ENTREVISTA: Júlia Fregadolli

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2020 – Departamento de Cultura | ENTREVISTA: Júlia Fregadolli


1 Como artista atuante em JF, como vê a importância das manifestações artísticas nesse momento de pandemia?

Acredito que são tantas as importâncias!! A arte pode ser uma maneira de criar novas relações, novas formas de contato, de compreender melhor o tempo em que vivemos e até de enxergar outro jeito de viver essa realidade pandêmica. Não é sempre fácil, porque ela é feita de gente, pra gente, mas como a vida, as artes são feitas de ciclos e continuam, sempre se renovam. Vida e arte continuam apesar do que é imposto por aí. 


2 Na exposição em exibição na Galeria Online da Casa D’Italia “FRESTA” você usa colagens e fotografias para “re-imaginar, enxergar por outros ângulos, olhar com diferentes olhos.” Como você acredita que pode tocar e sensibilizar as pessoas re-criando olhares e perspectivas?  

A Wislawa Szymborska é uma poeta polonesa que muito me inspira. Ela disse num discurso – ao receber o Prêmio Nobel da Literatura, em 1996 – que as coisas que não sabemos são a fonte da nossa inspiração. E que a expressão “não sei” é composta por duas palavras pequenas, mas voa com grandes asas e expande a vida, porque representa a nossa abertura em relação ao mundo. Em contraponto a esse “não-saber”, Szymborska comenta que algumas pessoas sentem que já sabem de tudo e carregam os saberes como concreto (“concreto” é palavra minha, mas acho que cabe aqui). São pessoas que enxergam o mundo como respondido, um lugar onde não existe espaço para outras vozes ou corpos.

Eu caminho com as palavras da Wislawa, com essa vontade de abertura, de disponibilidade e tento traduzir em arte. Acho que abrir espaço para o que não sabemos é, também, repensar o que já sabemos, transformar nossa percepção do entorno, do cotidiano. Não tenho grandes pretensões, mas fico feliz quando penso que meu trabalho pode ser uma faísca, uma ponte para esse outro olhar que enxerga a poesia na vida diária, mesmo naquilo que parece mais banal.


3 Há 6 anos a Casa D’Italia de Juiz de Fora e seu Departamento de Cultura, vem desenvolvendo iniciativas em prol da cultura e suas manifestações artísticas, buscando a valorização dos artistas da cidade e região. Como se deu esta conexão entre você, sua arte e a instituição?

Eu já conhecia a Casa, mas esse contato com o Departamento de Cultura aconteceu mediado pelo Rafael Moreira, um querido e grande apoiador da arte, da cultura e do meu trabalho. Me sinto muito grata e honrada por poder fortalecer essa conexão.


4 Qual sua memória mais remota com a Casa D’Italia de Juiz de Fora? Qual a importância do prédio e suas associações para a cidade de Juiz de Fora na sua opinião?  

Tenho uma memória antiga, de quando me mudei para Juiz de Fora (em 2006). Eu me lembro de ficar encantada com a arquitetura do prédio e com a localização dele, tão no centro do movimento da cidade. Venho de uma cidade menor e tudo aqui me parecia muito grande e diferente. Também tenho outra, de alguns anos mais tarde, da época em que fazia aulas de italiano na companhia do Lucas, um amigo muito querido. Não é a memória mais remota, mas me trouxe outra conexão com a Casa, um laço de afeto.

E eu sempre bato na tecla de que cultura é a resposta para muita coisa, por isso a Casa D’Italia e tantos outros monumentos arquitetônicos e instituições têm essa importância de preservar, relembrar o que passou e abrir espaço para o que vem, o que vai se construir. É um diálogo constante entre memória, presente e porvir. 


5 Você acredita que a Casa D’Italia de Juiz de Fora e os artistas da cidade podem ajudar as pessoas neste momento difícil de pandemia com suas produções? De que maneira?

Penso que sim, mas sem pretensões (não sei se essa é a melhor palavra, mas espero que me entendam). Instituições que apoiam o movimento cultural e artistas locais são sempre necessárias, especialmente num momento em que arte e cultura estão tão ameaçadas. E a arte tem sim um papel de cura, de cuidado e de possibilitar outros olhares, mas sinto que às vezes colocamos um peso maior do que ela é capaz de carregar. Para que ela seja ferramenta de mudança, é preciso que exista troca, uma relação de diálogo entre artes e pessoas.


6 Um dos objetivos da Galeria Online é incentivar as pessoas a acreditarem e investirem na arte e nos artistas juiz-foranos, principalmente o público jovem. Você poderia deixar algum recado para esses jovens e para todos os leitores da Revista Casa D’Italia?

Acho que gostaria de dizer (para mim e para quem lê) que é preciso continuar acreditando na nossa arte, na cultura e na gente, no povo. Não é fácil num momento como esse, porque o contexto e as notícias desanimam. A vida perde o rumo, parece à deriva, mas eu acredito. Sigo acreditando e a vida também segue. É como nos versos do poeta amazonense Thiago de Mello: “Faz escuro mas eu canto / porque a manhã vai chegar”.


Júlia Lacerda Fregadolli

Sou formada na Licenciatura em Artes Visuais pela UFJF, atuo como professora e sigo tentando descobrir meus próprios passos entre a arte e a educação. Me considero meio artista, meio educadora e meio o que há por vir. Gosto de pensar nesse porvir, porque muito da minha poética passa por ele. Os caminhos, suas possibilidades, os laços que se criam e a maneira como tudo isso nos atravessa. Acho que meu trabalho é uma tentativa de traduzir o que não sei como falar, por isso palavras e imagens caminham quase sempre juntas nas minhas colagens ou fotografias.


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