Língua italiana, o curso Cultura Italiana e suas relações com a Casa D’Italia de Juiz de Fora

Nasci e cresci em Juiz de Fora numa família de origem integralmente italiana. Qualquer caminho que se percorra nos ramos da minha árvore genealógica vai certamente dar na península itálica. Alguns traços culturais italianos (muitas vezes estereotipados) eram bem presentes: almoço dominical longo, vozerio, “macaron” (como pronunciava minha avó) feito em casa, vinho e “parmeson” ralado na mesa, gosto para música, baralho para jogar scopa… “E vocês falavam italiano em casa?”, me perguntavam sempre. A resposta era “não”, e eu não sabia explicar por quê. Meu pai, mais do que minha mãe, vez por outra usava expressões italianas* em casa. Porca pipa, quando se surpreendia ou queria reclamar; sporcacione, para nomear que deixava algo sujo; sfurigone para as crianças que mexiam em tudo; alguém abobalhado era um bauco; ninguém sentia medo, mas sim paura. Havia também algumas poucas filastrocche, canções infantis entoadas com interferências fonéticas do português por desconhecimento da letra original, numa espécie de telefone-sem-fio intergeracional musical: repete-se o que se ouve. Quando me chamava para sair, só dizia andiamo, nunca “vamos”. Assim era minha casa, com visitas frequentes aos avós e deles a nós. Cresci nesse meio.

Ainda menino, passava diariamente em frente à Casa d’Italia no meu percurso de ida e volta para a escola. Já grandinho, lembro de ter perguntado a meus pais como se lia o letreiro da fachada e o que significava DOMVS ITALICA. Didaticamente, me explicaram tudo. Foi quando aprendi que existia uma língua chamada latim, que uma espécie de pai ou mãe do português e do italiano, e que seus falantes não diferenciavam V de U. “Já que o vovô e a vovó são italianos, eles podem entrar aqui?”, perguntei. Foi a deixa para me explicarem como nasceu a Casa d’Italia, e dizerem que ali funcionava uma escola onde ensinavam italiano.

Essa introdução serve para ilustrar a importância de uma língua na manutenção e transmissão da cultura de um povo. Afinal, “O primeiro de todos os ingredientes da cultura é a língua”, nas palavras do querido professor Hildo Honório do Couto, da UnB. Entretanto, pela intrínseca necessidade de adaptação à nova sociedade entre outros fatores, a perda da língua dos imigrantes em zonas urbanas é comum. É a chamada Lei das Três Gerações**.

Em regra geral, as gerações descendentes de imigrantes, mais cedo ou mais tarde acabam
por se interessar pelas origens dos antepassados. Entre os italianos, aflora-lhes um desejo de conhecer algo além do que as receitas da nonna: é nesse momento que nasce a vontade de aprender italiano e quando chegou esse meu momento, fui imediatamente à Casa d’Italia.

Em Juiz de Fora, a minha referência para o ensino de língua e cultura italiana sempre foi a
Casa d’Italia. Desconhecia que, na verdade, o prédio abriga a Associação de Cultura Ítalo-brasileira, mais conhecida como Cultura Italiana, essa sim, a escola responsável pelo ensino da língua. Frequentei o curso da Cultura Italiana em meados da década de 80 e em 1989 ali também lecionei. Nesta cidade, para a pergunta “Onde você estuda/estudou italiano?”, a resposta, costumeiramente, será: “Na Casa d’Italia!”. E se a pergunta for “você recomenda algum curso de italiano em Juiz de Fora?”, a resposta será quase inevitavelmente “o curso da Casa d’Italia é muito bom!”. Não há como escapar: a Casa d’Italia é a Cultura Italiana e a Cultura Italiana é a Casa d’Italia, tamanha é a identificação entre a Casa, os italianos e o município.

Como nada é fácil nesse país que teima em desvalorizar a cultura, a Casa d’Italia passou por maus bocados ao longo de sua história, mas sempre que precisou de apoio, lá estavam os italianos, seus filhos, netos, bisnetos se mobilizando para preservá-la. Aliás, a começar pela sua própria edificação, conseguida com dificuldade por meio de doações de diversas famílias. Por causa da segunda guerra mundial, foi tomada pelo governo brasileiro e só devolvida em meados dos anos 50.

A década de 60 foi marcante e a Casa d’Italia permaneceu como importante centro cultural até meados dos anos 70, quando entrou em decadência. Foi nos anos 60 que ali surgiu o curso de italiano, a atual Cultura Italiana. Já nos anos 80, suspeitou-se de que havia tratativas para a venda do edifício e, de novo, alguns italianos e descendentes, junto a outras pessoas ligadas à cultura da cidade, se mobilizaram para promover um movimento em prol do seu tombamento como patrimônio cultural municipal. A movimentação teve sucesso e o prédio foi efetivamente tombado em 1985.

A Cultura Italiana funciona ali ininterruptamente há mais de 60 anos, conseguiu superar a
pior fase nos anos 70. Observando a cronologia das movimentações em torno da Casa d’Italia, percebe-se claramente que, de todas as instituições que ali funcionam ou funcionaram, a mais longeva é a Cultura Italiana, que permanece sendo a principal referência da cidade no ensino de italiano. Alguns anos atrás, durante minha pesquisa de mestrado, identifiquei que 60% dos seus alunos são descendentes de italianos, o que de certa forma endossa o que disse antes: entre eles, em algum momento nasce a vontade de aprender italiano. Agora, em mais um momento de dificuldade por causa da ameaça de leilão da Casa, a Cultura Italiana mostra sua força e identificação com esse patrimônio e encabeça, junto a outras entidades, movimentos de rechaço a essa estranha iniciativa que parte, pasmem, do governo italiano!

Tenho certeza de que esse estranho plano não vingará e a Casa d’Italia continuará abrigando a Cultura Italiana por muitos e muitos anos ainda. Um panorama diferente é inimaginável. Assim como pizza e mozzarella e spaghetti e sugo, a Casa d’Italia e a Cultura Italiana precisam uma da outra e se completam harmonicamente.

*Algumas dessas expressões eram provenientes das línguas regionais (chamadas dialetos) e não do italiano padrão.
**Definição do prof. Hildo Honório (2009, adaptada): a primeira geração, quando emigra já adulta, aprende mal a
língua da sociedade hospedeira. Seus filhos aprendem a língua da sociedade hospedeira e a dos pais, e permanecem
usando a língua original nas interações familiares, ou entre outros imigrantes. Os netos preferem a língua de onde já
nasceram e, no máximo, mantêm um conhecimento passivo da língua dos avós.


Fontes:

COUTO, H. H. Linguística, ecologia e ecolinguística: contato de línguas. São Paulo: Contexto, 2009

_. Comunidade de Fala revisitada. Ecolinguística: Revista brasileira de ecologia e linguagem (ECO-REBEL), Brasília, v. 2, n. 2, p. 47-72, 2016

GAIO, M. L. M. Imigração italiana em Juiz de Fora: manutenção e perda linguística em perspectiva de representação. 111f. Dissertação (Mestrado em Estudos de Linguagem). Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2013.

_. Etnicidade Linguística em Movimento. Os Processos de Transculturalidade Revelados nos Brasileirítalos do Eixo Rio de Janeiro-Juiz de Fora. Berlim: Peter Lang, 2018


Mario L. M. Gaio

Universidade Federal Fluminense (Niterói-RJ, Brasil)
Europa-Universität Viadrina (Frankfurt/Oder, Deutschland)


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