O empreendedorismo dos imigrantes italianos no Rio Grande do Sul

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 12, 2020 – Antonio de Ruggiero | O empreendedorismo dos imigrantes italianos no Rio Grande do Sul


Nas colônias agrícolas

O conceito de empreendedorismo relativo à imigração italiana no Rio Grande do Sul é frequentemente associado à perspectiva histórica da colonização agrícola que caracterizou o desenvolvimento de algumas regiões especificas do estado a partir de 1875. A historiografia mais conceituada reconstruiu as etapas principais de um processo de consolidação empresarial iniciado com a concentração de atividades correlatas ao sistema da pequena propriedade e da policultura, introduzidas pelos colonos imigrantes.

De 1875 até 1914, cerca de 100 mil camponeses — na maioria vênetos, trentinos ou lombardos — chegaram às colônias agrícolas do interior, respondendo às indicações do governo imperial brasileiro. Depois das experiências anteriores com imigrantes alemães, o projeto político era continuar com a importação de mão de obra de europeus, aos quais se vendiam terras ainda inabitadas e virgens para aumentar a produção agrícola e favorecer o necessário incremento demográfico no estado.

Foto: Família Boff, 1904 (autoria Domingos Mancuso)

As primeiras colônias foram úteis para desenvolver o sistema da pequena propriedade e uma policultura mais rica a partir da proeminência do milho, complementado pelo arroz, feijões, batatas, mandiocas e muito trigo. Ainda mais importante foi a implantação permanente das videiras. O vinho logo se tornou o principal produto comercial da região, caracterizando até hoje o território da Serra Gaúcha, também em termos de valorização enoturística. A partir dos últimos anos do século XIX, ao lado das atividades agrícolas, começaram a se diferenciar as profissões mais variadas de madeireiros, construtores de móveis, ferreiros, sapateiros, alfaiates, seleiros etc. Com a melhoria das estruturas viárias, graças também aos investimentos públicos, o escoamento comercial da produção conheceu uma importante aceleração. Desde os primeiros anos do século XX, os colonos Abramo Eberle e Antonio Pieruccini levavam o seu vinho de Caxias do Sul para os promissores mercados de São Paulo, onde a bebida era muito apreciada nas fazendas de café, que empregavam multidões de italianos.

Outra cultura de destaque foi a da erva-mate, que originou o nascimento de uma verdadeira indústria, como a de Angelo De Carli e Samuele Alovisi, que utilizaram novas técnicas de produção. Sem falar da extração da madeira que respondia também à necessidade de construção das casas dos colonos, das pipas para a conservação do vinho, do desmatamento para a criação dos lotes coloniais e pela abertura de novas estradas que favoreciam os comércios. Essa atividade teve sempre uma grande demanda, e o número de serrarias aumentou sensivelmente nos primeiros anos dos séculos XX. Nomes como Dal Bó, Giacomet, Meneghetti, Travi, Maggi, Grando, De Zorzi — só para citar alguns — caracterizaram a origem da atividade dos grandes madeireiros no Rio Grande do Sul.

Enfim, depois das dificuldades dos primeiros anos, quando o isolamento das colônias fazia com que os imigrantes produzissem quase todo o necessário para o consumo local, a tenacidade na conquista de novos mercados e a luta pelo aproveitamento das oportunidades teriam sido os fatores principais que favoreceram o crescimento comercial de toda a região colonial. A produção de gêneros alimentícios e matérias-primas foi direcionada para o abastecimento do mercado interno, consolidando as atividades econômicas dos imigrantes e evitando a dependência do mercado internacional. O colono italiano tinha uma propensão à criatividade e ao conhecimento técnico básico em campo artesanal, principalmente para fabricar os instrumentos necessários para agricultura. Em pouco tempo a produção foi aprimorada em nível de manufatura, e de pequenas oficinas nasceram verdadeiras indústrias. Os setores mecânicos e metalúrgicos, em particular, destacaram-se na região colonial italiana. Abramo Eberle, por exemplo, é lembrado como o pioneiro da indústria dos metais por ter transformado a sua pequena funilaria em um dos maiores estabelecimentos industriais da América do Sul no começo do século XX.

Foto: Metalurgica Eberle, 1912 (autoria de Domingos Mancuso)

Ao mesmo tempo, o setor têxtil cresceu consideravelmente desde o início da colonização italiana, propiciando o surgimento de uma cooperativa, e sucessivamente de verdadeiras indústrias de fiação e tecelagem. Ercole Gallo foi o primeiro com um grande lanifício perto de Caxias do Sul, seguido por outros italianos que investiram na tecelagem. Toda a região colonial que se afirmou nos anos sucessivos como principal polo industrial do Rio Grande do Sul foi historicamente caraterizada pela contribuição econômica dos imigrantes italianos e seus descendentes. Com espírito empreendedor, aproveitando as oportunidades e enfrentando os riscos, os colonos adaptaram-se às exigências do mercado, permitindo um significativo desenvolvimento socioeconômico.

