Uma pitada italiana na imigração tirolesa em Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – Rita Couto | Uma pitada italiana na imigração tirolesa em Juiz de Fora


Ao observarmos a trajetória de formação de Juiz de Fora, encontramos a presença marcante de estrangeiros, como ocorre em grande parte do Brasil. Tradicionalmente, a historiografia local considera que nossa cidade foi formada especialmente por cinco grupos étnicos: africano, árabe, italiano, português e germânico, sobre o qual abordaremos alguns aspectos.

No ano de 1858, chegaram a Juiz de Fora 1.193 imigrantes alemães contratados por Mariano Procópio para constituírem a Colônia Alemã Dom Pedro II. Era mais uma iniciativa da Companhia União e Indústria, que havia sido fundada em 1853 e empregava esforços para a abertura da estrada de mesmo nome, ligando Juiz de Fora a Petrópolis.

Apesar de serem genericamente identificados como “alemães” pela população juiz-forana, por causa da língua que falavam, nem todos os integrantes desse grupo de estrangeiros eram, de fato, originários das regiões que seriam unificadas por Bismarck e formariam a Alemanha algumas décadas depois.

Passaporte bilíngue do imigrante tirolês David Larcher, natural de Haiming, distrito de Imst, na atual Áustria. Expedido em 1858 e escrito em alemão e italiano, idiomas oficiais da província do Tirol e do Império Austríaco. ACERVO: Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly

Dentre os imigrantes contratados por Mariano Procópio, 277 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, eram nascidas no Tirol, condado localizado nos Alpes Centrais que pertencia ao Império Austríaco e que tinha, como línguas principais, o alemão e o italiano.

Após a Primeira Guerra Mundial, com a assinatura do Tratado de Saint-Germain em 1919, esse território foi dividido em três regiões: Tirol do Norte (Nordtirol em alemão/ Nordtirolo em italiano), Tirol do Leste (Osttirol/ Tirolo dell’Este) e Tirol do Sul (Südtirol/ Sudtirolo). Com predominância da língua alemã, as porções norte e leste tirolesas passaram a integrar a Áustria. Já o Tirol do Sul, com falantes de alemão, italiano e ladino, foi anexado à Itália, constituindo as províncias autônomas de Bolzano e de Trento. Ainda hoje, mais de 60% da população dessa região tem o alemão como língua principal.

Dos 277 tiroleses que vieram para Juiz de Fora, a maioria era originária de cinco dos atuais oito distritos que compõe o Tirol austríaco: Landeck, Reutte, Imst, Innsbruck-Land e Schwaz, além da cidade de Innsbruck. Uma pequena parte desse grupo de imigrantes, 11 pessoas, era da região hoje italiana denominada Südtirol:

  • Johann Beindrechsler: nascido em Innichen (em italiano, Comuna de San Candido, província de Bolzano);
  • Johann Müller, Maria Schrotz Ravensteiner e Johann Telfner: naturais de Lajen (em italiano, Comuna de Laion, província de Bolzano);
  • Joseph Ravensteiner: natural de Villanders (em italiano, Comuna de Villandro, província de Bolzano);
  • Anna Egger Bock: nascida em Mals (em italiano, Comuna de Malles Venosta, província de Bolzano);
  • Peter Mitterhofer: natural de Sand in Taufers (em italiano, Comuna de Campo Tures, província de Bolzano);
  • Peter Nitz: nascido em Tschötsch, distrito de Brixen (em italiano, Scezze, Comuna de Bressanone, província de Bolzano);
  • Joseph Barth: natural de Untermais (em italiano, Maia Bassa, Comuna de Merano, província de Bolzano);
  • Elias Hofer: natural de Walten (em italiano, Valtina, Comuna de San Leonardo in Passiria, província de Bolzano) e
  • Antonio Antoniazzi: nascido em Cavalese (em italiano, Comuna de Cavalese, Província de Trento).

Todos os tiroleses que imigraram para Juiz de Fora tinham em comum um forte contexto cultural, com seu folclore, seus trajes típicos, os costumes, a culinária, as músicas, a arte popular e a marcante fé católica.

Registro do tirolês Antonio Antoniazzi (nº 75) feito pela Companhia União e Indústria. Nascido em Cavalese, na atual Província de Bolzano[T1] , Itália, ele era casado com Therese Einkemmer (nº 76), natural de Thaur, Tirol, na atual Áustria. ACERVO: Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly

Conviviam em harmonia com os colonos de origem alemã e com os habitantes de Juiz de Fora. Na Colônia Alemã Dom Pedro II, adquiriram terrenos vizinhos, formando uma sólida comunidade tirolesa. Criaram uma banda de música e construíram a primeira capela católica da região, que dedicaram a Sant’Ana (ainda existente e tombada como patrimônio cultural municipal) e deixaram sólidas contribuições às gerações seguintes.

A divisão geográfica (e política) do Tirol entre a Áustria e a Itália aconteceu 60 anos após a vinda dos imigrantes para Juiz de Fora, mas, por mais de cinco séculos, o território tirolês esteve unido. Ainda hoje a autêntica cultura alpina, além do idioma alemão, mantém coesa a identidade desse povo.


Referências bibliográficas:

ALTMAYER, Everton; BONATTI, Mário (Org.). O Dialeto Trentino no Brasil. Blumenau: Ed. Nova Letra, 2016, 385 p.

COUTO, Rita. São Pedro: o coração da colônia alemã de Juiz de Fora. Juiz de Fora: Editar Editora, 2018, 300 p.

Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly (arquivo documental) – Pequeno guia da história da imigração alemã e tirolesa em Juiz de Fora:  https://view.publitas.com/b5a1ccce-a0c9-4dc8-94a5-d7a6b7b83df6/pequeno-guia-da-historia-da-imigracao-alema-e-tirolesa-em-jf/page/1


Rita Couto

Jornalista formada pela UFJF, desde 2005 dedica-se à pesquisa sobre a história da imigração germânica e da Colônia Alemã D. Pedro II em Juiz de Fora. Atual presidente do Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly, é autora de dois livros: “Santana: uma capela tirolesa na colônia alemã de Juiz de Fora” e “São Pedro: o coração da colônia alemã de Juiz de Fora”. Integra a Comissão de Bens Culturais da Arquidiocese de Juiz de Fora e o Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora.


%d blogueiros gostam disto: