ENTREVISTA: Mariza Fernandes fala sobre os 20 anos do Grupo Tarantolato

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 1, n. 2, 2020 – Departamento de Cultura | ENTREVISTA: Mariza Fernandes fala sobre os 20 anos do Grupo Tarantolato


Sabemos que o Grupo Tarantolato, em 2020, completa 20 anos de existência, tendo sido criado a partir do desfile de aniversário de 150 anos da cidade de Juiz de Fora – MG. Por toda esta história de tantos anos de estrada, teremos o prazer em saber um pouco mais sobre o Grupo Tarantolato. Entrevistamos a presidente do grupo Mariza Fernandes e ela nos contou um pouco dessa trajetória, seus desafios, parcerias e os planos que estão por vir.


1 O Grupo Tarantolato completa neste 31 de maio seus 20 anos de estrada. Gostaríamos de saber  quais foram as maiores dificuldades e as maiores realizações para o grupo desde sua criação em 2000?

Primeiramente gostaria de agradecer o convite e dizer que é sempre uma alegria muito grande poder falar um pouquinho sobre o Grupo Tarantolato e mostrar o trabalho que tem sido feito nesses 20 anos de história e que apesar de todo esse tempo e das centenas de apresentações realizadas na cidade, ainda há muita gente que não nos conhece.

O grupo nasceu por dois motivos principais: em primeiro lugar, sem dúvida, pela minha paixão pela língua e cultura italianas, já naquela época professora na Cultura Italiana e em segundo pela necessidade de uma associação cultural que representasse a grande colônia italiana existente em nossa cidade. Posso dizer que aquele convite que me foi feito pela Funalfa para formar um grupo que representasse os italianos no desfile comemorativo dos 150 anos de Juiz de Fora foi a oportunidade que eu esperava e ao mesmo tempo a certeza de que, uma vez criado o grupo, enfrentaríamos dificuldades. Tive sorte, pois além de minha família, pude contar também com a colaboração de vários amigos nessa difícil tarefa.

A principal dificuldade, creio não ser somente nossa, posso citar a falta de patrocínio, o que nos obrigou a recusar convites de importantes apresentações, como por exemplo em Portugal, no Canadá e em Praga. Outra dificuldade que devemos enfrentar de vez em quando é a diminuição do número de participantes devido ao fato de termos muitos jovens e estudantes que, pela necessidade de trabalharem ao mesmo tempo, têm que optar pelo trabalho. Mas são esses momentos difíceis que nos ensinam e, ao enfrentá-los juntos, nos fazem crescer. Temos que criar novas possibilidades, nos adaptar e nos reinventar para não “deixar a peteca cair”.

Mas, com certeza, as alegrias e prazeres superam todas as dificuldades. Cada apresentação é uma festa e de igual importância. Dentre elas posso citar nossa participação no Programa  Zaccaro, o italianíssimo na TV CNT em São Paulo em 2001, duas participações no Festival de dança Folclórica de Curitiba, duas apresentações na Festa da Polenta em Venda Nova do Imigrante no Espirito Santo, Feira da Providência  na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, todo ano praticamente, Festa Italiana de Belo Horizonte, participamos desde a primeira, somente a última não participamos. Em Minas, além de várias cidades, o Grupo é sempre presença certa nas festas de Barbacena e Leopoldina. 

Dentre as várias realizações, por três vezes fomos contemplados pela Lei Murilo Mendes de incentivo à cultura,  com os três projetos elaborados pela nossa então diretora cultural Luzia Casali, que tanto colaborou para que o grupo tenha tido o sucesso que possui hoje.

Nesses 20 anos foram organizadas diversas festas para comemorarmos aniversários e datas especiais. Promovemos um Baile de Máscaras, Sagra della Pizza. No início contávamos com a nossa então colaboradora Magda Picoli, outra apaixonada pelo grupo. Hoje continuamos a promover vários eventos sempre com o objetivo de divulgar o grupo e a cultura e podemos   contar também com a ajuda do Departamento de Cultura da Casa D’Italia que, além de promover os eventos, nos divulgam nas redes sociais.


