De corpo presente

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 9, 2020 – Táscia Souza | De corpo presente


I. Canto de entrada

Quando a voz da cantora Titane soou na Praça Antônio Carlos no dia 15 de fevereiro de 2020, em dueto com a do músico juiz-forano Lucas Soares, emoldurada pelos tambores mineiros do grupo Ingoma e ecoando para mais de 6 mil pessoas que persistiam ao ar livre mesmo debaixo de chuva, imaginei que fosse um coroamento, não um vaticínio. Acabou sendo um pouco de ambos. A letra da canção “Dança”, composta por Chico César, traz consigo, nas próprias palavras de um de seus versos, o caldo da cultura, da popular à erudita, o cauim metafórico e embriagante da diversidade e da multiplicidade dos povos — bem como, e tristemente, de suas destruições — e o sabor agridoce, recheado de certa melancolia, das heranças e resistências negra e indígena.

Dança o povo negro
Dança o povo índio
Sobre as roças mortas de aipim
Dança a nova tribo
Dança o povo inteiro
Dança a moça triste do Benin

A música soa como lamento, mas também como exortação, tal como a cadência do Moçambique Serra Abaixo que, nos tambores, acompanhou-a naquela noite. Porque as músicas, como as palavras, são feitas de conotações e ambiguidades. “Carnaval, carnaval, carnaval…” Neste ano de 2021 finalmente compreendi Luiz Melodia e fiquei tão triste quando chegou o carnaval. Penso na palavra “dança” que dá título à canção de Chico César e lembro a harmonia do movimento dos milhares de corpos que tomaram a praça durante aquele show. Recordo também, no entanto, o sentido coloquial atribuído às vezes ao verbo “dançar”, sinônimo de malogro, de fracasso. Transcorrido todo esse tempo desde aquela noite de fevereiro — da qual, mesmo sob a chuva, qualquer frustração passou bem longe —, e colocando em perspectiva tudo o que acometeu praticamente todos os povos, todas as roças, todas as tribos e todas as moças tristes do Benin ao Brasil, pode-se dizer que, pejorativamente, dançamos. O mundo todo. Queremos, no entanto, num retorno àquela noite e àquele significado originais, voltar a dançar.

II. Ato penitencial

Quem já teve a oportunidade de acompanhar uma festa de Congado em alguma cidade do interior de Minas Gerais deve ter sentido, nos olhos, nos ouvidos, na pele, no peito e no estômago, o impacto desta cena: o grupo de reinadeiros, com seus tambores, gungas, guizos e/ou patangomes, aproximando-se da porta fechada da igreja e rogando, num canto alto e chorado, licença para entrar. “Dá licença que eu cheguei, dá licença”, diz uma dessas toadas típicas do Congado mineiro já tradicionalmente incorporada pelo Ingoma ao seu repertório em cada show, em cada cortejo, em cada apresentação, traduzindo o sentimento que está no centro do trabalho artístico e de pesquisa do grupo. Porque, quando o Ingoma chega, é com profunda deferência a essa expressão tão própria da herança afrobrasileira e àqueles que são seus herdeiros e detentores legítimos. A gente pede — e precisa mesmo pedir — licença para fazer o que faz.

Peço igualmente licença aqui, à qual acrescento uma súplica de perdão, pela forma que tomei emprestada para estruturar este relato. Veio-me à memória, para isso, a primeira vez que o Ingoma foi convidado para tocar durante uma das missas da Festa de Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande, na região das Vertentes das Minas Gerais. No caminho, durante as horas de viagem, conversávamos, até meio perdidos, sobre quais cantigas tradicionais poderíamos associar a cada uma das partes daquele ritual católico — pouquíssimo íntimo de muitos de nós — intrínseco ao Congado enquanto profissão de fé, mas não ao nosso fazer artístico inspirado em seus ritmos. No fim das contas, optamos pelas que pouco ou nada tinham de devoção. E, mesmo assim, funcionaram, porque, no fundo, inconscientemente, tinham. Refiro-me a outro tipo de devoção, mais palpável que metafísica, mais imanente que transcendente. A devoção que, talvez, a pandemia da Covid-19 e, sobretudo, a péssima (para não dizer nula) condução de seu enfrentamento pelo governo federal tenha tirado de tantos. A devoção à vida. E ao outro.

