Casa D’Itália: permanências, ruptura e contemporaneidade

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 9, 2020 – Ana Carolina Lewer | Casa D’Itália: permanências, ruptura e contemporaneidade


Em 6 de novembro de 1939, foi inaugurada a Casa D’Itália, instituição criada, especialmente, com o anseio de ser um locus de convergência da comunidade italiana em Juiz de Fora. Nestes mais de 80 anos de vida — digo ‘vida’ me remetendo ao fato de que este bem nunca deixou de ser ocupado e fruído de alguma forma —, é um dos poucos imóveis valorados como patrimônio cultural da cidade cujo uso original de cunho cultural permanece, resistindo, inclusive, ao seu período como Círculo Militar. Entretanto, há de se ressaltar que a Casa D’Itália, tal qual conhecemos hoje, não é a mesma do momento de sua inauguração, apesar da manutenção e preservação de sua composição arquitetônica nos induzir a essa verossimilhança.

Essas transformações a que me refiro são, em primeira instância, de cunho simbólico, acarretando, de forma direta ou indireta, também transformações físicas. O fator dessa mudança é justamente o tempo, que, na sociedade ocidental, norteia nossa apreensão cultural sob uma perspectiva majoritariamente linear. Essa sucessão temporal traz consigo permanências através da materialidade dos bens, que, por sua vez, são os porta-vozes de toda essa carga simbólica.

Nessa perspectiva, importa lembrar que a Casa D’Itália, enquanto ente arquitetônico, é um sistema semiótico indissociável da sociedade. Nas palavras de MOASSAB (2016), é uma arquitetura que produz discurso, que atribui sentido e que constrói realidade, uma vez que o espaço é uma categoria política. E a sua patrimonialização reforça esse discurso em detrimento de tantos outros, confirmando o caráter performático do patrimônio cultural, que se configura como um constante campo de conflitos, de consensos e dissensos.

As questões ético-culturais que motivaram a preservação da Casa D’Itália são importantes, e jamais devem ser apagadas e esquecidas. Porém, torna-se necessário  “viver” esse bem cultural em seu cotidiano, incorporando as múltiplas formas de percepção pela comunidade, em especial as atribuições de sentidos diversos que ultrapassam a cultura italiana. Para que isso ocorra, e para que a Casa se torne um reflexo muito maior da cultura de Juiz de Fora, é preciso olhar para seu passado de forma crítica, fazendo todas as retratações necessárias a outras manifestações culturais que se viram forçadamente marginalizadas. E, nesse contexto, destacamos a história e a cultura dos afrodescendentes, recorrentemente alvo de preconceitos, não obstante sua importância na construção da cidade.

Devemos possibilitar que a Casa D’Itália reverbere culturas heterogêneas, ainda que não perca sua base original calcada na cultura italiana. Em outras palavras, a Casa, enquanto patrimônio cultural, não pode refletir o espectro de um passado estanque e estratificado que não pode mais sobreviver aos anseios do mundo moderno.

É urgente que percebamos nosso papel como entidade transformadora, capaz de respeitar trajetórias diferentes e promover a união necessária com todas as vozes que ecoam em nossa sociedade, muitas, inclusive, sistematicamente silenciadas.


Referências:

MOASSAB, Andréia. O patrimônio arquitetônico no século 21
Para além da preservação uníssona e do fetiche do objeto. Vitruvis, Arquitextos, 2016. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.198/6307. Acesso em: 25, março de 2021.


Ana Carolina Lewer

Arquiteta urbanista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, pós-graduanda em gestão e conservação do patrimônio cultural pelo IFMG – Campus Ouro Preto, vice-diretora da comissão de patrimônio cultural do IAB – Núcleo JF e vice-presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Juiz de Fora. Atualmente também atua na Divisão de Patrimônio Cultural- Funalfa/PJF


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