Uma peregrinação sob as luzes da Itália

Quem já peregrinou sabe que não se trata de um simples caminhar, nem de uma tradicional viagem turística. Pode-se compreender uma peregrinação como uma viagem a um lugar sagrado cuja motivação primeira e central é a devoção. A devoção é a grande chave que distingue esse movimento de saída, mas que também é de chegada, de qualquer outro turismo, inclusive do turismo religioso. Trata-se de um ato revestido de sacralidade. Peregrinar, do latim per agros, pelos campos, é também sinônimo de fazer romaria. Esse termo é proveniente da palavra Roma, a cidade eterna, que tantos procuravam para, com devoção, visitarem os monumentos bíblicos, especialmente o túmulo do Apóstolo Pedro. O costume de peregrinar é antiquíssimo e está presente na maioria das religiões no mundo.

Foto: Luciana Procópio

A experiência de ser peregrina pela Itália é, sem dúvida, uma experiência inigualável, que aguça todos os sentidos e nos impele a ter um novo olhar sobre todas as coisas. O resultado é uma grande transformação interior, uma verdadeira mudança de rota. Peregrinar pelas cidades italianas é vivenciar a beleza em sua plenitude.

As belezas da fé experimentadas durante a peregrinação são enriquecidas pelas belezas naturais e arquitetônicas das cidades italianas, algumas ainda completamente medievais, como Assis, de São Francisco e Santa Clara, e Nórcia, de São Bento. Caminhar por Roma, por entre monumentos históricos que refletem a grande potência humana em um tempo que nem se sonhava com a tecnologia que temos hoje, é o mesmo que voltar no tempo e contemplar a história. Estar em marcha por entre tantas igrejas e outros símbolos cristãos, testemunhas temporais das transformações que a fé pode operar, é como experimentar um outro mundo de uma pequena janela chamada de coração inteligente pela antropologia semita. Essa janela, ou dimensão humana, está além do mental e das emoções, é a experiência, no homem, de um espaço e de um silêncio. É o vínculo que liga o humano ao divino.

O passo regular e firme da caminhada, amparado pela certeza da fé, é a marcação decisiva que religa o espaço ao tempo, o homem aos seus semelhantes e ao universo, o corpo às suas demais dimensões – alma e espírito perpassados pelo Espírito de Deus –, “num dinamismo e numa simbiose de vida que inspira e atrai o infinito” (CHÉLINI; BRANTHOMME, 2004, apud CARDITA, 2012) conferindo um efeito libertador sobre a consciência daquele que se coloca em marcha.

Foto: Luciana Procópio

A beleza possui uma dimensão transcendental que nos ajuda a alcançar Deus. Segundo Cláudio Pastro, maior nome da Arte Sacra brasileira, beleza é a palavra humana mais próxima do Sagrado. Por esta razão, há tanto fascínio e múltiplas sensações quando o homem se depara com o belo, pois este se aproxima de sua razão de ser. Nesse caminho peregrino pelas cidades italianas, a palavra que define o encontro com tantas belezas culturais, naturais, monumentais e da história do Cristianismo é palavra italiana luminosità. Numa tradução livre, luminosità quer dizer brilho, luminosidade, radiância, luz. De fato, vivenciar a Itália numa peregrinação é um sentir-se completamente iluminado por dentro e radiante por fora.

Paira na atmosfera italiana um frescor. As oliveiras e os loureiros deixam um perfume diferente no ar. As luzes possuem um outro brilho, como o dourado do sol. A famosa culinária é mesmo irresistível. Toda essa percepção da beleza criada por Deus e também pelo homem, mas inspirada por Deus, transborda o caminhar peregrino, visto que é impossível vivenciar o belo e guardá-lo somente para si. E dessa experiência transcendental nasceu a exposição LUMINOSITÀ – Uma peregrinação sob as luzes da Itália, que conta, através do registro fotográfico autoral, um pouco desse caminho.

Assim, a exposição LUMINOSITÀ, que teve sua primeira edição na Casa D’Itália de Juiz de Fora, um espaço que abriga um pequeno território italiano em Juiz de Fora por sediar o Vice Consulado da Itália na cidade, foi uma oportunidade de reviver essa maravilhosa experiência e partilhá-la com familiares, amigos e com a comunidade que apoia e visita a Casa D’Itália de Juiz de Fora, centro pulsante da cultura na cidade.


Referências Bibliográficas:

BOFF, Leonardo; LELOUP, Jean-Yves. Terapeutas do Deserto. De Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Dürckheim. Petrópolis: Vozes, 1997

CARDITA, Ângelo. Peregrinação: possibilidades de compreensão crítica de uma experiência. Sociologia: Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, vol. XXIV, pág. 195-213, 2012. Disponível em: <http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0872-34192012000200010#1>. Acesso em: 18 jan. 2021.

MOREIRA, Gil Antônio. Peregrinação: um caminho para Deus. CNBB: 16 set. 2017. Disponível em: <https://www.cnbb.org.br/peregrinacao-um-caminho-para-deus/&gt;. Acesso em: 18 jan. 2021.

PASTRO, Cláudio. A arte no cristianismo: fundamentos, linguagem, espaço. São Paulo: Paulus, 2010.


Luciana Procópio

Mestranda em Letras com área de concentração em Literatura Brasileira e proposta transdisciplinar em Teologia pela UniAcademia Centro Universitário de Juiz de Fora/CES-JF. Graduada em Teologia pelo Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio/CES-JF. Graduada em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais Vianna Júnior. Desde 2010 exerce a fotografia como hobby. Em 2016 rendeu-se definitivamente aos encantos da fotografia para decoração e oração e passou a conciliá-la profissionalmente com suas atividades acadêmicas. 


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