Um encontro com Laura Jannuzzi

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 20, 2022 – Fernanda Castilho |  Um encontro com Laura Jannuzzi


Alguns anos atrás, em 2015 para ser mais exata, conheci a Laura Jannuzzi, quando, ao visitar o Encontro de Compositores pela primeira vez, a vi cantar e tocar — assim como tantos outros compositores e músicos da cidade e região. Volto a essa história porque, a partir daí, dessas noites passadas nesses encontros, nesses shows de músicos independentes e autorais, uma pequena revolução irrompeu. Uma dessas mudanças que acontecem dentro da gente e nos marcam.

Foto: @marcellacalixto

Nessa época, eu estava na faculdade de Jornalismo e, por alguns anos, fiz parte de um coletivo dedicado ao jornalismo cultural independente chamado Avenida Independência — o título do projeto, além de fazer alusão ao antigo nome dado a uma enorme rua da cidade de Juiz de Fora, também declarava desde já sua proposta: falar sobre música independente e autoral; criar não só uma rua, mas uma avenida para circular letras, sons, escritos e ideias. Bem, para mim, foi isso.

Hoje, posso afirmar que, antes disso, não conhecia os músicos que viviam na minha cidade, as canções criadas neste lugar, os artistas que por aqui caminhavam e se inspiravam. Não conhecia a minha cidade — a cidade onde nasci. Penso eu que tem uma parte da cidade que não conhece um outro lado dessa mesma cidade. Aquele momento, no Encontro, me desvendou uma outra parte, da música e da arte, até então, para mim, desconhecida. Desde então, busco conhecer, valorizar e apoiar os artistas locais, assim como os artistas independentes do meu país. 

Compreendi a importância disso tudo a partir desses momentos: quando fui ao show de lançamento do “Ondes”, primeiro álbum de Laura, no Café Muzik, e escrevi um texto sobre aquela noite; trabalhando como assistente de direção do Música Na Faixa, sessões gravadas no Maquinaria, onde a artista se apresentou; ou, ali, no Encontro de Compositores, vendo-a e a tantos outros artistas sentados em suas cadeiras, em frente a um pano de fundo com um espiral colorido desenhado, encantando a todos com suas vozes e instrumentos.

A cantora e compositora Laura Jannuzzi cuida da produção do Encontro de Compositores desde 2014. Em outros tempos, durante as segundas segundas-feiras do mês, reuniam-se compositores, músicos e demais curiosos e apaixonados por música. Ao longo dos anos, os encontros ocuparam os palcos do antigo Bar Cai & Pira, do Brauhaus e do Uthopia — hoje, nenhuma dessas casas de show da cidade continua na ativa, deixando o evento sem lar.

Foto: @marcellacalixto

Desde abril de 2020, os encontros vêm sendo realizados virtualmente. No início, tentaram fazer as transmissões ao vivo pelo Instagram, mas, devido à instabilidade e à lamentável perda de alguns vídeos no aplicativo, decidiram transferir os encontros para a plataforma Zoom. Agora, migraram novamente, desta vez para o Google Meet.

As edições virtuais do Encontro seguem o modelo das presenciais: as apresentações seguem uma ordem de inscrição feita previamente. Mais tarde, quando todos já se apresentaram, o espaço “fica livre” e o “palco virtual” é aberto para quem quiser tocar. “Tem sido importante, não só pelo lado do encontro de ser um espaço de escuta, de apresentar músicas novas, de pessoas que se interessam pela música autoral terem esse espaço para conhecer novos artistas, mas, também, nesse período de pandemia, um lugar para a gente conversar. Foi um momento em que a classe artística foi diretamente atingida. Foi muito importante para isso também. Ficou uma roda de conversa também, sabe?”, conta Laura.

Com a descentralização que os encontros on-line proporcionaram, pessoas do Brasil todo puderam participar. A partir de então, o plano, para quando esse momento conturbado amenizar e, enfim, os encontros presenciais puderem ser retomados com segurança, é que as edições virtuais continuem. “A troca fica muito mais rica, diz.

A artista é farta em encontros e trocas. Tanto em suas apresentações e participações em shows e gravações, quanto em seus trabalhos solo em estúdio, Laura está sempre rodeada de amigas e amigos. “Comecei meu contato com a música com as pessoas que fazem música a partir do Encontro de Compositores. No Encontro, eu aprendi um pouco isso: estar sempre próximo, de compor e criar em conjunto. O Encontro me deu esse bom hábito. Não largo mais nunca.”

