter esse tipo de manifestação para que as pessoas possam se sensibilizar realmente e a gente possa levar a grandeza do feminino para o mundo. Então eu prezo muito isso e gostaria muito que as pessoas que olhassem essas fotografias não enxergassem só as fotografias em si: uma fotografia em preto em branco, bonita, bem elaborada. Eu gostaria que elas conseguissem fazer uma leitura dessa fotografia  em prol da beleza feminina e de sua independência, do respeito que devemos ter, que a sociedade deve reverenciar todas as mulheres e deve ter respeito  para com elas. É a isso que meu trabalho faz referência e se você observar, na minha carta em que faço referência as mulheres de Florença que fica junto da exposição, eu sempre toco como referência a Deusa Nic, que é uma deusa grega, a deusa da vitória, que foi uma grande inspiraçao para que eu fotografasse as mulheres de bicicleta. Se você observar as mulheres ali, elas não estão em uma mountain bike se exercitando, fazendo um exercício, elas estão como se estivessem com asas porque a bicicleta ali é uma bicicleta do cotidiano europeu, uma bicicleta que é um meio de transporte, e a bicicleta para mim tem o nome de independência. As mulheres vão e vem com total independência. Então, é como se fosse asas, asas da independência. Por isso eu faço tanta referência a Deusa da vitória, que é forte, independente e vai e vem para todos os lados com suas asas. Então eu acho que todo mundo que observar, que fizer essa leitura das minhas fotografias precisam, primeiro enxergar em todas elas respeito, respeito é a palavra de ordem.


3 Há 6 anos a Casa D’Italia de Juiz de Fora e seu Departamento de Cultura, vem desenvolvendo iniciativas em prol da cultura e suas manifestações artísticas, buscando a valorização dos artistas da cidade e região. Como se deu esta conexão entre você, sua arte e a instituição?

Minha conexão com a Casa D’Italia é de família. Eu sou de família italiana tanto de pai quanto de mãe, sou ítalo-brasileiro e me tornei cidadão italiano há pouco tempo, em 2015, e sempre na minha vida a Casa D’Italia foi uma referência de local da Itália em juiz de fora, apesar de que dentro da minha casa também era porque nós éramos de família italiana, tanto de pai quanto de mãe. Então sempre tive referências. Referências gastronomicas, referências de cultura, referências de aprendizado, referências de caráter. Tudo o que veio da Itália com os meus antepassados e isso foi me passado com muita força e são coisas que prezo muito, tanto é que minhas referências artísticas são os pintores renascentistas. Então a minha conexão com a Casa D’Italia é em relação a essa cultura italiana e todas as suas manifestações artísticas gastronômicas que por lá passam. Acho que a Casa D’Italia tem essa referência e tem mesmo que valorizar e buscar essa valorização dos artistas da cidade e da região. A Casa D’Italia é uma referência italiana em juiz de fora e ela tem por obrigação promover a arte porque o celeiro da arte mundial é a Itália, a Itália é a  base da grande arte mundial, onde nasceram os renascentistas, onde viemos com arte romana, então assim nós temos essa grande referência. Então a Casa D’Italia leva esse peso, esse peso de valorização a cultura então eu acho que ela faz muito bem em poder desenvolver e buscar essa valorização. Não só dos ítalo-brasileiros mas também da arte como uma forma geral, quando a gente pode até conciliar o italiano expondo na Casa D’Italia ou fazendo uma manifestação artística lá, a gente fica feliz porque casou muito bem. Então eu acho que está de parabéns a Casa D’Italia, tem que buscar mesmo, desenvolver essa iniciativa, tem que desenvolver mesmo, tem que aprimorar, tem que jogar isso para o mundo porque a casa D’Italia é um local que é referência cultural e não pode ser perdido.


4 Qual sua memória mais remota com a Casa D’Italia de Juiz de Fora? Qual a importância do prédio e suas associações para a cidade de Juiz de Fora na sua opinião?

Acho que nós italianos devemos enxergar a Casa D’Italia como esse marco zero e lutar por ela, lutar pela sua continuidade cultural, lutar pela sua continuidade da memória italiana, preservar essa memória italiana na Casa D’Italia e para nós, não só de Juiz de Fora como cidades vizinhas foi o primeiro local ponto de chegada dos italianos que vieram. Estou até olhando uma foto minha, bem pequeninho com meu pai, com minha mãe, e a força de nós italianos que viemos, que construímos, que demos o nosso suor pela cidade, pela economia, pela cultura, demos o nosso de melhor que temos que é a força de trabalho e intelectual para que a cidade se desenvolvesse e a casa D’Italia sempre foi essa referência para nós todos. Então eu acho que é isso aí.


5 Você acredita que a Casa D’Italia de Juiz de Fora e os artistas da cidade podem ajudar as pessoas neste momento difícil de pandemia com suas produções? De que maneira?

Eu acredito mesmo  que a Casa D’Italia e os artistas ajudam e possam ajudar nesse momento difícil da pandemia. Eu acho que uma forma é você colocar todas as manifestações, a Casa D’Italia seria o nosso veículo que vai levar a arte em conexão com as outras pessoas, acho que os artistas precisam sim mostrar sua arte para a casa D’Italia para que ela possa levar a arte para as pessoas nesse momento difícil. 


6 Um dos objetivos da Galeria Online é incentivar as pessoas a acreditarem e investirem na arte e nos artistas juiz-foranos, principalmente o público jovem. Você poderia deixar algum recado para esses jovens e para todos os leitores da Revista Casa D’Italia?

Eu acho que a galeria online tem esse poder sim, ela tem esse poder de incentivar e acho que os artistas podem acreditar nisso, nesse mundo que vivemos hoje e a galeria online se tornou o nosso melhor ponto de exposição, acho que o artista quer expor seu trabalho e nesse momento de pandemia em que as coisas começam a querer voltar a uma normalidade, que ainda não é normal, a gente precisa entender que a galeria online da Casa D’Italia ela nos dá essa oportunidade de mostrarmos a nossa arte, de levar nossa arte, e que essa arte pode estar aberta ao mundo porque uma galeria online, com a Internet, com a evolução do poder de conexão da Internet com o mundo, dessa janela, a galeria online é o veículo que te transporta para o mundo. Então eu acho que os jovens artistas juizforanos, principalmente esse público mais jovem, ele precisa se conscientizar de que sozinho também ele não vai conseguir nada. A gente precisa se unir, a arte precisa se unir, para que ela possa ser levada, e uma coisa que eu sempre gosto de falar  é que tanto a revista da casa D’Italia quanto a galeria online ou demais manifestações que a casa D’Italia faz… o importante para o artista não é aparecer, é sua obra aparecer, isso é uma coisa que eu vou deixar, que eu gostaria que todos os artistas que fossem me ler ou escutar o que estou dizendo, também não é uma dica, é uma sugestão. Acho que o que tem que aparecer é sua obra, o artista ele faz a obra para que ela se torne independente e alcance o mundo. A gente só faz a obra aparecer. Entao eu acho que todos os artistas que estão começando, eu vejo muitos aí que querem aparecer mais do que suas próprias obras e acaba que não acontece nada: nem ele aparece nem a própria obra. Porque o que você precisa é criar uma obra e ter a  humildade de também deixar sua obra aparecer mais que você porque senão a gente desaparece no tempo.

Eu queria deixar aos leitores da revista Casa D’Italia o meu muito obrigado, gostaria de agradecer a todos que tiram um pouquinho do tempo para olhar minha arte, para olhar minha exposição online, eu queria agradecer a todos e dizer que me sinto muito orgulhoso em vocês tirarem um tempinho e olharem as minhas obras mesmo que não gostem delas ou que gostem, eu já me sinto orgulhoso de ter o olhar de vocês e de tentar de alguma forma levar um pouquinho de leveza para sua vida, para o seu cotidiano, e tentar inspirar outras pessoas também a terem a mesma atitude. Eu acho que esse muito obrigado ele é muito bem colocado aqui porque a minha obra foi feita para ser vista e eu tenho a oportunidade de mostrar então eu agradeço a todos, agradeço a casa D’Italia, a revista, as pessoas que trabalham no portal, a voce Paola, e eu agradeço a todos, a todos mesmo pela oportunidade e a minha obra está sempre aí para que todos possam ver, comentar e muito obrigado mesmo pela oportunidade. É um orgulho muito grande poder mostrar isso para vocês.


Fernando Priamo

Ítalo-brasileiro, nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, cursou fotografia em São Paulo, especializando-se em fotografias de moda e fine art. Em 1999 inicia sua trajetória no fotojornalismo, sendo convidado para compor a equipe do Jornal Tribuna de Minas, onde em 2016 se torna editor de Fotografia. Prestou serviços para diversas agências de publicidade, empresas das mais diversas áreas, além de prestar serviços como freelancer para vários jornais e revistas do país.


Criando imagens de si: como Juiz de Fora aparece na Exposição Internacional de Milão (1906)

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Andreia de Freitas Rodrigues | Criando imagens de si: como Juiz de Fora aparece na Exposição Internacional de Milão (1906)


Muito ainda há que se falar sobre a imigração italiana e toda  a contribuição para o desenvolvimento da nossa região. Arcuri, Bianchi, Bolpato, Brandi, Capelli, Caputo, Castellani, Ciampi, Gaudio, Falci, Favero, Ferrari, Giannola, Grandi, Grippi, Guarini, Mangia, Marcasini, Marcato, Mazzini, Padovani, Pantaleone, Peluzzo, Piazzi, Pitta, Saggioro, Scannapieco, Scarlatelli são alguns dos sobrenomes de imigrantes italianos que vieram para o Brasil, a partir do século XIX. Em Juiz de Fora, deixaram marcas na cidade, que resistem e se fazem presentes em nosso dia a dia. Mas aqui, neste texto, procuramos trazer um outro olhar. A projeção internacional da cidade, vista em uma exposição internacional realizada na Itália.

A Exposição Universal de 1906 foi uma feira de âmbito mundial que aconteceu em Milão, na Itália, entre 28 de abril a 31 de outubro daquele ano, com o nome original de L’Esposizione Internazionale del Sempione, também chamada de A Grande Exposição do Trabalho (FIGURA 01). Realizada no Parco Sempione e na Piazza d’Armi, chegou a receber cerca de 4.012.776 visitantes e cobriu uma área de 250 acres, dividida em pavilhões internacionais com mostras de artes e exibições industriais, agrícolas, científicas.

Capa do catálogo da Esposizione Internazionale del Sempione. Milão, Fratelli Treves, 1906

A Grande Exposição de 1906 nasceu com o objetivo de realizar uma grande exibição internacional sobre o trabalho e o transporte, em comemoração à abertura do Túnel Alpino Sempione, túnel ferroviário ligando Itália e Suíça. Um catálogo ilustrado foi impresso, trazendo todas as informações sobre os participantes. Na extensa seção ‘Il Brasile e gli Italiani’ estão os representantes oriundos do Brasil, divididos por estados, com informações gerais, dados geográficos, demográficos, econômicos, artísticos, etc. Ali, Juiz de Fora aparece assim descrita:

“Juiz de Fora è la cittá piú importante dello Stato per la vita industriale e commerciale. Há per noi particolare valore, perché alla vita di codesta città contribuiscono i nostri connazionali.

È illuminata a luce elétrica e sono a trazione elétrica i tramways Strade belle, lunghe e diritte. Edifici notevoli: il Palazzo dei tribunal quelli dell’Accademia di commercio e del Banco di Credito reale il Palazzo C. Andrada e C.

Edifizio imponentíssimo`quello dela fabbrica di tessuti Mascarenhas e fra gli stabillimenti industriali più importante a registrarsi quello di mobili in stile, láltro di punte di Parigi, la Mechania Mineira, la Empreza Industrial, la Construcção Mineira, ecc.

Conta 38.000 abitanti.[1] (1906, p. 214)

Como podemos notar, Juiz de Fora (FIGURA 02) é descrita como cidade de importância regional e grande avanço tecnológico, contando com a eletricidade originada na Usina Hidrelétrica de Marmelos, a primeira grande usina hidrelétrica da América Latina, inaugurada em 1889, às margens da Estrada União e Indústria e do Rio Paraibuna.

Juiz de Fora. Panorama. Il Brasile e gli Italiani, 1906, pg.214

Ao longo das páginas dedicadas a Minas Gerais, alguns estabelecimentos juiz-foranos aparecem em destaque, sempre mostrando um patrício que, em terras brasileiras, prosperou, como, por exemplo, nossa reconhecida Cia. Industrial Pantaleone & Arcuri (na época ainda Spinelli). ‘Lo Stalilimento Pantaleone Arcuri e Spinelli’ ocupa uma página inteira do catálogo, com informações sobre a localização, produção, funcionários e projeção regional, mostrando a importância da companhia para a cidade.

Ao longo das páginas dedicadas a Minas Gerais, alguns estabelecimentos juiz-foranos aparecem em destaque, sempre mostrando um patrício que, em terras brasileiras, prosperou, como, por exemplo, nossa reconhecida Cia. Industrial Pantaleone & Arcuri (na época ainda Spinelli). ‘Lo Stalilimento Pantaleone Arcuri e Spinelli’ ocupa uma página inteira do catálogo, com informações sobre a localização, produção, funcionários e projeção regional, mostrando a importância da companhia para a cidade.

La Sartoria ‘Oriente’. Il Brasile e gli Italiani, 1906, pg.924.

“È al Brasile dal 1895, venutovi dela nativa Este in Provincia di Padova. Stabilitosi in Juiz de Fora, vi fondò nel 1898 la sartoria Oriente, la quale conta oggi fra le migliori de genere in quella città, fornita come è largamente di stoffe e tenuta in pregio per la bontà e finitezza dei lavori che in essa si eseguono da uma quindicina di operai.

Virgilio Bisaggio è anche um uomo di molto tatto e di modi cortesi; nel 1904 resse per quase um anno il vice-Consolato d’Italia in Juiz de Fora, com piena soddisfazione della mostra colônia e delle autorità brasiliane che ebbero a lodarsi della correttezza e dell’energia del Bisaggio. Fu presidente del Club italiano recreativo, XX Settembre, e del Club dos Planetos e tesorere della Società di Beneficenza Umberto I.”[2] (1906, p.924)

Os documentos sob guarda do Arquivo Central/UFJF nos permitem reconstruir uma parte da história e da memória de algumas das inúmeras famílias de imigrantes italianos que por aqui se estabeleceram, descrevendo parte das atividades que exerceram e ajudaram a tornar Juiz de Fora um polo reconhecido por seu avanço tecnológico e industrial ou seu desenvolvimento econômico e social. Aqui, vimos apenas um desses documentos, pertencente ao conjunto documental da Cia. Pantaleone Arcuri, empresa de notória importância regional, tendo construído muitos dos mais importantes edifícios da época. O catálogo testemunha os empreendimentos daqueles imigrantes italianos em Juiz de Fora e é interessante notar como a cidade se mostra, e de fato era, um centro industrial. Também nos permite observar a rede de sociabilidade em que os imigrantes estavam inseridos, a relevância social e econômica que uma visibilidade estrangeira trazia para as empresas, o que, ao olhar deles, demonstrava o prestígio alcançado. Desse modo, acessar esses documentos é mais do que apenas tomar nota daquilo que era falado sobre os italianos em Juiz de Fora; é observar, pela ótica deles, aquilo que era digno de memória.

[1] Juiz de Fora é a cidade mais importante do estado em termos de vida industrial e comercial. Tem um valor particular para nós, porque os nossos compatriotas contribuem para a vida desta cidade.

Ela é iluminada eletricamente e os bondes são movidos a eletricidade. Estradas bonitas, longas e retas. Edifícios notáveis: o Palácio do Tribunal, os da Academia de Comércio e do Banco de Crédito Real, o Palácio C. Andrada e C. Edifício imponente é o da fábrica têxtil de Mascarenhas e entre os mais importantes estabelecimentos industriais a registrar o de móveis de época, o outro de destaques parisienses, a Mecânica Mineira, a Empresa Industrial, a Construção Mineira, etc. Conta com 38.000 habitantes. (tradução livre).

[2] Ele está no Brasil desde 1895, vindo de sua terra natal, Este, na província de Pádua. Radicado em Juiz de Fora, fundou ali a alfaiataria Oriente em 1898, que hoje conta entre as melhores do gênero naquela cidade, abastecida em grande parte com tecidos e valorizada pela bondade e fineza das obras que são. realizado nele por cerca de quinze trabalhadores.

Virgilio Bisaggio também é um homem de grande tato e maneiras corteses; em 1904 ocupou o vice-consulado da Itália em Juiz de Fora por quase um ano, para plena satisfação da exposição da colônia e das autoridades brasileiras que elogiaram a justeza e a energia de Bisaggio. Foi presidente do Clube Recreativo Italiano, XX de setembro, e do Clube dos Planetas e tesoureiro da Sociedade de Caridade Umberto I. (Tradução livre).


Referências bibliográficas:

ARQUIVO CENTRAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA. http://www.ufjf.br/arquivocentral/ | arqcentral_ufjf | @arcentralufjf
(32) 3214-4161
Avenida Rio Branco, 3460 – Juiz de Fora
arqcentral@ufjf.edu.br

LaphArq – Laboratório de pesquisa em História e Arquivologia – https://www.youtube.com/channel/UCyffoXLe_Xrn-1v8ljT4G9g

CONSELHO NACIONAL DE ARQUIVOS. Disponível em: <http://www.conarq.arquivonacional.gov.br>.

COSTA, Arlene Xavier Santos. PEN-SEI: a implantação do Processo Eletrônico Nacional através do Sistema Eletrônico de Informações na Universidade Federal de Juiz de Fora. 2020. Dissertação (Mestrado em Políticas Públicas, Gestão e Avaliação da Educação Superior). Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2020.

GERMANO, Alessandra de Carvalho. Diretrizes para Aquisição de Arquivos: Uma contribuição à política de Arquivos da Universidade Federal de Juiz de Fora. 2017. Dissertação (Mestrado Profissional em Gestão de Documentos e Arquivos). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

GERMANO, Alessandra de Carvalho. Diretrizes para Aquisição de Arquivos: Uma contribuição à política de Arquivos da Universidade Federal de Juiz de Fora. 2017. Dissertação (Mestrado Profissional em Gestão de Documentos e Arquivos). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.


Andreia de Freitas Rodrigues

Doutora em História da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2018). Mestre em História (2009), graduada em Artes (2005) e em Farmácia e Bioquímica (1992) pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Coordenadora do Laboratório de Pesquisa em História e Arquivologia (LaphArq), grupo de pesquisa Cnpq. Desenvolve trabalhos na linha de pesquisa “Arquivo e patrimônio documental: informação, memória e cidadania”. É conservadora-restauradora do Arquivo Central da Universidade Federal de Juiz de Fora, atuando em preservação de bens documentais, acesso e difusão da informação, educação para o patrimônio, conservação e restauração de bens documentais. E-mail:andreia.rodrigues@ufjf.edu.br


Imigração italiana em Antônio Carlos e Barbacena: o caso da Colônia Rodrigo Silva

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Pedro Capicote | Imigração italiana em Antônio Carlos e Barbacena: o caso da Colônia Rodrigo Silva


Enquanto descendente de imigrantes italianos, o tema da imigração nunca foi novidade. Sempre foi falado que minha tataravó havia nascido na Itália e emigrado no final do século XIX para a região. Àquela altura, Antônio Carlos chamava-se Sítio e era um distrito de Barbacena. Não é raro encontrar pessoas com sobrenomes italianos e a mesma história nessa porção das vertentes de Minas Gerais. A história era contada mais ou menos dessa forma, fragmentada e incompleta. Soava sempre como uma casualidade o fato de tantas famílias italianas estarem aqui. Eu sempre quis entender os porquês e foi bem mais tarde que o principal deles saltou aos olhos: a Colônia Rodrigo Silva.

Embalagem dos produtos produzidos em sítio fonte prefeitura de Antonio Carlos – Pedro Capicote

Instalada pelo governo imperial no ano de 1888, a Colônia Rodrigo Silva ocupava uma área de 37.802.670,20 m² entre os municípios de Barbacena e Antônio Carlos. O projeto da Colônia, do ponto de vista estadual, fazia parte de uma proposta de modernização de partes estratégicas de Minas após o fim da escravidão e as sucessivas crises no mercado de café. Até o final do século XIX foram implantados, ao todo, cinco projetos coloniais: Barbacena (Rodrigo Silva), São João del-Rei (Colônia do Marçal), Sabará (Maria Custódia), Belo Horizonte (Barreiro) e São João Nepomuceno (Ferreira Alves), sendo esta última a única estabelecida pela iniciativa privada.

No contexto regional, é importante destacarmos a condição histórica da região de Barbacena enquanto um relevante centro urbano desde o período do ciclo do ouro. Àquela altura, o território ainda era marcado pela grande concentração de terras nas mãos de uma elite com ascendência portuguesa. A pecuária extensiva era a principal atividade econômica. No entanto, com o desenvolvimento da ferrovia, que também foi uma estratégia em vista da modernização do estado, outras atividades econômicas começaram a se tornar viáveis. Nesse horizonte de possibilidades, a indústria era uma aposta promissora.

A sericultura foi a principal atividade industrial vinculada à colonização italiana na região de Barbacena. O projeto, que foi pioneiro no Brasil, visava a produção do bicho da seda, o beneficiamento em tecido e o desenvolvimento de tecnologias viáveis para a implantação do sistema em outras regiões do país. Apesar da fábrica em si ter sido fundada apenas em 1912 por Amilcar Savassi, toda a movimentação em prol dos sistemas de transporte, mão de obra colonial e produção de matéria-prima já vinha sendo estabelecida por ele desde a criação da Colônia Rodrigo Silva. Savassi, além de imigrante italiano, foi o primeiro diretor do núcleo colonial.