Nos centros urbanos

O Rio Grande do Sul foi caraterizado também por uma imigração urbana “espontânea” de italianos que, desde a primeira metade do século XIX, chegaram diretamente das diferentes regiões, principalmente do Sul da península ou de países fronteiriços, como Uruguai e Argentina. Esses fluxos fortaleceram-se mais tarde com as migrações internas daqueles colonos entrados por meio da colonização oficial, depois de terem passado um tempo nas colônias de povoamento.

Diferentemente do caso paulista, não foram muitos entre os italianos os grandes “capitães de indústria”, enquanto os principais capitalistas foram os alemães. Ao mesmo tempo, porém, vários documentos consulares indicam que, nos primeiros anos do século XX, poucos entre os italianos “trabalhavam para patrões”, enquanto a grande maioria composta “por gente séria e muito empreendedora” era ocupada no comércio de varejo e artesanato, alcançando discretas condições econômicas. Nas cidades, os imigrantes alimentaram dinâmicas de defesa e valorização de um capital social específico relativo aos laços de solidariedade étnica que, associados à algumas competências técnicas, instrução e poucos capitais disponíveis, estimulou o nascimento de uma pequena burguesia de trabalhadores autônomos. Às vezes formavam verdadeiros monopólios, ocupando determinados espaços econômicos em boa parte deixados livres pela estrutura ocupacional dos lugares de acolhimento. Já antes da colonização, na capital, assim como nos centros menores do interior e da fronteira, encontramos grupos de vanguardas italianas que estabeleceram enclaves comerciais, criando as condições favoráveis para construir campos sociais que ligavam o país de origem com o de destino.

A partir desses pioneiros, estabeleceram-se canais de comunicação que facilitaram o nascimento das primeiras redes “empresariais”, sempre mantendo um vínculo transnacional com a sede originária. Não por acaso, nos anos sucessivos, muitos deles se afirmaram no comércio “étnico” de gêneros alimentícios, assim como estabeleceram em todos os centros principais “casas de despachos”, verdadeiros depósitos de produtos originários da península e da vizinha região colonial italiana. O cônsul Ciapelli descrevia a capital, em 1905, como um centro dinâmico e quase frenético, onde os cerca de 15 mil italianos presentes encontravam-se “em todo lugar” com suas lojas e bancas no mercado central. Ninguém estava “ocioso”.

Em 1920, registrava-se um número de cerca 30 mil italianos — incluindo os descendentes — entre os 200 mil habitantes totais em Porto Alegre. Entre os peninsulares havia uma significativa quantidade de pequenos, mas “abastados” comerciantes e industriais, muitos artesãos e poucos profissionais liberais. No entanto, com a aceleração da industrialização, aumentou também a quantidade de operários. As principais casas de comércio alimentício, de fato, ampliaram-se, frequentemente com a abertura de pequenas fábricas que produziam industrialmente alimentos de “tipo italiano”, salientando a ligação com a cultura de origem. Surgiram logo fábricas de conservas, ensacados e, principalmente, de massas, confeccionadas seguindo rigidamente as “técnicas italianas”.

Foto: Alfaiataria Guaspari de Porto Alegre

Outros setores tradicionais ocupados pelos imigrantes foram os da marcenaria e da alfaiataria, além do surgimento de novos ateliês que produziam chapéus e roupas, utilizando frequentemente os apreciados tecidos importados da Europa. No início do novo século, com a expansão e a modernização das principais cidades, se começou a perceber uma influência italiana também no âmbito arquitetônico e artístico com a chegada de arquitetos, engenheiros e mestres de obras. Em particular na capital, em Pelotas e em Caxias do Sul, mas também nos centros mais periféricos, evidencia-se uma proliferação sempre maior de oficinas de mármore, quase sempre empreendimentos de italianos que importavam a pedra da península antes de descobrir e aproveitar o mais barato granito de algumas jazidas locais.

Foto: Vista da fundição e oficina mecânica de Bortolo Triches, Caxias do Sul (autoria Domingos Mancuso)

É interessante ver como também nas localidades menores do estado, em particular nas cidades fronteiriças com a Argentina e Uruguai, muitos compatriotas conseguiram construir discretas fortunas econômicas, iniciando no setor comercial. O jornalista italiano Alfredo Cusano, em viagem no Rio Grande do Sul em 1920, registrava como grupos de pioneiros italianos, provenientes, em parte, dos países vizinhos já nos anos anteriores aos grandes fluxos migratórios organizados, contribuíram na formação de redes de proteção étnica. Inúmeras associações italianas de socorro mútuo surgiram em cidades da fronteira argentina, como Itaqui e Uruguaiana; e da fronteira uruguaia, como Santana do Livramento, Bagé, ou Santa Vitoria do Palmar.