Em seu novo disco, “Sede da Manhã”, lançado no final do ano passado, Laura conta com muitas parcerias: Clara Castro, César Lacerda, Ney Matogrosso, Pablo Quaresma, entre tantos outros. “O Ney… que não sei nem dizer o que é Ney, né? Coisas surreais que acontecem na vida. Foi incrível, incrível, incrível”. Ela acredita que essas ligações “somam sempre uma energia na música”.

“Sede da Manhã” é seu segundo disco de estúdio e traz sete canções. Ao seu lado, cuidando da produção, esteve Raul Misturada, músico, compositor e produtor recifense. A produção e a gravação tiveram início antes da pandemia. Laura estava gravando em um estúdio em São Paulo, onde Raul vive atualmente. Já no meio do processo do seu trabalho, a artista precisou pausar as atividades em decorrência da necessidade de isolamento social. “Os primeiros meses de pandemia foram de total incerteza, de como era, de como funcionava. Fiz algumas lives no início da pandemia, aquelas coisas. Só consegui voltar a gravar no final de 2020”, conta.

Foto: @marcellacalixto

Durante essa suspensão involuntária, a artista compôs novas canções que foram incluídas no novo álbum. “Como compositora, tudo que acontece me afeta. Tudo que a gente tem vivido reflete nas músicas que eu faço, nas composições que crio, de todas as maneiras.” Como uma costura, seu disco trouxe sentimentos, pensamentos, sonoridades, inspirações dessas temporalidades diferentes.

O disco é introspectivo, feito por alguém que numa parada, num momento de espera, olha para dentro de si. Olha para o que viveu e para o que ainda quer viver. “Depois eu estava até pensando nisso — que essas coisas a gente não pensa na hora —, mas até o fato do confinamento, de a gente estar mais guardado, mais voltados para as coisas de dentro, fez com que o disco tivesse essa cara. Mostra muito de mim, do interior do meu interior. Fiz pensando nas minhas referências, nos discos de vinil que ouvi, que tem esse momento de escuta, de você botar o disco e ficar ali ouvindo, ficar ligado para quando acabar, virar… Essas miudezas assim.”

Somos feitos desses detalhes, mergulhados em nostalgia. Nossos corpos têm memória. Nossos dias, nossas dores e alegrias ficam guardados em nosso corpo. O que estamos vivendo neste momento, os dias de ansiedade, enclausuramento e desorientação durante a pandemia, as angústias que sentimos num tempo em que o autoritarismo e o conservadorismo avançam cada vez mais, nos deixam marcados. Logo quando ouvi a releitura de “Hoje” feita por Laura, pensei em como essa canção, composta há tantos anos, encaixa-se tão perfeitamente em nosso presente.

“Hoje trago em meu corpo as marcas do meu tempo, meu desespero, a vida num momento. A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo”. Essas palavras fazem parte da canção composta por Taiguara. O músico e compositor a escreveu no final dos anos 60, nos tempos de ditadura militar. Militante político durante os anos de chumbo, vencedor de muitos festivais de música popular, ele lutava contra as violências e opressões sofridas naquela época através de suas composições — sendo considerado o compositor mais censurado.

Ouvi essa canção pela primeira vez numa sala de cinema do Alameda enquanto assistia ao filme Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho. O filme, que começa e termina ao som dessa canção de Taiguara, conta a história de Clara, uma mulher que carrega um corpo marcado pela vida, apaixonada por seus livros e discos de vinil, com seus ruídos e rastros de outras vidas, e sua luta para preservar sua casa, sua vida e suas memórias. E essa pequena perambulação da minha mente — me conectando ao filme e a essa lembrança—, após ouvir a versão de “Hoje” feita por Laura, tornou, para mim, seu disco ainda mais belo.

Ela me conta que também não conhecia essa canção. “Conhecia um pouco do trabalho do Taiguara, mas não profundamente, sabia da importância da luta, de toda importância dele na época da ditadura, o tanto que ele sofreu. Quem me apresentou a música foi o Raul, produtor do disco. Quando mostrei minhas músicas, ele associou, falou assim “Essas músicas tão me lembrando muito essa música”. Achei que, realmente, a história que eu queria contar com as minhas composições fechavam com “Hoje”. Acho que combinou muito, essa música é belíssima. E aí, fizemos um arranjo para poder encaixar dentro das músicas que eu já tinha feito”.

Uma pequena anedota: não sei por que, mas, por algum motivo, botei na cabeça que o título do disco era “Sede de Amanhã”. E ficava pensando na beleza que essas palavras traziam: um desejo de um novo dia. A expectativa da renovação, de que o amanhã trará algo novo. Um “sim” para a vida. “Encontrei motivos pra seguir/ Pra matar a sede da manhã/ Pra perder o medo do futuro/ E ir de coração” canta na faixa-título.