A sericultura foi a principal atividade industrial vinculada à colonização italiana na região de Barbacena. O projeto, que foi pioneiro no Brasil, visava a produção do bicho da seda, o beneficiamento em tecido e o desenvolvimento de tecnologias viáveis para a implantação do sistema em outras regiões do país. Apesar da fábrica em si ter sido fundada apenas em 1912 por Amilcar Savassi, toda a movimentação em prol dos sistemas de transporte, mão de obra colonial e produção de matéria-prima já vinha sendo estabelecida por ele desde a criação da Colônia Rodrigo Silva. Savassi, além de imigrante italiano, foi o primeiro diretor do núcleo colonial.

Essa característica primordial da unidade colonial demonstra a importante contribuição da imigração na modificação fundiária da região, que até então era marcada pela grande propriedade rural. Fica claro aqui que a modificação fundiária também fazia parte das estratégias dessa modernização do estado. A própria característica dos colonos contribui para essa modificação estrutural. Grande parte desse novo contingente populacional vinha do Noroeste da Itália, marcado pela predominância de pequenas e médias propriedades administradas de forma familiar.

Lote colono arquivo publico mineiro – Pedro Capicote

A Indústria da Seda funcionou até o ano de 1973, quando a produção se tornou insustentável após a entrada da seda chinesa no mercado nacional. Porém, o legado que a Colônia Rodrigo Silva deixou na região continua sendo imensurável. As famílias italianas foram crescendo e rompendo o primeiro ciclo rural que marcou o período de instalação na nova pátria. Era tudo muito novo nesse contexto de modernização, até mesmo para a população nativa: o fim da escravidão e do Império, o desenvolvimento da ferrovia, a indústria e o crescimento das cidades em si. Aos poucos, esses novos cidadãos brasileiros vão ocupando outras posições nos estratos sociais das cidades, contribuindo também no setor terciário e nas decisões políticas do estado.

A consolidação dessa população durante a formação das cidades da região faz com que a história da imigração italiana se confunda com a própria história de algumas cidades. É o caso de Antônio Carlos, que se tornou um município apenas no ano de 1948, quase 50 anos depois da criação do núcleo colonial. Essa relação intrínseca talvez dificulte o reconhecimento da Colônia como um importante vetor para a expansão urbana dessa cidade. Atualmente, não existe nada no município que faça referência à Colônia, muito embora a maioria das pequenas propriedades rurais ainda siga o parcelamento daquele tempo. Em Barbacena, essa memória se faz um pouco mais presente, primeiro pela própria atuação da Casa D’Itália da cidade, através de todos esses anos, e segundo porque parte do território da Colônia se tornou um bairro de mesmo nome. As dependências da antiga sericícola, que hoje em dia abriga o grupo teatral Ponto de Partida e a escola de música Bituca, foram restauradas recentemente e ajudam também a reafirmar essa memória no município.

Mapa Arquivo Público Mineiro do parcelamento dos lotes da colônia – Pedro Capicote

Se hoje consigo contar parte dessa história, isso tem mais a ver com minha própria trajetória do que com minha vivência na região. Sou arquiteto, curioso em saber a história dos meus antepassados e interessado no tema da memória. Mesmo que tardiamente, como eu disse no início, era natural me inteirar do assunto em algum momento. Mas não teria sido melhor ter vivenciado essa memória através do que antigamente foi a Colônia? E como aqueles que não estão familiarizados com o tema poderão acessar essa história tão importante? Como deixar menos invisível do ponto de vista territorial as marcas que a Colônia imprimiu na configuração do território de ambas as cidades? Os desafios para a preservação e difusão da memória já são imensos na realidade do Brasil e, quando somamos questões da dimensão territorial, ficam ainda mais difíceis.

A gente nunca sabe quando está dando os primeiros passos, então espero que este texto seja um deles, na direção de alargar o debate sobre a imigração italiana e a importância da Colônia Rodrigo Silva na transformação territorial dessas duas cidades.


Referências bibliográficas:

A gente nunca sabe quando está dando os primeiros passos, então espero que este texto seja um deles, na direção de alargar o debate sobre a imigração italiana e a importância da Colônia Rodrigo Silva na transformação territorial dessas duas cidades.

Romano, D. B. História Local e Patrimônio Industrial: Visitando e aprendendo com a Estação Sericícola de BarbacenaUnirio, Rio de Janeiro, 2019.

LAPA. APITE. Memória Trilho. Direção: Matheus Engenheiro – LAPA/UFJF. Documentário. 2014. 1h10min


Pedro Capicote

Arquiteto pela Universidade Federal de Juiz de Fora e pela Universidade de Zaragoza, Espanha atua profissionalmente desenvolvendo projetos arquitetônicos e de interiores na região de Juiz de Fora, Barbacena e Antônio Carlos. Tem grande interesse pela área da paisagem e da preservação da memória. É membro fundador do projeto “Jornal do Sítio” uma publicação de âmbito municipal na cidade de Antônio Carlos e da página @memórias_antônio_carlos, perfil do Instagram dedicado a preservação da memoria da cidade através de fotos antigas e registros do cotidiano.  


Reminiscências da Cidade: a fotografia como registro artístico e documental do Patrimônio Arquitetônico de Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Nina Cristofaro | Reminiscências da Cidade: a fotografia como registro artístico e documental do Patrimônio Arquitetônico de Juiz de Fora


Há quatro anos, deambulando pelas ruas da cidade de Juiz de Fora, me deparei com uma casa antiga que até aquele momento não sabia que existia. Busquei meu celular, abri a câmera e fiz um registro. Naquele momento, o clique foi movido não somente por aspectos estéticos da construção, mas também pela vontade de materializar o que evocava o passado desconhecido.

O ato de fotografar corresponde a uma atitude diante da realidade, um gesto de reconhecimento, contemplação ou denúncia, uma escolha que parte de um interesse. Perceber esse ato para além de um mero registro é entender que fotografar atribui valor, determina o que não se quer esquecer, o que deve ser lembrado e compartilhado.

Buscando investigar a fotografia urbana e seguir registrando espaços históricos da cidade, desenvolvi, em 2019, o projeto artístico e documental Reminiscências da Cidade. Contemplado pelo Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Artística (Pibiart), promovido pela Pró-reitoria de Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora, esse projeto possui como objetivo central o desenvolvimento de um acervo fotográfico de parte do patrimônio arquitetônico da cidade de Juiz de Fora, com o intuito de atrelar o registro fotográfico com a memória urbana e a preservação cultural.

Foto: Nina Cristofaro

Para esse processo, realizei um mapeamento dos imóveis tradicionais de Juiz de Fora, pesquisas in loco, visitas guiadas e estudos sobre a história dos edifícios tombados. A cidade apresenta um patrimônio arquitetônico vasto e diversificado, que está em constante transformação. Ao realizar as fotografias, percebi incontáveis detalhes da cidade e de sua arquitetura histórica que, assim como aquela casa antiga citada, me eram desconhecidos. O processo de registro do patrimônio está no laço entre uma investigação da estética fotográfica e uma busca pela identidade do lugar, de resgatar o que é tradicional na cidade, do que constitui como memória e vestígios significativos de sua história.

Considerando o olhar livre que possuo sobre as construções, o resultado fotográfico está no limiar entre o documental e o artístico. Desde o princípio, realizo fotografias que contemplam fachadas, elementos da arquitetura, janelas, detalhes, assim como marcas depositadas pelo tempo. Busco me atentar ao que mais me atrai nas construções e na fotografia, sendo as cores, os contrastes, os desenhos, as linhas, o jogo entre luz e sombra, a composição harmônica e o equilíbrio das formas.

Foto: Nina Cristofaro

O trabalho imagético é compartilhado virtualmente junto com informações culturais sobre a história e a arquitetura. O projeto possui um site próprio e também uma página na rede social Instagram, que possibilita grande fluxo de imagens e alcance de pessoas. As fotografias, por estarem no campo do bidimensional e serem apresentadas no circuito digital, permitem a visualização dos edifícios de uma maneira distinta. A perspectiva, o ponto de vista e os ângulos se diferem das impressões captadas pelo olhar corriqueiro, disciplinado e horizontal sobre o espaço citadino. O meio virtual possui grande força de engajamento sobre questões do patrimônio cultural e salvaguarda da memória. Constantemente me deparo com novos meios de compartilhamento e armazenamento de informações. Assim, não somente existe uma nova relação com a memória, mas também um novo olhar sobre ela.

A ação de desenvolver um acervo fotográfico do patrimônio arquitetônico de Juiz de Fora, com registros do ano de 2019 e adiante, pretende contribuir na valorização das edificações tombadas, resgatar o passado e eternizar as memórias ainda vivas no presente. Considerando que o patrimônio é mutável e está em constante transformação, ele se transforma para sobreviver e a fotografia atua em seu papel de registrar e ser testemunho dessas modificações.

Foto: Nina Cristofaro

Nessa concepção, o inventário, no sentido de colecionismo e catalogação de registros fotográficos, é significativo para a garantia da memória coletiva e documentação histórica. Nesse sentido, torna-se pertinente refletir sobre a ocupação e manutenção desses espaços através do tempo e ressaltar a relevância da fotografia como objeto de estudo, inclusive auxiliando em trabalhos de restauro, e servindo como fonte de pesquisas e investigações futuras.

Reminiscências da Cidade é um projeto que se caracteriza por ser de longa pesquisa, extinto de uma conclusão imediata, pois tece diálogos em diversas áreas. Com uma câmera na mão, percebo a cidade e suas construções com um olhar curioso, investigativo e atento sobre a relação entre as construções que são resquícios do passado com a sociedade e o espaço urbano atual. E a cada passo e clique, mais me certifico de como fotografia, cidade, memória e patrimônio se encontram no caminho e se entrelaçam.


Referências bibliográficas:

ABREU, Mauricio de Almeida. Sobre a memória das cidades. Revista Território, Rio de Janeiro, v.3, n.4, jan/jun, 1998.

DUBOIS, Philippe. O Ato fotográfico e outros ensaios. Campinas: Papirus, 1993.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo: Editora da Unicamp, 2003.

https://reminiscenciasdacidade.com/

https://www.pjf.mg.gov.br/administracao_indireta/funalfa/patrimonio/index.php


Nina Cristofaro

Fotógrafa, artista visual e graduanda no curso de Bacharelado Interdisciplinar em Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora. A partir de seu interesse pela imagem e audiovisual, a artista está sempre em busca de experimentar novas técnicas, diferentes abordagens e de explorar a fotografia como linguagem artística. É integrante do Coletivo Agrupa do Instituto de Artes e Design da UFJF, que se dedica a trabalhos de mosaico e muralismo. Desde 2019 desenvolve o projeto “Reminiscências da Cidade”, em que realiza registros fotográficos do patrimônio arquitetônico da cidade de Juiz de Fora.


