Pelas bandas daqui: as bandas de música civis e a influência da imigração italiana

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 12, 2020 – Vitor Taxa | Pelas bandas daqui: as bandas de música civis e a influência da imigração italiana


As bandas de música são uma das grandes demonstrações da diversidade cultural brasileira. Presentes em quase todos os cantos do território brasileiro, elas são importantes mobilizadoras da comunidade em seus momentos de celebração e também de despedidas.

O surgimento, a formação, a organização, o desenvolvimento e a atuação das bandas de música, mesmo sendo essas instituições fenômenos muito antigos dentro do país, ainda são pouquíssimos estudados, ficando os trabalhos limitados a atuações dos seus fundadores, às dinâmicas de ensino e à presença em um espaço geográfico definido, o que torna a escrita sobre o tema uma tarefa de grande dificuldade. Tal fato demonstra a necessidade de pesquisas que tragam à tona a rica história dessas instituições.

Minas Gerais é o epicentro da vida das bandas de música no Brasil. Suas 438 bandas registradas marcam o compasso da vida no interior e nas cidades maiores, acumulam histórias, fazem parte da história, misturam as classes sociais no mesmo tom e na mesma regência, ensinam, explicam, oferecem oportunidades de vida e futuro. O termo “banda” vem da palavra bandeira ou, ainda, da palavra bando. Independente da definição do dicionário, as bandas se configuram como instituição, na maioria das vezes afastada ou impedida do objetivo econômico, têm orgulho de sua coletividade e participação, traduzindo talvez a forma mais pura do som da democracia.

Banda União XV de Novembro – Mariana – MG (19020

Os poucos registros indicam a formação da primeira banda civil em 1554, na região de Santos, formada principalmente por imigrantes lusitanos. Durante o processo de colonização existem informações sobre bandas compostas por escravizados em todo o interior do Brasil. Esses grupos não tinham a mesma definição de hoje, eram conhecidos como “charamelas” em decorrência de uma espécie de clarineta com o mesmo nome.

No século XVIII surgem no Rio de Janeiro e na Bahia as “Bandas de barbeiros” em substituição aos charameleiros do século XVI. A atividade de barbeiro era exercida por ex-escravizados ou ainda aqueles que estavam a serviço de seus senhores e que, nos momentos de lazer, dedicavam-se à atividade musical.

O século XIX vai marcar a formação das bandas militares, principalmente com a chegada da Família Real trazendo a “Charamela da Brigada Real da Marinha”. Podemos citar, também, a formação da “Banda da Fazenda Real”, composta exclusivamente por escravizados organizados por padres Jesuítas, em que os componentes, por sua condição, eram obrigados a se dedicar a um instrumento musical e às atividades artísticas. O repertório dessas bandas incluía marchas, valsas, quadrilhas e, principalmente, peças sacras e transcrições de óperas.

A partir da segunda metade do século XIX, as movimentações de imigrantes europeus se intensificam no Brasil, destacando-se aquelas vindas da península itálica. Grupos com as mais variadas especialidades profissionais desembarcam nos portos brasileiros como profissionais liberais, arquitetos, médicos professores e, claro, músicos.

Proporcionalmente, os músicos eram maioria nesses movimentos migratórios, uma vez que vinham com companhias teatrais e líricas, durante turnês e, devido à falta de concorrência em território brasileiro, acabavam por ficar e estabelecer a vida. Nesse sentido, é possível identificar dois momentos da presença e influência italiana na formação das bandas de música civis em território brasileiro: um na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul; e o outro no Estado de São Paulo.

No caso gaúcho identifica-se, na última década do século XIX, a atuação de músicos italianos no ensino musical. Nomes como Garbini, Légori, Luchesi lecionaram música e participaram, em sociedades amadoras da região porto-alegrense, de atividades religiosas e teatrais. Um exemplo específico pode ser usado: em 1924, assume a administração da capital gaúcha o intendente Otávio Rocha, que deu continuidade a uma série de reformas urbanísticas do seu predecessor. Entre essas reformas constava a criação de uma Banda Municipal, que ficaria a cargo de José Corsi, italiano radicado no Brasil na segunda metade do século XIX. Corsi escolhe para regente da banda o também italiano Giuseppe Leonardi que, após uma entrevista com o prefeito, relata não ter visto no Brasil pessoal capacitado para ocupar as cadeiras de uma banda de música e que, se fosse da vontade de todos, retornaria a sua terra natal para arregimentar músicos que fizessem parte dessa instituição e tivessem condições técnicas para tanto.