A motivação do Ingoma, enquanto grupo musical e de pesquisa laico, não é nem nunca foi religiosa. É artística. A minha, como percussionista e integrante do grupo, assim como pesquisadora de literatura e teatro, também é. A incorporação do ser humano ao mito por meio do rito é um dos elementos que mais me fascinam na transfiguração de uma história, seja pela escrita, pela cena ou, como aprendi neste meio, pelo ribombar de uma baqueta contra a pele de um tambor. Justamente por isso, contudo, nenhuma dessas motivações artísticas — nem a minha individual nem a do grupo que represento — isola-se ou prescinde de uma aproximação, como observadores, cada vez mais acurada do cerne dessa cultura ritualística herdada dos povos bantos. Proximidade que se dá também com aqueles que hoje a incorporam: as comunidades tradicionais, as populações ribeirinhas, os reinadeiros, os quilombolas, os indígenas (também presentes no Congado pelos ternos de Catupé), os integrantes dos movimentos antirracistas, os filhos, netos e herdeiros de um Brasil afroameríndio perseguido, massacrado e, ainda assim, sobrevivente.

Nenhum fazer artístico é isento de ser político. Quando me atrevo a tocar um tambor mineiro, simbolicamente também estou me pondo de joelhos e repetindo, não para uma divindade, mas para um povo — para muitos povos: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

III. Glória

O cortejo de Carnaval do Ingoma — que este ano, obviamente, não foi possível, mas que, em 2020, ocorreu cerca de um mês antes do alastrar da pandemia no Brasil e do início do estado de emergência — tem sido o ápice anual do trabalho do grupo. A despeito da ideia fixada no calendário gregoriano, de um ciclo que começa em janeiro e se encerra em dezembro, o músico, compositor e arranjador Lucas Soares, coordenador do Ingoma, costuma dizer que o cortejo não marca o início, mas o fim do nosso ano de atividades. É nele que os alunos das oficinas de tambor mineiro, depois de dois semestres inteiros de estudos de musicalização e práticas de ritmos oriundos e derivados da cultura afrobrasileira e, especialmente, afromineira, passam a compor o Bloco do Ingoma, tornando-se parte da falange de tambores que desce pelo Centro de Juiz de Fora, do Parque Halfeld até a Praça Antônio Carlos. Esse é um momento de festa e de celebração, de corpo presente e no calor do público, de um ano todo de trabalho musical e de construção de coletividade.

O Carnaval é nosso momento de glória. Há, no entanto, para que ele chegue (e para manter a alegoria), outros tantos de paz na Terra aos homens de boa vontade, frutos de um trabalho dedicado e potente. O ano de 2020 não começou apenas com os preparativos e a realização bem-sucedida de um cortejo com mais de 80 tambores e milhares de pessoas presentes. Começou também com a idealização pedagógica de uma oficina voltada para jovens em vulnerabilidade social dos quatro extremos da cidade — Norte, Sul, Leste, Oeste —, que culminaria em apresentações musicais do Ingoma com a participação desses alunos. Começou também com a preparação para a gravação dos primeiros singles de canções autorais do Ingoma, compostos por Lucas Soares. Começou também com as matrículas de duas turmas iniciantes da oficina de tambor mineiro preenchidas em sua totalidade em menos de duas semanas.

Começou também. E começou bem.

E então, neste arremedo de narrativa litúrgica, veio o correspondente, nesta realidade, do “podeis-vos assentar” depois da glorificação: começou também a pandemia.

IV. Liturgia da palavra

Estava escrito. No caso, não em nenhum texto sagrado de qualquer religião que seja, mas no site do jornal Tribuna de Minas de 14 de março de 2020, quase um mês após o cortejo de Carnaval e três dias antes da retomada das aulas de tambor mineiro do Ingoma e do início das novas turmas matriculadas no primeiro semestre do ano. A informação, na reportagem, era de que dados do boletim epidemiológico da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais divulgado naquela data confirmavam o primeiro caso do novo coronavírus em Juiz de Fora.