O Tarantolato e seus desafios na atualidade: a pandemia e o processo que solicita o registro do grupo como bem imaterial municipal de Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Talita Gomes | O Tarantolato e seus desafios na atualidade: a pandemia e o processo que solicita o registro do grupo como bem imaterial municipal de Juiz de Fora


O grupo de dança folclórica Tarantolato foi fundado em Juiz de Fora no ano 2000, unido,  inicialmente, como parte de um desfile de comemoração dos 150 anos do município, projeto esse que exaltava a constituição diversificada dos nossos primeiros moradores, que ajudaram a construir aquela que seria conhecida como a “Manchester Mineira1”. Posteriormente, o coletivo foi levado adiante com o objetivo de salvaguardar as danças do folclore italiano chegadas à nossa cidade por meio dos imigrantes italianos, ainda no século XIX2.

Na atualidade, em que o mundo todo enfrenta novos desafios impostos pela pandemia do coronavírus3, o Tarantolato também encara duas questões fundamentais que interferem diretamente em sua história e seu futuro: a pandemia e o processo que solicita o registro do  grupo como bem imaterial municipal de Juiz de Fora.

Sobre a pandemia da Covid-19, Mariza Fernandes Pinto Gomes, presidente do grupo, nos contou como o Tarantolato vem atravessando esse momento. De acordo com ela, o grupo seguia no início de 2020 com suas atividades normalmente, realizando seus ensaios e programando suas apresentações, quando foi surpreendido pela pandemia e pelas medidas sanitárias deflagradas no município em março de 2020. De acordo com ela, nesse momento:

“O grupo já estava com as passagens compradas para a apresentação na Primeira Festa da Colheita em Caxias do Sul (RS). Foi um choque! Estava tudo pronto, fizemos o último ensaio no dia 15 de março, para viajarmos no dia 20 do mesmo mês. Até o último momento achávamos que seria possível, mas o evento foi cancelado. Decidimos, então, não cancelar as passagens, mas apenas mantê-las para usarmos assim que a pandemia for controlada” (Relato de Mariza, concedido em julho de 2021).

A primeira medida de autocuidado do grupo, então, foi cancelar toda e qualquer reunião presencial entre os membros do Tarantolato. Assim, o grupo seguiu todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS)5 e passou a realizar suas reuniões de forma on-line.

“Nos adaptamos no que foi possível, apesar de não podermos realizar juntos a nossa atividade principal, que é dançar. Comemorações do aniversário de 20 anos do grupo, uma data tão importante para nós, e outras datas comemorativas, foram lembradas nas redes sociais. Continuamos a nos comunicar de forma on-line durante todo esse período” (Relato de Mariza,  concedido em julho de 2021).

Após um ano de pandemia, ainda sem controle em nosso país (devido a múltiplos fatores como: as novas variantes do vírus que foram surgindo; a carência de uma campanha de vacinação mais rápida e eficaz; a falta de conscientização de toda a população brasileira sobre a importância de seguir a rigor todos os protocolos recomendados; a escassez de consenso entre o governo federal e os governos estaduais e municipais sobre o enfrentamento da pandemia; e ainda a total omissão do governo federal diante da crise de saúde deflagrada), em março de 2021, o Tarantolato recebeu alguns convites para apresentações em reuniões com poucas pessoas, seguindo os protocolos de segurança recomendados. Os convites, contudo, foram recusados devido à instabilidade do momento vivenciado.

Apesar das dificuldades enfrentadas pelo grupo de dança nesta pandemia, e por todos os seus membros individualmente em seus cotidianos (fortemente afetados por essa crise de saúde mundial, que em nosso país agravou ainda mais a crise econômica e se transformou em uma crise política), o Tarantolato comemora a felicidade de não ter perdido ninguém dos seus para a Covid-19 e também a vitória de todos ainda continuarem parte integrante deste coletivo, que vem resgatando com muita responsabilidade, alegria e zelo, há mais de 20 anos, as danças  folclóricas italianas dos nossos imigrantes.

A despeito da falta de grandes investimentos em imunizantes por parte do governo federal no ano de 2020, hoje a campanha de vacinação atual do nosso município se mostra promissora e eficaz, o que dá grandes esperanças ao Tarantolato de retornar em breve às atividades presenciais. Mariza ressaltou que a retomada será iniciada seguindo todos os protocolos de segurança necessários e somente após todos os membros do coletivo estarem totalmente imunizados (muitos foram vacinados com imunizantes de dose dupla, e o ciclo da vacinação precisa ser completado). O coletivo afirma que a segurança de todos está acima de tudo!

Ainda dentro desse quadro de pandemia, no início deste ano, foi aberto o pedido de registro do grupo de dança Tarantolato como patrimônio imaterial da cidade de Juiz de Fora. O processo ainda segue em fase de instrução, para que, ao término dessa etapa, novos passos sejam dados, os quais culminarão em sua votação para ser ou não efetivamente registrado como bem imaterial municipal.

Seguimos na esperança de dias melhores e torcendo para que o Tarantolato seja aprovado nesse processo de registro. Ressaltamos que o pedido de registro foi aberto exatamente no meio deste momento pandêmico, pois sabemos das grandes dificuldades enfrentadas pelos agentes culturais em nosso país, de modo que o reconhecimento do grupo como bem imaterial pode interferir positivamente em suas atividades, salvaguardando a continuidade desse trabalho de resgate folclórico tão relevante à nossa população juiz-forana e que serve de exemplo de organização e perseverança a outros coletivos culturais.

1 Manchester Mineira: “Juiz de Fora foi a primeira cidade a se industrializar em Minas Gerais, recebendo carinhosamente, já naquele período, o apelido de “A Manchester Mineira”. Junto com Rio de Janeiro e São Paulo, constituiu o trio das principais cidades industrializadas do país entre as duas últimas décadas do século XIX e as três primeiras décadas do século XX” (PAULA, 2006, p. 1).

2 FERENZINI, 2008.

3 Coronavírus: “A pandemia da doença causada pelo novo coronavírus 2019 (Covid-19) tornou-se um dos grandes desafios do século XXI. Atualmente, acomete mais de cem países e territórios nos cinco continentes. Seus impactos ainda são inestimáveis, mas afetam direta e/ou indiretamente a saúde e a economia da população mundial” (BRITO et al, 2020, p. 54).

4 Covid-19: “A Covid-19 é uma doença infecciosa causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) e tem como  principais sintomas febre, cansaço e tosse seca” (Opas — Organização Pan-Americana de Saúde, s/d).

5 Organização Mundial de Saúde (OMS): “A OMS cria os padrões mais importantes da área da saúde e atua em assuntos tão diferentes quanto poluição, obesidade infantil, saúde mental, doenças infecciosas e estabelece listas de medicamentos essenciais. Também é a responsável por produzir a Classificação Internacional de Doenças, livro de cabeceira de médicos e presente em consultórios mundo afora” (BERALDO, 2020, p. 1).


Referências bibliográficas:

ALMEIDA, Patrícia Lage de. O pão e a festa: patrimônio imaterial e turismo em Juiz de Fora (1969-2010) 2015. Tese (Doutorado em História) — Fundação Getúlio Vargas. Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC. Disponível em: https://www.comunicacaoecrise.com/pdf/Normas%20ABNT.pdf. Acesso em 12/07/2021.

BERALDO, Paulo. Brasil teve papel direto na fundação da OMS: entenda o que é e a função da organização. O estado de S. Paulo. 01/04/2020. Disponível em: >https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-teve-papel-direto-na-fundacao-da-oms- entenda-o-que-e-e-a-funcao-da-organizacao,70003256316<. Acesso em 02/07/2021.

BRITO, Sávio Breno Pires; BRAGA, Isaque Oliveira; CUNHA, Carolina Coelho. PALÁCIO, Maria Augusta Vasconcelos; TAKENAMI, Iukary. Pandemia da COVID-19: o maior desafio do século XXI. Revista Visa Em Debate: Sociedade, Ciência e Tecnologia. 02/08/2020. Fio Cruz. Disponível em :>https://docs.bvsalud.org/biblioref/2020/07/1103209/2020_p-028.pdf<.Acesso em 01/07/2021.

DELLA MONICA, Laura. Turismo e folclore: um binômio a ser cultuado. 2ª ed. São Paulo: Global. 2001. Coleção Global Universitária.

FERENZINI, Valéria Leão. Os italianos e a Casa D’Italia de Juiz de Fora. Locus: revista de história, Juiz de Fora, v. 14, n. 2 p. 149-159, 2008. Disponível em: http://www.ufjf.br/locus/files/2010/02/art-06-os-italianos.pdf. Acesso em: 11/07/2021.

NUNES, Jacqueline da Silva. Cultura popular brasileira: dança folclórica, o processo de ensino-aprendizagem por meio da tecnologia multimídia. In: IX Congresso Nacional de Educação – EDUCERE e o III Encontro Sul Brasileiro de Psicopedagogia – ESBP. Paraná. 2009. Disponível em: http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2009/anais/pdf/3109_1353.pdf. Acesso em 11/07/2021.

OLENDER, Marcos. A contribuição da imigração italiana na consolidação da paisagem urbana de Juiz de Fora. In: III Colóquio Ibero-Americano paisagem cultural, patrimônio e projeto – desafios e perspectivas. Belo Horizonte. 2014. Disponível em: http://www.forumpatrimonio.com.br/paisagem2014/artigos/pdf/426.pdf. Acesso em 11/07/2021.

OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde). Folha informativa sobre COVID. s/d. Disponível em: >https://www.paho.org/pt/covid19<. Acesso em 22/07/2021.

PAULA, Ricardo Zimbrão Affonso de. E do caminho novo das Minas dos Matos Gerais emerge a ‘Manchester Mineira’ que se transformou num ‘baú de ossos’: história de Juiz de Fora: da vanguarda de Minas Gerais a “industrialização periférica”. 2006. 165p. Tese (doutorado) — Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia, Campinas, SP. Disponível em: <http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/286144>. Acesso em: 20/07/2021.


Talita Gomes

Turismóloga, Especialista em Planejamento e Gestão de Eventos, atualmente cursando História na UFJF.


A memória italiana em Mar de Espanha: o surgimento do Espaço Cultural Falabella

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Tamara Nunes e Rafael Bertone | A memória italiana em Mar de Espanha: o surgimento do Espaço Cultural Falabella


Mar de Espanha é uma pacata cidade mineira, localizada na Zona da Mata, próximo a Juiz de Fora. Em setembro de 2021, completa 170 anos de emancipação político-administrativa, mas seus primórdios remontam a antes, talvez ao início do século XIX. Para conhecermos um pouco mais dessa cidade, temos de voltar no tempo, mais precisamente ao período do café, ciclo econômico que sucedeu a mineração aurífera, tão importante para nossa Minas Gerais. Naquele período, às margens do Rio Paraíba do Sul, a paisagem foi sendo gradativamente modificada pelos extensos cafezais, sendo comum a doação de sesmarias, grandes porções de terra onde eram plantadas as lavouras e erguidos imponentes complexos, sob os olhares atentos dos Barões do Café. Por aqui, não foi diferente! Os irmãos Leite Ribeiro foram os primeiros a se aventurar e desbravar os chamados Sertões de Leste (região da Zona da Mata Mineira). Francisco Leite Ribeiro e Custódio Ferreira Leite tiveram grande destaque na história mardespanhense, sendo responsáveis por aberturas de caminhos e estradas, como a primeira ponte ligando o estado de Minas Gerais ao estado do Rio de Janeiro. Próximo a esse local, existia a Fazenda do Louriçal, adquirida por Francisco. Já Custódio, o Barão de Ayuruoca, foi um dos mais influentes cafeicultores da região, com acesso direto e facilitado à Coroa, e personagem fundamental para a história de Mar de Espanha.

