Imigrantes italianos em Minas Gerais: influências culturais em Visconde do Rio Branco

No ano de 2021, teremos a celebração dos 127 anos da chegada dos primeiros imigrantes italianos em Visconde do Rio Branco, cidade que pertence à macrorregião da Zona da Mata de Minas Gerais e microrregião de Ubá, localizada a, aproximadamente, 120 quilômetros de Juiz de Fora e a 300 quilômetros da capital mineira. A presença dessa população na cidade remete a um período da história do Brasil em que o país buscava mão de obra para substituição dos escravos africanos, principalmente nas fazendas de café, ao mesmo tempo em que o governo brasileiro oferecia subsídios para as viagens e instalação no Brasil. Atrelado a um sentimento de incertezas e inseguranças na Itália, esses indivíduos (entre homens e mulheres, crianças, adultos e idosos) chegaram ao Brasil com a esperança de reconstruírem suas vidas e buscarem novas oportunidades.

Assim como em outras partes do Brasil, a província de Minas Gerais, especialmente a região da Zona da Mata, também recebeu imigrantes de várias partes da Europa no final do século XIX e no início do XX. Eles também se sentiram atraídos para a região pelas facilidades de deslocamento após a instalação da Estrada de Ferro Leopoldina, que começou a ser construída em 1874, com linhas inauguradas em 1880 nas cidades de Visconde do Rio Branco e São Geraldo.

Segundo José Silveira, nesse período, era pela ferrovia que acontecia o desenvolvimento da região, com a chegada de imigrantes, maior desenvolvimento econômico promovido pelo crescimento da produção de café e novos investimentos de particulares e financiamentos para sua instalação, pois “a presença do imigrante no Sul da Mata foi facilitada principalmente pela Estrada de Ferro Leopoldina e os seus ramais, possibilitando a interligação regional, estabelecendo um ponto de referência entre o interior da província e a capital”1.


As linhas da Leopoldina em 1898
Fonte: Site VFCO Centro-Oeste Ferreomodelismo, Trens e Ferrovias do Brasil

Dentro desse contexto, compreendemos como a chegada dos primeiros imigrantes italianos em Visconde do Rio Branco foi facilitada pelo “progresso” associado à instalação da linha ferroviária, que permitiu a influência cultural marcante nos espaços públicos, na construção de prédios públicos, na culinária, nas formas de viver e nos costumes, sendo percebida essa presença em diversos aspectos do cotidiano da população.

Uma das referências italianas na cidade foi apontada pela pesquisadora Aline Campos, em seu trabalho sobre o cinema local , no qual, em uma das entrevistas realizadas, ela demonstra como os italianos Vito Vitarelli e Nicolino Januzi foram os responsáveis pela construção do prédio que abrigou por muitos anos um dos principais pontos de encontro e trocas culturais dos moradores, já que o estilo eclético da fachada do edifício coincidia com as técnicas de construção que se espalharam pelo Brasil no final do século XIX, associada à presença de italianos em diferentes regiões do país.

Cine-Theatro Brasil
Fonte: Divulgação/ MPMG

Na culinária, a atuação de italianos também é marcante na cidade, sendo que podemos citar a existência das tradicionais pizzarias e a influência gastronômica na produção de mangada, produto típico da microrregião da Mata mineira. A matéria-prima desse doce tão apreciado pelos moradores e por quem visita as cidades que compõem a microrregião da Zona da Mata, é a manga Ubá. Tanto que a cidade que dá nome à fruta a declarou patrimônio natural de Ubá e a mangada, um doce produzido a partir da manga, tornou-se patrimônio imaterial do município.

Não só na cidade vizinha, mas a população de Visconde do Rio Branco também consome o produto intensamente. Suas raízes se juntam às tradições italianas na região, pois estudos mostram que a fruta foi trazida pelos imigrantes italianos e, sem isso, seria impossível seu consumo nos dias atuais, assim como a produção do doce tão popular para a região, cuja forma de criação se assemelha à produção de polenta, outro gênero alimentício italiano que também é fabricado a partir de um único produto agrícola e que precisa ser cozido durante determinado período.

Podemos considerar que as referências à cultura italiana estão presentes e são marcantes na sociedade rio-branquense, sendo que a chegada dos primeiros italianos, há cerca de 125 anos, permitiu trocas e aprendizados entre diferentes origens que ainda hoje estão presentes no cotidiano da cidade e que se fortalecem à medida que os intercâmbios entre brasileiros e italianos acontece.

[1] SILVEIRA, José Mauro Pires. O café e a Estrada de Ferro Leopoldina: uma confluência de interesses — 1874 — 1898. Revista de Ciências Humanas, Vol. 9, Nº 1, p. 107-117, Jan./Jun. 2009. Disponível em: https://periodicos.ufv.br/RCH/article/view/3513/O%20Caf%C3%A9%20e%20a%20Estrada%20de%20Ferro%20Leopoldina%3A%20Uma%20Conflu%C3%AAncia%20de%20Inter. Acesso em: 22 de fevereiro de 2021.


Referências bibliográficas:

ROSA, Lucas Brandão Pereira; NICOLI, Sandra; SIQUEIRA, Sueli; SANTOS, Mauro Augusto dos. A presença italiana em Minas Gerais a partir do século XIX. Disponível em: https://diamantina.cedeplar.ufmg.br/portal/download/diamantina2012/a_presenca_italiana_em_minas_gerais_a_partir_do_seculo_xix.pdf. Acesso em: 22 de fevereiro de 2021.

CAMPOS, Aline da Fonseca. O cinema no interior: um estudo sobre a história do Cine-Brasil de Visconde do Rio Branco/MG (1915-1993). 2018. 166 f. Dissertação (Mestrado em Patrimônio Cultural, Paisagens e Cidadania) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa. 2018. Disponível em: https://www.locus.ufv.br/handle/123456789/24602. Acesso em: 22 de fevereiro de 2021.

CORRÊA, Mário Braga. Influência gastronômica italiana: origens da mangada na mesorregião da Zona da Mata mineira. Disponível em: https://www.ponteentreculturas.com.br/revista/pdfs_2020/Influ%C3%AAncia%20gastron%C3%B4mica%20italiana%20origens%20da%20mangada.pdf. Acesso em: 22 de fevereiro de 2021.

SILVEIRA, José Mauro Pires. O café e a Estrada de Ferro Leopoldina: uma confluência de interesses – 1874 – 1898. Revista de Ciências Humanas, Vol. 9, Nº 1, p. 107-117, Jan./Jun. 2009. Disponível em: https://periodicos.ufv.br/RCH/article/view/3513/O%20Caf%C3%A9%20e%20a%20Estrada%20de%20Ferro%20Leopoldina%3A%20Uma%20Conflu%C3%AAncia%20de%20Inter. Acesso em: 22 de fevereiro de 2021.


Priscila Teixeira

Licenciada em História pela Universidade Federal de Viçosa e mestra em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora, onde realizou pesquisa com ênfase em políticas de preservação do patrimônio cultural em Minas Gerais. Atualmente, é professora de História das redes pública e privada de Juiz de Fora.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: