Casa D’Italia e Grupo Divulgação

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – José Luiz Ribeiro | Casa D’Italia e Grupo Divulgação


Os anos 1960 marcam a importância da Casa D’Italia para o teatro em Juiz de Fora. O salão de festas tinha um uso múltiplo para bailes e outros eventos, mas o palco marcou um encontro com as encenações de profissionais e amadores da cidade e de outros centros.

Até os anos 70 podíamos assistir a espetáculos vindos do Rio de Janeiro. Eva Tudor, Dercy Gonçalves, Jayme Barcelos e Agildo Ribeiro foram aplaudidos naquele salão. As escolas promoviam bailes de formatura e renomados cantores se apresentavam.

O palco é em espaço italiano, uma forma de apresentação frontal aos espectadores. O espetáculo era desenhado em forma concebida pelo Renascimento, dando margem à perspectiva. O espetáculo poderia ser usufruído como um quadro com a presença viva em deslocamento pelos atores.

Dois enormes telões guarneciam o palco. Um representando Veneza, a cidade de meu coração, e outro, o Vesúvio. Os quatro camarins eram pequenos e havia, em um deles, a instalação de um aparelho de toca-discos que servia para a sonoplastia.

A iluminação era a de uso dos palcos tradicionais até a revolução dos anos 1950. O palco era guarnecido por uma sequência de gambiarras — canaletas com luzes em séries azul, vermelha e branca. E, na parte frontal, encontrávamos luzes na ribalta.

Foi no ano de 1963, poucos anos antes de ser criado o Grupo Divulgação, que apresentei um espetáculo intitulado “Brasil, espaço 63”, um trabalho juvenil que recortava, com cenas de danças e textos, a influência da imigração na cultura brasileira. Os dias 15 e 16 de novembro marcaram esse encontro.

Nesse espetáculo, atrevidamente, adaptei e encenei um trecho do “Inferno”, de Dante Alighieri, com atores operários da Industrial Mineira. Era uma das cenas que referenciava a Itália. A cultura italiana sempre marcou minha vida, embora minha genealogia fosse a da pátria de Camões. A ópera sempre me encantou desde a adolescência e o cinema nos contava a história do grande Caruso.

Foi uma jornada insana para vender ingressos, alugar o salão e apresentar no palco onde o lendário Natálio Luz já dirigia o Teatro Universitário. O entusiasmo juvenil nos propõe tarefas arrojadas. E o palco era um sonho.

Animados, em 1964, voltamos ao palco da Casa D’Italia com “Sinfonia de uma favela”, ensaiado durante o ano inteiro e apresentado nos dias 14 e 15 de novembro pelo “Grupo Jovem do Contato”, sediado no Salão São Geraldo da Igreja da Glória. Um elenco de cem componentes, entre corpo de baile, atores e músicos. Usamos as varandas dos fundos do palco com barracas de lona como camarins.

Adaptar ao regulamento do aluguel de, em 24 horas, ocupar o espaço, montar cenografia e dar um ensaio geral com um elenco numeroso era um desafio enorme. Cumprimos a tarefa, fizemos sucesso e voltamos para mais uma apresentação. Desejo e paixão são como água na laje, nada os detém. O grupo de jovens desapareceu. Jovens crescem e buscam seus rumos.

Em 1966 criamos o Centro de Estudos Teatrais — Grupo Divulgação, na Faculdade de Filosofia e Letras. O palco da Casa D’Italia apresentava uma programação constante e chegou mesmo a criar uma companhia de teatro, o TECI — Teatro da Casa D’Italia, capitaneado por Natálio Luz. Mais tarde, tornou-se o Teatro de Comédia Independente.

Em 1967, durante a “Semana do Folclore”, promovida pelo professor Wilson de Lima Bastos, voltamos a nos apresentar no espaço com “Cancioneiro de Lampião”, de Nerthan Macedo, musicado por Sueli Costa. Começa aí uma série de espetáculos que vão se estender até 1971. Com a criação do Forum da Cultura, a companhia se muda para lá.

Estreitamos o laço com a administração da Casa D’Italia e Otávio Carello se tornou um grande amigo. Já tínhamos atingido um certo reconhecimento e nossos espetáculos já eram dignos de notas e premiações. Ocupamos, por um tempo, uma das salas da Umberto I, onde ensaiávamos também.

Em 1968, durante os anos de chumbo, criamos espetáculos com textos de grandes dramaturgos internacionais e, em dezembro, encenamos “Electra”, do tragediógrafo grego Sófocles. O início dessa parceria nos deu oportunidade de aprimorar nosso trabalho. Estudávamos muito e crescemos no palco da Casa.

Inventar em cima da pobreza sempre foi uma forma de sobrevivência. Ainda não tínhamos uma tecnologia apurada, embora Ziembinski tivesse feito isso em 1943, com o “Vestido de noiva”. Descer uma gambiarra, usar filtros de papel celofane em direção a um fundo cinza, nos deu o primeiro ciclorama. Uma profundidade de um céu azul onde a personagem se debatia. Uma rampa descia até a plateia, por onde o coro descia e evoluía. O palco italiano se tornou também espaço de arena. O palco estava sem a cortina. Por uma proposta de Carello, não pagaríamos o aluguel em troca de uma cortina. Aceitamos o trato e estreamos com uma cortina de damasco verde, metros e metros comprados na Casa Chic, com Dona Munira. O espaço avançou com o novo feito.

