Imigrantes Italianos, devoção e epidemias

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 10, 2020 – Valéria Leão Ferenzini | Imigrantes Italianos, devoção e epidemias


Em tempos de pandemia e seus desdobramentos — insegurança, fragilidade, medo, problemas sanitários e mortes —, é oportuno relembrar como a humanidade lidou com episódios similares do passado, como as epidemias do século XIX. Para isso, retomaremos os primórdios do fenômeno imigratório, entre os anos de 1880 e a Primeira Guerra Mundial, quando o Brasil recebeu um fluxo incessante de imigrantes italianos e Minas Gerais se tornou a terceira área em termos de importância, como afirma Trento.

Foi em função de um desses períodos de extrema insegurança que a devoção a São Roque se tornou uma das primeiras manifestações culturais da imigração italiana em Juiz de Fora. Conforme registramos em nosso livro, A “Questão São Roque”: devoção e conflito, uma carta da Irmandade de São Roque1 informava que, em 1878, teve início o culto a São Roque — santo protetor contra a peste — entre os italianos de Juiz de Fora, comemorado no dia 16 de agosto.

O culto a São Roque, ou San Rocco, foi uma das tradições trazidas da Europa, sendo o santo cultuado na França e na Itália desde o início do Século XV.  Segundo sua hagiografia, apresentada por Thurston, ele, filho de uma família abastada, abandonou todas as posses e saiu em peregrinação para Roma. Encontrando a Itália assolada pela peste, curou doentes, mas acabou contraindo o mal. Estando entre a vida e a morte e abandonado em um bosque, passou a receber a visita diária de um cachorro, que lhe levava sempre um pão. Assim, pôde não só se manter, como se curar milagrosamente. De acordo com Vauchez, a partir do século XVII, o santo passou a ser invocado contra a cólera; moléstias dos rebanhos e das vinhas; e, contemporaneamente, como patrono dos trabalhadores do campo.

Igreja de São Roque – JF

Em Juiz de Fora, a devoção a São Roque foi motivada pelo temor às epidemias que assolavam a cidade. Um documento eclesiástico — transcrito em minha pesquisa — informa que existiam muitos italianos em Juiz de Fora e, que devido à ameaça da febre amarela, fizeram promessa a São Roque e passaram a homenageá-lo, com festa e missa, no dia 16 de agosto. Alguns anos depois, compraram uma imagem do santo, que era guardada em um quartinho de uma padaria2.

No século XIX, Juiz de Fora apresentava muitos pontos atrativos para diversos grupos de imigrantes, devido ao seu desenvolvimento econômico, associado à concentração de diversas atividades ligadas à produção cafeeira. Por outro lado, a cidade também apresentava diversos fatores que favoreciam surtos periódicos de epidemias como tifo, febre amarela, varíola e cólera. Em seu estudo sobre as epidemias na cidade, Zambelli relaciona os seguintes períodos como os de maior gravidade: cólera em 1855 e 1856; tifo em 1871; varíola em 1874; e cólera em dezembro de 1894 e janeiro de 1895.    

A epidemia de cólera de 1855 encontrou a cidade totalmente despreparada, já que, para combater a doença, havia apenas um médico e o prédio da Câmara Municipal foi usado como hospital de emergência, como esclarece Christo em sua análise sobre a cidade no século XIX. Como informa Zambelli, anos depois, em dezembro de 1894 e janeiro de 1895, a cólera se espalhou pela cidade e pela hospedaria de imigrantes Horta Barbosa. Na ocasião, o intérprete da hospedaria informou a situação ao cônsul italiano em Ouro Preto e ressaltou que o estabelecimento apresentava várias precariedades e não possuía local apropriado para o isolamento dos doentes. 

Segundo Oliveira, a hospedaria Horta Barbosa, criada em 1888, tinha a função de abrigar os imigrantes por cerca de dez dias e depois redistribuí-los por outras regiões. Durante seu funcionamento, a hospedaria esteve vinculada a graves problemas: denúncias de corrupção, péssimas condições de higiene e constante superlotação. Essas circunstâncias eram agravadas em períodos de epidemias, como por exemplo uma de varíola em 1889, que resultou em um cordão sanitário, evitando o contato do bairro com o restante da cidade.

A epidemia de cólera de 1894-95 resultou na morte de 94 imigrantes italianos, cujos restos mortais encontram-se em um túmulo coletivo no Cemitério Municipal Nossa Senhora Aparecida. Em 2012 e 2014, a partir da abertura de dois processos de tombamento de diversos túmulos, surgiu a possibilidade de seu tombamento como mais um bem cultural da imigração italiana em Juiz de Fora.