2 Sabemos que há grupos que representam não só a cultura italiana, mas também outras etnias, por todo o Brasil, inclusive em Juiz de Fora. Houve a influência de algum destes grupos?

Sem dúvida que no início precisávamos de um suporte ou outros grupos nos quais pudéssemos nos espelhar e aprender com suas experiências. 

No início, ainda no ano 2000, tivemos a sorte de termos tido aqui na cidade a apresentação de dois grupos italianos, da Calábria. O Gruppo Folkloristico Pro Loco di Castrovillari, no Cine Theatro Central, no qual baseamos nossos primeiros trajes camponeses da Calábria e o Gruppo Folkloristico Capo d’Armi, que se apresentou no Teatro Solar, e tivemos a honra de abrir o espetáculo.

Nossa amizade com os outros grupos folclóricos locais também sempre foi muito boa, mas com o grupo alemão Schmetterling desde o início foi especial. Dois amigos que não esqueceremos são o Ricardo e a Sara que dançaram conosco e nos incentivaram muito no início. Outra experiência muito boa que tivemos foi com o Grupo Arcobaleno do Rio de Janeiro, hoje não existe mais, mas aprendemos muito com eles.


3 Sabemos que os trajes usados pelo grupo são trajes típicos inspirados nas roupas usadas pelos camponeses da região da Calábria, sul da Itália. Você poderia nos contar como ocorreu o processo de pesquisa e confecção destes trajes?

A ideia de representar os imigrantes italianos no Desfile do ano 2000 foi influência da novela Terra Nostra, transmitida naquela época na televisão. Então metade das pessoas desfilou vestindo roupas típicas de imigrantes, portando acessórios e adereços usados pelos nossos antepassados imigrantes.  Para vestir a outra metade das pessoas tive a ideia de pedir que a Funalfa confeccionasse 15 trajes típicos do folclore italiano femininos e 15 masculinos. Essa era a oportunidade de após o desfile formar um grupo folclórico. Para nossa surpresa e satisfação, na semana seguinte ao desfile fomos convidados por um grande amigo, o Padre Irani da igreja de Santana aqui da cidade, para uma participação na festa da Igreja, o que foi fundamental para que não faltassem mais convites. 

Aos poucos esses trajes foram cuidadosamente enriquecidos com aventais, bordados, lenços, faixas, fitas coloridas, flores, sapatos típicos para os homens, sempre com a preocupação se seguir o mais fielmente possível a tradição italiana. Hoje possuímos três trajes, dois homenageiam especialmente a Calábria e o outro, que chamamos de “festivo”, não representa uma região específica já que temos coreografias de várias regiões da Itália, de norte a sul.

A escolha dos trajes usados é uma função específica da diretora artística Thaiana Fernandes e da diretora cultural e também sócia fundadora Lucinia Scanapieco, que hoje podem contar com a ajuda de uma grande aliada, a Internet. Pesquisam, projetam e desenham não somente os trajes, mas também os acessórios e adereços usados nas coreografias. A confecção dos trajes fica por minha conta.


4 A tarantella napoletana é uma das músicas mais tradicionais da Itália e sabemos que o grupo dança não só essa, mas também outras tarantellas e outros estilos, como a valsa e a polca. Gostaríamos de saber como se dá a criação dessas coreografias, onde se inspiram para criá-las e como escolhem as músicas que são usadas? 

O ritmo base do grupo é a tarantela, cujos movimentos são contagiantes, vivos, rápidos e ritmados. Tarantella Napolitana, Calabresa, Siciliana etc., mas dançamos também a valsa, a mazurca, a polca, o saltarello. Todas as nossas coreografias são minuciosamente pesquisadas para que possamos representar as regiões da Itália, de norte a sul, obviamente dando mais ênfase ao ritmo que nos representa, que é a tarantela.

Os três projetos contemplados pela lei de incentivo já citados, deu-nos a possibilidade de ampliar nosso repertório. No primeiro em 2003 presta uma homenagem a Duduca Moraes, compositor mineiro falecido em Juiz de Fora, que adaptou uma famosa valsa italiana, Vieni sul Mare, de Martino e Frati, os versos do consagrado hino “Oh Minas Gerais”. Essa coreografia foi feita pelo coreógrafo Cesar Lima, naquela época famoso coreógrafo do Teatro municipal do Rio de Janeiro.

