A Cultura vista do rio

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – Eridan Leão | A Cultura vista do rio


“Um rio não divide
duas margens.
O que se planta nos lados
é o que o separa.”

Edimilson de Almeida Pereira[i]

Foto: À margem do rio – Eridan Leão

Falar de Cultura é falar de nossas vidas, é aquilo que é sem ser uma unanimidade; é desvelar o que ainda está velado; é o que conhecemos sem ser a totalidade. Ao dar destaque às informações culturais geradas ao longo de dezenas de anos em um lugar, é importante ter uma visão holística e/ou uma visão fotográfica a partir de uma lente grande angular, para que se veja não somente o que é unanimemente vivenciado, mas também o que não é visível aos olhos de boa parte da população.

Já sabemos que a Cultura não é uma, são dezenas de culturas que brotam em diversos territórios, bairros, cidades e grupos originados por um processo histórico multifacetado, poliédrico, narrado por diferentes almas, guardiãs de suas múltiplas origens materiais, imateriais e cósmicas. Presente, passado e futuro se revezam, se cruzam e se perpetuam através dos meios de comunicação, tangíveis e intangíveis, como são os monumentos, as edificações, os documentos históricos, as artes, as fotografias, as narrativas orais, a ciência e, mais recentemente, as mídias digitais, que criam e disparam informações a um só tempo. É justo dizer que, para se entender a cultura de uma sociedade, é necessário identificar o que é a narrativa oficial e o que é “não oficial”, o que foi esquecido, o que ficou fora dos grandes pilares do saber local. O reconhecimento do conflito permanente entre uma narrativa histórica oficial e as histórias identitárias de grupos constituídos por tradição e consanguinidade resulta em um saudável exercício democrático de cidadania, que amplia a percepção de todos sobre a prática verdadeiramente cultural compartilhada em qualquer cidade.

Juiz de Fora tem uma origem peculiar em sua formação, já que não participou do ciclo barroco do ouro[ii], mas do riquíssimo ciclo do café da Zona da Mata mineira. Uma situação peculiar que rendeu, em quantidades expressivas, centenas de escravos e alguns barões. No entanto, a história oficial omitiu de sua narrativa a presença da população negra na formação do ethos social, político e cultural, preferindo exaltar, com inegável justiça, a participação do trabalho imigrante. Atualmente, a cultura negra resiste, em Juiz de Fora, pela oralidade e por extensa produção acadêmica e práticas de ações coletivas, literárias e musicais[iii].

Com a mão de obra escrava, o capital cafeeiro e a imigração, a cidade se inscreve no ineditismo[iv] da industrialização, do comércio, das artes, das letras, do ensino e da construção civil, onde a arquitetura floresce a partir de meados do século XIX. A industrialização criou centenas de empregos para homens, mulheres e crianças, em um tempo em que ainda não havia a proteção das leis trabalhistas. O poeta Yacyr Anderson Freitas é um perspicaz observador desse tempo. Ele diz que uma parte de qualquer cidade fica sempre submersa, sempre à margem da história. Se referindo às empresas, Cia. Têxtil Bernardo Mascarenhas e à Cia. Pantaleone Arcuri, diz que restam alguns sobrados suntuosos, um ou outro prédio velho comercial do velho conjunto da Praça da Estação, mas que nada resta da vilagem da Colônia Pedro II e das demais vilagens, nenhum registro físico. Que pouco restou do percurso operário, do trabalho infantil. Por velhas fotografias ele conclui que, implacável, o patrimônio industrial demite da história, por fim — e sem justa causa —, seus empregados”[v].


Essas ausências, a importância da mão de obra escrava e o trabalho operário assalariado na história oficial, criaram um discurso incompleto sobre a identidade da cidade. Muito há para se contar e se ouvir ainda sobre esses temas, que iluminarão sobremaneira a narrativa do processo cultural de Juiz de Fora.