Frequentemente, a partir de alguns pioneiros que na segunda metade do século XIX investiram exitosamente no setor comercial — especialmente de importação direta com a Itália —, criaram-se novas cadeias migratórias. Foi o caso do calabrês Antonio Rotta, que em 1869 se estabeleceu com um comércio próprio em Santa Vitoria do Palmar e deu início a uma cadeia de conterrâneos calabreses que “fizeram a América” começando como mascates. Outros casos exemplares sinalizados foram os dos comerciantes Attilio Mondadori, Salvatore De Grazia e Andrea e Bernardo Schenini, que a partir do comércio tinham se tornados “milionários” na cidade de Itaqui, perto da Argentina. Ou dos irmãos Nocchi, pisanos que construíram uma fortuna com as importações de produtos italianos no pequeno, mas fortemente italiano, centro de Bagé. No porto de Rio Grande, não distante da fronteira uruguaia, registra-se a trajetória de Raffaele Anselmi, pioneiro originário da província de Cosenza, que conseguiu construir uma grande fortuna econômica e favorecer o ingresso de conterrâneos. Essa cidade representa uma exceção pelo grande número de peninsulares empregados nas indústrias, principalmente a partir de 1894, quando o lígure Santo Becchi fundou a “Companhia de Tecelagem Ítalo-Brasileira”, com sede em Gênova.

Finalmente podemos afirmar que, em todo o Rio Grande do Sul, seja agrícola ou urbano, o imigrante italiano tornou-se agente de mudanças e novidades com a introdução de produtos diferenciados e com a criação de novos costumes. Como foi reconhecido também no discurso oficial das autoridades republicanas nas primeiras décadas do século XX, as capacidades empreendedoras do imigrante agilizaram os processos da tão cobiçada modernização no estado.


Referências:

Cinquantenario della colonizzazione italiana nel Rio Grande del Sud: La cooperazione degli italiani al progresso civile ed economico del Rio Grande del Sud, Vol. 1. Porto Alegre: Posenato Arte & Cultura, 2000 (1925).

CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano da esquina. Imigrantes meridionais na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST, 2008.

CUSANO, Alfredo. Il Paese dell’Avvenire. Rio Grande do Sul. Roma, São Paulo, Buenos Aires: L’Italo-Sudamericana, 1920.

FAY, Claudia Musa; DE RUGGIERO, Antonio (orgs.). Imigrantes empreendedores na história do Brasil. Porto Alegre: ediPUCRS, 2014.

FRANZINA, Emilio. L’emigrazione nella storia d’Italia fra intraprendenza e imprenditorialità. In: DE ROSA, Ornella; VERRASTRO, Donato (orgs.). Appunti di viaggio: L’emigrazione italiana tra attualità e memoria. Bologna: il Mulino, 2007.

FRANZINA, Emilio. A Grande Emigração: O êxodo dos italianos do Vêneto para o Brasil. Campinas: Editora Unicamp, 2006.

HERÉDIA, Vania B. M. O empreendedorismo na economia imigrante no Sul do Brasil. In: FAY, Claudia Musa; DE RUGGIERO, Antonio (orgs.). Imigrantes empreendedores na história do Brasil. Porto Alegre: ediPUCRS, 2014.

HERÉDIA, Vania B. M. Processo de industrialização na zona colonial italiana. Caxias do Sul: Educs, 1997.

ROMANATO, Gianpaolo; HERÉDIA, Vania B. M. (orgs.). Fontes diplomáticas: Documentos da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul (4 tomos). Caxias do Sul: EDUCS, 2016.

TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico. São Paulo: Nobel, 1989.


Antonio de Ruggiero

Professor Adjunto do Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PPGH/PUCRS) e docente do Curso de Graduação em História. Com pós-doutorado (programa PNPD/ Capes) na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2013-2016), é doutor em História Moderna e Contemporânea pela Università degli Studi di Firenze (2011) e formado em História pela mesma universidade. Seus estudos têm ênfase em história política italiana (séc. XIX e XX) e história socioeconômica. Nos últimos anos, desenvolveu pesquisas sobre a história da imigração italiana no Brasil com foco particular sobre os aspectos do transnacionalismo; imigração qualificada e empresarial; imigração e urbanização; imigração política, imprensa étnica.


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