“Bella Ciao”: a flor que resiste aos tempos


“O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao”, é impossível apenas ler esses
versos. Automaticamente, a leitura ganha ritmo, forma musical e é cantada, mesmo por
aqueles que não cantam bem! A vibração entregue por esta canção transcorre o tempo,
atinge grupos, toma os corações. Não se sabe ao certo quem a fez ou quando foi cantada
pela primeira vez, entretanto, constantemente a história presencia seu uso, nos mais
variados contextos. O que costuma perpassar por estas aplicações é a sua forma de
resistência às forças autoritárias.

Como tantas músicas populares, Bella Ciao foi cantada e transmitida, geração
após geração, de modo que sua origem se perdeu no tempo. Algumas possíveis
referências indicam que a canção surgiu no século XIX junto aos camponeses italianos,
que a utilizavam para denunciar as péssimas condições de trabalho. Outras apontam que
ela é um compilado de músicas populares do norte da Itália. Há ainda quem diga que
sua melodia é uma adaptação da canção “Oi Oi di Koilen”, do acordeonista ucraniano
Mishka Ziganoff, gravada nos Estados Unidos em 1919. Mas também é possível que a
sua melodia tenha chegado a América através dos imigrantes italianos.

Apesar do passado incerto, sua mensagem ecoa pelos tempos. A repetição dos
versos “O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao” faz com que a canção seja
facilmente memorizada e cantada. Suas estrofes relatam ao ouvinte a despedida entre
um membro da resistência e sua pessoa querida. O cenário conflituoso desse adeus é
demonstrado na primeira estrofe, quando se lê do seu encontro com o invasor. Por
pertencer à resistência, o personagem sabe que seu destino pode ser a morte, por isso,
pede que seja enterrado no alto de uma montanha, tornando-o visível e que ao seu lado
seja plantada uma bela flor. Cria-se um contrastante entre a morte inevitável e a vida,
que florescerá. A flor passará então a simbolizar a resistência e a coragem daquele que
morreu pela liberdade.

Sob tal contexto, a canção foi amplamente utilizada pelos “Partigiani”, ou os
guerrilheiros da resistência ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. Mas vemos
seu uso em outros momentos da história. Anteriormente, “Bella ciao” também era
cantada nas lutas de classes e protestos contra a Primeira Guerra Mundial.
Posteriormente, nos anos 1960, tornou-se hino durante as manifestações de
trabalhadores e estudantes na Itália.

Além das terras italianas, no século XX, a canção foi lembrada durante a
Revolução Espanhola. No século XXI, foi entoada durante a Primavera Árabe, em
greves que ocorreram na Grécia, em protestos em Istambul, nos atos pró-democracia em
Hong Kong, na manifestação de bancários em Buenos Aires – quando ganhou a versão
“Somos bancários, queremos aumento e Macri tchau, tchau, tchau – e no Brasil com a
variante “Uma manhã, eu acordei e ecoava: ele não, ele não, não, não” fazendo
referência contra o candidato à Presidência da República pelo PSL. Também, cabe
mencionar o seu uso na série espanhola “La casa de papel”, exibida pela Netflix.

Algumas canções extrapolam o meio do qual foram pensadas. Atravessam os
tempos, fronteiras e oceanos. Mantêm-se atuais apesar dos variados contextos. “Bella
ciao” certamente é um exemplo desses. Contudo, o que parece não ter mudado é seu
impulso pela liberdade e suas reivindicações por melhores condições de sobrevivência,
justamente a essência que nunca deve se esvaecer.


Fontes: 

A HISTÓRIA por trás de ‘Bella Ciao’, hino dos protagonistas de ‘La Casa de Papel’. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-43934601

ALTMAN, Max – Hoje na História: 1944 – Partigiani avisam que seguirão lutando contra o nazifascismo. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/14967/hoje-na-historia-1944-partigiani-avisam-que-seguirao-lutando-contra-
o-nazifascismo

MARCELLO, Carolina. Música Bella Ciao. Disponível em: https://www.culturagenial.com/musica-bella-ciao/

SILVA, Wilson Honório da. A história por trás de “Bella ciao”. Disponível em: https://www.pstu.org.br/a-historia-por-tras-de-bella-ciao/


Rafael Bertante

Graduado e mestre em História pela UFJF, com ênfase em sociabilidade e cultura italiana, atou em atividades patrimoniais no Laboratório de Patrimônios Culturais. Pós-graduado em Ciência da Religião. Cursa atualmente doutorado em Ciência da Religião pela UFJF e atua com pesquisa em arquivos.


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