Essa história tem seu início em um pequeno arraial, o de Nossa Senhora das Mercês do Rio Cágado, conformado na Rua Nova (hoje Rua Major Antônio Barbosa). Nesse citado local foi erguida, antes do ciclo do café, uma rancharia responsável por dar abrigo aos viajantes que rumavam até a Coroa. Anos mais tarde, nessa área já consolidada, tem-se notícias dos primeiros e modestos edifícios a conformarem a localidade, que pouco a pouco passaram a ocupar cada vez mais o interior do arraial, desenvolvendo-se, inclusive, às margens do Ribeirão de São João. Em 1840, após pedido de elevação do citado arraial à categoria de vila, o presidente da província manifesta posição contrária, por não haver, segundo ele, nem mesmo uma edificação capaz de abrigar uma Casa de Câmara e Cadeia, tamanha a precariedade do lugar. Tal fato acontece 11 anos depois, em 10 de setembro de 1851, momento no qual, por intermédio do já citado Barão de Ayuruoca, possuidor de grande prestígio junto à Corte, ocorre a transferência da vila de São João Nepomuceno para o então arraial de Nossa Senhora das Mercês do Rio Cágado, com a denominação de vila do Mar de Espanha. Em 27 de junho de 1859, por fim, a vila é elevada à categoria de município, permanecendo com o mesmo nome.

A vida dos mardespanhenses era movimentada pelo crescente número de habitantes e pelo desenvolvimento da economia cafeeira, em seus primórdios sustentada pela mão de obra escrava. Entretanto, em face das sucessivas leis que favoreciam a libertação desses cativos, aliadas à alforria de outros tantos, Dom Pedro II abre os portos brasileiros para a chegada do que seria a salvação da economia local: a imigração de europeus. Por volta de 1875, no sul do país, vê-se a chegada maciça de portugueses, espanhóis, alemães e italianos, sendo estes últimos os mais visados. Segundo o professor Julio Cezar Vanni, não é tarefa fácil precisar quando os primeiros imigrantes chegaram à Zona da Mata. Entretanto, ele pontua que, em 1878, a imigração ganhou força na região. Em 1886, foi a vez de Nicolau Falabella e Miguel Falabella, oriundos de Lagonegro, província de Potenza, cujo sobrenome está marcado na história destas terras e eternizado no Espaço Cultural Falabella, centro de cultura e memória da população mardespanhense. Acredita-se fortemente que, nos sertões do Rio Cágado, até meados de 1930, 80% da população tenha sido constituída por italianos, sendo Mar de Espanha, ainda hoje, um município que acolhe uma grande quantidade de famílias descendentes desse processo inicial de imigração.

Salão principal Espaço Cultural Falabella – Foto de Tamara Pereira, 2020 – Rafael Rezende Bertone da Costa

Foquemos, neste momento, na família Falabella. Interessante pontuar, inicialmente, que se tratam de duas vertentes. Nicolau e Miguel, anteriormente citados, compartilhavam o mesmo sobrenome, mas não o mesmo sangue, apesar de Nicola Falabella afirmar em seu livro, após pesquisas aprofundadas, que os Falabellas descendem de uma mesma linhagem. Nicolau e sua esposa, Maria Felícia, fixaram-se inicialmente em Sarandi, sendo donos de casa comercial no lugarejo, e tempos depois, precisamente em 1900, mudaram-se para Mar de Espanha, no pacato Largo do Rosário. A família continua no ramo comercial, vai ganhando destaque, acumulando fortuna e tornando-se, mais tarde, proprietária de um sobrado na Praça Central. Já Miguel Falabella, originalmente Michele Maria Falabella, segundo consta na carta escrita por seu neto, Celso Falabella de Figueiredo Castro, não veio como imigrante. Muito jovem, embrenhou-se na campanha Garibaldina, fugindo da Itália, inicialmente rumo ao Uruguai e, logo após, para o Brasil, fixando-se no lugarejo conhecido por Estevão Pinto, próximo a Mar de Espanha, e dedicando-se à agricultura. Ambas as linhagens de assinatura Falabella muito contribuíram para a história e a cultura mardespanhenses. Esse sobrenome ganhou ainda mais força e reconhecimento a partir de 2005. Em fevereiro desse ano, oficialmente, foi fundada a Associação do Espaço Cultural Falabella, sob presidência da Sra. Maria José dos Santos Gribel, casada com um descendente direto dos Falabellas. Em carta redigida a próprio punho, a senhora Maria José relata que a escolha das famílias a serem homenageadas na recém-criada Casa de Cultura deveu-se, diretamente, ao prestígio de tais imigrantes, que se fixaram no município e aqui criaram raízes, as quais se ramificaram e se destacaram nacionalmente nas linguagens artísticas.

Entretanto, a semente que deu origem ao nosso Espaço remonta a um pouco antes, mais precisamente a 2001, período em que Mar de Espanha comemorava, com uma belíssima festa, seus 150 anos de emancipação político-administrativa. Foi um momento de efervescência cultural e busca da memória e da história do povo mardespanhense, idealizado por um grupo de mulheres que, quatro anos mais tarde, após esse mergulho na história local, idealizam e concretizam o Espaço Cultural Falabella.

Voltando a 2005, ainda na carta da Sra. Maria José Gribel, devemos destacar o pontapé inicial de reunião do rico acervo ainda hoje preservado pela instituição. Uma verdadeira preciosidade que narra grandes fatos e feitos mardespanhenses, a começar por uma coleção de jornais, doada a senhora Maria José, datados de 1926 a 1961. Em posse de tais exemplares, a futura primeira presidente do Espaço Cultural, em uma atitude de preservação, procede com a encadernação do material. Aos jornais, somam-se uma cadeira, uma mesa, um armário, fotos antigas e quadros (doados, em sua maioria, por Maria Aparecida Senra Martins) e demais objetos. Havendo a necessidade latente de um espaço para expor tantas relíquias, surge a oportunidade de ocupar o andar térreo do primeiro prédio público a ser erguido na vila: a antiga Casa de Câmara e Cadeia, localizada no centro histórico da localidade, em frente ao jardim onde se implanta, imponente, o Santuário dedicado à Padroeira, Nossa Senhora das Mercês.

A inauguração, como não poderia deixar de ser, iniciou-se com o descerramento da placa comemorativa do tombamento do prédio pelo patrimônio municipal, através do decreto número 155, datado de 2003. Em seguida, discursaram o prefeito municipal, Sr. Joaquim José de Sousa, a primeira-dama e então vice-presidente do Espaço Cultural, Sra. Vanilda do Valle e Souza, a secretária municipal de Educação, Sra. Maria Lydia Martins Moreira, o professor Sr. Julio Vanni, a Sra. Dirce Falabella e a presidente da instituição, Sra. Maria José dos Santos Gribel, prosseguindo com a benção religiosa de Monsenhor Falabella às instalações do prédio. Reafirmou-se, nesse momento de inauguração, o legado trazido até os dias atuais, sendo a preservação de nossa história e dos valores culturais do passado, do presente e do futuro.

Inauguração do Espaço Cultural Falabella – Acervo do Espaço Cultural, 2005 – Rafael Rezende Bertone da Costa

As visitações tiveram início logo após as primeiras festividades inaugurais, assim como a procura dessa instituição cultural por parte de pesquisadores, instituições e população, para doação de acervos caros ao município. Muito foi feito, visto e vivido desde então, como a cessão da guarda do Acervo Histórico da Câmara Municipal, em 2007, e eventos de cunho cultural e educacional (que por vezes se desenvolveram no pavimento superior do prédio, sendo esse um salão para eventos). Não podemos esquecer, também, o ano de 2011, quando o acervo foi temporariamente transferido para edifício próximo, permitindo a reforma do prédio, retornando somente em 2012, com solene reinauguração e festividades para celebrar a recuperação de um bem que vinha se degradando consideravelmente e, consequentemente, colocando em risco seu brilhante acervo.

As atividades, apesar de todo o conteúdo histórico-cultural exposto, cessaram consideravelmente após 2013, momento em que foram suspensos os recursos advindos da Prefeitura Municipal para a manutenção e funcionamento da instituição. Apesar disso, o Espaço Cultural resiste ao tempo e aos contratempos, com a ajuda de colaboradores e admiradores da história local. Os anos passam e chegamos a 2018, momento em que a então presidente, Sra. Maria José dos Santos Gribel, dada a impossibilidade física e falta de condições para ainda exercer o cargo, afasta-se da instituição, assumindo a presidência o Sr. Rafael Rezende Bertone da Costa. Ainda hoje no cargo, o Sr. Rafael conseguiu, ao longo do ano de 2021, juntamente com sua diretoria, grandes feitos como a restituição de repasse da verba advinda da Prefeitura Municipal, a repintura/restauração das fachadas do imóvel, recebimento e guarda de documentos públicos municipais, e criação de reserva técnica, iniciada este ano e em constante complementação, concomitantemente à digitalização de todo acervo fotográfico. Perdurando até os dias atuais, tendo como início março de 2020, ainda circula um pequeno jornal informativo sobre o Espaço Cultural Falabella e seu rico acervo.

Espaço Cultural Falabella – Foto de Tamara Pereira, 2021 – Rafael Rezende Bertone da Costa

Chegamos ao momento de colocar neste presente texto muitas memórias e causos, como bem gostam os mineiros de coração, nascidos ou não nestas terras. A pandemia da Covid-19 pegou a todos de surpresa, ocasionando o fechamento da Casa de Cultura por mais de um ano. Mas não se preocupem! O acervo permanece sendo cuidado, distribuído e organizado nos ambientes desse bem que já serviu de Câmara, Cadeia, Fórum, Clube Social, farmácia, residência e outras atividades comerciais. Viu o amanhecer da luz elétrica, do telefone, do trem, da imprensa, da internet e dos ágeis meios de comunicação. A essas primeiras e grandes mulheres, pioneiras, se juntaram tantos outros, apaixonados por nossa Mar de Espanha, sempre honrando o que aqui está de tangível e tudo o que aqui está representado de intangível, reverenciando a memória italiana que ainda corre nas paredes desse espaço e no sangue desta gente.


Referências bibliográficas:

CASTRO, Celso Falabella de Figueiredo. Os sertões de leste: achegas para a história da Zona da Mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987.

FALABELLA, Nicola. Antes que a luz se apague. Belo Horizonte: Editora Lê, 2003.

VANNI, Julio Cezar. Os sertões do Rio Cágado. Niterói: Editora Comunitá, 2002.


