O Brasil foi à guerra e a “cobra fumou”

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2020 – Aline Locastre | O Brasil foi à guerra e a “cobra fumou”


Muitos são os temas que atraem os ingressantes nos cursos de História pelo país. Alguns chegam ansiosos por aprender sobre Egito Antigo, História Medieval, ditaduras no Brasil, ou sobre guerras. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é um desses temas de interesse dos amantes da História, sejam eles historiadores — profissão recentemente regulamentada no Brasil — ou  jornalistas, memorialistas, militares. Games, filmes, livros ficcionais, biografias, autobiografias, diários de guerra, armas, museus ou brinquedos, ajudam a despertar a curiosidade sobre o conflito. Esse material ou as leituras que se fazem sobre as múltiplas fontes históricas que temos (a Segunda Guerra Mundial foi amplamente documentada) tem estimulado muitas narrativas. A luta da Força Expedicionária Brasileira (FEB) fomentou algumas delas.

A FEB foi criada em agosto de 1943 e foi comandada pelo General João Baptista Mascarenhas de Moraes. Foi incorporada ao V Exército Americano e combateu no front italiano, tendo uma atuação decisiva na tomada de posições como Monte Castelo e Montese. No brasão do uniforme dos combatentes brasileiros, chamados de “pracinhas”, foi estampada uma cobra fumando em resposta àqueles que diziam ser mais fácil uma “cobra fumar do que o Brasil ir à guerra”. Segundo o historiador Antonio Pedro Tota, em “O imperialismo sedutor”, a primeira cobra fumando com duas armas em mãos e um cachinho na boca havia sido criada por Walt Disney. O símbolo da FEB, assim, foi uma releitura dessa gravura.

Do primeiro escalão de brasileiros e brasileiras que desembarcaram em Nápoles em julho de 1944, e dos outros que vieram nos meses seguintes, muitos foram compostos por civis recrutados apressadamente, com pouco preparo para o combate e completamente alheios ao que lhes esperava em solo europeu. Foram diversos os relatos sobre as experiências tidas na Itália. Algumas dessas narrativas de guerra exibem uma postura cética e crítica sobre a forma pela qual os brasileiros foram encaminhados à luta, sobre sua condução e sobre o processo de volta e retomada das atividades civis por parte da maioria dos expedicionários. Elas diferem, significativamente, da maioria dos relatos e memórias publicados no país desde o fim da Segunda Guerra Mundial, caracterizados por tons triunfais e laudatórios à FEB e, particularmente, ao Exército.

Desse modo, por muito tempo lidos e compreendidos como testemunhos inquestionáveis sobre a atuação brasileira na Itália, relatos gloriosos escritos por seus comandantes não são os únicos documentos à disposição para pesquisa. Muitas das memórias escritas por pracinhas foram publicadas décadas após o conflito e possibilitam aos pesquisadores e interessados no tema contato com depoimentos dessas experiências de combate e resistência, muito próximas às incongruências enfrentadas no front de guerra. As publicações de Leonércio Soares, “Verdades e vergonhas da Força Expedicionária Brasileira”, de 1984, e Massaki Udihara, “Um médico brasileiro no front”, de 2004, por exemplo, são leituras recomendadas para quem deseja conhecer esse tipo de escrita que narra as memórias de ex-combatentes nas regiões italianas arrasadas pela guerra.

Além das memórias de guerra, temos diversos documentos sobre a participação brasileira no front italiano. Como toda fonte histórica, esse material requer criticidade no trato com seu conteúdo e olhar atento à sua produção. De todo modo, problematizados devidamente, nos permitem interessantes viagens por vestígios desse passado. Salientamos um desses vestígios: uma revista estadunidense chamada “Em Guarda”. Entre os anos de 1942 a 1945, este mensário veiculou em suas páginas armamentos modernos, líderes militares e atualizações sobre a ofensiva nas frentes de batalha, entre elas, na Itália. Impressa em Nova York pelo Office of the Coordinator of the Inter America Affairs (OCIAA), foi distribuída na América Latina em três línguas: espanhol, francês e português. Chegou a uma tiragem próxima a 660 mil exemplares, só no ano de 1943.

Com capas coloridas e muitas fotografias, a “Em Guarda”, em seus últimos dois anos de edição, trouxe várias reportagens sobre a FEB e sobre a libertação da Itália pelos Aliados em 1945. Criada dentro do programa de Boa Vizinhança, ela foi um dos materiais distribuídos e que estiveram voltados ao estreitamento das relações entre Estados Unidos e América Latina. Com vistas a acabar com as hostilidades existentes, decorrentes da política intervencionista dos Estados Unidos na região caribenha, essa diplomacia cultural visou, além da busca por mercados, cooptar aliados, promover um maior conhecimento sobre as Américas e afastar o nazifascismo do continente.

Para os interessados no tema e que buscam se aventurar nessas narrativas sobre a Segunda Guerra Mundial, compartilhamos duas imagens tiradas desse periódico: a primeira mostra soldados ingleses entregando farinha de trigo a moradores da cidade de Palazzola, na Sicília (s/d). O fotógrafo (não consta autoria da imagem) foca na expressão de alegria da população, que se amontoa sobre os Aliados para pegar o alimento. Aliás, esse fato é muito enfatizado nas reportagens que acompanham as imagens: a fome nessas cidades recém-libertas.

A última fotografia, e que encerrará este breve artigo, mostra meninos italianos saudando um destacamento das tropas brasileiras em um de seus bem sucedidos avanços sob a Itália. Os correspondentes do OCIAA, Alan Fischer e Frank Norrall, que acompanharam a FEB em suas operações, descreveram o sucesso da campanha e a destreza dos combatentes brasileiros. Embora seja uma descrição voltada a mostrar uma FEB bem treinada e integrada aos objetivos de combate do V Exército, comparada às memórias de alguns desses mesmos combatentes, percebemos as contradições e exageros presentes na narrativa. De qualquer maneira, a Força Expedicionária Brasileira, desmobilizada antes mesmo de retornar ao Brasil, teve um peso crucial nos rumos políticos de seu tempo. Nossos pracinhas são heróis e suas memórias relatam seus desejos por lucidez em cenários permeados pela brutalidade injustificada.  


Referências bibliográficas:

FERRAZ, Francisco Cesar. Os Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

MAXIMIANO, César Campiani. Barbudos, sujos e fatigados: soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Grua, 2010.

OLIVEIRA, Dennison de. Os Soldados Alemães de Vargas. Curitiba: Juruá Editora, 2008.

TOTA, Antonio Pedro. O Imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na Segunda Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


Aline Locastre

Professora Adjunta do curso de História da UEMS. Possui graduação e mestrado em História pela UEL e Doutorado em História pela UFPR. Concentra suas pesquisas sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, propaganda política, mídias e opinião pública no século XX. É autora do livro “Seduções Impressas: a veiculação do paradigma estadunidense no Brasil em tempos de Segunda Guerra Mundial”.


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