A cultura italiana e a preservação do patrimônio cultural: o que o movimento acerca da preservação da Casa D’Italia pode nos mostrar

O panorama brasileiro, no que se refere à preservação do patrimônio cultural, se distingue do europeu em virtude de certas diferenças acerca da patrimonialização dos bens culturais, da constituição e da consolidação do pensamento acerca da proteção, da conservação e do restauro dos monumentos e, de modo geral, dos percursos históricos e culturais que diferem o continente latino-americano do europeu. Contudo, apesar das distinções relacionadas à constituição dos valores e princípios acerca do patrimônio cultural, às regulamentações e à própria formação da conservação e do restauro enquanto disciplinas, ainda é possível encontrar pontos em comum entre os pensamentos preservacionistas em ambos os continentes, conforme evidenciado por Galli et al. (2016, p. 8). Destaco que isto muito se deve ao longo passado de colonização imposto pelas culturas europeias sobre as culturas daqui, e ao presente vivido sob ares de colonialidade do poder, do saber e do ser, conforme o pensamento de Quijano (2010). De onde escrevo e de onde provavelmente se lê, em virtude da escrita em língua portuguesa, as relações de poder, a produção do conhecimento e a socialização dos seres humanos ainda se pautam fortemente em pa(d ou t?)rões vindos da Europa.

Sabe-se que a formação do conceito de preservação cultural, conforme entendido no senso comum e corroborado pela institucionalidade no Brasil contemporâneo, iniciou-se na Europa no século XIX tendo como focos o patrimônio edificado e as belas-artes, em outras palavras, privilegiando a salvaguarda das expressões culturais materiais. Foi apenas recentemente, a partir do final do século XX e já no início do presente século, que o campo da preservação cultural no Brasil passou a considerar os demais bens passíveis de patrimonialização, abraçando outras manifestações culturais imateriais, como os ritos e a simbologia dos lugares, e integrando a memória e a oralidade não somente como matrizes que evocam a rememoração, mas como bens culturais em si mesmos. O conceito segue aprimorando-se ao passo que o próprio conceito de cultura é transformado e expandido, no sentido de abarcar uma maior diversidade cultural.

Por outro lado, apesar das transformações mais recentes no campo da preservação cultural, há ainda alguns aspectos que indicam a centralidade do patrimônio material em relação aquele imaterial por parte do senso comum brasileiro, e isto pode ser notado pelos recentes fatos que envolvem a Casa D’Italia em Juiz de Fora. Como se sabe, a cultura italiana vem sendo valorizada em Juiz de Fora através de diversas manifestações culturais e ações educacionais promovidas pela instituição ao longo das últimas décadas – envolvendo a difusão da língua, de expressões artísticas e da gastronomia italianas, entre outras coisas – e apesar de alguns hiatos no tempo, isso se intensificou nos últimos anos. Porém, em 2020, quando avistou-se a possível perda da Casa D’Italia com o anúncio do leilão do edifício, ficou evidente que cada uma destas manifestações e ações tem suas raízes intrinsecamente relacionadas ao edifício em si mesmo, revelando toda a sua importância simbólica, para além da tangibilidade.

Entre as evidências, o texto da primeira carta oficial que solicitava o tombamento municipal do edifício já expunha esta ideia, dizendo que o “símbolo concreto” da “importância que tem a colônia italiana da formação histórica de nossa cidade consubstanciada na cultura e trabalho de sua gente” é a Casa D’Italia. E, recentemente, em uma edição anterior desta Revista, Marcos Olender afirmou que

A preservação do patrimônio constituído pela Casa d’Itália passa, portanto, pela manutenção dessa vida cultural abrigada em seu interior. É essa vida que a identifica, que a singulariza, e da qual suas fachadas e seus interiores se tornam, cada vez mais, como seus representantes. Olhar para essas fachadas e espaços é associá-los, imediatamente, a todas essas atividades que povoam e que, efetivamente, constituem as suas memórias e o seu cotidiano. Não existe a edificação sem essas atividades que a fazem se mover e realizar a sua peculiar atmosfera, que se sobressai no cenário urbano da nossa cidade (OLENDER, 2020).