Tamara Nunes Pereira

Técnica em edificações, arquiteta e urbanista, mestra em conservação e restauro, professora e diretora de patrimônio do Espaço Cultural Falabella

Rafael Bertone

Historiador, arte-educador, professor e presidente do Espaço Cultural Falabella


Do coração da nação aos ataques e desmontes: o que patrimônio cultural tem a ver com política?

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Guilherme Eugênio Moreira | Do coração da nação aos ataques e desmontes: o que patrimônio cultural tem a ver com política?


A estátua do bandeirante Borba Gato arde em São Paulo e manifestantes são detidos em prisão preventiva; o PL 2.633/2020, que favorece a grilagem de terras, é aprovado na Câmara dos Deputados e vai para votação no Senado Federal; um juiz ordena a retirada de painéis da exposição “Democracia em disputa” que estão na fachada do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, em Juiz de Fora. À primeira vista, eventos como esses podem parecer desconexos e alheios às políticas de patrimônio cultural, mas uma mirada atenta encontra os atravessamentos.

Nos últimos seis anos, dediquei-me à pesquisa e atuação com políticas de patrimonialização e frequentemente me deparei com os discursos que celebram as conquistas e ampliações no que se entende como patrimônio cultural, principalmente desde a virada do milênio e os chamados patrimônios imateriais. Acompanhamos nos anos 2000, de fato, os usos estratégicos dessa política por diferentes coletividades sociais, grupos de cultura popular e povos tradicionais como mecanismo de acesso a direitos que incrementam a luta pela continuidade de seus modos de vida diferenciados. Entretanto, é comum encontrar profissionais do patrimônio presos a essa narrativa otimista, quando me parece que, desde o impeachment de Dilma Rousseff, e principalmente após as eleições de 2018, os rumos da política sofreram uma guinada brusca e cada dia mais se mostra impossível desconsiderar as decisões governamentais e o cenário político abrangente para se compreender patrimônio cultural no Brasil.

Defendo que patrimônios são processos políticos, tanto no sentido estrito da definição de problemas e formulação de planos de ação que configuram uma política pública como no sentido ampliado de serem resultantes de disputas e consensos atravessados por relações de poder (Eugênio Moreira, 2020). Estiveram historicamente associados aos processos de formação do Estado brasileiro, desde a formulação da política de preservação nos anos 1930 e 1940 com a criação do então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), em 1937. A historiadora Márcia Chuva (2017) analisa como as práticas técnico-administrativas dos intelectuais modernistas aparelhados nos quadros do Sphan permitiram a territorialização de suas redes de atuação por regiões antes desarticuladas com a administração federal e, assim, a afirmação do monopólio do Estado sobre a “gestão dos bens simbólicos” do país, como autor exclusivo na construção da memória e da história oficiais brasileiras.

Os eventos recentes da política nacional, entretanto, fazem pensar que as relações entre as agências de patrimônio e o governo têm se transformado. Com o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, antes mesmo da confirmação de seu impeachment, a gestão do presidente em exercício, Michel Temer, não demorou a revelar suas intenções no que dizia respeito às políticas de cultura no país. Após uma tentativa de extinção do então Ministério da Cultura em maio de 2016, que não vingou devido às expressivas mobilizações que rapidamente tomaram as plataformas digitais com a campanha #ficaMinC, a pasta foi mantida à deriva e ao descaso com o rodízio de quatro ministros em dois anos de governo. No Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), acompanhamos no mês seguinte a destituição da arquiteta e urbanista Jurema Machado e a posse da historiadora Kátia Bogéa como presidenta.

A troca de dirigentes da autarquia pelo governo federal antes do término do mandato de Jurema parecia anunciar tempos antidemocráticos, mas a mudança ainda se manteve em terreno relativamente conhecido. Kátia era analista da Superintendência do Iphan no Maranhão há mais de 30 anos e, portanto, acumulava vasta experiência com as políticas de patrimônio. Além disso, cabe ressaltar que, durante seu exercício, conseguiu levar à frente, em 2018, um concurso público para preenchimento de vagas nas unidades do Iphan por todo o país, o que não acontecia havia 12 anos, bem como a nomeação de aprovados/as em 2019, já no governo de Jair Bolsonaro. Se a nomeação da historiadora soou como um alerta à época, estava ainda distante da gravidade das intervenções sucessivas que passaram a acontecer na administração bolsonarista.

No mês de setembro de 2019, a museóloga Célia Corsino, pesquisadora e atuante na área de patrimônios e museus desde a década de 1970, foi exonerada da superintendência do Iphan em Minas Gerais e substituída por Jeyson Silva, então assessor de um deputado federal do Partido Social Liberal (PSL). A ordem provocou a mobilização de pesquisadores/as, técnicos/as e prefeitos/as, que reivindicavam a permanência de Célia e a importância de uma profissional experiente estar à frente da superintendência responsável pela gestão de mais de 60% dos patrimônios tombados no país. O substituto acabaria tomando posse e pedindo sua exoneração no mesmo dia e, depois de idas e vindas, o Iphan-MG voltaria a ter superintendente em maio de 2020. Nesse período, intervenções também foram feitas nas superintendências do Distrito Federal, de Goiás e do Paraná. Ainda, a administração não parecia saber muito bem onde localizar e como lidar com o Instituto, inicialmente transferido para o Ministério da Cidadania, com a dissolução do MinC, e depois para o Ministério do Turismo.

Kátia Bogéa também foi exonerada da presidência do Iphan em dezembro de 2019. Desde lá e até o momento da escrita, o escritório central em Brasília e as superintendências estaduais têm vivido danças da cadeira. Chegam ao nosso conhecimento exonerações de funcionários/as com experiência em patrimônio, nomeações e desnomeações para cargos de chefia de pessoas sem formação na área, medidas judiciais para anulação de nomeações e consequentes decisões recursais que derrubam aquelas, declarações de repúdio de organizações da sociedade civil e criação de coletivos em defesa do patrimônio cultural brasileiro.

Se a gestão Temer deu início a um desmonte por inanição, ao reduzir orçamentos e deixar a pasta da Cultura à margem na lista de prioridades, passamos, no mandato de Bolsonaro, ao desmanche deliberado. Enquanto em outras temáticas acompanhamos progressivamente, ao longo da última década, avanços conservadores e antidireitos, e por isso estamos mais bem preparadas para o ringue, esse não é o caso quando pensamos em patrimônios culturais. Vejo profissionais que, em sua maioria, não estão acostumados com ataques e investidas duras em seus nichos de atuação e pesquisa. Isso porque, subitamente, os patrimônios passaram de tecnologias de governo que informam projetos de nação ao consagrar versões oficiais da história e memória brasileiras para obstáculos ao projeto político-econômico-moral da administração bolsonarista. Já tínhamos indicativos anteriores, mas a paradigmática reunião ministerial de 22 de abril de 2020 escancarou as percepções do governo federal em relação ao Iphan, que foi citado em dois momentos:

“…precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade, no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços para dar de baciada…” [então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles]

“…E assim nós devemos agir. Como estava discutindo agora. O IPHAN, não é? Tá lá vinculado à Cultura. Eu fiz a cagada em escolher… não escolher uma pessoa que tivesse… também um outro perfil. É uma excelente pessoa que tá lá, tá? Mas tinha que ter um outro perfil também. O IPHAN para qualquer obra do Brasil, como para a do Luciano Hang. Enquanto tá lá um cocô petrificado de índio, para a obra, pô! Para a obra. O que que tem que fazer? Alguém do IPHAN que resolva o assunto, né? E assim nós temos que proceder…” [presidente Jair Bolsonaro] (POLÍCIA FEDERAL, 2020).

Na fatídica fala do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o Iphan, como instância que participa dos processos de licenciamento ambiental, apareceu como uma das agências que, aproveitando-se da saturação da cobertura midiática pelos efeitos da pandemia, deveria ser alvo de mudanças infralegais a fim de facilitar a instalação de grandes empreendimentos de infraestrutura e do agronegócio e, assim, “ir passando a boiada”. Ademais, como instituição responsável pelas pesquisas e monitoramento de sítios arqueológicos encontrados durante escavações em grandes obras, o Iphan aparece na fala de Bolsonaro como entrave ao prosseguimento de uma obra de Luciano Hang, proprietário da empresa varejista Havan, seu apoiador ferrenho nas campanhas eleitorais de 2018. A imagem irônica de que o “Iphan para qualquer obra do Brasil” por conta de “um cocô petrificado de índio” revela a mirada de desprezo, incômodo e insignificância que o governo eleito passou a direcionar às agências e políticas de patrimônio em face da prevalência da noção de desenvolvimento e do programa deliberado de destituição dos direitos conquistados desde a Constituição Federal de 1988.

Com foco nas políticas de proteção ambiental e nos direitos socioambientais de povos e comunidades tradicionais, Bronz, Zhouri e Castro (2020) analisam a atual conjuntura de violação de direitos e desmonte das instituições e dos processos regulatórios em favor da intrusão de grandes projetos sobre territórios e vidas de indígenas, quilombolas e outros povos. Segundo as autoras, o governo Bolsonaro selou a passagem da violência lenta institucionalizada de um ambientalismo liberal para a violência nua e sem disfarces de um antiambientalismo escancarado e acompanhado por um anti-indigenismo. Para as autoras, esse caminho veio sendo preparado ao longo das duas últimas décadas, uma vez que, mesmo com a luta dos movimentos socioambientais, prezou-se pela via conciliatória de um “desenvolvimento sustentável” como solução de mercado e pela centralização dos debates mais em procedimentos e técnicas que em suas finalidades políticas transformadoras. Assim, passamos da desregulação ao desmonte.

É dentro desse mesmo bojo que o Iphan passou do coração do Estado à lista das instituições vistas como empecilhos à passagem da boiada, ao lado da Funai, da Fundação Cultural Palmares, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, da Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, entre tantas outras. A possibilidade de acionamento das políticas de patrimônio para o reconhecimento dos direitos de povos tradicionais a seus modos de vida diferenciados parece ter sido identificada como entrave ao avanço dos empreendimentos que se sustentam através da pretensa universalidade da ideia de progresso. No projeto de governo de um presidente que anunciou, desde as campanhas eleitorais, sua intenção em não demarcar mais uma terra tradicional sequer, não caberia outra medida a não ser fomentar o desmonte de uma instituição como o Iphan, enquanto responde com violência aos protestos dos povos indígenas em Brasília (FIG. 01).

Povos indígenas estão organizados em luta contra a agenda anti-indígena do governo federal no Acampamento Levante pela Terra, em Brasília (DF). Créditos da imagem: Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB. Fonte: https://apiboficial.org/2021/06/17/ levante-pela-terra/.

Se nos tempos de Collor a então Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional chegou a ser extinta e reduzida a Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural, hoje parece que tal dissolução provocaria reações demais incômodas a uma gestão que quer “unir esforços pra dar de baciada a simplificação [regulatória]” (POLÍCIA FEDERAL, 2020). Enquanto isso, portanto, vão nomeando pessoas de sua confiança para cargos de chefia, exonerando aquelas que incomodam demais e enxugando o orçamento.

É urgente a necessidade de incorporar em nossas análises os efeitos dessa sequência de enfrentamentos à continuidade das políticas de patrimônio. O clima de celebração e otimismo que caracterizou os últimos 20 anos segue contagiando muitas pesquisas, como se ainda estivéssemos nos anos de experimentação do início do milênio, com Gilberto Gil à frente do Ministério da Cultura no governo Lula. Precisamos encarar os desafios de analisar as investidas antidemocráticas, a guinada conservadora nas eleições, as assimetrias e hierarquias que informam as tomadas de decisão, bem como as lutas nas instituições e nos movimentos sociais que definem hoje a agenda das políticas públicas. Investigar as práticas de poder a fim de proceder a interpretações de mais longa duração contribuirá para a compreensão de como chegamos até aqui e quais poderão ser nossas táticas em resposta aos programas de desmanche. O que patrimônio cultural tem a ver com política? Tudo e mais um pouco.


Referências bibliográficas:

BRONZ, Deborah; ZHOURI, Andréa; CASTRO, Edna. Passando a boiada: violação de direitos, desregulação e desmanche ambiental no Brasil. Antropolítica: Revista Contemporânea de Antropologia, v. 49, p. 8-41, 2020.

CHUVA, Márcia. Os arquitetos da memória: sociogênese das práticas de preservação do patrimônio cultural no Brasil (anos 1930-1940). 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2017.

EUGÊNIO MOREIRA, Guilherme. Nas políticas do imaterial: sentidos da participação nas práticas de técnicos/as do patrimônio em Minas Gerais. Dissertação (mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, 2020.

POLÍCIA FEDERAL. Laudo n. 1242/2020. Laudo de perícia criminal federal (registros de áudio e imagens). Diretoria Técnico-Científica, Instituto Nacional de Criminalística, 2020. Disponível em: https://bit.ly/35z5B8W. Último acesso em 12 jan. 2021.


Guilherme Eugênio Moreira

Doutorando e mestre em Antropologia (UFF) e bacharel em Ciências Sociais (UFMG). Atua com políticas de patrimonialização e projetos culturais. Pesquisa processos de formação de Estado e efeitos dos grandes empreendimentos da mineração em Minas Gerais. 


O patrimônio cultural não é neutro

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Dalila Varela Singulane | O patrimônio cultural não é neutro[1]


Atualmente, muito se tem debatido a representação que o patrimônio preservado tem diante da sociedade. Eventos recentes mostraram, por exemplo, que diversos dos monumentos expostos em locais públicos correspondem a valores de um pequeno estrato da população, como no caso das estátuas em homenagem a escravistas. Por isso, esse breve texto intitula-se com uma assertiva que, apesar de óbvia, por muitas vezes é ofuscada pelas diversas nuances que compõem as manifestações culturais que se tornam patrimônio cultural: o patrimônio cultural não é neutro. Isso quer dizer que a seleção das coisas que representam ideais, valores, memória e a história de determinado local passa por filtros que correspondem aos anseios da coletividade que os sustenta, mas, sobretudo, dos agentes detentores da responsabilidade e do poder de escolha sobre os bens.

Se durante muito tempo entendemos o patrimônio como algo neutro, isso pode ser atribuído à noção de escolha técnica difundida desde a fundação do Sphan, na primeira metade do século XX. Considerável parte da historiografia brasileira sobre o patrimônio cultural classifica e reproduz os agentes do órgão de preservação federal como “corpo técnico”. Consciente ou inconscientemente, o emprego dessa determinação ao longo da história da instituição causa o efeito de distanciamento de questões ideológicas, quase como um subterfúgio político no qual, seguindo as reflexões de Norberto Bobbio (1997) sobre a atuação de atores sociais, se retira esses indivíduos do lugar de intelectuais ideólogos (os que fornecem princípios-guia) e coloca-os como intelectuais expertos (fornecem conhecimentos-meio), distantes e não partidários.

Bobbio (1997, 72) constrói essa distinção entre os intelectuais tendo como base critérios que envolvem “a diversa tarefa que desempenham como criadores ou transmissores de ideias ou conhecimentos politicamente relevantes, é a diversa função que eles são chamados a desempenhar no contexto político”. A generalização recorrente que se evoca ao falar do grupo de intelectuais acaba causando confusões e obscurecendo o entendimento sobre esses indivíduos na sociedade e, principalmente, na política de seu tempo. Um dos lugares-comuns em que são colocados é o de consenso em torno dos poderosos do dia ou dissenso em relação a esses mesmos poderosos, sendo que “vale observar que os intelectuais a quem os poderosos atribuem o papel de promotores de consenso (que não se pode separar jamais do dissenso com a parte oposta) são os ideólogos, não os expertos” (Bobbio 1997, 72). Sendo assim, entender a função de neutralidade que o caráter de seleção técnica imprime aos bens selecionados é importante visto que a técnica aplicada carrega fundamentalmente valores político-ideológicos de sua época.

Não foi por acaso que foi somente em 1984 — após 47 anos de fundação do Sphan/Iphan — que a população brasileira viu sua primeira manifestação cultural de matriz africana ser tombada: o Terreiro da Casa Branca, Ilê Axé Iyá Nassô Oká, templo de Candomblé localizado em Salvador e importante referência cultural para grupos afrodescendentes. A proteção foi reflexo da intensa luta social e política do movimento negro em busca do fim da discriminação racial, movimento que há muitos anos já lutava por direitos e igualdade, discutindo o lugar do negro na sociedade brasileira. Como também não foi de forma aleatória que Minas Gerais recebeu atenção primária do órgão de proteção, sendo Ouro Preto (1711) considerada Monumento Nacional, em 1933, e tombada pelo Sphan em 1938, antes mesmo de cidades mais antigas como Olinda (aproximadamente 1537) ou Salvador (1549), que ainda hoje contam com grandes conjuntos urbanos que remetem ao período colonial e ao barroco, por exemplo[1]. Afinal, uma influente parte do quadro de funcionários dessa primeira fase preservacionista do país era mineira ou mantinha relações muito próximas, como Rodrigo Melo Franco de Andrade, Gustavo Capanema, Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade.

Atlântico Vermelho. Rosana Paulino. Fonte (Revista Continente) – Dalila Varela

Dessa forma, se faz importante entender cada vez mais o patrimônio cultural como fruto da sociedade que o estabeleceu enquanto representante de sua identidade, sendo as técnicas aplicadas correspondentes ao imaginário que se tem ou se quer para determinada localidade. No caso brasileiro, é fundamental ter em vista algumas das bases de formação da nossa sociedade, sendo que, provavelmente, a mais relevante seja a ideia de raça e o racismo como característica estrutural, isto é, molda nossa política, economia e relações sociais desde o início da colonização europeia. Mascarado desde a capilarização do mito democracia racial a partir de estudos do início do século XX, o racismo fez com que, no Brasil, a ideia de miscigenação fosse positivada nesse contexto, uma vez que essa seria a principal forma de apagamento gradual e sistemático do negro e do indígena da sociedade. As políticas de branqueamento da população começaram a ser empreendidas ainda durante o Império, com a importação de mão de obra europeia, uma vez que acreditava-se na superioridade racial desses trabalhadores, fundamentalmente a partir de concepções do racismo científico em voga naquele momento. “Era essa uma colonização amplamente subsidiada. Pagavam-se transporte e gastos de instalação e promoviam-se obras públicas artificiais para dar trabalho aos colonos, obras que se prolongavam algumas vezes de forma absurda” (Furtado 2003, 126).

O PROGRESSO DAS NAÇÕES. Rosana Paulino. Fonte (Revista Continente) – Dalila Varela

No momento de fundação do Sphan, ideias como a de harmonia entre as três raças — branco, negro e indígena — como sendo a base da sociedade brasileira já estavam amplamente difundidas, o que, no entanto, não significou valorização da cultura e igualdade para os povos não brancos. Pelo contrário, essa dinâmica causou o silenciamento dessas pessoas, uma vez que não se reconhecia (e ainda não se reconhece) a existência da discriminação com base na ideia raça. Funcionando em uma ditadura, com agentes intimamente ligados a ideologias excludentes e opressoras, e com evidente direcionamento a constituição de uma política homogeneizante, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e sua seleção de símbolos corresponderam ao seu tempo. Sua alçada de atuação refletia os interesses desses grupos detentores do poder, sendo exemplo disso não só os tombamentos realizados, como também os destombamentos para efetivação de interesses mais relevantes para o governo daquele momento.

Nesse sentido, importante notar que a cultura foi e ainda é utilizada como um pilar argumentativo para existência da democracia racial no país e ausência da discriminação. Como mostra Nascimento (2016, 66), por muitas vezes a sobrevivência de “canções, danças, comidas, religiões, linguagem, de origem africana, presentes como elemento integral da cultura brasileira, seriam outros tantos comprovantes da ausência de preconceito e discriminação racial dos brasileiros ‘brancos’”. Contudo, essa presença estaria historicamente muito mais ligada a mecanismos de controle social dos negros do que efetivamente a uma valorização dos costumes e tradições. A permanência desses traços na sociedade também é resultado da violência colonial, como afirma Abdias Nascimento (2016, 69).

Diante disso, não é estranho um município como Juiz de Fora, a despeito de sua população negra, desde a fundação, compor mais da metade do total de habitantes, ter quase nenhuma manifestação cultural desses indivíduos e grupos protegida legalmente. Apesar de sua primeira lei municipal de proteção ser da década de 1980, Juiz de Fora seguiu fortemente os critérios de seleção da primeira fase do Sphan, buscando nos apuros arquitetônicos e na branquitude suas representações de cultura. Transpondo-se a questão de classe, a análise do patrimônio cultural evidencia um bem delineado recorte em torno da ideia de raça, sendo que tal condição pode ser notada a partir da localização espacial dos bens. Bairros historicamente habitados por trabalhadores contam com uma seleção diferenciada. Enquanto as antigas colônias germânicas contam com diversos bens protegidos, se destacando por ser uma das únicas áreas com essa concentração fora no triângulo central — onde está a maior quantidade de patrimônios —, bairros historicamente ocupados no  período pós-abolição por afrodescendentes, como Dom Bosco, São Benedito e Santa Rita, não tem nenhum patrimônio cultural reconhecido e protegido pela municipalidade.

Somos uma sociedade racista e só a partir desse entendimento é possível que possamos enfrentar os desafios de decolonializar nosso patrimônio cultural. Mais do que não ser racista, a sociedade brasileira precisa ser antirracista, buscando fortalecer sua democracia a partir de práticas de valorização, igualdade e promovendo reparações históricas aos grupos historicamente oprimidos.

[1] As reflexões empreendidas no decorrer do texto são fruto da dissertação de mestrado da autora, defendida em 2021, intitulada “A valsa de águas-vivas: racismo e patrimônio cultural em Juiz de Fora, Minas Gerais”, no Programa de Pós-Graduação em História (UFJF), orientada pelo Prof. Dr. Rodrigo Christofoletti.