A aquisição de novas culturas através da imigração foi, ao contrário, notória e celebrada. No caso específico da cultura italiana, tema de interesse desta publicação, a construção de edificações, belas e artisticamente planejadas, deu ares cosmopolitas para os esforços de urbanização, onde os estilos neogótico, eclético, art déco e art nouveau são estudados e preservados até hoje. Pantaleone Arcuri e Rafael Arcuri deixaram registradas na pedra e no cal suas assinaturas, que caracterizam o mobiliário urbano de grande parte do centro — arquitetura e arte imponentes, como o Cine-Theatro Central e a Casa D’Itália[vi].

A Cultura de Juiz de Fora é extremamente rica em obras e autores. Os inúmeros fazeres culturais definem, e redefinem continuamente, as artes e as manifestações culturais da cidade. Do passado, a história cumpre sua missão ao deixar resíduos, tangíveis ou intangíveis: “(…) as fotografias de bairros hoje demolidos, de localidades rurais hoje desfiguradas e desoladas compensam a ligação precária que temos do passado”[vii]. No presente, só para usar um exemplo, as cervejarias[viii] são um legado da imigração alemã, que hoje identificam a cidade como um importante polo mineiro produtor de cervejas artesanais.[ix]

As artes são criações humanas que resultam em peças únicas, o fazer artístico nunca se repete. A cidade possui uma grande diversidade de manifestações tradicionais e artísticas, presentes no universo afetivo familiar e comunitário, que são representadas, em sua maioria, pelas folias de reis, carnaval, danças, rituais, festas religiosas, benzeções e pela oralidade. Da mesma forma, outros grupos culturais também se destacam, como os centros literários e de memória, as bandas sinfônicas (poucas), as bandas de rock, os grupos de percussão, os clubes de músicas etc. Juiz de Fora é pródiga em gerar infinidade de artistas — de teatro, de televisão, cinema —, literatos, músicos, dançarinos, cantores, artistas plásticos, fotógrafos, artesãos e, também, de ser original, como na gastronomia (pão alemão, torresmos e cervejas, quem resiste?). Longe de pretender esgotar o tema e os exemplos, sugere-se uma visita a páginas que tratam da cultura de Juiz de Fora: fotografia[x], bens materiais e imateriais[xi] e música[xii], que nos trazem a dimensão da importância da cultura local, que existe para que a memória não se esqueça. Procurem outras páginas semelhantes.

Foto: Folia de Reis – Sérgio Neumann

O processo cultural, que antes do vírus da Covid-19 estava em franca expressividade, se mantém vivo, a despeito da pandemia, da falta de recursos e do isolamento que assola o país. Contra todas as orientações perversas do governo federal, muitas expressões culturais de Juiz de Fora resistem e, o mais importante, com plateias virtuais incentivadoras, financiamentos coletivos e aquisição de obras de autores locais. As manifestações culturais de rua, os poetas dos slams, os artistas do grafite, as apresentações teatrais, as salas de samba, as exposições de fotografias, as vendas de objetos de design, plantas ornamentais, roupas, lançamento de livros etc. utilizam hoje os meios virtuais para que a cadeia produtiva da cultura local não se rompa definitivamente.

O exposto aqui é apenas uma provocação para que os interessados sigam adiante em busca de mais informações sobre o processo histórico-cultural da cidade. O passado forjou o que todos sabem, o reconhecimento da vocação cultural da cidade, e o presente está repleto de iniciativas públicas e privadas que, ao longo de dezenas de anos, dão conta de sustentar essa qualificação através dos fazeres culturais tradicionais, das artes contemporâneas e das artes de resistência.

A definição do que é Cultura em Juiz de Fora está no coração e na mentalidade de cada um, segundo suas origens familiares, suas crenças, suas vivências, suas predileções artísticas e, sobretudo, seu respeito ao passado e comprometimento com o presente e o futuro.