Em 1926, Giuseppe Leonardi regeu a primeira apresentação da Banda Municipal de Porto Alegre ocorrida no Teatro São Pedro, à época principal teatro da cidade. A banda seguiu sua trajetória de sucesso até a década de 1950, quando iniciou sua fragmentação e foi substituída pelo projeto da Orquestra Sinfônica de Porta Alegre — Ospa.

O Almanaque da Província de São Paulo, de 1873, registrava 28 bandas civis em atividade, uma na capital e as demais no interior. Mesmo com um número considerado alto, as referências sobre a passagem dessas corporações são pouquíssimas. Somente no final do século a atividade musical das bandas foi impulsionada, principalmente, por movimentos migratórios na região, especialmente de italianos.

Existem relatos de que, no bairro paulista do Brás, ocorriam concursos de bandas civis com premiação em libra esterlina. Em um desses eventos aconteceu a participação de uma banda italiana chamada “Bersaglieri”. No que diz respeito ao interior do Estado paulistano, o vínculo entre a imigração italiana e a formação das bandas civis é muito presente. As cidades de Itapetiniga e Itu dispunham de suas respectivas bandas e músicos, com forte participação de imigrantes italianos.

Esses músicos italianos, ainda que amadores, introduziram arranjos de óperas adaptados para a formação de banda, com destaque para as obras dos compositores italianos Rossini e Verdi. Para o caso da cidade de Itapetininga é possível destacar a atuação do músico italiano Edmundo Cacciacarro (1890-1962), que dirigiu a Corporação Musical Lira de Itapetininga com uma significativa produção musical de 87 dobrados, 42 polcas, 19 valsas, 14 sambas além de uma diversidade de obras para piano.

A cidade de Campinas também foi influenciada pela música italiana com a atuação do imigrante Luiz Di Tulio maestro da Banda Italiana que tinha seu espaço de atuação no coreto do Passeio Público, local de lazer criado em 1876 na cidade campineira. Ainda em Campinas foi criada em 1895 a Banda Ítalo-Brasileira, composta também por imigrantes, que tempos depois acabou por mudar seu nome e passou a se chamar Banda Musical Carlos Gomes, instituição ativa até hoje.

As bandas civis assumiram seus lugares na sociedade, no cotidiano, na memória e no afeto das pessoas desde seu aparecimento em território brasileiro. O coreto, a praça, a rua e também o palco são seus espaços, alguns mais abandonados e substituídos pela ação da modernidade ou da própria passagem do tempo. Mesmo assim, é impossível ficar indiferente à passagem de uma banda tocando, não balançar a cabeça ou bater o pé ou ainda abrir um sorriso diante tanta beleza.


Referências bibliográficas:

Chagas, Robson Miguel Saquett. Tradição e transformação nas práticas musicais da Corporação Musical NossaSenhora da Conceição de Raposos — MG. — 2015, 133 fls., enc.; il.

Silva, Thalliana Barbosa da. Banda Marcia Augusto dos Anjos: processos de ensino-aprendizagem musical. João Pessoa: 2012, 152fl.:il.

Imigração qualificada: o estudo de caso de músicos italianos na cidade de Porto Alegre (1875-1930) – Leonardo de Oliveira Conedera – XXVII Simpósio Nacional de História – Anpuh

SAMPAIO. Luís Paulo. A influência da música italiana no Brasil: Carlos Gomes na Itália. R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 173 (457):305-316, out./dez. 2012.

Silva, Cláudia Felipe da. Bandas de Música, imigração italiana e educação musical. O corpo musicale “Umberto I” de Derra Negra, uma localidade interiorana com forte presença italiana./Claudia Felipe da Silva.: Campinas, SP (s.n.) 2009.


Vitor Taxa

Graduado em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora
Professor de História no Ensino Fundamental, Médio e Pré Vestibular
Músico Trompetista, estudei música na Sociedade Euterpe Monte Castelo em Juiz de Fora – MG, atuei como músico profissional por duas décadas.


%d blogueiros gostam disto: