Canecas

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2020 – Gabi Guarabyra | Canecas


Quantos futuros você já viveu?

Constantemente me pergunto quantas vidas eu poderia ter vivido com uma escolha diferente, um passo, um caminho. O que mais me assusta é tudo que não depende de mim. Se aquele carro estivesse um pouco mais rápido, teria me acertado? Se aquela mensagem não tivesse chegado, eu teria saído de casa? Se eu pudesse dizer tudo o que eu queria dizer, ela ainda estaria aqui?

Alguns dias são dias invisíveis. Se você ainda não sabe o que é isso, eu vou te explicar. Um dia invisível é aquele em que tudo que fazemos parece sempre a alguns momentos de distância. Em uma conversa de bar, um grande amigo me disse que nós nunca estamos no presente, nosso cérebro demora alguns milissegundos para processar informações, o que significa que vivemos eternamente atrasados. É claro, talvez isso seja só um papo de bêbado e não faça sentido nenhum. Hoje foi um dia invisível. Nas últimas semanas, eles apareceram com mais frequência do que antes. Geralmente já dá pra saber como vai ser o dia assim que abro os meus olhos e não há muito que eu possa fazer para mudar o curso. Nem todo dia invisível é ruim; estou aprendendo a gostar mais deles.

Acordei às 6h37, como de costume. Não tenho alarme, mas meu relógio biológico funciona bem. Recebi uma mensagem de uma velha amiga, ela queria me encontrar para fechar negócios sobre uma caneca que ela está vendendo. Você coleciona alguma coisa? Eu coleciono canecas. No total, possuo oitenta e sete delas. Os mais diversos tamanhos, formas, estampas e materiais. Não sou o tipo de colecionador que fica olhando para o meu acervo, faço questão de usar todas elas, com um rodízio muito bem calculado. Gostaria muito de ser uma pessoa organizada, com estantes dispostas por cor ou tamanho, mas se você entrar em qualquer cômodo do apartamento provavelmente vai se deparar com pelo menos quinze canecas espalhadas, a maioria com um saquinho de chá pendurado. O chão, as paredes, os móveis, tudo tem tons terrosos e cinzas que dão a impressão que o ambiente está sempre ligeiramente sujo e os móveis rasgados. Talvez estejam mesmo, eu não presto muita atenção nisso.

Marcamos um encontro em uma livraria perto da casa dela. Para chegar lá, pego um metrô e ando por mais quinze minutos. Gosto de caminhar pela cidade, olho para as pessoas e me pergunto se elas se sentem visíveis. Seria bom se todo mundo soubesse se sentisse importante. Não importante demais para esquecer de olhar para os lados, mas importante o suficiente para se sentir bem-vindo no mundo.

De longe, já conseguia avistar a entrada colorida da livraria; só precisava atravessar a rua. Nesse ponto, preciso fazer uma observação. Sim, eu fui desatento, e com certeza, eu dei sorte. O sinal ainda estava aberto para os carros, mas o pálio prata estava consideravelmente longe e a rua era curta. Três passos no asfalto, me desequilibro em uma fresta e caio no chão. Sem querer parecer dramático, mas você já percebeu como o mundo desacelera quando estamos caindo? O sinal fechou. O carro parou com poucos centímetros de sobra entre nós dois, e pude ver com clareza a expressão de descontentamento da motorista. Me desculpei com pensamentos e um balanço de cabeça.

Finalmente, lá estava eu, um pouco atrasado e com as roupas amassadas, mas estava lá. A livraria era espaçosa e tinha um cheiro de papel novo e desinfetante de pinho.  Nos fundos, um pequeno espaço com mesas, poltronas e uma bancada que vendia café. Ela estava com um embrulho, um biscoito e uma garrafa de água com gás em cima da mesa. Não sorriu quando me viu; apenas esperou que eu me aproximasse e tomasse o lugar a sua frente. Eu posso ter esquecido de mencionar que nós namoramos por doze anos, e a caneca em questão já era minha, mas desapareceu três dias depois do término. Eu nunca quis acusá-la de nada, e acredito que isso a tenha deixado ainda mais irritada, pois era exatamente a sua intenção.

Olhando para seus cabelos perfeitamente cacheados, tive alguma dificuldade em lembrar o motivo de tê-la deixado. Isso não importa agora, principalmente hoje, um dia invisível. Eu não costumo me lembrar de muitos detalhes desses dias. Fico tranquilo em saber que tivemos uma conversa cheia de lágrimas, sentimentalismos e saudade, e eu vou acordar amanhã lembrando vagamente de algumas frases, talvez da mancha de água sanitária na gola de sua blusa, e do pálio prata. Ela percebeu meu desconforto enquanto eu pegava a minha carteira para pagar o resgate pelo item sequestrado e ri, fazendo sinal para que eu a guarde. “Você leva tudo a sério demais”, ela diz. É difícil parar de imaginar uma vida com alguém que te conhece tão bem.

Eu ainda acredito no futuro. É verdade que pensar sobre o futuro é, essencialmente, pensar no passado. Em alguns dias, eu tenho medo de repetir o passado; em outros, eu o desejo mais do que qualquer coisa na minha vida. Eu preciso entender que nunca mais vou ter dezesseis anos. Preciso entender que estou mais próximo dos quarenta do que dos dezoito. Isso não um problema, é só uma verdade.

Resolvo voltar o caminho inteiro andando, uma caminhada de cinquenta minutos. Talvez as pessoas ainda não estejam preparadas para viver dias visíveis. É melhor esperar pelo amanhã.


Gabi Guarabyra

É atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no Coletivo Feminino e no Núcleo Prisma.


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