“Bella Ciao”: a flor que resiste aos tempos

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 1, n. 3, 2020 – Rafael de Souza Bertante | “Bella Ciao”: a flor que resiste aos tempos


“O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao”, é impossível apenas ler esses versos. Automaticamente, a leitura ganha ritmo, forma musical e é cantada, mesmo por aqueles que não cantam bem! A vibração entregue por esta canção transcorre o tempo, atinge grupos, toma os corações. Não se sabe ao certo quem a fez ou quando foi cantada pela primeira vez, entretanto, constantemente a história presencia seu uso, nos mais variados contextos. O que costuma perpassar por estas aplicações é a sua forma de resistência às forças autoritárias.

Como tantas músicas populares, Bella Ciao foi cantada e transmitida, geração após geração, de modo que sua origem se perdeu no tempo. Algumas possíveis referências indicam que a canção surgiu no século XIX junto aos camponeses italianos, que a utilizavam para denunciar as péssimas condições de trabalho. Outras apontam que ela é um compilado de músicas populares do norte da Itália. Há ainda quem diga que sua melodia é uma adaptação da canção “Oi Oi di Koilen”, do acordeonista ucraniano Mishka Ziganoff, gravada nos Estados Unidos em 1919. Mas também é possível que a sua melodia tenha chegado a América através dos imigrantes italianos.

Apesar do passado incerto, sua mensagem ecoa pelos tempos. A repetição dos versos “O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao” faz com que a canção seja facilmente memorizada e cantada. Suas estrofes relatam ao ouvinte a despedida entre um membro da resistência e sua pessoa querida. O cenário conflituoso desse adeus é demonstrado na primeira estrofe, quando se lê do seu encontro com o invasor. Por pertencer à resistência, o personagem sabe que seu destino pode ser a morte, por isso, pede que seja enterrado no alto de uma montanha, tornando-o visível e que ao seu lado seja plantada uma bela flor. Cria-se um contrastante entre a morte inevitável e a vida, que florescerá. A flor passará então a simbolizar a resistência e a coragem daquele que morreu pela liberdade.

Sob tal contexto, a canção foi amplamente utilizada pelos “Partigiani”, ou os guerrilheiros da resistência ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. Mas vemos seu uso em outros momentos da história. Anteriormente, “Bella ciao” também era cantada nas lutas de classes e protestos contra a Primeira Guerra Mundial. Posteriormente, nos anos 1960, tornou-se hino durante as manifestações de trabalhadores e estudantes na Itália.

Além das terras italianas, no século XX, a canção foi lembrada durante a Revolução Espanhola. No século XXI, foi entoada durante a Primavera Árabe, em greves que ocorreram na Grécia, em protestos em Istambul, nos atos pró-democracia em Hong Kong, na manifestação de bancários em Buenos Aires – quando ganhou a versão “Somos bancários, queremos aumento e Macri tchau, tchau, tchau – e no Brasil com a variante “Uma manhã, eu acordei e ecoava: ele não, ele não, não, não” fazendo referência contra o candidato à Presidência da República pelo PSL. Também, cabe mencionar o seu uso na série espanhola “La casa de papel”, exibida pela Netflix.

Algumas canções extrapolam o meio do qual foram pensadas. Atravessam os tempos, fronteiras e oceanos. Mantêm-se atuais apesar dos variados contextos. “Bella ciao” certamente é um exemplo desses. Contudo, o que parece não ter mudado é seu impulso pela liberdade e suas reivindicações por melhores condições de sobrevivência, justamente a essência que nunca deve se esvaecer.


Fontes: 

A HISTÓRIA por trás de ‘Bella Ciao’, hino dos protagonistas de ‘La Casa de Papel’. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-43934601

ALTMAN, Max – Hoje na História: 1944 – Partigiani avisam que seguirão lutando contra o nazifascismo. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/14967/hoje-na-historia-1944-partigiani-avisam-que-seguirao-lutando-contra-
o-nazifascismo

MARCELLO, Carolina. Música Bella Ciao. Disponível em: https://www.culturagenial.com/musica-bella-ciao/

SILVA, Wilson Honório da. A história por trás de “Bella ciao”. Disponível em: https://www.pstu.org.br/a-historia-por-tras-de-bella-ciao/


Rafael de Souza Bertante

Graduado e mestre em História pela UFJF, com ênfase em sociabilidade e cultura italiana, atou em atividades patrimoniais no Laboratório de Patrimônios Culturais. Pós-graduado em Ciência da Religião. Cursa atualmente doutorado em Ciência da Religião pela UFJF e atua com pesquisa em arquivos.


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