É neste ponto que gostaria de discorrer brevemente sobre a influência do pensamento italiano na preservação do patrimônio cultural brasileiro. Como dito, a preservação cultural é uma inquietação presente tanto em culturas latino-americanas como em europeias na atualidade. Porém, é inegável que a Europa, especialmente a Itália, tornou-se um centro de discussão teórica, de pesquisa experimental e de prática da preservação ao longo dos séculos, influenciando outras realidades. Como tal, a Itália é capaz de delinear diretrizes pertinentes e com rigor científico, representando um conjunto valioso de experiências e referências que, por isso mesmo, são difundidas ao redor do mundo. Por esse motivo, é frequente que brasileiros tenham como fundamentação teórica a produção científica das universidades italianas, e como referências práticas as ações de preservação e as obras de conservação e restauro conduzidos em solo italiano. Nesse sentido, a pesquisa e a formação universitária, especialmente dos engenheiros e arquitetos restauradores na Itália, cujas obras certamente têm forte influência sobre o que se pratica hoje no Brasil – seja nas ideologias das correntes preservacionistas, seja na instituição das modalidades de proteção – influencia sobremaneira no modo como vemos e salvaguardamos o nosso patrimônio cultural edificado.

Este fato pode ser lido como um traço da colonialidade do poder e do saber, que influi diretamente na socialização do ser que vem a possuir o discurso preservacionista. O que se observa é que, paradoxalmente, a influência estrangeira – neste caso principalmente a italiana – é que nos permite criar uma perspectiva de vida que defende a preservação do patrimônio cultural, proporcionando-nos não apenas o discurso, mas inclusive os moldes e diretrizes de valoração e de salvaguarda, especialmente quando se trata de um patrimônio material repleto de atravessamentos e significados artísticos e históricos como a Casa D’Italia.

O sentimento de pertencimento e de identidade acerca do que vem a ser considerado patrimônio cultural não surge sozinho, nem é singular. Trata-se de um movimento crítico e dialético entre o perpetuar e o transformar, entre o eternizar e o ressignificar. Contudo, este movimento pode aparecer igualmente no abismo entre o preservar e o perder-se para sempre, e é este último caso que frequentemente temos observado na realidade brasileira, tendo como um dos seus exemplos mais recentes o caso da Casa D’Italia em 2020. A movimentação acerca da preservação deste lugar, que propagou-se rapidamente, nos mostra como a cultura italiana está presente não só nas manifestações artísticas e culturais referentes ao que entendemos como indiscutivelmente italiano, mas igualmente na própria resistência e na luta preservacionista que se instaurou a partir do momento que cada um de nós se viu afetado pela possível perda deste lugar que nos é tão estimado. A cultura da preservação cultural – perdoem o aspecto redundante – é, por si só, um legado e nos remete diretamente à cultura italiana. Portanto, o movimento “Eu luto pela Casa D’Italia” corresponde, ao mesmo tempo, à luta pela preservação do lugar e à resistência da própria cultura da preservação cultural.


Referências Bibliográficas:

GALLI et al. A Teoria e prática do restauro arquitetônico: A influência da cultura europeia e seus desdobramentos na realidade brasileira. Revista Arq.Urb. N. 16, 2016.

OLENDER, Marcos. “Uma segunda casa”: breves apontamentos sobre a importância cultural e social da Casa d’Itália de Juiz de Fora. Revista Casa D’Italia, N. 05, Juiz de Fora, 2020.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Orgs.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010.

PASSAGLIA, Luiz Alberto do Prado. Processo de  Tombamento da Casa D’ Itália (Processo no. 6372/84).  Arquivo  da  Divisão  de  Comunicação  da Secretaria Municipal da prefeitura de Juiz de Fora. Fundo IPPLAN (Instituto de Pesquisa e Planejamento), 31/05/1985.

Jéssica Rossone

Arquiteta e Urbanista (2016) e Mestra em Ambiente Construído (2018) pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mediadora de Educação para o Patrimônio (2019) pela Universidade Aberta do Nordeste. Doutoranda do Instituto de Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


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