Imagem 1: Túmulo coletivo dos imigrantes italianos
Fonte: Valéria Leão Ferenzini
Imagem 2: Placa do túmulo coletivo.
Fonte: Valéria Leão Ferenzini

Os problemas que esboçamos até aqui não foram exclusividade de Juiz de Fora, pois, como analisou Hutter, durante o século XIX e início do século XX, na maioria dos países, as condições de saúde, higiene e saneamento eram muito precárias, favorecendo doenças e epidemias, que aterrorizavam e dizimavam grande número de pessoas. Portanto, ao longo do percurso, o imigrante enfrentava inúmeros problemas, que podiam dificultar ou inviabilizar seu processo de adaptação. Nesse sentido, dois fatores atuavam de maneira positiva ou negativa: de um lado, a religiosidade trazida por eles agiu como condutor da cultura, contribuindo para a integridade psíquica. Por outro lado, a doença — trazida ou adquirida — muitas vezes desintegrou física e psiquicamente o imigrante.

Quanto ao fenômeno da santidade, Vauchez nos esclarece que, em meio a situações de impotência, dores e incertezas, o santo é um mediador entre o humano e o divino. Os devotos recorrem a ele em busca de alento e libertação dos males que os afligem. Dentre as diversas  funções do santo, estão não somente o ato de curar e propiciar a paz, mas os fiéis também procuram nele um remédio para suas angústias, dúvidas e remorsos. O pedido dirigido a ele tem um caráter libertador, pois se transfere um pesado fardo ao intercessor de sua própria escolha.   

A escolha de um padroeiro atende a problemas específicos, pois cada santo tem sua especialidade. Portanto, as opções devocionais esclarecem muito sobre os indivíduos e os grupos sociais. No cenário desolador da cidade insalubre, no mês de agosto São Roque também era festa, momento de devoção, diversão e prazer, que colocava a colônia em evidência na sociedade local.

1 ACRCG — JF. Carta da Irmandade de São Roque à Sua Eminência Monsignore Scapardini Ambasciatore de  Sua  Santità  Il  Papa Benedetto XV. Juiz de Fora, 23/06/1919.  São Roque, p.1 (documentos não catalogados).

2 AEAM — CARTA do Pe. Augusto Beukers (Cura de N.S. da Glória) ao Cônego José Maria Rodrigues de Moraes (Vigário Geral de Marianna). Juiz de Fora. 05 de julho de 1904.


Referências bibliográficas:

CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Europa dos Pobres:  Juiz de Fora na Belle-Époque Mineira. Juiz de Fora: EDUFJF, 1994.

FERENZINI, Valéria Leão. A “Questão São Roque”: Devoção e Conflito — Imigrantes Italianos e Igreja Católica em Juiz de Fora. São Paulo: Annablume; Juiz de Fora: Prefeitura de Juiz de Fora/Funalfa Edições, 2010.

HUTTER, Lucy Maffei. O Imigrante e a questão da Saúde. In: BONI, Luis Alberto DE. (org.) A presença italiana no Brasil. v.III. Porto Alegre: Torino: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes; Fondazione Giovanni Agnelli, 1996.

OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Imigração e Industrialização: os Italianos em Juiz de Fora – Minas Gerais   (1888 – 1920). In:  BONI, Luis Alberto de. (org.)  A Presença italiana no Brasil. v. III.  Porto Alegre: Torino, Escola Superior de Teologia São Lourenço de  Brindes; Fondazione Giovanni Agnelli, 1996.

THURSTON, Herbert, ATTWATER, Donald (org.). Vida dos Santos de Butler. Vozes: Petrópolis. V.VIII, Agosto. 1992.

TRENTO, Ângelo. Do Outro Lado do Atlântico: Um Século de Imigração Italiana no Brasil. Instituto Italiano di Cultura di San Paolo-Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro. 574p. s.ed. São Paulo:Nobel,1989.

VAUCHEZ, A.  Rocco. In: Il Grande Libro dei Santi. Dizionario Enciclopédico. Torino:Edizioni San Paolo. 1998.

ZAMBELLI, Rita de Cássia Lima. A ideologia do higienismo e as epidemias de cólera em Juiz de Fora – Um breve estudo. (Trabalho do curso de história; ICHL-UFJF, 2º semestre, 1996.


Valéria Leão Ferenzini

Graduada em História pela UFJF. Mestre em História Social em História Social pela UFRJ. Doutora em História Social em História Social pela UFRJ. Professora de História – Rede Municipal de Educação de Juiz de Fora – SE/PJF. Entre 2009 e 2016, atuou como historiadora e diretora da Divisão de Patrimônio Cultural da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage – PJF. Publicou o livro: A “Questão São Roque”: Devoção e Conflito – Imigrantes Italianos e Igreja Católica em Juiz de Fora, através da Lei Murilo Mendes, Lei Municipal de Incentivo à Cultura – PJF. Publicou dentre outros, o artigo: Os italianos e a Casa d’ Italia de Juiz de Fora Dossiê Imigração Italiana – na Locus – Revista de História da UFJF. Pesquisadora da imigração italiana e alemã em Juiz de Fora, com trabalhos voltados para a análise da religiosidade dos imigrantes; conflitos envolvendo imigrantes na Primeira Guerra Mundial e durante o Estado Novo; patrimônio cultural dos imigrantes italianos. Estas temáticas têm resultado em organização de exposições, apresentações em congressos e artigos publicados. Participa do Coletivo musical autoral “Ou Sim!”, CD “Ou Sim – Poesia, Música e outras Esquinas.”


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