[2] Como nota Fonseca (2017, 192-3) se tratando de tombamentos a imóveis e conjuntos durante o período de 1930 a 1940, a maior parte “dos tombamentos do período foram feitos nos estados da Bahia (28%), Rio de Janeiro (22%), Minas Gerais (15%), (…) e Pernambuco (10%). Contudo, durante o governo de Getúlio Vargas e nesse primeiro momento de preservação no país, somente recebeu o título de “Monumento Nacional” as cidades mineiras de Ouro, 1933, e Mariana, em 1945.


Referências bibliográficas:

Almeida, Silvio Luiz de. 2020. Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro, Editora Jandaíra.

Barreto, Ana Claudia de Jesus. 2010. O lugar dos negros pobres da cidade: estudo na área de risco do bairro Bom Bosco. Dissertação de Mestrado. Juiz de Fora: UFJF.

Bobbio, Norberto. 1997. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: Editora UNESP.

Chuva, Márcia Regina Romeiro. 2017. Arquitetos da memória: sociogênese das práticas de preservação do patrimônio cultural no Brasil (anos 1930-1940). Rio de Janeiro: Editora UFRJ.

Fonseca, Maria Cecília Londres. O Patrimônio em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil. 2ª Edição. Rio de Janeiro: UFRJ/MinC-IPHAN, 2005. 296p.

Guimarães, Elione S. 2006. Múltiplos viveres de afrodescendentes na escravidão e no pós-emancipação: família, trabalho, terra e conflito (Juiz de Fora — MG, 1828-1928). São Paulo: Annablume; Juiz de Fora: Funalfa Edições.

Mbembe, Achille. 2018. Necropolítica. Biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: N-1 edições, 2º ed.

Nascimento, Abdias do. 2016. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Perspectivas, 3º ed.. Ribeiro, Djamila. 2019. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 1ª ed.

Schucman, Lia Vainer. (2012). Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana. Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

Schwarcz, Lilia Moritz. 1993. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1931. São Paulo: Companhia das Letras.

Singulane, Dalila Varela. 2021. A valsa de águas-vivas: racismo e patrimônio cultural em Juiz de Fora, Minas Gerais. Dissertação de Mestrado. Instituto de Ciências Humanas. Pós-Graduação em História. Universidade Federal de Juiz de Fora.


Dalila Varela

Doutoranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora, orientada pelo Prof. Dr. Rodrigo Christofoletti. Conselheira suplente do Conselho Municipal de Cultura de Juiz de Fora (MG). Mestra e bacharela em História com habilitação em Patrimônio Cultural pela UFJF. Vinculada ao Museu de Arqueologia e Etnologia Americana (MAEA-UFJF). Integrante do Laboratório de Patrimônios Culturais (LAPA-UFJF) e do Grupo de Pesquisa (CNPq) “Patrimônio e Relações Internacionais”.


Um diretor desconhecido: a atuação de Renato Soeiro na preservação do patrimônio cultural no Brasil nas décadas de 1960 e 1970

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Carolina Saporetti | Um diretor desconhecido: a atuação de Renato Soeiro na preservação do patrimônio cultural no Brasil nas décadas de 1960 e 1970


As décadas de 1960 e 1970 no Brasil foram marcadas pelo desenvolvimento das políticas de preservação do patrimônio cultural, período em que grande parte do tempo esteve na direção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o arquiteto Renato de Azevedo Duarte Soeiro (1967-1979).

Renato Soeiro. Arquivo Central Iphan seção Rio de Janeiro

A direção de Soeiro foi marcada pela aproximação com órgãos internacionais e por ações que buscavam relacionar o patrimônio cultural com o desenvolvimento econômico, industrial e urbano. Dessa forma, algumas discussões ganharam força, como: a implantação do turismo cultural; a criação de cursos de capacitação; a descentralização do Iphan; a preservação do entorno do monumento; a proteção do patrimônio natural, dentre outras questões.

Neste texto, serão descritas as principais ações de Soeiro durante esse período, enfatizando a importância da sua gestão no Iphan.

Soeiro trabalhou na instituição desde 1938, quando iniciou sua carreira como arquiteto assistente. Em 1946 se tornou diretor da Divisão de Conservação e Restauração. Nas décadas de 1950 e 1960 atuou como principal representante da instituição em eventos internacionais e também como diretor substituto na ausência de Rodrigo Melo Franco de Andrade.

Soeiro participou de importantes eventos como: a reunião de especialistas organizada pela Unesco em Paris (1952), que discutiu sobre a proteção de monumentos e bens culturais na possibilidade de conflito armado, precedendo a Convenção de Haia (1954); o II Congresso Internacional de Arquitetos e Técnicos dos Monumentos Históricos, que originou a Carta de Veneza (1964) e discutiu a importância da preservação e da restauração do monumento quando esta for necessária, além de enfatizar a importância de preservar não somente grandes obras de artes, mas monumentos singelos que forem importantes testemunhos históricos e fazer uso útil desses espaços para a sociedade sempre que possível.

Como diretor da Iphan, cargo que assumiu em maio de 1967, a partir da aposentadoria de Rodrigo de Andrade, Soeiro estreitou ainda mais as relações com órgãos internacionais. O patrimônio ganhou uma dimensão mundial a partir da consciência de que seu valor transcendia as fronteiras nacionais.

Como diretor da Iphan, cargo que assumiu em maio de 1967, a partir da aposentadoria de Rodrigo de Andrade, Soeiro estreitou ainda mais as relações com órgãos internacionais. O patrimônio ganhou uma dimensão mundial a partir da consciência de que seu valor transcendia as fronteiras nacionais.

Durante os anos 60, através dos esforços de Soeiro, o Brasil estreitou os laços com a Unesco e recebeu a visita de técnicos da instituição buscando a implementação dos programas de Incremento ao Turismo e de Recuperação de Recursos Naturais.

Nos anos de 1970 e 1971, ocorreram dois eventos nacionais de grande relevância para as discussões sobre a preservação do patrimônio cultural no país: o Encontro de Brasília e o Encontro de Salvador. Nessas reuniões, participaram governadores de diversos estados brasileiros para discutir sobre a descentralização dos setores ligados ao patrimônio cultural. Soeiro, desde sua posse como diretor, enfatizou a necessidade da criação de setores regionais e municipais para auxiliarem na fiscalização e preservação dos monumentos.

Nesses encontros, foi ressaltada a necessidade da introdução de uma disciplina no currículo escolar que abrangesse o patrimônio cultural, além da criação de cursos universitários e de capacitação. O Curso de Especialização em Restauração e Conservação de Monumentos e Conjuntos Históricos (Cecre), atual mestrado profissional oferecido pela Universidade Federal da Bahia, é fruto de cursos que ocorreram na década de 1970, a fim de suprir a necessidade da capacitação de técnicos do Iphan e demais profissionais que tiveram aumento da sua demanda a partir da implantação do Programa de Cidades Históricas (PCH).

Nesse período, ocupavam cargos estratégicos do governo federal homens das regiões Norte e Nordeste: Jarbas Passarinho (Acre), ministro da Educação e Cultura; João Paulo Reis Veloso (Piauí), da Secretaria de Planejamento e Coordenação-Geral da Presidência da República; Renato Soeiro (Pará), diretor do Iphan; e Josué Montelo (Maranhão), diretor do Conselho Federal de Cultura. Esses homens estavam empenhados em promover o desenvolvimento dessas regiões a partir da cultura.

Renato Soeiro, além de diretor do Iphan, fez parte do Conselho Nacional de Cultura e foi o grande responsável pela estruturação do Departamento de Assuntos Culturais (DAC) do Ministério da Educação e Cultura. As atuações nesses dois órgão eram complementares: no DAC, Soeiro organizou o primeiro projeto de uma política cultural do país, a partir do Programa de Ação Cultural (1973). Foi responsável pela criação da Funarte, em 1975, com intuito de valorizar o teatro e o folclore, e reestruturou a Embrafilme, que chegou a abranger 40% do mercado nacional.

Ele era um gestor visionário, que sabia da importância de aproximar outros setores para poder realizar grandes projetos. Assim, com o apoio da Secretaria de Planejamento e Coordenação-Geral da Presidência da República (Seplan-PR), conseguiu-se desenvolver o Programa Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas do Nordeste com sua Utilização para Fins Turísticos, posterior PCH.

O programa foi criado, em 1972, por um grupo de trabalho interministerial composto por representantes do MEC, da Embratur, da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), do Ministério do Planejamento e da Coordenação-Geral. O PCH ficou sediado em Recife até início da década de 1980.

Após 41 anos de serviços prestados ao Iphan e ao país, sendo 12 deles como diretor, Soeiro recebeu a notícia de sua aposentadoria. Teve sua trajetória apagada na história da instituição, em publicações como o livro “Proteção e revitalização do patrimônio cultural no Brasil, uma trajetória”, e continuada por autores como José Reginaldo S. Gonçalves e Maria Cecília L. Fonseca, mas que vem sendo valorizada por trabalhos desenvolvidos por pesquisadores como Paulo Ormindo de Azevedo e por obras de minha autoria.


Referências bibliográficas:

AZEVEDO, Paulo Ormindo de. PCH: a preservação do patrimônio cultural e natural como política regional e urbana. In: Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, vol. 24, n. 1, pp. 237-256, 2016. Museu Paulista, Universidade de São Paulo.

_________________. Renato Soeiro e a institucionalização do setor cultural no Brasil. In: AZEVEDO, Paulo Ormindo David de; CORRÊA, Elyane Lins. (org). Estado e sociedade na preservação do patrimônio. Salvador: Edufba; IAB, 2013, p. 19-53.

CALABRE, Lia. Políticas Culturais no Brasil: dos anos de 1930 ao século XXI. Rio de Janeiro: FGV, 2009.

CORRÊA, Sandra Rafaela Magalhães. O Programa de Cidades Históricas (PCH): por uma política integrada de preservação do patrimônio cultural — 1973/1979. 2012. 288 f., il. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) — Universidade de Brasília, Brasília, 2012.

IPHAN: http://portal.iphan.gov.br/legislacao.

SAPORETTI, C. M.. A gestão de Renato Soeiro na Direção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) (1967-1979). 1. ed. Appris, 2021. v. 1. 109p.

_________________. RENATO SOEIRO E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: UM NOVO OLHAR PARA A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL BRASILEIRO. In: 30º Simpósio Nacional de História, 2019, Recife. Anais do 30° Simpósio Nacional de História – História e o futuro da educação no Brasil, 2019.

_________________. IPHAN Looking Out: International Relations in Preserving National Heritage. In: Rodrigo Christofoletti, Marcos Olender. (Org.). World Heritage Patinas. 1ed.: Springer, 2021, v. 1, p. 1-589.


Carolina Saporetti

Doutoranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mestra em História, graduada em licenciatura e bacharelado em História com ênfase em patrimônio histórico pela mesma instituição. Membra do LAPA (Laboratório de Patrimônios Culturais) da Universidade Federal de Juiz de Fora e integrante do grupo de pesquisa Cnpq – Patrimônio e Relações Internacionais. Atualmente exerce a função de curadora no Centro de Conservação da Memória da Universidade Federal de Juiz de Fora (CECOM-UFJF).