O segundo projeto chamou-se “O Caipira e a Tarantella”, no qual, mais uma vez, o coreógrafo Cesar Lima foi contratado para coreografar a primeira parte da canção “Il ballo della Fagona”, pois a segunda parte já era dançada pelo Gruppo Folkloristico Miromagnum da cidade de Mormanno da Calábria, e foi gentilmente cedida ao Tarantolato, uma quadrilha  italiana, cujos movimentos inspiraram a nossa quadrilha mineira. Nessa mesma data, Cesar coreografou também um saltarello, que é uma variante da tarantela.

No terceiro projeto intitulado “Danza pizzica, mangia pizza”, foi contratada a coreógrafa italiana Marcella Bomba, professora e especialista em danças do sul da Itália, que hoje vive na Bahia, para fazer a coreografia de uma pizzica, ou seja, dança da região da Puglia, Itália. É uma dança ligada ao tarantismo, ou seja, dançava-se para eliminar o veneno da Tarântula. Os casais dançam, mas não se tocam, trocam gestos e olhares provocativos, insinuando o desejo da conquista.As demais coreografias foram elaboradas após pesquisas feitas pelos próprios dançarinos como por exemplo, a Tarantella Napolitana, o Baile de Máscaras, a Mazurca e a Polca. A mais recente canção coreografada foi “Oh Bella Ciao”, que antes de tornar-se símbolo da resistência italiana era cantada e dançada pelos camponeses.


5 Ao longo desses 20 anos, o Grupo Tarantolato realizou diversas apresentações por todo o país, além de ter realizado e participado de vários eventos, na própria Casa D’Italia de Juiz de Fora. Gostaríamos de saber quais são os planos do grupo para os próximos anos e se possuem novos projetos em desenvolvimento. 

No início de 2020, já tínhamos várias apresentações agendadas para este ano. A primeira foi um convite para participarmos, pela primeira vez, da “Festa da Colheita”, organizada, pela primeira vez, pela Festa da Uva em Caxias do Sul-RS. Passagens compradas, hotéis reservados, enfim, tudo pronto para participarmos de um dos eventos mais desejados pelo grupo nesses 20 anos e que infelizmente, uma semana antes da realização, foi adiado por causa da pandemia do COVID-19. Um sonho que, quando tudo isso passar, será realizado.

Uma apresentação na Itália também é um projeto antigo, pois será uma experiência única e nos esforçamos para que seja realizado.

Novas coreografias também fazem parte dos planos, além de conseguir patrocínio para concluir um documentário contando a história dos nossos 20 anos, que está sendo produzido.

Não sabemos ainda como serão as coisas quando tudo isso passar. Certamente muitos conceitos serão revistos e pequenas coisas serão mais valorizadas.


6 Pedimos aos nossos entrevistados que façam três (03) indicações aos nossos leitores. Você poderia indicar, desta forma, três produtos da cultura italiana (Ex.: Autores, livros, filmes, documentários, artistas, músicas, etc)?

  1. Na música:  Além dos já conhecidos aqui no Brasil como Laura Pausini, Eros Ramazzotti, Andrea Bocelli, há cantores atuais, pouco conhecidos, que vale a pena conferir como: Giusy Ferreri, Marco Mengoni, Ligabue, Fedez, Emma Marrone.
  2. Na literatura: Niccolò Ammaniti (25/09/1966) Uma das obras “Io non ho paura” (Eu não tenho medo) adaptado para o cinema no filme do mesmo nome.
  3. No ensino da língua italiana: Cultura Italiana (método moderno, ambiente agradável, professores experientes e reconhecidos) Av. Rio Branco, 2585 Casa D’Italia.

Mariza Fernandes

Possui Licenciatura em letras pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Professora e diretora de cursos na Cultura Italiana desde 1987. Presidente e dançarina do Grupo de Dança Folclórica Italiana Tarantolato desde a sua fundação em 2000.


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