A decisão de suspender o retorno das nossas aulas foi tomada antes mesmo de qualquer posicionamento da Prefeitura. A partir dali passamos a acompanhar com atenção a leitura das “escrituras”, as médicas e as governamentais — cada decreto de restrição de atividades presenciais, cada declaração sobre o estado de emergência, cada boletim epidemiológico, cada medida sanitária e de distanciamento social necessária para dirimir (ou ao menos tentar reduzir) os riscos de contágio. Acompanhar somente, não; nos empenhamos para cumpri-las à risca. Desde então, as atividades presenciais do Ingoma, incluindo oficinas, workshops, shows, apresentações, palestras, gravações etc. foram integralmente adiadas, canceladas ou suspensas.

É claro que a modalidade remota, apesar das perdas que acarreta, não é descartada como alternativa com a pandemia se prolongando mais do que já se prolongou. De março a março, entretanto, nossa opção foi por manter, para a saúde de todas as pessoas, as conversas como afeto e a distância como cuidado.

V. Ofertório

Embora as aulas de tambor tenham permanecido suspensas durante todo o ano, isso não significou uma paralisia, porque o núcleo central do Ingoma, enquanto grupo artístico-musical composto por nove integrantes, tem retomado o projeto de preparação dos dois primeiros singles do grupo, autorais, que serão lançados em 2021 nas plataformas digitais. Para isso, a conquista da Lei Aldir Blanc, depois de uma incansável mobilização nacional de todos os que compreendem esse papel, foi uma vitória fundamental. Promover ações para possibilitar que artistas e agentes culturais prossigam seus trabalhos, individuais e/ou coletivos, e para que espaços culturais se mantenham e/ou se reestruturem passados tantos meses de pandemia, não é um privilégio, uma benesse nem uma doação. É colocar a mesa e repartir o pão com quem oferta a si mesmo. 

VI. Comunhão

Há um velho hino de eucaristia — uma das poucas canções católicas que me sobreviveram na memória da infância — segundo o qual “comungar é tornar-se um perigo”, sobretudo com “a vida sofrida do povo que quer ter voz, ter vez, lugar”. Não era a fé o que me encantava nele, ao menos não propriamente a fé como adesão incondicional a uma crença, mas o fato de aqueles versos serem um manifesto político entoado a dezenas ou centenas de vozes, ao som de um teclado e/ou um violão, bem dentro de uma igreja. Só voltei a sentir aquele exato estupor quando assisti, ao lado do Ingoma, à primeira Missa Conga para a qual, completamente leigos — em ambos os significados da palavra, mas, em especial, no sentido mais coloquial de desconhecedores e/ou inexperientes no que de fato acontecia —, fomos convidados, já muitos anos depois.

Houve, porém, outras versões do mesmo assombro, em outros momentos da vida, possibilitados pela arte. Estar com o Ingoma — num palco, numa praça, numa rua, numa dança ou numa marcha — é um deles. Não é preciso estar dentro de uma igreja. Nem sequer é necessário professar alguma fé — não no significado estrito da palavra fé. Comungar é, sim, tornar-se um perigo. Viemos, sim, para incomodar. Porque comungamos de uma ideia, de um projeto, de uma luta, de um ideal. E porque a arte, a música, a cultura popular, o tambor são inteiros partilha.

Não sabemos exatamente o que será do mundo pós-pandemia. É claro que exigirá de nós novos cuidados, que não poderão ser deixados de lado. É certo ainda que demandará novos comprometimentos uns com os outros diante das possibilidades do reencontro. A tecnologia veio servir de aliada para encurtar distâncias e é provável que essa função não se perca. Esperamos, contudo, que ela não seja o único meio de estarmos em comunhão.

Hoje choramos, em nossas casas, sobre os corpos ausentes de centenas de milhares de pessoas que não sobreviveram, nem à Covid nem ao descaso. Amanhã, esperamos, a celebração será de corpo presente. Corpos presentes. Mas de corpos que, como os tambores, estejam vivos.


Táscia Souza

Doutora em Estudos Literários pela UFJF, jornalista, escritora, atriz e integrante do grupo de tambor mineiro Ingoma.


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