Durante a conversa, contei sobre esse engano para a Laura, que rindo disse: “Faz todo sentido. O espírito é esse!”. Depois, quando começou a me contar sobre a produção dos seus últimos clipes, também se confunde: “Na real, o primeiro de Sede de Amanhã… Ih aí, eu falando errado! Tá me influenciando! O primeiro clipe de Sede de… gente, como é o nome do meu disco mesmo? Sede da Manhã!”.

Para esse novo trabalho, até o momento, foram lançados três videoclipes. Para a criação visual, Laura escolheu “Sede da Manhã”, “Temporal” e “Sete-Luas”. O primeiro foi dirigido pela artista Amanda Pomar ao lado da equipe do Inhamis Studio, e faz uma mistura entre animações, cores, imagens da cantora, criado de um jeito muito delicado, feito a muitas mãos. “Achei o resultado surpreendente. O Raul que produziu o disco ficou pirado, porque o vídeo cria uma história em cima daquilo ali.” 

Já “Temporal”, carregado pelo preto e branco, por cenas teatrais e danças, é uma criação do Coletivo Grilla. “Eu não tenho muita ideia para roteiro, essas paradas, não. Minha mente funciona basicamente para música. Então o que eu faço? Me ligo com pessoas maravilhosas que fazem esse trabalho perfeitamente. Pessoas sensíveis que ouvem a música e tiram exatamente o que aquilo quer dizer.” 

Por último, foi lançado o videoclipe de “Sete-luas”, com direção de Ananda Banhatto e Leandro Mockdece, no qual Laura Jannuzzi divide o estúdio com o maravilhoso Ney Matogrosso. Há uma troca de olhares entre os músicos, um ritmo vagaroso, imagens feitas com muita sensibilidade que nos levam para outro lugar.

Conto-lhe de me lembrar de ouvi-la cantar “Dundun”, faixa presente no novo álbum, em algum momento antes do lançamento. Ela diz que talvez a tenha cantado em algum Encontro ou em alguma apresentação de voz e violão, e emenda me contando sobre seus próximos passos: “Tô fazendo o caminho inverso, tô vindo do estúdio para pensar em palco, em reproduzir os arranjos já feitos. E já te conto, aqui, uma novidade: que o Caetano Brasil vai produzir meu show. Ele tá produzindo todas as músicas, os arranjos.”

Subir aos palcos novamente é um plano para o qual a artista vem se preparando nesses últimos meses. A previsão é de que tudo esteja ainda pronto em abril deste ano. “Se tudo der certo, se a pandemia colaborar também, se tudo melhorar, né?”. Outro plano de Laura é materializar “Sede de Manhã” em disco de vinil. “Meu sonho! Quero ter um disco de vinil. Agora vai acontecer…”.

Buscando se aventurar nas outras artes, Laura Jannuzzi recentemente trabalhou na produção do filme Cyclone, com direção da artista Pri Helena, do Coletivo Grilla. O “vídeo-performance-manifesto” — como é descrito numa postagem nas redes sociais do coletivo — tem inspiração no livro “Neve na manhã de São Paulo”, de José Roberto Walker, que conta a história de amor entre Oswald de Andrade e a jovem Miss Cyclone, lá no comecinho do século passado.

“Foi a primeira produção de filme que acompanhei”, revela Laura. “Achei tudo incrível, riquíssimo. Fiquei super admirada com o trabalho de todo mundo. Um dia que não vou esquecer jamais.” Além dessa parte, Laura também se envolveu com a criação de uma trilha sonora para o filme: “Tô compondo as músicas. Não sei o que posso falar… Contei: são tangos!”.

O trabalho foi contemplado pelo Edital Pau-Brasil da Funalfa, repartição da Prefeitura de Juiz de Fora, e faz parte das comemorações promovidas pela cidade sobre o Centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. A estreia de Cyclone está marcada para o dia 24 de fevereiro, às 20h, no Teatro Paschoal Carlos Magno. Para o encontro com uma noite de cinema, arte e tangos de Laura Jannuzzi, lembre-se: não vá se perder por aí.

Meu encontro, ou melhor, um reencontro com a Laura, numa tarde dessas de sol e de chuva em Juiz de Fora, assim como a escuta do seu novo disco “Sede da Manhã”, me trouxe muitas memórias e sentimentos. Um desejo de um novo amanhã, ou uma nova manhã. A vontade de viver novos tempos, com caminhadas por ruas e avenidas sem temor, com muitos shows e músicas. Enfim, novos encontros.


Fernanda Castilho

É jornalista pela UFJF. Foi bolsista de comunicação do Cineclube Lumière e Cia, Cine-Theatro Central e Coral da UFJF. Ama fotografia, os livros, os filmes, as músicas, as ruas e as janelas da cidade.