[i] PEREIRA, Edimilson de Almeida. ‘Família Lugar’. In NEVES. José Alberto Pinho (Org.). Baú de Letras, antologia poética de Juiz de Fora. Funalfa. 2000, 281p.

[ii] MUSSE, Christina Ferraz. Imprensa, Cultura e Imaginário Urbano: exercício de memória sobre os anos 60/70 em Juiz de Fora. São Paulo: Nankin; Juiz de fora, MG, Funalfa. 2008, p.61.

[iii] Sobre esse tema, sugere-se conhecer o repertório do grupo Batuque Afro-brasileiro de Nelson Silva (Bem imaterial da cidade) e, também, o livro: NASCIMENTO, Márcia dos Santos. Duas margens: Brasil e Angola. Juiz de Fora: Funalfa. 2013, 179p.

[iv] ESTEVES, Albino; BARBOSA, Oscar Vidal Barbosa (Org.). Álbum do município de Juiz de Fora. 3ª edição. Juiz de Fora: Funalfa Edições. Reedição da 1ª edição de 1915 por Sérgio Murilo de Almeida Neumann. 2008, 536p.

[v] FREITAS, Yacyr Anderson. In BARBOSA, Leila Maria Fonseca Barbosa; RODRIGUES, Marisa Timponi Pereira. CRISTÓFARO, Valéria de Faria (Ilustração). Um olhar poético sobre Juiz de Fora. Juiz de Fora: Funalfa. 2013, p.40.

[vi] A esse respeito, consultar: OLENDER, Marcos. Ornamento, ponto e nó: da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Rafael Arcuri. Juiz de Fora: Ed. UJFJ. 2011, 321p.

[vii] SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução Joaquim Paiva. 2ª edição. Rio de Janeiro: Arbor. 1983, p. 16.

[viii] https://visitejuizdefora.com/cidade/cervejarias-artesanais

[ix] https://www.pjf.mg.gov.br/noticias/view.php?modo=link2&idnoticia2=60684

[x] https://www.mariadoresguardo.com.br/p/contato.html

[xi] http://www.pjf.mg.gov.br/administracao_indireta/funalfa/patrimonio/index.php

[xii] https://www.facebook.com/watch/?v=3622079641219052


Eridan Leão

Formação: História/UFJF (1978) e Especialização em História do Brasil/UFF (1982).
É servidora da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage /Prefeitura de Juiz de Fora, desde 1983. Foi curadora e co-produtora dos festivais anuais de fotografia: Foto 12, Foto 13, Foto14, JF Foto 15, JF Foto 16, JF Foto 17 (https://issuu.com/jffoto). Em 1986, a Funalfa alugou o espaço do antigo Cinema Paraíso, onde foi responsável pela reforma e programação como um cineclube. Elaborou e coordenou o projeto Juiz de Fora, 90 anos de fotografia 1860-1950, preservação do acervo fotográfico do Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora (1983-1985), dentre outras atividades. Foi Consultora para a Área de Economia Criativa do SEBRAE-RJ, (2009 – 2011). Na Fundação Nacional de Arte (Funarte), foi Diretora-Adjunta do Instituto Nacional da Fotografia – INFoto (1988-1990) e Coordenadora do Centro de Conservação e Preservação Fotográfica – CCPF (1994 a 2002). É participante do Coletivo JF Fotográfico, que realizou o Festival de Fotografia de Juiz de Fora (edições 2018 e 2019). É colaboradora do Instituto Kreatori, Rio de Janeiro, desde 2007, onde participou de curadorias de exposições e ministrou cursos de elaboração de projetos culturais e, atualmente, é Diretora Executiva do Canal virtual O Cubo. Em 2020, foi Coordenadora e Produtora Executiva do evento virtual, VII Festival Internacional de Cinema Independente em Língua Portuguesa (www.canalocubo.com).

Foto: Sérgio Neumann


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