Dezembro de 1968 marcou a chegada do Ato Institucional nº 5. O ano que começará a ter policiais federais, com textos nas mãos, acompanhando a fala dos atores. De repente, um público diferente: o censor. E foi neste centro cultural que aprendemos os sinais do Apocalipse. Mas, felizmente, aprendemos a falar com vozes de autores ancestrais; nosso protesto era um álibi perfeito para não termos caladas nossas vozes. Voltamos aos clássicos. A fala do coro que encerrava “Electra”, falava por nós:

“Bravos filhos de Agamenon
Quantos males suportastes
Por amor à liberdade
Ei-la, enfim, recuperada
Graças à bravura vossa”.

Ali também iniciamos um costume que, por longo tempo, oferecemos ao público. Uma exposição alusiva ao teatro grego que ocupou o saguão da Casa D’Italia com fotos, citações e máscaras. O público recebia, além de um programa repleto de informações sobre o autor a peça e equipe, uma aclimatação antes do espetáculo que lhe seria oferecido.

A avant-première de “O Diário de um louco”, de Nicolai Gogol, em adaptação de Rubem Rocha Filho, seria apresentada em espetáculo vendido ao DCE, dentro da Semana dos Calouros. A chegada da Polícia Federal, na hora do espetáculo, proibia a apresentação, que mais tarde poderia ser liberada com cortes, graças à interferência do Major Felix, um amigo da arte. Nessa noite a apresentação se fez como “ensaio geral”.

Diário de um louco

De 23 a 29 de abril de 1969, apresentamos o espetáculo com cortes. O personagem que enlouquecia, nas falas cortadas, colocava um lenço na boca enquanto durasse o tempo textual. O silêncio era eloquente. Falava muito sobre os tempos de censura em que vivia o país naquela época.

O porão do palco guardava tesouros aos nossos olhos. Madeiras corroídas pelo tempo. Usando os bastidores, que sempre forrávamos a cada espetáculo, como suporte para aquele mundo de caibros corroídos, criamos um universo expressionista para os delírios de Antonino Barnabé, o bedel que enlouquecia diante da burocracia. A cenografia suspensa por cordas, que se movimentava projetando sombras, mostrava o acerto da direção de Maria Lúcia Campanha da Rocha, hoje, Ribeiro.

De 16 a 26 de agosto de 1969, “Pequenos Burgueses”, de Máximo Gorki, foi levado à cena. Uma sala da casa, no melhor estilo de cenário gabinete, cuidadosamente criada por Lucas Marques do Amaral, ambientava o mundo da família russa às vésperas da revolução. Um jogo de ideias e ideais, luta de classe em busca de justiça social.

Cenário de Pequenos Burgueses

Rubem Rocha Filho falou sobre a montagem: “O espetáculo é cuidado em seus mínimos detalhes e as criações dos personagens atingem um bom nível, chegando mesmo a ter pontos atingindo a perfeição”. Para um grupo amador de teatro universitário, o encontro com grandes nomes do teatro nacional era um ponto importante. Nomes como Luiz Linhares, dentre outros, estiveram no salão para ver nossos espetáculos.

Prosseguindo a política dos grandes textos mundiais, em 1970 mostramos “A visita da velha senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, no primeiro semestre e “Escola de Mulheres”, de Molière, que cumpriu temporada de 20 a 26 de novembro. Uma grande exposição sobre “Vida e obra de Molière”, foi realizada no hall da Casa. Um ano com muitas premiações. O palco, por suas dimensões, nos permitiu montar cenários de dois andares, em criações cenográficas de Lucas Marques do Amaral. Foram anos gloriosos.

A visita da Velha Senhora. 
Escola de Mulheres. Grupo Divulgação

O ano de 1971 assinala um grande encontro com Paschoal Carlos Magno, descendente de imigrantes italianos e nome de grande significado para o teatro de estudante brasileiro. Ele veio para conhecer nosso trabalho, que já tinha saltado os caminhos de Minas. A montagem de “Maria Stuart”, de Schiller, foi um grande desafio. Quatro horas de espetáculo, numa tradução primorosa de Manuel Bandeira, mostrou nosso arroubo juvenil e fomos abençoados com laços de amizade ao grande “Estudante Perpétuo do Brasil”.

A partir daí, colecionamos prêmios em vários festivais nacionais. Foi com uma remontagem de “Cancioneiro de Lampião”, de Nerthan Macedo, que voltamos ao palco dessa Casa que nos deu oportunidade de aprender um pouco mais sobre teatro como instrumento de paixão. Voltamos do Rio de Janeiro com uma vasta premiação. E, em dezembro, nos despedimos desse palco que marcou nossa história.

Grandes dramaturgos italianos foram encenados pelo Grupo: “Arlequim, servidor de dois amos” e “Il teatro comico”, de Goldoni; “Seis personagens em busca de um autor” e “Esta noite se improvisa”, de Pirandello, nos premiaram nacionalmente. “Sementes de paixão” falou do imigrante apaixonado pela Duse, o pai de Paschoal. Esse espetáculo foi comemorativo pelo Grupo Divulgação ter se tornado Patrimônio Imaterial do Município.


José Luiz Ribeiro

Doutor em Comunicação e Cultura/ UFRJ. Mestre em Teatro/UNIRIO.
Dramaturgo, diretor e ator em teatro.
Coordenador Geral do Centro de Estudos Teatrais – Grupo Divulgação


2 comentários em “Casa D’Italia e Grupo Divulgação

  1. Excelente historicidade. Parabéns pela trajetória José Luiz. Temos que trabalhar pela permanência da casa de Itália.

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  2. Que não se perca a história do teatro em Juiz de Fora e outros se juntem a completa-lá. Este foi um momento em que a cidade relutou sem recursos próprios , mas figurou com grandes trabalhos o cenário nacional . Que se pare um pouco e lembre da luta desses “ bravos filhos de Agamenón que ousaram e colocaram cidade no mapa da cultura nacional . Memória é tudo o que fica dessa arte efêmera que é o teatro.

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Comentários encerrados.

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